O Enigma da Sirene
By Dama 9
Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, apenas Celina, Laura, Ariel, Christian, Carite, Merik, Endora e Ekil são criações únicas e exclusivas minhas para essa saga.
Boa Leitura!
Capitulo 2: A Papisa.
Virou o bule pela segunda vez em sua xícara, o café estava acabando, mas as laminas ainda estavam longe de serem viradas completamente. Levou a xícara aos lábios quando tombou a segunda lamina.
-O que essa representa? –Celina indagou confusa.
Na lamina tombada apareceu com a imagem de uma mulher, cujo rosto era coberto por um véu, o que lhe possibilitava apenas ver o contorno dos orbes misteriosos e enigmáticos.
-A Papisa, também é conhecida como Juno, a representação Roma de Hera. Essa lamina quer dizer sabedoria e um conhecimento especial, geralmente intuitivo, por vezes secreto e oculto; Laura falou com um fino sorriso nos lábios. –O nosso sexto sentido;
-Aonde ela entra na história? –a amazona indagou curiosa.
-Ah ela representa basicamente o começo de tudo; Laura falou. –Ela também representa o lado emocional, o conflito de emoções, o inconsciente e os desejos guardados no fundo do coração. Graças a ela, passado, presente e futuro estão irremediavelmente entrelaçados;
-O que ela prediz?
-Que uma mulher vai entrar em sua vida; ela falou com um largo sorriso. –Coincidência? Destino? Ou mero acaso? Talvez jamais saberemos; ela completou recostando-se na cadeira, lembrando-se exatamente de todas as coisas que aquela lamina trouxera.
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.: A História Dentro da História – O Baile de Mascaras :.
Inglaterra/ Londres 1897...
Carruagens e mais carruagens atravessavam o longo caminho de pedras até pararem em frente ao Palácio de Buckingham. Suspirou pesadamente, não queria estar ali e tinha outros tantos motivos para detestar festas, mas a tia não lhe deixara ficar em casa. Insistindo que precisava sair e ver gente.
-Vamos, anime-se; Carite falou batendo o leque de leve em seu braço.
-Olha para mim, estou resplandecendo a animação, tia; Ariel falou com um sorriso apagado.
-Você não pode parar de viver. É uma lutadora, precisa ser forte; a marina falou preocupada.
A idéia de fazê-la ir a uma festa foi à única coisa que surgiu para tirá-la de casa. Ariel tinha quase vinte e três anos, mas pensava como alguém de trinta.
Depois de viver tantas coisas em pouco tempo, ela precisava de um pouco de descanso para sua mente e coração.
Ekil mergulhara em sua própria dor após a morte de Thétis e depois Sorento. Somente a presença de Endora foi capaz de impedi-lo de chegar ao fundo do poço, mas depois dos acontecimentos do ano anterior a caixa de Pandora fora aberta.
Já faziam quase dez anos que Sorento havia falecido, tendo em seu coração a dor de perder a esposa ainda jovem, quando eles mal haviam completado seis anos de casamento.
E Merik, probrezinho. Fora viver em Milos tentando ao menos viver o pouco que lhe restava com alguma dignidade.
Ninguém poderia saber o que Afrodite iria fazer. Nem que seu plano teria um furo do tamanho de uma cratera e a maldição do sono eterno fosse recair sobre a pessoa errada.
Talvez fosse por isso que Ariel não se aproximava das pessoas, desde pequena ela foi mais introspectiva, sempre grudada aos pais, ficando agitada e desabando em lagrimas quando eles ficavam afastados muito tempo. Perdê-los foi a pior coisa que aconteceu em sua vida, que gerou feridas que jamais iriam se fechar, principalmente quando Ekil contou-lhe a verdade.
Suspirou pesadamente, vira àquelas três crianças crescerem juntas, amando-se e protegendo uns aos outros com as próprias vidas. Merik, Endora e Ariel. Mas isso parecia fazer parte de um passado tão longínquo e não apenas um ano e alguns dias.
