Os rapazes estavam tão concentrados em perceber possíveis problemas no som que acabaram perdendo o olhar preocupado que Shura e Máscara da morte trocaram antes de voltarem para o bar. Do lado de fora, relâmpagos cruzavam o céu.

Depois de cinco minutos de passagem de som, Shiryu ajustou o microfone na frente do palco e os apresentou.

– Boa-noite, pessoal! Nós somos a banda Athena's Saints! Na bateria, Seiya! – no mesmo instante, Seiya começou a literalmente espancar sua bateria. Shiryu precisou reunir toda a sua paciência para esperar que ele terminasse seu pequeno solo... felizmente, algumas pessoas pareceram simpatizar com o baterista hiperativo. – No baixo, Hyoga e, na guitarra, Ikki, a fênix! – cada um soltou um acorde discreto, trocando um olhar que só podia ser descrito como constrangido. – E eu sou Shiryu! Espero que curtam nosso som!

Novamente, os rapazes puseram-se a postos, esperando o grito de Seiya.

No começo do show, o público não parecia lá muito animado, exceto por Shun e Saori que, colados ao palco, gritavam histericamente como se estivessem em um estádio lotado. Shiryu começou a cantar fazendo caras e bocas, andando pelo palco e balançando seu enorme cabelo, e só então um pequeno público começou a se juntar na frente do pequeno palco; não muitas pessoas, mas era o bastante para o resto da banda se soltar e começar a também fazer palhaçadas.

– Saori! Vamos pegar as faixas! – Shun gritou e ele e a amiga correram até as sacolas para pegar as faixas.

– Você acha que eles vão gostar das mensagens? – Saori perguntou, enquanto voltavam para o meio do público.

– Claro que vão. – Shun sorriu, seguindo-a. Saori ergueu uma faixa enorme com o nome da banda escrito e vários corações.

– Vamos distribuir! – Saori mal terminou de dizer e já foi entregando algumas das faixas feitas em casa para quem quisesse.

No palco, os rapazes pareceram gostar, apesar de saberem que seus únicos fãs eram o irmão mais novo de Ikki e sua amiga patricinha. Logo outra faixa pareceu surgir no meio do publico, com os dizeres "Ikki, seu gostoso!" escritos em neon. Ikki quase não conseguiu segurar o riso com as mensagens que se seguiam também por que podiam obviamente ver Saori e Shun andando pelas pessoas.

Assim que a primeira musica terminou, Shiryu agradeceu ao fã clube da banda, recebendo os gritos de Saori e Shun. E o show seguiu normalmente pela próxima meia hora, pelo menos, quando começou chover. Algumas pessoas entravam correndo para o bar procurando abrigo para a chuva. O pequeno público começa a se transformar em uma pequena multidão. As luzes oscilaram por causa da chuva e algumas pessoas soltaram gritinhos.

– Tá bombando, gente! – Seiya grita, espancando furiosamente sua bateria.

De repente, lá pela sétima música, Hyoga se aproxima de Ikki em cima do palco, alarmado:

– Ikki, o que é aquilo? – pergunta. Ikki segue o olhar de Hyoga, tentando enxergar o que estava ocorrendo perto do balcão. Parecia haver um pequeno tumulto acontecendo perto do bar.

– Sei lá. – O barulho havia aumentado de tal forma que os berros de Saori quase se misturavam a multidão. – Será que é briga? – Ikki foi mais a frente do palco, esticando o pescoço. Aparentemente apenas eles dois haviam reparado no tumulto. Contudo, era hora do solo de guitarra, então Ikki volta sua atenção para a performance.

Hyoga, ainda intrigado com o tumulto, continuou prestando atenção, e o que viu em seguida o surpreendeu. Shura estava em pé em cima do balcão, gritando com alguém. O que era aquilo? Máscara da Morte estava mirando um chute na cabeça de um dos fregueses... que parecia estar estava agarrando uma mocinha.

De repente, as luzes se apagaram. Ouvem-se gritos e mais gritos. Celulares se erguem no meio do público e iluminam um pouco o local. Shiryu, tomado por uma inspiração quase sobrenatural e livre da limitação de precisar ficar próximo ao microfone, começa a cantar uma versão a capela de 'We all die young', seguido de Seiya, que aproveitava o fato de não haver mais energia para ligar os amplificadores (e portanto apenas a sua bateria poderia ser ouvida) e batucava um pouco em alguns de seus tambores. O público começa a balançar os celulares de um lado para o outro, como se fossem isqueiros em um concerto épico e como se Shiryu não estivesse desafinando.

Os clarões entrando pelas janelas sujas davam ao show um efeito sobrenatural. Alguns gritos são ouvidos novamente. Desta vez, Hyoga consegue ver o causador do recente tumulto: um homem de meia idade. Contudo, ele não parecia um homem normal: andava meio torto, as roupas surradas.

