Capítulo 1

Os Novatos

- Terra para Sam! – Letícia estalou os dedos frente aos meus olhos. Meus pensamentos aquele dia estavam num outro lugar qualquer. – Em que tanto pensa?

- Em nada importante. – Limitei-me a dizer, e assim, aquele assunto morreu tão rápido quanto nasceu. – Um milk-shake de morango, por favor. – Pedi à merendeira, dando-lhe o dinheiro de antemão.

- Ouvi alguns boatos de dois alunos transferidos. – Começou ela – Um pouco estranho alguém se transferir logo na metade do ano letivo, não é?

- Uhum. – Murmurei. – Obrigada. – Peguei meu milk-shake e nos sentamos em uma mesa qualquer perto da grande fonte que ficava no centro do colégio. Algumas garotas passaram por nós, nos olhando torto. Entre elas, reconheci rapidamente Debrah, uma das garotas que eu mais odiava.

- Está prestando atenção? – Perguntou-me Letícia, indignada.

- Claro! Continue.

- Então, dizem que são dois garotos que irão chegar. Irmãos, imagino. – Letícia nem ao menos parou para respirar, apenas tomou-me o copo de milk-shake das mãos e bebericou um pouco dele. – Tomara que sejam solteiros e gatinhos.

Apenas soltei uma risada sem humor. Logo o sinal bateu e saímos em direção à sala de aula. O restante do dia fora normal, nada de interessante. Resolvi aquele dia pegar o ônibus escolar para voltar para casa ao invés de ir por dentro do bosque. Pelo caminho, olhando para a rua com um pouco de dificuldade – os vidros estavam embaçados por causa do frio que fazia – pude ver um caminhão de mudança, e ao lado, três carros em cores fortes.

Algumas pessoas ali carregavam caixas e móveis para dentro de casa. Entre eles, pude identificar facilmente os moradores: Dois garotos um pouco parecidos. Um deles possuía cabelos arrepiados, curtos e loiros. Era alto, deduzi, e forte também. O casaco mal podia esconder os músculos dos braços. O outro, porém, era mais baixo e não tão forte quanto o primeiro. O cabelo grisalho com algumas mechas escuras era um pouco mais comprido e estava preso no alto da cabeça em um rabo de cavalo. A única mulher do trio era alta, mas percebi que estava de salto. Vestia um terninho azul marinho, e tinha cabelos loiros, longos e ondulados muito bonitos. Tentei ver-lhe os rostos, mas o ônibus virou na esquina e, pouco mais adiante, saltei em frente à minha casa.

Eu poderia dar alguns passos e xeretar um pouco. Saber quem eram os novos vizinhos. Mas resolvi ir para casa. Minha barriga roncava, era a hora do jantar.

- Chegou cedo. – Disse-me papai, da cozinha ao ver-me entrar. Estava vestido com o uniforme do trabalho – um conjunto de blusa e calça igualmente verde.

- Peguei o ônibus. – Coloquei minha mochila sobre a bancada que separava a cozinha da sala. – Tem plantão, hoje?

- Sim. – Senti o cheiro da omelete que ele fritava. – Vá guardar a mochila.

- Mas estou morrendo de fome. – Reclamei. Logo, minha barriga fez um grunhido estranho. – Viu?

- Então vá guardar a mochila, lavar as mãos e depois venha comer.

- Tudo bem. – Falei, desaforada. Ouvi, enquanto subia as escadas, uma risada irônica do meu pai.

Joguei minha mochila na cama e corri para o banheiro, lavando as mãos. Desci e sentei na bancada. Meus irmãos chegaram logo depois e sentaram nos lugares vagos, cada um ao meu lado. Eu não sabia identificar qual era qual com o uniforme da escola. O jantar foi omelete de brócolis. Se não estivesse morrendo de fome, eu não comeria de maneira alguma, mas daquela vez, deixei passar. Logo fui para cama – antes, claro, escovei meus dentes e tomei um banho – e rapidamente peguei no sono.

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O dia seguinte amanheceu chuvoso, com sons altos de trovões. O relógio marcava 5:42 da manhã, acordei três minutos adiantada. Decidi ficar na cama até o relógio despertar, o que, em minha opinião, passou mais rápido que o normal. Arrumei-me para ir à escola, verifiquei o celular e desci as escadas. Meu pai acabara de chegar. Vinha com a mochila em uma das mãos, e na outra a blusa do uniforme.