Mas agora sua preocupação era com Ariel, não podia mudar o destino dos outros, mas não a deixaria enterrar-se em suas magoas, prometera a prima que iria fazer de tudo para cuidar dela enquanto fosse possível e ali estava, com essa missão.
-Vamos querida, pelo menos se anime, será só essa noite; Carite pediu arrumando a mascara de borboleta sobre a face.
A carruagem parou em frente ao palácio e a porta logo se abriu. Um rapaz estendeu-lhe a mão cordialmente para lhe ajudar a descer, respirou fundo, primeiro um pé depois o outro; a jovem de melenas negras pensou, tentando não voltar para dentro da carruagem novamente e mandar o cocheiro lhe levar para a casa.
Quando os pés tocaram o chão, o longo vestido branco esvoaçou levemente, os braços delgados estavam cobertos por luvas da mesma cor e o corpete era bordado com delicados cristais. A saia longa e rodada possuía um véu prateado com cristais bordados. Um vestido digno da Cinderela dos Irmãos Green.
Arrumou melhor a mascara sobre a face, era fina e delicada como todo o resto, com cristais incrustados, mas nem mesmo o brilho deles era capaz de competir com a intensidade dos orbes tão violetas quanto ametistas.
Carite desceu logo atrás, tomando o cuidado para que o vestido não enroscasse nos sapatos e ajudou-a a terminar de compor a fantasia.
Ariel bufou exasperada, quando sentiu-a pregar algo a suas costas. Mais um motivo para detestar aquela festa, se sentiria mais a vontade vestida como pierrô do que como o anjo de candura que a tia fizera questão de lhe fazer parecer, ainda providenciando as asas, o pior de tudo.
-Você esta linda querida; Carite falou sorrindo.
Se Ariel ainda estivesse viva e colocasse as duas lado a lado, era possível que se passassem por irmãs gêmeas. Os mesmos olhos, os mesmos cabelos. Apenas em alguns momentos como quando Ariel se irritava seus olhos mudavam de cor, tornando-se rosados, quase vermelhos como os de Sorento, mas em praticamente tudo ela havia puxado a mãe.
-Bondade sua tia; Ariel respondeu sem esconder o sarcasmo.
Começaram a andar em direção a entrada, mal notando ter seus passos acompanhados por intensos orbes azuis, que lhes fitavam de um dos balcões acima, na ala norte do palácio.
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Levou a taça de champanhe aos lábios, enquanto se distanciava do salão principal. Não podia dizer que detestava aquelas festas, mas ultimamente as achava terrivelmente enfadonhas. Eram sempre as mesmas pessoas, sempre as mesmas debutantes querendo laçar um marido rico e o pior, sempre as mesmas velhas querendo empurrar suas debutantes sem cérebro para algum marido igualmente sem cérebro.
Ouviu o suspiro das damas por onde passava. Houve uma época que isso enalteceria seu ego, mas hoje lhe aborrecia profundamente. Estava cansado de ser paparicado pelas damas da corte e de ser alvo das mais variadas caça dotes que a sociedade londrina poderia ter.
-"O que a idade não faz com um homem"; ele pensou, aborrecido.
Encontrou uma porta voltada para os balcões da ala noite livre e entrou, torcendo para ninguém ter lhe seguido até ali. Encostou-se no beiral de balaústres, apoiando a taça sobre a mesma.
A noite inglesa estava agradável, mas lhe aborrecia o fato de olhar para o céu e não conseguir enxergar as estrelas. Não como em sua terra.
Deixou os orbes caírem para a terra e surpreendeu-se ao ver um delicado anjo descer da carruagem.
Os cabelos negros estavam presos no alto da cabeça por um coque, mas um ou outro fio rebelde insistia em escapar, caindo sobre o colo acetinado. O vestido bordado com cristais a fazia parecer uma princesa saída dos contos de fadas, como o daquela jovem do sapatinho de cristal, da história contada pelos Irmãos Green.
Observou-a atentamente, quando viu outra pessoa descer logo em seguida da carruagem, provavelmente alguma dama de companhia, mas surpreendeu-se ao reconhece-la.
