Disclamer: Os personagens de Saint Seiya pertencem a Masami Kurumada e a ele todos os direitos são reservados. Mas os sobrenomes dados aos cavaleiros nesta fanfic são de minha autoria. A Música incidental é "(You're The) Devil In Disguise", de Elvis Presley e composta por Bernie Baum, Bill Giant e Florence Kaye.

Como Cash e Carter

Capítulo II – The devil in your eyes

Vestia jeans e camisa escuros e um crucifixo pendia em seu pescoço pela parte aberta da gola, tão prateado quanto o largo cinto que aparecia parcialmente pela abertura final da camisa. O coturno o fazia parecer ainda mais roqueiro, talvez um músico desconhecido. Seguia pela calçada ansioso, ouvindo o som dos próprios passos, desligado dos ruídos da cidade e dos transeuntes. A noite estava sem estrelas e fresca o bastante para colaborar com seus propósitos.

Não estava preparado para o que viu. Reconheceu-a pela tatuagem, pois estava de costas para ele, mas os cabelos estavam azulados agora. A bota de cano curto e salto fino sobre uma meia arrastão, tornavam mais feminina a bermuda jeans de pernas largas que lhe caía até metade das coxas. Ela virou-se, mas não pareceu tê-lo visto. Uma blusa de algodão cinza lhe caía perfeitamente pelas curvas do corpo e o decote redondo, acompanhado de um bolero de crochê preto com mangas curtas de único botão, evidenciavam-lhe parte dos seios. O único acessório era um brinco na orelha direita, formado por uma pena longa e escura, e a única maquiagem, uma sombra de azul suave que lhe ressaltava a cor dos olhos. Decididamente única.

Não trocaram nenhuma palavra. Os olhares e os sorrisos foram os únicos sinais, antes que ele lhe tomasse pela cintura no mesmo instante em que ela o puxou pelo queixo, num beijo sensual e sem pressa.

You look like an angel
Walk like an angel
Talk like an angel
But I got wise
You're the devil in disguise
Oh yes you are
The devil in disguise

- Vai pra algum enterro, Johnny? - sorriu provocante, ainda com o rosto dele entre os dedos.

- Talvez eu vá. - fingiu-se pensativo, mas também sorria quando a beijou brevemente. - É, você conhece umas histórias...

- Quando a gente lê muito, acaba aprendendo algumas coisas.

Miro não saberia precisar se ela o estava provocando com o comentário, ou se ele é que dera atenção demais ao que ela lia há duas semanas atrás.

- Aprender é bom, mas dividir o conhecimento é sempre melhor. – alfinetou, arrancando-lhe um sorriso.

Pela pausa e pela expressão, Débora entendera perfeitamente o que estava por trás da frase dele.

- Então, Chris... Tem uma cafeteria legal aqui perto, onde a gente pode conversar.

- Conversar é um bom começo.

Miro não soltou sua cintura quando começaram a caminhar e notou que o fato de Débora estar mexendo nas próprias unhas com as mãos na altura do busto tentado tirar o esmalte preto, significava que tentava disfarçar que lutava contra o próprio desejo.

- Eu tenho me perguntado nos últimos dias... - Concluir que ela também pensara nele o animou. - O que um roqueiro das antigas que nasceu nas Ilhas gregas, faz nesse país, numa cidade como essa?

- Um bocado de coisas. - riu do comentário. - As coisas estavam difíceis por lá e meus pais vieram pra tentar a sorte, quando eu ainda era muito pequeno. Mas eles... Bom, a saudade da terra natal falou mais alto, há uns dez anos.

- E por que você ficou?

- Quando a gente fica muito tempo num país se afeiçoa, sei lá. Cria vínculos com pessoas, com lugares, hábitos e até com o jeito de falar ou de se vestir. As coisas aqui também não são fáceis, mas oportunidade tem de monte. E eu comecei a planejar coisas que não faziam sentido em outro lugar.

- Vocês se falam muito?

- Não tanto quanto eu gostaria. Mas depois que eles aprenderam sobre a mágica do computador a gente troca alguns e-mails.

Entraram na cafeteria e escolheram uma mesa. Isaac veio recebê-los com o cardápio quando a reconheceu, mas não sabia como agir por ela estar acompanhada.

- Oi, Isaac! Tá com o turno da noite agora?

- Duas vezes por semana. E com você, tudo bem?

- Vou levando.

- Fiquem à vontade pra escolher e eu volto num minuto.

- E o aprendiz de pirata é alguém com que eu deva me preocupar? - Miro apontou quando o rapaz saiu.

Débora riu e empurrou-o pelos ombros, repreendendo-o.

- Não deboche, foi um acidente horrível. - mas ele continuava a apontar na direção dele com a sobrancelha arqueada, indagando-a. - Talvez. Talvez tenha sim. - sorriu.