- Já está arrumada? – Perguntou, surpreso – Quer que eu faça algo para comer?

- Sim, adoraria panquecas. – olhei em meu celular – 6:36 – murmurei para mim mesma.

- Tem tempo, então coma devagar. – Ele pegou vários ingredientes para misturá-los.

Minha preocupação não era com a hora em si, mas se Letícia viria me buscar em casa, ou se nos encontraríamos no ônibus. Eu estava em dúvida se iria a pé pelo bosque ou naquele ônibus torturantemente barulhento. O barulho da chuva e mais um trovão me disseram que eu não tinha opção. Iria de ônibus. Não muito tempo depois, meu pai chamou minha atenção. Meu café da manhã estava pronto, e eu tinha bastante tempo, então comi devagar.

A campainha tocou quando estava prestes a comer a última da panqueca. Corri para atender, dando de cara com Letícia. O seu guarda-chuva e metade da calça jeans estavam molhados.

- Vamos logo, se não o ônibus vai sem a gente! – Mal acabou a frase e me puxou pelo braço.

- Espera, eu não acabei de comer!

- Come depois! – Peguei minha mochila e me despedi de meu pai.

Quando chegamos ao ponto, vimos o ônibus amarelo berrante vindo em nossa direção. Sentamo-nos em um banco aleatório e em menos de meia hora, chegamos à escola. Mal pisamos na calçada, pudemos ouvir do outro lado do estacionamento, comentários maldosos sobre nós.

- Nossa, o bicho do mato aprendeu a pegar ônibus, foi? – Disse Debrah, arrancando risadinhas das amigas. Elas estavam sobre o carro prata dela, sentadas na lataria e ouvindo música alta.

- Acho que foi a baleia quem ensinou, não é? – disse outra garota, acho que seu nome era Nina.

- Olha só, sua babaca! Eu... – Ela ia avançar sobre elas, mas a puxei, impedindo-a. – Me solta, Sam! Eu vou ensinar uma lição pra essa cretina!

- Deixa pra lá, não vale a pena! – Tentei convencê-la. – Pra quê sujar as mãos com lixo?

Debrah fechou a cara no mesmo instante, ela ia retrucar quando dois carros desconhecidos passaram por nós. Um deles era uma Mustang GT 500 azul marinho com duas faixas brancas no centro. A pintura metálica dava ao carro um ponto de encanto. O outro era um Camaro preto com faixas amarelas bem afastadas no centro. Os dois estacionaram logo ao nosso lado.

- Será que são os novatos? – Letícia perguntou-me baixinho.

- Eu não sei. – Respondi-lhe, embasbacada.

Eles passaram por nós, como se estivessem num daqueles filmes em que todos abrem passagem para os poderosos. Todos olhavam para eles, mas um deles cruzou seu olhar com o meu. Seus olhos eram de um mel intensos, o rosto era comprido e o queixo um pouco quadrado; o nariz era longo e a boca um pouco carnuda. O outro que estava ao seu lado lhe deu um toque no braço, e então sua atenção voltou para ele.

- Que gato! – Letícia se animou. – Ele ficou olhando pra você!

- E isso é assustador! – Exclamei. Meu estômago parecia uma maquina de lavar.

- Boba! –Deu-me um peteleco na testa. Reclamei, tentando devolver. – Vamos, antes que levemos uma detenção.

Chegamos à sala de aula a tempo. A professora Collins, uma mulher baixinha de cinquenta e dois anos, não parou de reclamar o nosso pequeno atraso em toda a aula de história. Os cabelos brancos, naquele dia, estava presos em um coque alto, o que significava que ela estava de mau humor. No final da aula, trocamos de sala. Eu para Química 2, e Letícia para Álgebra 1. Debrah tinha aquela aula comigo, e estar sozinha sem Letícia por perto era perturbador.

- Tenho certeza que esta aula será muito legal, não é, meninas? – Debrah falou, alto. A senhora Phillips sorriu para ela, realizada. Acredito que no final do semestre, seu boletim ganhará dois ou três pontos extras. Mas eu sabia que a mensagem era para mim. Seria uma longa aula.