-Carite; ele falou surpreso.
O que ela estava fazendo ali? Ou melhor, como ela conhecia aquela jovem que mais parecia um anjo, do que uma mulher como as outras? Uhn! Iria descobrir nem que levasse a noite toda; ele pensou afastando-se rapidamente.
-o-o-o-o-o-
Entrou no salão com as costas eretas e o queixo erguido, disposta a não se sentir intimidada pelo primeiro baile de gala em Londres, mas sentiu a determinação esmorecer quando todos os olhares se voltaram em sua direção.
Sentiu a face aquecer-se, não estava acostumada com isso. Nas festas em Atenas, normalmente todas as atenções eram voltadas para Endora, não que isso fosse ruim, é claro, tanto que preferia não chamar a atenção, entretanto agora esses olhares eram de dar nos nervos.
-Boa noite. Sejam bem vindas; um arlequim falou surgindo de repente a sua frente e instintivamente recuou um passo.
-Boa noite; Ariel responde em tom frio.
-Que está noite seja repleta de sonhos e que as mais loucas fantasias se tornem realidade; ele falou de maneira sedutora ao rodear a jovem, lançando-lhe um olhar avaliativo dos pés a cabeça.
-Lorde Whilmout, detestaria ter de já começar a prevenir minha sobrinha sobre quem são os pervertidos de Londres; Carite falou parando ao lado de Ariel e batendo no braço do arlequim com o leque fechado.
-AI, milady... Não vamos radicalizar; o conde falou se afastando ao notar o olhar entrecortado que recebeu. –Mas permita-me perguntar se sua sobrinha por acaso não se machucou?
-Como? –a marina indagou confusa, enquanto os olhos do arlequim miravam a jovem, esperando uma resposta para seus gracejos.
-Quando caiu do céu; ele falou com um sorriso que estava longe de ser inocente, mesmo tendo o rosto parcialmente oculto pela mascara.
-Espero que milorde não ganhe a vida apenas como poeta, Conde Rochester. Porque seus versos são dignos de pena... Agora se nos da licença; Ariel falou tomando o braço da tia e puxando-a consigo.
Carite riu, enquanto acenava para o conde e se afastava. Sabia que Ariel odiava homens atirados e com fama de devassos, mas não imaginou que o tiro iria ser tão certeiro como no conde.
-Obrigada pelas boas vindas John; ela falou acenando.
-Sua sobrinha vai se dar muito bem nessa temporada, milady; o Conde falou sorrindo, antes de voltar para a porta e cumprimentar os recém chegados.
-o-o-o-o-o-o-
-"Homens, eles e essa mania de só pensarem com a cabeça de baixo"; ela pensou irritada.
Queria que a fantasia fosse de Anfitrite, assim se furasse algum pervertido com o tridente, poderia alegar "empolgação excessiva".
Freou seus passos quando a sua frente surgiu uma perfeita representação de Henri Tudor. Pensou em pedir licença, mas diante do olhar intenso que recebeu, apenas estancou no lugar.
O homem a sua frente, vestia roupas antigas, da época do inicio do reinado Tudor, em tons azuis, com finos bordados em dourado. As mãos eram cobertas por luvas, mas podia ver um anel de pedra solitária vermelha sobre o anular da mão esquerda.
Mas diferente de qualquer um dos homens ali que eram loiros ou morenos, o Rei Inglês a sua frente tinha longos cabelos vermelhos, como lava derretida e embora a mascara negra lhe cobrisse uma boa parte da face, conseguia ver seus olhos. Azuis como safiras.
Ou melhor, eram olhos de um homem que sabia o que queria. Um predador. Tipicamente felino.
Conteve um arrepio que subiu pelo meio das costas quando os orbes azuis recaíram sobre si. Ele exalava força e imponência apenas com sua presença, mas havia algo de familiar naquele estranho, muito familiar.
-Boa noite, Vossa Graça; Carite falou parando ao lado da jovem e fazendo uma breve mesura.
Talvez aquela festa afinal não fosse ser de todo ruim, mas admitir isso para a tia, estava completamente fora de cogitação.
