Como vão?
Olha só, mais uma noite todos nós reunidos aqui para mais uma crônica.
Peço realmente desculpas pela falta do vinho e agora com uma garrafa nova. Não se esqueçam de mim.
O primeiro brinde é sempre meu e o segundo é claro de Afrodite.
Sabe porque, não... Então vou explicar.
Um brinde as coisas boas da vida e aos prazeres que a elas acompanham. Perfeito não, claro que sim.
Vamos então ao que interessa, e como já disse. Eu volto no fim...
Boa Leitura!
Crônicas de Amor e Confusão III
Torre de Pedra.
Capitulo 2:
II – Predadores.
Caminhou hesitante guiando-se pelo cosmo dela. Encontrou-a numa pequena cozinha, ela estava de costas para si, mas assim que se aproximou Marin virou-se, notando sua presença.
-Não deveria se levantar, ainda está muito debilitado; a amazona o repreendeu, se aproximando.
-Porque? –ele perguntou com a voz fraca, porém um brilho furioso tremeluzia nos orbes de leão.
-O que? –Marin perguntou, a mascara inexpressiva impedia que ele a visse arquear a sobrancelha.
-Porque não me deixou morrer? –ele perguntou serrando os punhos nervosamente.
-Que pergunta estúpida é essa? –Marin falou indignada. –Você deve estar delirando de febre, só pode; ela completou colocando uma mão sobre a testa dele.
A única coisa que ela viu foram os orbes verdes se incendiarem de forma perigosa, no momento que sentiu suas costas chocarem-se bruscamente contra a parede e ele apoiar ambas as mãos uma de cada lado de seu rosto, impedindo-a de mover-se para qualquer lado.
Sentiu o sangue gelar. O viu quase morto há poucos minutos atrás e agora se sentia subjugada e acuada por um olhar daquele felino.
Que irônico. A águia e o leão, dois predadores por natureza, mas agora só um deles sentia-se impotente.
-Ai-olia; o nome do cavaleiro foi pronunciado de forma tremula pela amazona.
-Porque não me deixou morrer? –ele perguntou quase num rosnado, exigindo uma resposta.
-Lutamos por um mesmo propósito, o mínimo que podemos fazer é dividir as responsabilidades e proteger uns aos outros; ela respondeu, tentando não demonstrar o quanto aquilo estava lhe perturbando.
-Companheirismo, isso é para os hipócritas; ele rebateu com um meio sorriso de escárnio.
Um milésimo de segundo e o som de um tapa ecoou por todo o cômodo, o cavaleiro fechou os olhos sentindo o lado direito de sua face arder no momento que a mão da amazona lhe acertou.
-Você é patético, achando que todos aqui são seus inimigos; ela rebateu ferina, agora pouco se importando com a situação que se encontrava.
-Como se eu não estivesse certo, acha que não sei que estou rodeado dos cães do Ares; ele rebateu indignado.
-Você não passa de um idiota egoísta; Marin falou com os punhos serrados.
-Olha como fala, ou...;
-Ou o que? Você pode ser um cavaleiro de ouro, mas agora não passa de um idiota que quer bancar o rebelde e que esqueceu pelo que luta; ela o cortou.
-Lembrança-
-Aiolia, pelo que você luta? –a voz de Aioros tirou-lhe dos devaneios.
-Como se você já não soubesse irmão; ele respondeu com um sorriso maroto.
-Mas quero ouvir de você; Aioros insistiu.
-Pra proteger as pessoas que sofrem com as injustiças e não podem se defender sozinhas; ele falou ficando rapidamente serio.
-Fim da Lembrança-
-Eu quase me esqueci do porque; ele murmurou.
-Você não está sozinho; a amazona falou com a voz mais branda.
Sabia muito bem como era ser um cordeiro entre os lobos. Desde que chagara ao santuário para treinar ouvira sobre o cavaleiro de Sagitário e o irmão mais novo.
Não acreditava que ele fosse um traidor, mas não pretendia voltar-se contra o santuário por alguém que mal conhecia, porém as poucas vezes que se encontrara com o jovem cavaleiro de Leão só vira revolta e tristeza em seus orbes. De que adiantava ser o mais forte se quando colocava a cabeça sobre o travesseiro a noite sabia que não teria paz.
Deixou que sua mão se elevasse até a face dele, o lado que ela mesma atingira. Um toque de leve com a ponta dos dedos. Viu-o fechar os olhos e dar um fraco suspiro.
