Tia Blue agradece de coração todas as reviews! :*
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ANTES DAS SEIS
Miss Bluebird
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II. Toda ação tem uma reação
- Oh, céus.
Abri os olhos, sonolento. Os reflexos do sol já iluminavam boa parte do Salão Comunal, e alguém se movimentava perto de mim. O barulho típico de alunos acordando e se preparando para o dia já corria pelo ar. Esfreguei os olhos, resmungando. Minha cabeça doía. Minha cabeça doía muito.
- Lily? – chamei, rouco e incerto se ouvira mesmo sua voz ou se estava sonhando.
- Sirius, nós fizemos uma coisa ruim.
- Ahn?
Esfreguei meus olhos, sentindo meu cérebro ainda trôpego de sono. Pedaços de memórias percorriam meus pensamentos, mas eu ainda não conseguia montar uma cena concreta que diferenciasse sonho de realidade. Lily apanhou minhas roupas no chão e as jogou em cima de mim. Só então eu percebi meu estado, e as lembranças voltaram com tudo. – Oh.
- É. Pois é. – ela respondeu. Parecia prestes a ter um colapso mental. Seus cabelos estavam bagunçados e ela já estava completamente vestida, mas suas roupas estavam bem amassadas, e seus olhos carregavam duas olheiras que diziam claramente que ela não tivera uma noite muito boa de sono.
Levantei-me e, quase num movimento só, vesti minhas roupas. Lily se manteve de costas, talvez por constrangimento, talvez por culpa. Talvez uma mistura dos dois. Não podia dizer por ela, mas eu nesse exato momento estava sentindo uma imensa quantidade de culpa. Senti meu pulso acelerar. Não podia ser verdade – eu não queria acreditar que fosse verdade. A garrafa, no entanto, ainda estava lá, exatamente onde nós havíamos a deixado. Vazia, e intacta. Assim como eu gostaria que estivesse minha consciência. Fechei os olhos por alguns segundos, e me permiti um suspiro.
Eu dormi com a namorada do meu melhor amigo.
Eu sou um filho-da-puta canalha e pervertido, e eu dormi com a namorada do meu melhor amigo.
- Lily.
Ela se virou, e seus olhos estavam cheios de lágrimas. – Sirius, eu tenho que contar a ele.
Senti um arrepio violento me correr espinha abaixo. Pisquei algumas vezes, antes de me aproximar dela e agarrá-la pelos braços, desesperado. – O quê? Não! Lily, não!
- Eu preciso!
Larguei-a, e passei a andar em círculos pelo tapete. Como ela poderia querer fazer isso comigo? Tentei formular situações hipotéticas envolvendo um James ciente do que acontecera na noite passada, e em nenhuma delas James cogitava me perdoar pelo meu crime. – Lily, se você fizer isso, acabou! Minha amizade com James é de longe a coisa mais importante que tenho na vida, então não, por Merlin, Lily, não faça isso!
- Você não entende, Sirius, minha relação com James está por um fio, e se começarmos a mentir um para o outro tudo vai se desencaminhar...
Eu soltei uma risada nervosa.
- Sério? SÉRIO? – gritei, e ela se afastou alguns passos. – E você acha que fazer sexo com o melhor amigo dele vai garantir um relacionamento eterno e cheio de alegria?
Ela abriu a boca para responder, mas se calou quando alguns alunos começaram a aparecer no salão. Sem cerimônias, ela apanhou a garrafa e saiu pelo retrato, me deixando ali, seminu e sozinho de frente a lareira apagada, cogitando o que seria da minha vida se James descobrisse a merda que eu fizera.
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- Remus. – chamei, num sussurro. – Pssst, Remus!
Ele se virou, confuso, procurando a origem da minha voz. Franziu a testa ao me localizar, escondido atrás da porta de uma sala vazia do corredor do segundo andar. Fiz um sinal com a cabeça para que ele entrasse, e ele o fez, com ambas as sobrancelhas arqueadas.
- O que você fez dessa vez, Sirius? – ele resmungou, me encarando nos olhos. – Ei, você está bem?
Eu fechei a porta e depois me larguei numa cadeira, desolado. – Remus, eu fiz uma merda. Das grandes.