You fooled me with your kisses
You cheated and you schemed
Heaven knows how you lied to me
You're not the way you seemed

- Hum... - apoiou o indicador sobre o queixo – E há quanto tempo você vem aqui e com que frequência?

- Eu acho que ainda tava na minha vez de perguntar... – continuou, fingindo interesse no cardápio.

- Na verdade era a minha. Você e sua família são daqui?

- Sou sim. Totalmente daqui. Mas a única família que posso dizer que tenho é o Isaac.

- Caramba, sinto muito, eu... Vocês são parentes?

- Velhos amigos, só isso.

- Sei.

Ela chama o rapaz do balcão com um aceno, rindo do indício de ciúmes.

- Não adianta, Isaac. - fez uma careta de desolação - Eu reviro esse cardápio do avesso, mas sempre quero a mesma coisa...

- Capuccino batido com sorvete e chantilly, pode deixar. E você, o que vai ser?

- Um expresso grande.

- É Chris, você virou mesmo paulista... Mais de nove da noite e tomando logo um expresso, parece até que nasceu aqui.

Isaac afastou-se na direção do balcão enquanto ela falava.

- Ajuda a ficar atento e de olhos bem abertos. E o que mais você faz, além de ler em bares, tomar muito café e trabalhar em um Sebo?

- Acho que já sabe bastante. Estou tentando voltar a estudar, então... Vou prestar umas provas no semestre que vem para o curso de História. E você faz o quê, além de derrubar bebida nos outros, roubar beijos, ouvir Jerry Lewis, saber da vida do Johnny Cash e seguir garotas com gosto por livros incomuns?

Ele riu da audácia dela.

- Eu não tenho um emprego fixo, então estou sempre fazendo um pouco de tudo em mais de um lugar. Eu bem que queria estudar música, mas fica difícil com tempo curto e pouca grana.

- Eu sabia. Promíscuo e abusado assim, só podia ser músico. Eu devia ter adivinhado. - fingiu-se séria.

- Promíscuo? - ele não contém o riso. - Ta aí uma palavra que não ouço há muito tempo. Você lê dicionários também?

- Ninguém nunca te avisou? Às vezes quando a gente não sabe o significado de uma palavra, pode funcionar...

- Não, não, peraí, eu saquei. Você é uma daquelas intelectuais disfarçadas de gente normal, entendi.

- Já me chamaram de muita coisa, mas de disfarçada de normal é a primeira vez.

- Também nunca fui chamado de... Como é mesmo o nome que disse?

- Promíscuo.

- Isso. Incrível como toda vez que você tenta me ofender, eu te acho mais sexy.

- Se procurar um bom psiquiatra logo, pode ter tratamento. – piscou.

You look like an angel
Walk like an angel
Talk like an angel
But I got wise
You're the devil in disguise
Oh yes you are
The devil in disguise

Isaac chega com as bebidas antes que Miro conseguisse se aproximar o bastante para beijá-la e teve a impressão que Débora fez algum sinal, enquanto olhava para o rapaz. Riu quando ele saiu na direção da cozinha. Estava começando a entender o que estava acontecendo...

- Se preferir, eu empresto o meu RG. Pode ser mais fácil.

Débora ficou visivelmente sem jeito, mas se fez de desentendida.

- E se tiver um amigo policial, descobre mais rápido o que precisa. - passou a mão pelo rosto dela. - Mas está certa em se precaver das pessoas, não posso achar isso ruim.

Beijavam-se quando o estalido do telefone dela os interrompeu.

- Me dá licença um minuto?

- Claro. - respondeu dando de ombros, com ar decepcionado.

Débora levantou-se e atendendo o celular, seguiu para o banheiro feminino, onde fechou a porta.

- Alô.

- Primeiro encontro, é?

- Mais ou menos.

- Caiu na dele, não foi?

- Você sabe porque eu o trouxe aqui, então vai falando.

Isaak, da cozinha, expulsou o amigo da dispensa aos empurrões e encostou a porta, apoiando-se no estande.

- Conheço o tipo. O espanhol da tarde é idêntico. Músico. Boa gente, mas é só conseguir o que quer e desaparece, à procura da próxima.

- Foi o que pensei. Mas ele tinha que ser tão gato?!

- Aí, sou amigo, mas não gay.

- Sabe qual é problema?

- Sei sim. Você. Acredita demais nas pessoas. Sempre procurando o que elas tem de melhor e esquecendo o pior.

- Tem alguma coisa, Zack. Uma espécie de... Determinação. Não sei explicar. Ele me achou por causa do título do livro que eu lia, eu te falei no outro dia.

- Se você aparecesse assim no meu apê há alguns meses atrás, eu também ficaria determinado. - riu sozinho, perdido em algumas boas lembranças. Mas entende com o silêncio, que ela fazia aquela expressão típica de reprovação que ele conhecia bem. - Qual é, Debie?! O que quer que eu faça?

