Harry Potter, personagens e lugares, não me pertencem.

AVISO: fanfic classificada como M, ou seja, não indicada para menores de 16 anos por conter cenas de sexo, violência e linguagem imprópria.


IRIS
por Vick Weasley


02.
Sooner or later, it's over.

Ron não era tão bonito quanto Bill, nem tão habilidoso quanto Charlie. Não era inteligente como Percy ou engraçado como os gêmeos. Não era a princesinha da família. Não sabia jogar quadribol e não tinha um centavo no bolso. Não tinha nem amigos – porque para se ter amigos, é preciso ter algum atrativo. E ele não tinha nenhum. Ele só sabia comer. E dormir. E passar despercebido. E tomar a culpa pelos erros dos outros. Porque ele era tão insignificante que nem mesmo erros ele conseguia cometer. E seus pais, as pessoas, todo o resto, nem se importava. Porque não havia orgulho, mas também não havia decepção. Nada, nada.

Os professores, os grifinórios, todo mundo em Hogwarts olhavam suas sardas, seus cabelos vermelhos, suas vestes de segunda-mão, sua varinha surrada, seu rato velho e já sabiam quem ele era. Quem? Mais um Weasley. Aí, eles olhavam para o lado e viam quem Ron realmente era.

(porque ao seu lado estava Harry Potter)

xx

Ele era o melhor amigo de Harry Potter.

Nossa nova celebridade.

xx

Desde o princípio, era certo que Pansy teria um futuro brilhante. Não apenas por sua beleza exótica (e não, ela não iria se importar com o que os outros falavam) ou pela maciez de seus cabelos negros, mas principalmente pela excelência em todos os seus atos. Uma verdadeira princesa, em todos os sentidos. A pureza de seu sangue, a delicadeza de seus dedos, os laços e tiaras, a postura em suas costas. Os sapatos envernizados em seus pés. Todos a amavam. Todos, até mesmo seus elfos domésticos, contratados para amarem mesmo que não quisessem. Mas eles a amavam de bom grado, porque Pansy sabia ordenar como ninguém e elfos amavam líderes natos.

xx

(ela sentia falta dos elfos, mas fez amizade com as pessoas certas. Finalmente com as pessoas certas. Zabini, Greengrass, Nott, Bulstrode, Malfoy. Nenhum deles era pobre. Nenhum deles tinha cabelos vermelhos e sardas. Seus pais ficariam contentes. Eles estavam com medo, mesmo que não dissessem nada, eles estavam. Ela também.)

xx

Eles se encontravam, às vezes. Não sempre. Ele detestava encontrá-la – era como se alguém estivesse interrompendo o mundo em que ele finalmente era alguma coisa, mesmo que fosse apenas "o amigo de Harry Potter", ele era alguma coisa, e ela estava ali para lembrá-lo de que não. E ela era uma garota, e já bastava aquela Hermione Granger enchendo o saco e sabendo tudo, o tempo todo, Deus, ele odiava aquela menina. E ele não sabia, mas tinha a impressão de que Pansy Parkinson também detestava encontrá-lo, pois sempre revirava os olhos em sua direção, ou fazia cara feia para os buracos em suas vestes.

xx

E aí Neville – ele era idiota, ele era muito idiota e fazia Ron sentir-se melhor consigo mesmo. Será que era muito egoísmo de sua parte? – caiu da vassoura e se espatifou no chão, e a professora precisou levá-lo na Ala Hospitalar. Assim que se distanciaram e ficaram fora do campo de audição da classe, Draco caiu na gargalhada.

"Vocês viram a cara dele, o panaca?"

Os outros alunos da Sonserina fizeram coro. Os olhos de Ron esquadrinharam o rosto de Pansy Parkinson e ela parou de rir como se ele estivesse invadindo seu mundo perfeito sem pedir licença.

Mundinho perfeito em que Draco Malfoy era tudo que ele nunca poderia ser, tudo que ele não queria ser. Preferia ser apenas o melhor amigo de Harry Potter, que era bom, que era justo, que era nobre, a rir de qualquer coisa que Draco Malfoy viesse a dizer, como ela fazia. Ela era fraca, ela era . Bem que seu pai tinha avisado. Sentiu o sangue esquentar de raiva.

"Cala a boca, Draco", Parvati Patil retrucou, verbalizando o que todos os grifinórios estavam pensando. Ron continuou encarando Pansy Parkinson, as mãos fechadas com força em torno do cabo da vassoura. Ela sorriu devagar, sentindo-se desafiada, e ergueu uma sobrancelha, as feições mais duras do que o normal.