– Ah, desgraçado. – Shura gritou antes de erguer uma das cadeiras e acertar bem na cabeça do homem. Mais gritos, desta vez mais altos e apavorados que antes. Automaticamente, Hyoga agarra o braço de Ikki, que o olha desconfiado.

– Ei, na frente de todo mundo não, Hyoga. – Brincou, mas viu que Hyoga apontava mais uma vez para alguma parte do bar. As luzes acenderam repentinamente e voltaram a se apagar. – -porréessa? – falou Ikki, olhando para o homem caído no chão, pessoas se afastavam dele, gritando apavoradas.

– Você viu aquilo? – Hyoga perguntou em um misto de pavor e confusão.

– Claro que vi. – Ikki falou não menos assustado. – Por isso eu perguntei que porra era aquela! O Shura acabou de dar uma cadeirada no cara!

– Você viu como ele tava andando, caralho? – Hyoga observou homem voltar a se mexer vagarosamente. – Vixe, ta vivo! – Hyoga exclamou, apertando mais o braço de Ikki.

Qualquer pessoa comum teria no mínimo desmaiado com aquela pancada que Shura havia dado, mas o homem rastejava, tateando o chão a procura de algo. Conseguiu alcançar a perna de uma garota, urrou levantando a cabeça grotescamente desfigurada e a mordeu. O grito agoniado da menina fez todos pararem para olhar aquela cena digna de cinema.

A moça caíra no chão segurando a perna, chorando de dor. Quando o homem se levantou, as pessoas ao redor sentiram um cheiro podre emanando dele. Num impulso, Ikki e Hyoga desceram do palco e com certa dificuldade passaram pelo grupo de meninas que suspiravam observando a performance de Shiryu. De onde estavam, Ikki e Hyoga viram mais três pessoas tão estranhas quanto aquele homem andando em sua direção.

– Ah, merda! – Ikki reclamou, tirando sua guitarra do pescoço e se preparando pra acertar qualquer coisa que viesse na sua frente. Mas um estrondo alto foi ouvido, sangue espirrou para todo lado e o mais próximo deles caiu no chão com um baque surdo. Do cadáver, subia um cheiro que misturava podridão e pólvora.

– Vão ficar parados aí só olhando? – Shura os olhava com um sorriso maníaco e os olhos brilhantes com uma espingarda na mão, como se estivesse se divertindo com aquilo. Logo Máscara da Morte sai detrás do balcão com um revolver em cada mão, apontando para mais uma mulher que ia mancando e gemendo em direção ao palco. Atirou sem nem piscar, fazendo algumas pessoas gritarem, mas ninguém ousou a se mexer. Shura reclamou: – Porra, Máscara, eu queria matar aquele.

– Tarde demais. – Mascara pulou o balcão e foi até o terceiro.

– Mas que merda é essa? – Ikki reclamou, pasmo. – Um Zumbi? Ta me tirando, né? – Ikki viu Saori e Shun chegarem, esse ultimo choroso e assustado.

– Como assim, zumbis? – Saori perguntou, olhando com nojo para o corpo no chão. – Eca...

– Ikkiii! Oquequetaacontecendo? – Shun chorava desesperadamente.

– Então, ta, vocês vão ficar só olhando mesmo, né? – Shura ergueu a voz e falou, para os clientes: – Vamos evacuar o bar agora. Vão para casa! – Mais um tiro e o terceiro zumbi cai no chão. Após alguns segundos de um atordoado silêncio, se fez o caos. As pessoas se empurravam e corriam, gritando. – E vocês – Apontou para Ikki, Hyoga e os demais. – chamem aquele baterista doido de vocês e o cabeludo e venham para os fundos. – Shura foi correndo até a porta atrás do balcão. Saori se disponibilizou para chamar os amigos, e foi desviando das poças de sangue e pedaços humanos espalhados pelo chão. Chegou o mais próximo do palco que pode.

– Shiryu, Seiya, venham por aqui! – Saori chamou.

– Sim! – Seiya foi o primeiro a se levantar e ir correndo até onde Saori estava.

– Agora que a coisa tava ficando boa... – Shiryu suspirou e desceu do palco, desviando das pessoas que ainda procuravam sair do bar.

De trás do bar, Shura tirava algumas pistolas e as passava para os jovens que olhavam com desconfiança para os objetos. Em seguida, o grupo passou pela porta atrás do balcão em direção a uma saída nos fundos.

– Temos uma van nos fundos. – Shura explicou. – Precisamos traçar um plano, mas vamos até lá primeiro. Aqui não estamos seguros.

Trocando olhares assustados, os rapazes e Saori saíram pela porta que Shura indicara. A última coisa que viram foi o bar deserto iluminado ocasionalmente pelos raios que cruzavam o céu.