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.I.
Parou em frente ao castelo de Jamiel, erguendo os orbes para o céu, estava de volta em casa; ele pensou transportando-se para dentro. Ainda continuava do mesmo jeito que deixaram antes de partir para o santuário. Subiu as escadas principais e chegou a torre.
Ao longe conseguia ver a cachoeira mística e o bosque. Respirou fundo, fechando os orbes por alguns instantes.
Tudo estava acontecendo tão rápido que mal processara as informações de que agora as coisas não seriam nada fáceis.
Voltar-se contra o novo Grande Mestre era considerado traição ao santuário, mas não se importava. Qualquer um que quisesse lhe desafiar em nome de Ares, iria morrer sem um pingo de piedade de sua parte; ele pensou, com os orbes verdes enegrecendo.
Não conseguia conceber a idéia de que aqueles idiotas agora simplesmente diziam "Amém" para as ordens de Ares, sem nem ao menos pestanejar. Era para Dohko ser o novo Grande Mestre, já que Aioros não estava mais vivo e o pior, acusado de traição.
Suspirou pesadamente, pelo que já vira de Ares, logo viria a retaliação, era só acabar o teatrinho de irmão inconsolado, para ele voltar a mostrar as garras novamente.
-Mú; uma voz suave e melodiosa ecoou por todo o cômodo.
Um cheiro suave de lírios chegou até si, não se lembrava de já ter sentido aquele cheiro antes, mas ele parecia inebriar-lhe os sentidos.
-Venha; a voz sussurrou novamente.
Era como se um par de braços lhe envolvesse o corpo com delicadeza e alguém lhe afagasse os cabelos.
-Venha;
Fechou os olhos sentindo vertigem, segurou-se no batente da janela, quando seu cosmo, sem que tivesse controle, elevou-se, fazendo-o simplesmente desaparecer dali, como se uma força maior lhe puxasse para outro local.
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Pela primeira fez desde que começara a dançar, um fino sorriso formou-se em seus lábios. Em meio aos movimentos ritmados da musica tocada por um grupo de ciganos ali perto, retirou um véu preso ao pulso.
Dava voltas e mais voltas, movendo-se com graciosidade. Jogou o véu para cima e todos o acompanharam, esperando o momento que ele iria retornar, mas o choque foi geral quando não viram mais a cigana de melenas azuis ali.
E em seu lugar havia apenas um lírio branco, sobre o véu azul.
.II.
Sentiu-se perdido por aparecer em um lugar tão estranho. Viu imensas casas, prédios e carros, muito barulho e agitação, bem diferente do que estava acostumado a ver.
-Escuse-me Sir; uma voz feminina chegou até si.
Virou-se para ver quem lhe chamava, mas assustou-se quando uma mulher apareceu a seu lado, puxando-lhe a mão.
-Uhn! –ela murmurou, segurando ainda mais forte, impedindo-o de se afastar.
Mú estranhou, ela estava com uma capa nas costas e um lenço a cobrir-lhe a face, mas seus olhos eram de um violeta intenso e aquele cheiro de lírios parecia impregnado em toda parte agora.
-Vê-se que tem um destino bem peculiar; ela falou cutucando-lhe a mão com a unha bem feita e pontiaguda.
-O que? –o cavaleiro indagou ainda confuso com a abordagem dela.
-Acredite no que esta cigana diz meu jovem, seu destino esta para mudar, principalmente quando mulher misteriosa entrar em sua vida; a cigana falou com uma voz penetrante, erguendo os orbes na direção dele.
Sentiu um arrepio correr pelo meio das costas ao fitar-lhe.
-Acredita em destino? –ela indagou.
Os orbes verdes escureceram por um momento, tornando-se totalmente frios.
-Não; Mú respondeu puxando a mão de volta. –O destino somos nós quem fazemos, não alguém que tece por nós; ele completou dando-lhe as costas.
-Por isso lhe trouxe aqui; a voz dela soou como um sussurro em seu ouvido.