"Uuuuh, defendendo o Neville?", os olhos castanhos continuavam presos nos azuis. "Nunca pensei que você gostasse de manteiguinhas derretidas, Parvati".

Você. Você não era Parvati. Ela estava falando com você.

xx

Quando Harry alçou vôo e fez isso como se fizesse todos os dias, você teve vergonha. Vergonha porque você voou a vida inteira e não tinha a mesma habilidade, e até mesmo Draco voava tão bem quanto você, e isso era humilhante. Mas você não deixou de ficar feliz pelo seu melhor amigo, porque ele era seu melhor amigo, ele era quem te fazia ser alguém, e por isso você aprovou com um viva e um sorriso, porque não havia nada mais que você pudesse fazer. Era essa a condição.

xx

"Não foi culpa dele, professora..."

"Calada, Senhorita Patil".

"Mas Draco..."

"Chega, Sr. Weasley. Potter, me acompanhe, agora."

xx

Enquanto Harry acompanhava a Professora McGonagall para o colégio, você sorriu. Não vitorioso, como Draco, Crabbe e Goyle. Não porque foi engraçado. Não porque você estava feliz. Você sorriu porque estava aterrorizado, e era essa a sua reação. Sempre. Rir para não chorar. Rir para não chorar.

(porque se o Harry fosse embora... Se o Harry fosse embora, você não seria ninguém. Você não seria ninguém e você gostava de ser o melhor amigo dele. Ele era o seu único amigo, ele te transformava em alguém melhor, em alguém, e se o Harry fosse embora, você ia chorar que nem o Neville. E você não era uma manteiguinha derretida. Você não gostava de manteiguinhas derretidas.)

"Você está feliz?", a voz dela atravessou seus pensamentos. Você franziu as sobrancelhas, o sorriso morrendo aos poucos. Ela tinha parado ao seu lado. Não muito próxima, nem muito longe. O suficiente para que fosse casual. "Aposto que está. Porque ele pode ir embora. E se ele for embora, você vira o centro das atenções, não é? Você é um grande amigo, Weasley".

Você procurou palavras para responder, procurou mandá-la calar a boca, porque você não queria que o Harry fosse expulso. Você não seria o centro das atenções se ele fosse embora, simplesmente porque você voltaria a ser ninguém. Só mais um. Como você era em casa, como você foi a vida toda.

"Eca, Pansy", Draco Malfoy interrompeu, quando finalmente avistaram Madame Hooch voltando para o campo. Qualquer coisa que ele fosse falar, falaria fora da presença dela, porque ele não passava de um mimado covarde. "Se você chegar muito perto desse aí pode pegar sarna".

"Não ligue, Ronald", Hermione Granger, aquela garota irritante, segurou seu braço antes que você fizesse uma besteira. Suas orelhas estavam vermelhas e você queria quebrar a vassoura na cabeça de Malfoy, principalmente quando Pansy Parkinson se afastou, rindo, antes que a professora chegasse perguntando o que tinha acontecido. "Não ligue".

xx

Não ligue.

xx

"Você está brincando."

Ele estava brincando. Ele só podia estar brincando. Puta merda, e que Molly Weasley não ouvisse seus pensamentos, ele tinha que estar brincando. Era impossível alguém desrespeitar sei lá quantas regras do colégio, a ordem direta de um professor e acabar se tornando...

"Apanhador?", exclamou, quando Harry balançou os cabelos rebeldes em afirmação. "Mas os alunos do primeiro ano nunca...", nunca são escolhidos. Nunca. Mas ele não era um aluno qualquer do primeiro ano. Nem que Ron fosse o maior talento do quadribol do mundo – e ele definitivamente não era – conseguiria aquela vaga aos onze anos. Só que estavam falando de Harry Potter. "Você vai ser o jogador da casa mais novo do último..."

"Século", Harry completou, ligeiramente envergonhado, ligeiramente orgulhoso por provar que cem anos não são o bastante para quem tem uma cicatriz na testa. E ele não parava de comer. Ele estava comendo como nunca tinha comido antes e isso estava deixando Ron enjoado. Largou o garfo ainda cheio no prato e ficou observando Harry se alimentar como o atleta que realmente era. "Olívio me disse".

Ron estava tão admirado, tão impressionado, tão enjoado, que ficou ali, sentado, de boca aberta para Harry.

