Capítulo 2 – Sanatório.

Enquanto olhava – confusa - as quatro paredes que me cercavam, percebi que o quarto escuro e abafado – também pudera, não tinha janelas ou coisa parecida – me era extremamente familiar. Com a visão um pouco turva, observei atentamente o lugar, até me recordar: o quarto era antigamente utilizado pelos meus pais para guardas brinquedos e trastes velhos, pertencentes à mim e à Cynthia durante toda nossa infância . Ao saber que estava em casa, me deitei novamente, esperando que não se esquecessem de mim, e viessem me trazer algo para comer – Me surpreendi com a quão faminta eu estava! - Mas o desejo demorou apenas uma fração de segundo para se tornar realidade. A porta abriu-se ruidosamente, e minha mãe irrompeu quarto adentro com as mãos segurando uma bandeja de prata farta de frutas, pães e afins.

- Oh querida! Você acordou! – Dizia minha mãe, em uma voz doce e maternal que eu poucas vezes ouvia sendo direcionada a mim.

- Finalmente! Parece que não como há dias! – Disse, pigarreando alto, fazendo sinal para que ela se aproximasse de mim.

- Querida não vou lhe dar o café-da–manhã aqui – Ela fez uma pequena pausa. – Quero que venha tomar o desjejum junto á nós, na varanda.

- Vou sair daqui? – Disse sem esconder entusiasmo.

- Sim querida, e antes de tudo, eu gostaria de lhe dizer que não fizemos isso por mal! E depois do café, te levaremos para dar um passeio... Mas você tem que me prometer, por Deus, que vai se esforçar para entender que o que estamos fazendo é para o seu próprio bem.

Analisei sua expressão enquanto tentava entender o que ela estava falando. De repente, era como se eu estivesse sedada novamente – Não sentia minhas pernas, e lutava para deixar minha respiração uniforme.

Enquanto tomava o café-da-manhã, tentava prestar atenção nos assuntos falados à mesa – e tentava arduamente bloquear da minha mente as imagens que surgiam tão rápidas e inevitáveis quanto um relâmpago: minhas visões! – tentando captar qualquer informação de qual era o destino de nosso passeio. Pelo menos eu sabia que não ficaria presa em minha própria casa enquanto meus pais – e minha irmã – passeavam por aí.

- Mary, resolveu nos dar a honra de sua presença? – Disse Cynthia em tom de deboche.

- Não estava presa porque quis Cynthia! E não me chame de Mary, eu não gosto! – Disse entre dentes tentando conter minha fúria.

Ela me ignorou e depois se direcionou á papai.

– Pai, eu tenho certeza de que Mary Alice irá saber que pelo menos em algum lugar foi aceita, não é?

- Cynthia, cale-se. De sua irmã eu cuido, cuide você de seus assuntos.

Reprimi um sorriso vencedor que se espalhava lentamente por meu rosto, sem deixar de perguntar sobre o que estavam falando.

- Fui aceita? Onde fui aceita? Não estou sabendo de lugar nenhum no qual tenha me inscrito ou coisa assim... – Eu disse um pouco desesperada, mas também um pouco confusa. Parte de mim sabia a resposta.

- Filhinha, controle – se! – Disse minha mãe, erguendo as mãos para me deter, se fosse o caso.

- Eu não estou fora de controle, mamãe – Disse novamente com os dentes cerrados, minhas mãos coçando; Eu precisava bater em alguma coisa!

- Filha, você sabe que não é normal, não é mesmo? – murmurou meu pai, sem graça.

- Ronald! Ela é perfeitamente normal. – retrucou minha mãe com ar de quem estava contando uma mentira – E talvez estivesse mesmo...

- Vou contar a verdade a ela, de uma vez por todas! – Disse Cynthia, levantando-se bruscamente de seu lugar á mesa. – Minha irmã, você vai para um sanatório, fica no limite da cidade. Desculpe-me, mas, lá você irá encontrar gente igual você, se é que me entende – E ela sorriu presunçosa.

- Sanatório? Mas do que é que você está falando? – Gritei, apavorada.

Minha mãe enxugava os olhos e fungava teatralmente, mas com uma real decepção no olhar.

- Não vou mais causar problemas para vocês estando em um hospício, não é? – murmurei, sentindo meus estomago palpitar e meus olhos se embaçando – talvez fossem lagrimas.

Foi uma longa viagem. Já começava a escurecer quando estávamos nas propriedades de "Adelaide Lockhart Estatuto de Saúde Mental". E então eu entendi a visão que se repetia por semanas. As luzes ao longe, a escuridão banhando a noite sem estrelas, eu estava ficando zonza, e meu pai me apanhou, antes que eu pudesse chegar ao chão. Agora fazia sentido: Eu via minha própria internação, mas sem entender. Visões são complexas demais. Você nunca sabe o que significam, e quando acha uma provável resposta pode ser que esteja errada, tudo é muito indefinido, muito surreal.