Arrumei meu material em cima da mesa e coloquei minha mochila do meu lado no chão. Qual foi a minha surpresa ao ver um dos alunos transferidos sentado ao meu lado? Nossos olhares se cruzaram novamente, mas desta vez, eu desviei rapidamente. Minhas bochechas queimavam e minhas ações indicavam meu nervosismo. Mas eu sabia que ainda que eu não olhasse para ele, ele me observava.

Passados alguns minutos de aula, ele me chamou.

- Qual seu nome? – Disse baixo, perto de mim.

- Samantha. E o seu? – Disse, no mesmo volume de voz.

- Nathaniel, mas pode me chamar de Nath.

- Então me chame de Sam. – Sugeri. Ele sorriu de lado. – Por que se transferiu no meio do ano?

- Problemas com a casa antiga. – limitou-se a dizer. – Vim de outra cidade, por isso a transferência.

- Hmm... – Me silenciei. Eu não tinha mais assuntos, mas ele tinha vários. A aula se passou com uma Debrah olhando torto para mim e uma conversa interessante com Nathaniel.

Assim que o sinal do intervalo soou, nos despedimos cada um para um lado. Peguei meu dinheiro do almoço e entrei na fila para pegar um prato. Demorou um pouco até que eu enchesse a bandeja e pagasse à merendeira, mas logo eu estava sentada na mesa em que eu habitualmente me sentava junto com Letícia e Íris, minhas melhores amigas. Foi somente pensar nelas que pude ver, ao longe, a cabeleira ruiva de Letícia entre uma multidão pessoas. Junto à ela, estava Íris e Violette. As três sentaram-se a mesa: Íris ao meu lado; Letícia e Violette à nossa frente, uma do lado da outra.

- Perdi as esperanças no novato, sabe? – Começou Letícia, em meio aos suspiros - falsos - deprimidos. Revirei os olhos, como ela era dramática.

- Por quê? – Confesso que, mesmo não demonstrando, eu estava curiosa. Seria Nathaniel de quem ela falava?

- Ele é gay! – Letícia falou tão alto que chamou a atenção das mesas mais próximas a nós. Senti meu rosto esquentar pelo constrangimento, mas Letícia ignorou-os e continuou sua "triste" sina. – Começou assim: A Nina à todo minuto ficava flertando com ele, ai quando a aula acabou e a gente teve que mudar de sala, ela foi dar em cima dele...

- E ele a cortou na hora... – Continuou Violette. Íris soltou uma risada, eu a acompanhei.

- Isso. – Concordou Letícia. – E logo depois ele falou que era gay!

- Tem certeza que ele disse que era "gay"? Ele podia ter dito... Hmm... – Procurei, nervosa, uma palavra que rimasse com "gay" – "Sei"! – Falei tentando tirar aquela ideia da cabeça dela - e tentando não acreditar naquilo.

- Tenho! – Letícia exclamou, indignada. – Eu não tiro conclusões precipitadas! Se eu disse que ouvi, é porque eu ouvi. E a Violette estava lá de prova.

- Verdade. – Afirmou Violette.

- Tudo bem, entendi. – Falei, me rendendo. Ergui as mãos em sinal de desistência.

- Ele era um gatinho! – Letícia fez bico. Íris novamente riu, agora mais abertamente. Violette apenas mexia no celular, agora alheia à nossa conversa.

- E você sabe o nome dele? – Perguntei, curiosa. Precisava saber se a tal pessoa era mesmo Nathaniel, afinal, não tinha como eu saber se era ele ou não. Tínhamos apenas três aulas juntos, essas eram: Língua Inglesa, Espanhol e Física Avançada. Por esse motivo, eu não passava todo o tempo com ele.

- É Lysandre. – Respondeu Íris. – Acho que o sobrenome é Lins, se não me engano. – Letícia parecia ter perdido a vontade de falar.

Senti-me aliviada por alguma razão, mas não deixei transparecer. Elas estranhariam e eu não queria falar sobre esse assunto, mesmo que fossem minhas amigas melhores amigas. E não era por não confiar nelas – eu confio, e muito! – era, na realidade, a vergonha que prendia as palavras em minha garganta.

Continuamos a conversar sobre qualquer coisa. Nosso principal assunto rondava sobre a "super incrível" viajem de Íris à Orlando e mais algumas reclamações de Letícia sobre a opção sexual do novato, Lysandre. Não demorou muito para que o sinal soasse novamente, exigindo que todos os alunos voltassem às suas respectivas salas de aula. Despedimo-nos, cada uma para uma sala diferente e, depois de três longos tempos de aula – os quais se resumiam a quarenta minutos de gagueira por parte do Sr. Sommerhill e uma hora e vinte de sono na aula do Sr. Russo.