Ele revirou os olhos, e se aproximou. Remus era um cara paciente, e muito controlado, mas eu já perdera a conta de todas as cagadas que ele me ajudara a consertar – eu tinha a impressão que dessa vez eu tinha ido longe demais. Talvez não houvesse nenhum Remus no mundo que pudesse me ajudar, caso Lily resolvesse abrir o bico para James sobre nossa noite criminosa no Salão Comunal. Respirei fundo algumas vezes, sob o olhar questionador de Remus. – Eu transei com a Evans.
Ele caiu na gargalhada. Depois de alguns segundos, porém, sua expressão divertida se tornou mortalmente séria, ao perceber minha cara de desespero. – VOCÊ O QUÊ?
- Shhhhh! – supliquei. Ele continuou me olhando como se eu tivesse acabado de confessar um assassinato. Eu me sentia um lixo. – Remus, eu fiz merda.
- É, você fez merda! – ele declarou, com um tom de voz irritado. – O que diabos você estava pensando, Sirius? A Lily? A Lily, Sirius?
Senti uma pontinha mínima de irritação. Certo, eu dormira com a namorada do meu melhor amigo, mas ela também estava errada. Não é como se eu tivesse estuprado a garota, ou qualquer coisa do gênero. O desespero, no entanto, ainda era maior. Afundei a cabeça entre as mãos. A dimensão do meu erro era épica, e eu sabia que não havia escapatória (muito embora ainda tivesse alguma esperança).
- Remus. Ela me disse que vai contar pra ele. – informei, num murmúrio quase inaudível.
Remus arregalou os olhos. Aos poucos, sua expressão irritada foi se tornando consternada. Foi nesse momento que eu percebi (de verdade) que James nunca me perdoaria.
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- Sério, cara? A Lily?
Eu não precisei olhar pra trás pra saber quem estava se aproximando, nem precisei raciocinar muito pra perceber do que se tratava e o que estava prestes a acontecer. Levantei-me resignado, e não revidei quando o punho de James se chocou contra minha mandíbula. Muitas pessoas pararam para olhar. James Potter dando um soco em Sirius Black não era algo que se vê todos os dias. A dor foi excruciante – James era um cara forte, e dizem por aí que a raiva deixa as pessoas mais fortes ainda. Passei a língua no lábio inferior, sentindo o gosto metálico do meu próprio sangue, e não tive coragem de erguer os olhos pra encarar meu melhor amigo (ou ex-melhor amigo). O salão inteiro emudeceu. James me acertou um novo soco, com muito mais força, e depois mais outro e mais outro, e eu teria acabado inconsciente, se Remus não tivesse segurado ele pelos braços. Senti certa tontura, mas ainda assim não esbocei reação.
Eu merecia.
- Olhe pra mim, seu desgraçado. – ele grunhiu, se debatendo com muita violência. Sua voz saiu baixa e trêmula. Uma mistura indissociável de ódio, dor e orgulho ferido. – Meu melhor amigo. Meu melhor amigo.
Ergui meus olhos. Não tinha percebido as lágrimas em meus olhos e nem o sangue, até ver o rosto de James completamente embaçado. Pisquei algumas vezes. Ele me encarou por mais alguns segundos antes de se soltar finalmente e me empurrar contra uma das poltronas em frente à lareira, sacando a varinha logo em seguida e causando um grande Ohhh na multidão de pessoas que havia se acumulado ao nosso redor. Seus olhos brilhavam. Eu podia escutar os cochichos. O que será que ele fez? Localizei Lily no meio da multidão, apertando as mãos contra a boca num desespero mudo. Tentei juntar forças pra dizer alguma coisa, mas quando levantei a cabeça ele já havia saído retrato afora.
- Sirius... – murmurou Peter, se aproximando com mansidão. Ele parecia prestes a ter uma síncope nervosa. – Talvez você deva ir à Ala Hospitalar.
- Não. – disse, com firmeza, em alto e bom som. Os músculos do meu rosto ardiam, era como se duas mãos gigantes tivessem esmagado minha cabeça até não sobrar nada além da culpa. Esfreguei os olhos para afastar as lágrimas e o sangue. Eu podia sentir o olhar de Lily sobre mim. Levantei-me, trôpego de dor e, sem nenhuma palavra a ninguém, subi as escadas rumo ao dormitório.