Ambas as testas jaziam encostadas uma sobre a outra. Aiolia podia sentir a prata gelada da mascara inexpressiva, mantendo ainda as duas mãos na parede. Imerso em recordações.
-Eu quase me esqueci; Aiolia repetiu depois de alguns minutos de silencio. –Não estou aqui pra ficar me revoltando contra meus demônios e sim ajudar aqueles que realmente precisam; ele completou.
-Qualquer um se sente perdido às vezes; a amazona falou, como se fosse capaz de ler seus pensamentos e compreender suas duvidas.
-Obrigado Marin; ele falou afastando-se um pouco, a fitando com um olhar sério.
A jovem prendeu a respiração diante daquele olhar, sentia como se ele conseguisse enxergar através daquela mascara de prata.
-Pelo que? –ela perguntou hesitante.
-Por me salvar de mim mesmo; ele respondeu, soltando uma das mãos que lhe serviam de apoio, para tocar-lhe a face coberta pela mascara.
-Aiolia, não; ela pediu, temendo que ele fosse realmente fazer o que pensava.
-É incrível como sei que não esta mentindo pra mim, sem ao menos te olhar nos olhos; ele falou com um olhar perdido. Deixando que a ponta dos dedos corressem pela lateral da face dela, encontrando uma pequena fresta desprovida de prata, fazendo-a sentir um tremor involuntário e descendo até o queixo.
-Co-mo? –ela perguntou tremula.
-Apesar de usar uma mascara você não mente pra mim, embora outros não a usem e sejam um bando de hipócritas; Aiolia falou com olhar perdido.
-Nem todos são assim, você não pode generalizar; a amazona falou, respirando pesadamente.
-Tem razão, mas às vezes é mais fácil pensar o contrario; ele falou com um sorriso triste.
-Somos humanos, querendo ou não temos a necessidade de confiar em alguém, não poderia ser diferente agora; ela falou, fechando os olhos, quando os dedos do cavaleiro desceram até o pescoço num toque inocente e desproposital. –Não pode construir uma torre de pedra para esconder-se e se manter protegido de tudo e de todos.
-Tem razão; ele respondeu com um meio sorriso. –Somos humanos.
-Ahn! Você deveria ir se deitar, não vai conseguir melhorar desse jeito; ela falou sem conseguir reprimir o nervosismo e ansiedade.
-Sabe Marin; ele começou de repente, um brilho diferente tremeluzia nos orbes do cavaleiro que a deixou inquieta.
-O que?
-Eu realmente não me importaria de morrer; ele falou estudando-lhe as reações. –Contanto que fosse pelas suas mãos; ele completou com uma voz sedutora.
Que mudança é essa? –ela se perguntou, engolindo em seco. Uma hora ele era um garoto rebelde e do nada passava para homem incrivelmente sedutor, não precisaria de muito para com facilidade convencê-la a retirar a mascara por conta própria.
-O-o q-que q-quer di-zer com is-so? – Marin perguntou aflita, simplesmente não sabia como sair dali, aonde se metera? –ela pensou suando frio.
-Eu quero dizer que não me importaria de morrer, contanto que pudesse ter o seu rosto como uma ultima visão; Aiolia respondeu serio.
Os dedos do cavaleiro deteram-se na junta da mascara com o rosto, uma pressão a mais ali e ela se desprenderia.
-Aiolia; a amazona falou lhe retendo a mão no ultimo minuto.
O cavaleiro parecia não ouvi-la de tão entretido que estava, observando-a.
-MESTRE AIOLIA; a voz infantil de Litus soou na entrada da casa.
-MARIN; outra pessoa chamou.
Aiolia afastou-se rapidamente da amazona, praguejando internamente pelo que quase fizera, mas simplesmente teve todos os pensamentos racionais obliterados de sua mente ao pensar que estava a um passo de matar aquela curiosidade que lhe consumia toda vez que a encontrava.
-Arg; ele gemeu levando a mão ao abdômen.
-Eu disse pra não levantar; Marin o repreendeu, dando graças por Aldebaran ter aparecido. –Vem, vou te levar pra lá, apóie-se em mim; ela falou, porém ele hesitou. –Vamos logo; Marin falou impaciente, tentando ignorar o que quase acontecera, para agir com naturalidade.