- Me diz se ele é maluco. Sequestrador, compulsivo, psicopata, psicótico, assassino... Essas coisas.

- Não, acho que isso não. É só um malandro comum.

- Ótimo.

- Ei... Cuidado, hein, Deby? Quem brinca com fogo se queima.

- Eu supero.

- Vai por mim, ele só quer ver a tua tatoo de borboleta e descobrir a cor natural do seu cabelo.

- Bom, sorte a dele que eu esteja disposta a pensar no assunto.

Isaak ficou em silêncio por um instante. Aquele era um comentário que ele decididamente não esperava. Apesar de eles nunca terem vivenciado nada muito sério e terem decidido que misturar a amizade não dava certo, isso não impedia que ele se preocupasse com ela ou sentisse um pouco de raiva do sujeito.

- Você nunca foi assim, Débora. Que é que o cara tem?

- Quando eu descobrir eu te conto.

- Há. Mais essa. Eu mereço.

Ela desligara bruscamente e olhou-se no espelho rindo dela mesma e do cuidado exagerado de Isaac. Ajeitou o penteado arrepiado da nuca, antes de sair.

I thought that I was in heaven
But I was sure surprised
Heaven help me, I didn't see
The devil in your eyes

- Seu capuccino já tava derretendo.

Sentou-se antes que a vertigem fosse mais forte. Aquele jeito que Miro tinha de olhar para ela lhe derrubava todas as defesas. Ele tomou um pouco mais da bebida fumegante e ficou a analisá-la novamente. Adorava absolutamente tudo que havia de incomum em Débora.

- Não vai me dizer se eu passei no teste? - ironizou por fim.

- Eu não disse que acabou.

- Então deve ter mesmo um amigo da polícia.

Ela riu do cinismo que ele tinha.

- Por falar em polícia, sua namorada não deve ser das mais ciumentas.

- Ah, é. Faltava essa parte. - encostou-se no banco achando graça no interesse de Débora. - Eu não tenho nenhuma. E com a vida que eu levo, não estou numa posição favorável pra ter.

- O velho medo de se envolver. - disse pensativa, assustando-o com a resposta. - Todo mundo passa por isso.

- Incluindo você?

- Pelo menos umas duas vezes por ano, com duração de seis meses cada uma. Mas se eu não me arriscar, vou viver trancafiada por aí com meus livros de História.

- A filosofia é fajuta, mas a teoria até que é interessante.

- E agora você está me usando de piada.

- Não, eu só gostei da frase.

You look like an angel
Walk like an angel
Talk like an angel
But I got wise
You're the devil in disguise
Oh yes you are
The devil in disguise

A conversa continuou e cada um interessava-se cada vez mais pelo outro. Na caminhada para o metrô fizeram uma pausa, abaixo da primeira escada rolante onde se beijaram longamente. Nenhum dos dois queria que o encontro terminasse, pois se atraíam um pelo outro.

- A noite não precisa acabar, Débora. - beijou-a ofegante. - Eu conheço uns lugares que...

- Sua casa. - permitiu-se sussurrar no ouvido dele.

Miro riu, duvidando da sinceridade da garota.

- Não está falando sério, está?

Débora deu de ombros, encarando-o com aquele sorriso que o enlouquecia.

- Se me roubar, irei saber por onde vão começar a busca.

Gostava de como ela ia direto ao ponto, sem esconder o que pensava ou sentia. Mas ir até o apartamento poderia estragar tudo.

- Não sei se é uma boa idéia.

- Inquilino indesejado?

- Não, eu moro sozinho. É só que...

- Então você é bagunceiro ou é muito longe.

- Não. Não! Não é isso. Só não é o melhor dos lugares, é que... Meu apartamento é pequeno. A gente podia simplesmente...

- Tem um teto? Quatro paredes? A fechadura funciona? É seu, não? O apartamento.

- Claro. - ofegou. Ela o estava olhando daquela maneira outra vez e passava os dedos pela sua boca e pescoço. Aquilo, somado a rapidez com que ela o retrucava o desconcertava e ele perdia o raciocínio.

- Se quiser eu posso ir embora, mas é você que me interessa e não ond...

Encostou-a sobre a parede num beijo ardente e em seguida a puxou pela cintura.

- Minha casa, tudo bem. Você manda.

You're the devil in disguise
Oh yes you are
The devil in disguise
Oh yes you are
The devil in disguise

Continua...

N.A.: O que? Acharam ela ousada? Qualé, você ainda não viram nada! Nem viram o próximo capítulo... XP

Não vale falar mal da Debie, não hein? Ela é legal. Vocês vão entender logo.

Espero que gostem e fiquem bastante curiosos. Até mais!