"Vou começar a treinar na próxima semana", anunciou Harry. Pare de falar, a mente de Ron pediu. Se Harry não parasse de falar ele provavelmente vomitaria sobre a mesa. "Só não conte a ninguém, Olívio quer fazer segredo".

É claro que ele não iria contar a ninguém. Primeiro porque estava sem voz. Segundo porque ele não queria que ninguém soubesse. Seria vergonhoso. As cartas que mandava para seus pais mais soavam como um relatório da vida de Harry do que da própria vida. Não queria contá-los o fato de que o amigo tinha conseguido mais uma coisa que ele nunca conseguiria.

xx

"Potter não foi expulso", ah, Draco. Você é mesmo muito burrinho. É claro que Potter não foi expulso só porque desrespeitou a ordem de um professor. Potter não seria expulso porque Hogwarts nunca esteve tão em alta quando como agora. Ele reviveu das cinzas – puf – por onde esteve o menino por todo esse tempo? Vivendo com trouxas, andando com sangues-ruins e pobretões? Expulsar Potter seria colocar Hogwarts num lugar ruim da primeira página do Profeta Diário, e Dumbledore pode até mesmo não concordar com o Ministério, mas todo mundo tem medo da imprensa.

"Não?", eu me fingi surpresa mesmo assim, porque eu queria ter assunto com você. Eu gosto de você, Draco. Você é tudo que eu prezo nesse mundo, tudo que eu aprendi a prezar. Você tem o sangue tão puro quanto a água que eu estou bebendo no copo, você exala pureza e nobreza e finésse e eu gosto de como seu nariz e queixo são finos em comparação ao nariz e queixo dele. Eu gosto que você preocupou-se comigo a ponto de não querer que eu pegasse sarna. "Essa escola precisa rever conceitos", eu falei porque sabia que isso ia te agradar.

"Eu não sou obrigado a conviver com gente dessa laia", você tomou um gole da minha água sem ao menos perguntar e apontou com a cabeça para a mesa da Grifinória, onde aquela menina horrorosa dos cabelos lanzudos conversava com Potter e com ele. Na verdade, Draco, você era obrigado a conviver com eles porque o mundo é um saco e tentam forçar ideais de igualdade na nossa garganta, mesmo que ninguém perceba que isso só nos induz a vomitar tudo. "Por isso, tive um plano melhor – marquei um duelo com Potter e Weasley à meia-noite. Filch vai adorar saber disso."

Estou surpresa que seu plano não seja tão idiota quanto eu esperei que fosse, por isso ri de leve e disse que nunca pensaria em algo tão inteligente quanto aquilo. Você adora ter o seu ego massageado, Draco, como um verdadeiro rei e, se eu um dia quiser me tornar rainha, tenho que saber agradá-lo.

Observei a mesa da Grifinória por um instante, quando a criatura sangue-ruim já tinha se afastado, e percebi que ele não estava comendo. Potter ainda estava devorando o jantar, mas ele não tocava na comida. Será que ninguém percebia o que estava errado? Ele era pobre. Pessoas pobres comem qualquer coisa que vêem pela frente porque pode ser a última vez que se alimentam em dias.

Mordi meus lábios de leve, satisfeita com idéia de que, talvez, se o plano de Draco funcionasse, fosse a última vez que eu o veria ali.


Continua


Nota final:

Esse capítulo tem frases exatas tiradas do primeiro livro. Na realidade, a maioria das cenas realmente aconteceu, eu só mudei o ponto de vista e acrescentei uma coisa ou outra. Espero mesmo que vocês tenham gostado!

MUITO OBRIGADA com o retorno gente... Eu publiquei esse capítulo bem rapidinho porque já estava pronto, o próximo ainda está em processo de conclusão, pode ser que demore bem mais haha! Mas, nossa, fiquei realmente MUITO feliz com o feedback, é bom saber que tem gente a fim de ler RP e espero que consigamos espalhar o amor do ship pelo mundo.

Acho que eu respondi a quase todo mundo pelo Reply do ff . net, então fica meu agradecimento também à Lady Malfoy. Gatinha, fiquei muito feliz com a sua review, espero que continue gostando!

Também: Sis (L), Hiei, Fla, Lella, , Ireth, Arícya e Deh! Muito obrigada meninas! :D

Obrigada especial à Lally, pelo cotidiano e pela betagem. Amo você!

Vocês sabem que sem reviews, sem atualização, né? \o