Devidamente acomodado, Marin lhe deu as costas, indo até a porta recebendo Litus e Aldebaran, porém o cavaleiro não deixara de lhe acompanhar com o olhar, mas ao ver o taurino não reprimiu uma veinha de saltar-lhe na testa.
-Nossa que cara emburrada; Aldebaran provocou, vendo a face contrariada do leonino.
-O que quer? –ele perguntou seco.
-Como esta, mestre Aiolia? –Litus perguntou tentando evitar que o irmão brigasse com o taurino... Como sempre.
-Melhor Litus, não precisa se preocupar; ele respondeu, lançando um olhar discreto a amazona que os observava a distancia sem se manifestar. –O que quer aqui Aldebaran? –ele perguntou desconfiado.
-Vim lhe avisar que o mestre o liberou para ir a Jamiel; ele respondeu.
-E o que eu vou fazer em Jamiel? –ele perguntou, já imaginando que Ares lhe mandara para mais uma missão absurda, suicida e que provavelmente iria ser mandado parar no ultimo pedágio antes do inferno, isso quer dizer, algum lugar extremamente longe e que o mantivesse o mais afastado possível do santuário.
-Pedir ao Mú que conserte a armadura, seu idiota, porque no estado que ela esta é impossível lutar; ele respondeu dando um croque na cabeça dele.
-ESTÁ LOUCO, SEU IDIOTA? -Aiolia berrou massageando o local atingido.
-Deixe de ser molenga e pare de dar trabalho a Marin; Aldebaran o repreendeu.
-O que? –Aiolia perguntou engasgando.
-Se eu te conheço bem, deve ter ficado dando trabalho para Marin por ficar levantando da cama e ser um idiota teimoso, então é bom ficar quieto; Aldebaran falou.
-Grrr! Tanto cavaleiro e tenho que aturar justo você; ele falou num grasnado.
-Ih! Será que não é bom mandar vacinar, o que você acha Marin? –Aldebaran provocou o cavaleiro.
-Vá embora; Aiolia mandou.
-Ou você pode preferir o Mascara da Morte, seu inconseqüente; ele falou dando outro croque na cabeça dele. –Se não ficasse provocando aquele caranguejo não teria se ferido antes de lutar contra o titã;
-AI, para com isso idiota; Aiolia reclamou. –E aquele crustáceo mais idiota ainda vai ter o dele, ele que me aguarde; ele completou.
-Pare de falar besteira na frente da criança; ele rebateu apontando pra Litus.
-Litus me desculpa, agora tapa os ouvidos que esse idiota vai ouvir poucas e boas; ele falou tentando se levantar.
-AIIIIIIIIIII; os dois cavaleiros reclamaram, ao levaram ao mesmo tempo um croque da amazona que espantosamente surgia entre os dois tendo uma posição privilegiada para acertar-lhes a cabeça em cheio.
-Athena realmente deveria escolher melhor seus cavaleiros, nem a Litus que é criança é tão infantil quanto vocês dois juntos; ela os repreendeu.
-Desculpe; eles falaram juntos.
-Homens, não sabem resolver nada que não envolva adrenalina e músculos... Patéticos; ela reclamou. Embora aquela mascara lhe cobrisse a face, eles facilmente sabiam que ela os fuzilava com o olhar.
-Nossa! Como a Marin é forte; Litus comentou espantada, vendo os cavaleiros que pareciam se encolher diante da amazona, ainda mais Aldebaran que a seu ver era um gigante tremeu diante da postura irritadiça dela.
-De qualquer forma vou com você a Jamiel; Aldebaran avisou.
-Não vai; Aiolia respondeu.
-Vou;
-Não vai;
-É claro que vou;
-Já disse que não;
-Mestre Aiolia; Litus chamou, porém foi ignorada.
-Vou;
-Não vai;
-O mestre Aiolia; Litus falou, tentando chamar a atenção.
-JÁ DISSE QUE NÃO;
-QUERO IR JUNTO; Litus falou, pegando um cabo de vassoura sabe-se lá de onde e acertando na cabeça dos dois.
-AIIIIII; os dois cavaleiros gritaram.
-Silencio finalmente; Marin falou com a voz divertida, vendo a criança bufar irritada. Assoprando impaciente, uma pequena mexa de cabelos verdes, que caira sobre os olhos.