Virou-se rapidamente para trás a tempo de ver o lenço que cobria o rosto dela cair no chão e a cigana entrar em uma ruela, deixando que visse apenas uma mexa azulada escapar.
Correu, tentando segui-la, mas ao virar a rua não encontrou ninguém, apenas o lenço caído.
Aspirou o ar, sentindo o cheiro de lírios impregnado no tecido. Quem era ela? –Mú se perguntou confuso.
-Vamos logo, ouvi dizer que ela esta dançando na praça; alguém falou passando por ele.
-Ela é linda; outro rapaz falou suspirando.
Sem saber ao certo o que estava fazendo seguiu os rapazes até a tal praça. Deixando-se guiar por seus instintos e pela certeza de que encontraria a misteriosa cigana lá.
Viu várias pessoas formando um circulo na praça mais próxima, uma música animada vinha das redondezas. Era o som de violinos, mas diferente daquilo que já ouvira sobre os clássicos de Vivaldi como as Quatro Estações, essa era extremamente diferente.
Aproximou-se do circulo e surpreendeu-se ao ver uma jovem dançando ali. Ela era realmente muito bonita; o cavaleiro pensou concordando com os comentários que ouvira ao longo do caminho.
Observou com atenção os longos cabelos azuis quase acinzentados caírem pelo meio das costas e rodopiarem, seguindo o ritmo dos movimentos dela. Os orbes eram capaz de seduzir e enfeitiçar até o mais santo dos homens.
Agora o corpo delicado e esguio dançava de forma mais lenta e sensual, com os orbes cravados apenas em uma pessoa, fazendo alguns rapazes suspirarem decepcionados.
-Como se chama? -uma voz suave soou em sua mente, em quanto mantinha os orbes fixos na jovem.
-Mú e você? - ele indagou cauteloso.
Era melhor ter cuidado, ela não era uma mulher comum, se era capaz de transmitir os pensamentos para si, deveria ter controle total sobre seu cosmo e poderes que um humano comum não teria.
-Laura; ela falou, assustando-o ao surgir de repente a sua frente.
-Uhn –Mú murmurou recuando um passo, mas sentiu um laço macio e perfumado envolver-lhe o pescoço, puxando-o para a frente novamente, tão perto que seus lábios quase se roçaram.
-Sollo; a cigana completou num sussurro sedutor que o deixou embriagado.
Olhos verdes em violeta, o tempo pareceu parar, a música foi ignorada e palavra alguma foi dita.
Sentiu o lenço deslizar pelo pescoço e ela inclinou-se um pouco para trás, antes que pudesse pensar em alguma coisa, uma nuvem prateada cobriu seus olhos, seguido de um estouro de explosão.
Recuou alguns passos ouvindo palmas alvoroçadas dos espectadores.
Consternado, afastou-se no meio da multidão. Sentia sua mente dar voltas, quem era aquela garota? Alias, o que ela e aquela cigana, tinham em comum? E também, onde estava?
Caminhou no sentido contrario a praça. Algo em sua mente dizia que o melhor era ir embora, ignorar aquilo que acontecera, mas outra parte de si, talvez a mais rebelde como diria Ilyria, queria ficar e descobrir a verdade sobre a jovem que se intitulara Laura Sollo. Principalmente porque parecia ser ela, o motivo de ter surgido naquele lugar tão estranho.
.III.
Um meio sorriso formou-se em seus lábios, enquanto de uma das janelas do alto da torre do relógio o via se distanciar.
Agora que as apresentações estavam feitas, tudo ficaria mais fácil; ela pensou passando a mão suavemente pelos cabelos azuis.
Guardou o lenço que tinha em mãos no bolso da calça, afastou-se da sacada, abaixando-se até o chão e jogando a blusa e a saia de cigana dentro de uma mochila, seguido pela capa negra e os brincos de argola que quase lhe tocavam os ombros.
Respirou fundo, ajeitando a blusa de alcinhas branca sobre o corpo, já devidamente trocada. Jogou a mochila nos ombros e começou a descer as escadas de volta.
Estava na hora de colocar a parte dois do plano em ação.