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Escutei a porta do dormitório se abrir, e alguém entrar. Não precisei olhar para saber que era ela. – Ei. – ela murmurou.
Respirei fundo, sem tirar os olhos da paisagem lá fora (a qual eu encarava a mais de quarenta minutos, sentado na beirada da janela), mas não respondi. Lily se aproximou com delicadeza, e se encostou à parede ao meu lado. O cheiro leve que exalava das mechas acajus quase me fez querer sair correndo dali. Ela ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para mim. De alguma forma eu sabia que ela eventualmente viria e, por mais que eu quisesse sentir raiva dela, eu não conseguia. Não realmente. Mas eu estava tentando – afinal, se ela tivesse ficado quieta, tudo aquilo poderia ser esquecido, enterrado em alguma gaveta bem funda. Mas, graças ao seu ataque de histeria, tudo estava perdido.
- Como está o seu rosto? – perguntou, mordendo o lábio inferior. Eu não a olhei. Eu não conseguia olhá-la. Não agora. Não depois de tudo. – Eu sinto muito. – ela continuou, num tom de voz fraco. Parecia prestes a cair no choro. – Não sei guardar segredos, Sirius. Não como esse... E James...
- Não quero falar sobre James. – eu a cortei, num tom mais frio do que pretendia. – Nem sobre segredos.
Ela retesou o corpo, apertando os lábios. – Certo.
- Ele vai perdoar você, Lily. – eu anunciei, repentinamente, com muita rispidez. – Ele vai acreditar que eu seduzi você, que eu enchi sua cara de firewhisky e que eu fiz você ir pra cama comigo. Eu vou ser o vilão da história, Lily, e sabe por quê? Porque ele ama você. Porque ele é completamente, absolutamente e irracionalmente apaixonado por você, e eu serei o filho-da-puta que tentou tirar isso dele. E depois de algum tempo ele nem vai lembrar que você dormiu com o melhor amigo dele, porque vocês dois serão felizes, se casarão, terão filhos e um lar. Ele não vai saber como aconteceu a coisa toda. E eu serei aquele amigo que o apunhalou pelas costas. Eu serei o amigo que acaba sozinho por causa de uma noite infeliz com uma garota que não vale a pena.
Ela ficou imóvel e completamente em silêncio, me encarando com os olhos arregalados. Pelo canto do olho, percebi a lágrima que escapou de seus olhos, e acompanhei seu trajeto por sua bochecha. Senti um aperto leve no peito.
- Por favor, Lily, vá embora.
Ela fungou, e tocou minha mão de leve. Seu toque era suave. Por um milésimo segundo tive vontade de beijá-la, só mais uma vez. Só para sentir o gosto doce dos seus lábios. – Sinto muito, Sirius. Sinto muito mesmo. – ela repetiu, com a voz falha.
- É, você já disse isso, mas eu não acredito em você.
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Encontrei-a num canto afastado da biblioteca, encarando a chuva leve que caía pela janela. Já passava das seis, e eu não a tinha visto durante o dia inteiro. James também sumira – eu havia cogitado a possibilidade dos dois estarem juntos, mas pelo estado que ela estava no momento era provável que passara boa parte do dia exatamente onde estava.
- Lily. – anunciei minha presença. Ela virou a cabeça em minha direção, mas não me encarou. Seus olhos estavam muito vermelhos e muito inchados, como os de alguém que havia chorado muito durante muito tempo. Senti uma pontada na boca do estômago – o culpado por suas lágrimas era eu.
- Sirius. – ela respondeu, impassível, e voltou a encarar a paisagem lá fora.
- Você tem um minuto? – perguntei, forçando um tom neutro. Ela não respondeu, nem se mexeu. – Eu vim me desculpar.
Novamente, ela não respondeu.
- Eu fui injusto e cruel com você. – insisti. – A culpa de toda essa merda não foi sua.
- Bom, a culpa também não é sua. – ela observou, com um ar etéreo. Sua voz estava rouca. – Se a culpa não é de nenhum, talvez seja de ambos.