A escola se esvaziou rapidamente na saída. A chuva, ao contrário dos trovões, não havia dado trégua, obrigando-me a ir de ônibus na volta para casa. Esperei em baixo da cobertura que dava em direção ao estacionamento pelas minhas amigas, mas apenas Letícia e Íris apareceram.

- A Violette vai com o irmão dela cuidar da floricultura. – Informou-me Íris. A família de Violette tinha uma floricultura bem popular no centro da cidade, porém era raro a Violette trabalhar lá, somente quando precisavam de ajuda. – A mãe dela está doente, então ela vai estar a substituindo.

- Tudo bem, então. – Respondi. – Quando chegar em casa, eu vejo se ligo para o celular dela. Agora vamos antes que o ônibus parta sem a gente.

Começamos a andar pelo estacionamento em direção ao ônibus amarelo mostarda que estava com as portas abertas. Ouvi o som de uma buzina, mas ignorei. Não pensei que fosse para mim até o Mustang azul marinho com faixas brancas parou ao nosso lado. O outro carro, um Camaro preto com faixas amarelas, passou em alta velocidade pelo estacionamento até alcançar a rua e desaparecer ao longo da estrada.

- Nathaniel? – Perguntei retoricamente, bem baixinho.

- Quer uma carona? – Ele perguntou, um sorriso de canto nos lábios. Levei um choque, mas tão rápido quanto eu me recuperei.

- Vai depender de onde você for me levar. – Brinquei, marota.

Ele deu uma gargalhada baixa. Pude ver os longos e pontiagudos caninos dentro de sua boca.

- Me ofende sua desconfiança em mim. – Ele fingiu estar ofendido e magoado.

- Desculpe, é a força do hábito. – Disse, marota. Por parte, aquilo era bem a verdade, eu tinha mania de desconfiar de tudo e de todos.

- Sem problema, você está certa em desconfiar. – Ele ajeitou-se no banco. – Vamos tentar novamente, ok?: Quer uma carona?

Eu estava tentada a aceitar, mas eu sabia que deveria recusar. Estava pronta para rejeitar o convite quando Letícia se intrometeu.

- Ela quer sim. – Falou, empurrando-me já para dentro do carro.

Ela nem ao menos me deixara falar, bateu a porta do carro e, da janela mesmo, puxou-me pelo braço para falar no meu ouvido.

- É melhor você me contar TUDO depois, entendeu? – Disse, em tom de ameaça. – Tchau, Sammy. – Chamou-me pelo apelido carinhoso.

Vi-o engatar a primeira marcha e acelerar. Fui obrigada a colocar o cinto de segurança – ele dirigia em alta velocidade. Ele riu da minha reação. Em menos de dois minutos, estávamos em frente a casa que vi no dia anterior os vizinhos descarregando o caminhão de mudança.

- Você mora aqui? – Perguntei, mesmo sendo óbvia a resposta.

Ele apenas assentiu, tirando do porta-luvas uma caixa de madeira longa e esculpida. Logo o outro novato saiu de casa e andou em nossa direção. Apenas cumprimentou-me e depois, sem dizer nada, pegou a caixa de Nathaniel e olhou dentro. Agora eu estava curiosa, mas eu repetia mentalmente para mim mesma que aquilo não era da minha conta.

- Está faltando dois. – O outro falou.

- Fiquei com fome. – Respondeu-lhe Nathaniel.

- Vai me indenizar depois.

- Vou ver se posso. – Sorriu-lhe de lado, maroto. – Vejo você depois.

- Até. – Despediu-se o outro e voltou para dentro de casa.

Ele acelerou novamente e eu lhe dei as direções corretas para chegar à minha casa. Assim, quando chegamos, ele me levou até a porta, como em um daqueles filmes românticos em que o cara leva a garota até a porta de sua casa e começam um diálogo, seguido de um beijo calmo e terno. Porém, felizmente – ou infelizmente – a porta se abriu antes que pudéssemos começar a falar.

Olhamos ao mesmo tempo para o homem que abrira a mesma. Era meu pai, e ele não parecia nada contente em ver um garoto desconhecido ao meu lado.