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-"Uma mulher"; ele pensou sentando-se em um banco qualquer que encontrara nas ruas.
Lembrava-se das palavras da cigana, que conveniente, mais uma prova de que não existia o destino. Respirou fundo, sentindo o cheiro de lírios impregnar no ar e em sua pele.
Precisava descobrir o que ela queria de uma vez e voltar para Jamiel. Sentiu alguém sentar-se a seu lado, mas não se importou, estava imerso de mais em seus pensamentos.
-Acredita em destino, Mú? –uma voz suave perguntou, chamando-lhe a atenção.
Virou-se e quase deu um pulo ao ver uma jovem ali, a mesma dançarina, mas com a voz suave e controlada. Semelhante a da dançarina.
-É um prazer conhecê-lo depois de tanto tempo, Mú de Áries; a jovem falou sorrindo. –Pode me chamar de Laura ou de Bel se preferir, o porque, um dia eu te conto; ela falou de maneira enigmática.
.: A História Dentro da História – O Rei Tudor :.
-Boa noite, Vossa Graça; Carite falou parando ao lado da jovem e fazendo uma breve mesura.
Não se curvou, na Grécia não tinham o costume de venerar títulos, então, ele sendo Visconde, Marques, Conde ou Duque, não o tornaria superior a ninguém e também, não seria tratado como tal; ela pensou.
-Boa noite, ladies; ele falou curvando-se de maneira respeitosa.
Sua voz era grave, com a intensidade de trovões que retumbavam nos céus, antes do cair da tempestade, porém o tom levemente enrouquecido era mais acentuado, como se acobertasse algo familiar, um sotaque que se insinuava em meio a pronuncia de um inglês perfeito.
-Espero que estejam apreciando a festa? –ele falou em tom polido e controlado. No meio de tantas pessoas não poderia demonstrar interesse excessivo em nenhuma das jovens ou poderia estar sendo arrastado para o altar na manhã seguinte.
Lutou para manter o sorriso que ameaçava escapar de seus lábios, apenas em seus pensamentos. Aquela jovem estava longe de ser o anjo de candura que pensara a primeira vista.
Seus orbes tão intensos quanto ametistas eram desafiadores e sua língua ferina era tão cortantes quanto laminas de floretes. Vira a resposta entrecortada que Rochester levara e não duvidava que a maioria dos cavalheiros que pensava em se aproximar houvesse imediatamente mudado de idéia.
Em sua opinião aquela bela jovem passara de um frágil Beija-Flor a Gato Selvagem, que mau via a hora de eriçar as garras e arranhar alguém.
-Acabamos de chegar; Carite falou, pousando a mão enluvada sobre o ombro da sobrinha. –Vossa Graça, está é Ariel, minha sobrinha;
-É um prazer milady; Christian falou curvando-se de maneira inesperada e tomando uma das mãos da jovem entre as suas, pousou um beijo lento sobre as costas, sem nem ao menos desviar o olhar um segundo sequer dos dela.
-Gostaria de poder dizer o mesmo, Vossa Graça, mas não o conheço para ter tal opinião sobre sua pessoa; Ariel respondeu friamente.
-Ariel; Carite falou com um olhar suplicante,para que ela controlasse a língua. Ai estava mais uma coisa que ela herdara da mãe, as duas falavam o que pensavam sem pesar os pros e os contras, como agora.
-Os ingleses que se cuidem, temos uma jovem voluntariosa entre nós; O duque gracejou.
-Apenas falou o que penso Vossa Graça, seria hipocrisia de minha parte, dizer que estou estarrecida por lhe conhecer. Se não faço a mínima idéia de quem seja e um titulo não faz um homem; Ariel falou e por ironia do destino nesse exato momento o salão todo ficou em silêncio, ouvindo com perfeição o que ela acabara de dizer ao duque, que representava o braço direito da rainha, na câmara dos lordes em Londres.
-Mas um homem faz o titulo, se tiver caráter e força de vontade; ela completou ignorando os olhares lançados em sua direção.