- Talvez a culpa seja do uísque. – murmurei, esboçando um leve sorriso malicioso. Ela finalmente pousou os olhos nos meus. Senti o aperto no meu estômago aumentar. Ela parecia inconsolável.
- Uísque não obriga as pessoas a fazerem o que elas não querem fazer, Sirius.
Arqueei as sobrancelhas.
- Não... Mas permite que elas façam o que querem.
Ela soltou uma risada de escárnio pelo nariz, e desviou o olhar do meu novamente.
- Lily, aconteceu. – declarei, com firmeza. – Eu e você, aconteceu. E eu sinto muito. Eu perdi meu melhor amigo, e agora... Bom, não sei, então é só o que posso dizer. Sinto muito. – concluí, antes de me virar para sair dali.
- Black. – ela chamou, com a voz fraca, e eu estaquei. Voltei-me para olhá-la. – James terminou comigo. Eu o perdi também. – eu fiquei parado, encarando-a com os olhos arregalados, sem encontrar palavras para responder. Não esperava que James fosse capaz de terminar com ela. – Achei que você deveria saber.
Ela se levantou e, me lançando um sorriso triste e resignado, virou-se e foi embora.
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- O que você está fazendo aqui? – ela perguntou, sobressaltada. Já passava da meia-noite.
Corri o olhar pelo céu cheio de estrelas. Desde o primeiro ano, eu sabia que a Torre de Astronomia era o lugar que ela escolhia para se esconder do mundo, quando as coisas não iam bem. Já pensara em ir atrás dela várias vezes. Quando um bando de meninas do quinto ano resolveu roubar seus livros, por exemplo. Ou quando ela tirava notas baixas em redações de História da Magia. Ou quando ela tinha uma de suas brigas colossais com James – mas nunca tive coragem. Alguma coisa me impedia. Alguma coisa sempre me impedia.
- Achei que encontraria você aqui. – declarei, simplesmente, sentando-me ao seu lado. Ela abriu um sorriso triste.
- Sou tão previsível assim?
Eu ri, e puxei uma garrafa de firewhiskey de dentro do bolso do sobretudo. Ela ergueu as sobrancelhas diante da ironia.
- Achei que devíamos comemorar o maior erro de nossas vidas. – expliquei, encolhendo os ombros.
- Seu timing é perfeito.
A primeira dose foi bebida em absoluto silêncio e teve um gosto amargo de o-que-diabos-nós-estamos-fazendo. A segunda me fez querer sair correndo dali, sem olhar para trás. Na quinta, ambos ríamos de qualquer coisa idiota que ela havia dito. Na sétima, eu passei a encarar as estrelas.
- Ei... No que está pensando? – ela perguntou, com sua voz de veludo, quebrando o silêncio. Fechei os olhos por um momento, desejando que ela não tivesse feito essa pergunta. O silêncio, a bebida, as risadas... Bem mais confortáveis do que palavras. Palavras possuem significados demais. E junto com os significados as consequências, as racionalizações... Os arrependimentos. Virei a cabeça para olhá-la. Seus olhos eram verdes, verdes demais.
- Em nada. – respondi, abrindo um sorriso leve. Ela revirou os olhos, e me cutucou, de forma provocativa.
- Você está muito concentrado pra quem não está pensando em nada.
- Dizem que faz parte do meu charme.
Ela soltou uma gargalhada.
- Por algum motivo eu não duvido disso.
Abri um sorriso, e meu olhar se atraiu ao dela. Lily Evans era encantadora demais para o próprio bem. Quantos homens ainda não perderiam a cabeça por ela?
- Lily... Me desculpe.
- Por quê?
- Por isso.
Sem esperar reação, eu me debrucei sobre ela e a beijei. Ela quase instantaneamente agarrou meus cabelos, aprofundando o beijo. Quase como se já esperasse. Como se quisesse. Puxei-a pela cintura, colando seu corpo no meu, enquanto seus dedos passeavam pelo meu pescoço, arranhando minha nuca de leve. Senti minha pele se arrepiando sob o contato da pele dela. Sem pensar muito, entreguei-me – não tínhamos mais nada a perder, e já havíamos cometido aquele erro. Por que não cometê-lo mais uma vez?
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