-Ai Litus, que idéia foi essa? –Aiolia perguntou vendo um galo começar a crescer no local atingido.
-Essa doeu; Aldebaran reclamou, massageando o local atingido.
-Vocês não paravam de brigar, como eu vi a Marin fazer e funcionou, então eu tentei também; ela respondeu inocentemente.
-Ela aprende rápido; a amazona falou se divertindo com a situação.
-Olha só o que você ta ensinando pra ela; Aiolia falou indignado.
-Isso não importa, nós vamos com você; Aldebaran falou.
-Nós? –ele perguntou arqueando uma sobrancelha.
-Claro! Litus vai junto, afinal é importante que uma criança conheça lugares diferentes durante a infância; ele falou com ar responsável. –Por isso modere a língua e pare de falar besteiras na frente da menina, seu inconseqüente; o taurino completou lhe dando outro croque que o jogou na cama.
-Oras seu; Aiolia falou entre dentes.
-Vai ser uma longa viajem, coitado do Mú; Marin murmurou.
-É; Litus concordou. Os dois cavaleiros se entreolharam confusos.
Pouco tempo depois Aldebaran e Litus deixaram a casa da amazona e a mesma avisara o cavaleiro que tinha algumas coisas a resolver, deixando-o sozinho. Não demorou muito para Aiolia cair no sono. Um sono sem sonhos.
Como seria tão simples criar uma fortaleza de pedra capaz de lhe proteger de todos as coisas que lhe ameaçasse, porém a vida não é assim e essa utopia é a primeira a ruir, como um monte de pedras empilhadas ao acaso, quando o vento bate.
Ele já terminara de se arrumar enquanto os três estavam fora da casa. Podia ouvir as vozes, altas e claras. Deixou que seus orbes corressem uma ultima vez por todo o lugar antes de colocar nas costas a urna da armadura e sair.
-Finalmente; Aldebaran falou.
-Idiota; Aiolia rosnou.
-Vamos, mestre Aiolia; Litus falou visivelmente animada com a viajem.
-Vamos sim; ele respondeu num menear de cabeça.
-Até mais Marin; Aldebaran falou recebendo um aceno da amazona. Ele colocou sua mão sobre o ombro garotinha puxando-a para dar uma distancia entre eles e o leonino que intencionalmente ficara pra trás.
-Obrigado mais uma vez; ele falou parando de frente a ela, tinha uma incomoda sensação ao mirar aquela mascara, porém tentou impedir que aquela entranha vontade de tirá-la dali voltasse e lhe obrigasse a realmente ter uma atitude suicida.
-Pelo que? –ela perguntou cautelosa.
-Por tudo; ele respondeu vendo que eles já estavam quase sumindo de vista.
-Vá logo e mande lembranças a Mú; ela falou impaciente.
-Ta certo; ele respondeu com um meio sorriso e um menear de cabeça. –Até mais;
-Até; ela falou entrando em seguida na casa.
Devagar ele começou a seguir os dois, porém seus pensamentos pareciam ter ficado. Não sabia explicar ao certo o que era aquilo, balançou a cabeça pra afastar os recentes pensamentos, tinha agora a importante missão de concertar a armadura e no momento era só o que importava. Embora tivesse certeza de que a curiosidade em saber o que encontraria por baixo da mascara de prata lhe acompanharia por toda a viagem, se não alem...
#fim#
Enfim, acho que podemos tirar uma boa lição disso não?
Por mais que o tempo passe, a idéia de que todos nós. Deuses ou mortais vamos sempre ter a necessidade de confiar em alguém, por mais difícil que isso seja às vezes, é sempre valida...
Cometemos erros, concertamos, fazemos diferente... Assim é a vida.
A noite já cai e a lua vermelha sobe aos céus, imponente. Isso me lembra do Ares, ele sempre vem aqui em dias como esse. Quem sabe qualquer hora ele não aparece para uma visita e também nos conta algo interessante.
Bom, infelizmente essa é a hora que eu menos gosto dessa noite.
Hora de nos despedirmos... Eu sei, vou morrer de saudades, mas nos vemos logo.
Assunto para nós sentarmos e conversarmos não vai falar. Prometo.
Deixo meus mais sinceros agradecimentos aos que perderam um pouco que fosse do seu tempo me ouvindo contar essa crônica.
Então, nos vemos na próxima, que creio eu, vocês vão adorar.
Até a próxima...