Observou-a longamente, quantos anos ela deveria ter, dezesseis, dezessete? Entretanto tinha o raciocínio rápido e lógico de um adulto experiente. Aquela jovem era fascinante; ele pensou.
-Uhn! Se não se importar Carite, gostaria de dar uma palavrinha com sua sobrinha; Christian falou voltando-se para a marina.
-Ariel? –Carite falou, esperando-a responder. Sabia que se ela dissesse não, Christian não a tiraria de seu lado nem a arrastando, embora seria interessante vê-lo tentar; ela pensou tendo uma grande idéia.
A jovem deu de ombros, tomando aquilo como uma resposta positiva, Christian estendeu-lhe o braço, fazendo-a enlaçar o seu. Voltou-se para falar com a tia, mas Carite havia desaparecido.
-Então, existe um homem real por baixo da mascara, ou deveria lhe chamar apenas de Henri Tudor? –Ariel indagou enquanto era guiada através do salão pelo duque mascarado.
-Milady é bastante perspicaz. Como sabe que estou vestido como Henri Tudor? –ele indagou, curioso.
-As cores da roupa; a jovem respondeu sem nem ao menos voltar-se para ele. –A Era Tudor foi marcada pelo azul e como qualquer outra, foi influenciada pela moda francesa. Luiz XIV fez seu próprio estilo, quando os tons pastéis deixaram de ser apenas para vassalos e pessoas comuns, para pertencerem aos nobres, então o branco, bege e o amarelo claro começaram a serem mais usados em roupas. Já Carlos V trouxe o famoso pretinho básico as nossas vidas. Tornando tudo mais sóbrio e contido. E a julgar pelo fato de que Vossa Graça se comporta como um verdadeiro inglês, porque não Henri Tudor; ela completou.
-Impressionante; Christian falou, embora estivesse mais chocado do que surpreso. De onde ela tirava todas aquelas coisas, as outras mulheres que encontrara ali desde que chegara lhe confundiram com Luiz XVI outras quase lhe chamaram de Carlo da Espanha como se ele tivesse cara de espanhol e o mais absurdo de todos, César o imperador romano.
-Não fique, não me sinto nem um pouco lisonjeada com sua surpresa. Principalmente se levarmos em consideração o fato de que milorde, não deve estar acostumado a falar com mulher que não precisem de ajuda para pensar, ou melhor, que saibam usar a cabeça para pensar em vez de apenas repovoar a terra como coelhos; ela completou mordaz.
Entreabriu os lábios para falar, mas as palavras simplesmente não saíram. Aquela garota era surpreendente, em seus quase quarenta anos de idade jamais pensou que um dia fosse encontrar uma mulher assim. Que não temesse falar o que pensa e que não fosse se intimidar por um titulo.
Definitivamente ela estava longe de ser um anjo, mas o mais estranho nisso tudo era que não se importava nem um pouco. Queria conhecê-la melhor, saber tudo o que pensava e quais eram suas opiniões e argumentos sobre tudo e todos.
-Alem do mais, Vossa Graça não consegue disfarçar o sotaque; Ariel completou.
-Como? –Christian indagou voltando-se para ela, esperando uma resposta, mas apenas sentiu-se tragado por aquele mar violeta.
-Vossa Graça vem de família grega, ou apenas passou algum tempo no Mediterrâneo? –ela indagou calmamente.
-Meus pais, embora eu tenha vivido a maior parte da vida na Inglaterra; bem, de tudo aquilo não era mentira. Seus pais eram gregos, porém estava vivendo em Londres à tanto tempo que pensou que o sotaque houvesse desaparecido com o tempo, mas como ela o reconheceu, seu inglês era perfeito; ele pensou confuso.
-Foi o que pensei, por um momento imaginei que fosse alguma influência italiana, embora o sotaque grego seja inconfundível; Ariel falou, enquanto eles voltavam a andar.
-Como milady descobriu? –Christian indagou casualmente.
-Lógica pura e simples; Ariel respondeu dando de ombros.
-Então milady iria gostar de conversar com Arthur; Christian falou, parando de andar e pegando duas taças de champanhe que um garçom que passava por eles lhes estendeu.
-Obrigada; Ariel murmurou, ao levar a taça aos lábios. –Mas quem é Arthur?
-Sir Arthur é escritor; ele explicou calmamente, mas surpreendeu-se ao ver os orbes violetas cintilarem de pura e simples curiosidade. Jamais se cansaria de conhecer todas as facetas daquela jovem.
-Sir Arthur Conan Doyle? –ela indagou, vendo-o assentir. –Ele esta aqui? –a jovem falou surpresa.
-Nem sempre ele freqüenta esses eventos, mas é possível que esteja aqui hoje; Christian falou, um tanto quanto incomodado com a empolgação da jovem a menção do escritor. Mesmo porque, duvidava que a maioria das jovens da idéia dela se interessassem pelos suspenses e aventuras que surgiam nas histórias do detetive inglês que Doyle chamara de Sherlock Holmes, alguém capaz de fazer com que os maiores agentes da Scotland Yeard sintam-se amadores, perto dele.
-Esta ai alguém que eu gostaria de conhecer; Ariel comentou pensativa. –Acho que já li a maioria dos livros dele, Signo dos Quatro, A Vampira de Sunsex, todos são muito fascinantes, mas eu particularmente gosto daquelas em que os planos do Professor Moriarty são desbancados pela lógica pura e simples do Sherlock e o Watson é um bom coadjuvante; ela falou.
-Então, milady gosta de ler; ele comentou distraidamente.
-Gosto; ela limitou-se a responder. Estava começando a se irritar, aqueles burburinhos estavam aumentando à medida que andavam pelo salão, se na manhã seguinte ouvisse um comentário malicioso iria esganar a tia; ela pensou lembrando-se que convenientemente Carite sumira na hora menos oportuna.
-Por favor, ignore; Christian pediu, chamando-lhe a atenção ao pousar a mão enluvada sobre a sua.
-Uhn! –Ariel murmurou virando-se para ele, vendo-o dar um suspiro cansado.
-Parece que alguém andou espalhando que eu sou o "solteiro da temporada", tido como bom partido e bem... Milady sabe como as pessoas gostam de uma fofoca; ele falou colocando a mão da jovem sobre seu braço novamente e a puxou consigo.
Parece que a manhã seguinte iria ter de agüentar meio mundo em cima de si especulando sobre o possível interesse que estava demonstrando na dama de branco. Mas não sabia mentir nem fingir, queria conhecê-la melhor e romper aquela parede que ela erguera contra si, ou não seria exatamente contra si, poderia ser um mecanismo de defesa dela, para impedir que as pessoas se aproximassem. Mas porque?
-Vossa Graça pode dizer as damas para ficarem tranqüilas, então; Ariel falou com um sorriso travesso. –Não estou em busca de partido algum; ela respondeu de maneira fria.
-Então devo dizer aos cavalheiros que fui o único privilegiado por ter um pouco de sua atenção? –ele rebateu de maneira galante, levando-a até uma das sacadas que eram voltadas para a ala norte dos jardins.
-Vossa Graça ainda não me disse quem realmente é, será que terei de perguntar a alguma possível "Anna Boleyn" perdida pelo salão, para saber? –ela falou, mudando de assunto.
Sabia que ele estava flertando consigo, mas aquele era um terreno novo que não queria pisar. Sua estadia em Londres seria breve, viera apenas para averiguar as propriedades que seu pai deixara para si e que até um ano atrás estavam sendo administrados pelo tio.
Depois iria partir, para onde? Não fazia a mínima idéia, a única coisa que sabia era que não iria voltar mais a Grécia. Não depois de tudo; ela pensou, sentindo o coração se comprimir.
Foram tantas perdas em tão pouco tempo. A mãe, o pai, tio Ekil, Endy e agora Merik também. Não suportava perder mais ninguém; ela pensou contendo um suspiro de desalento.
-Christian; o rei Tudor falou recostando-se de lado no beiral, enquanto brincava distraidamente com a taça que tinha na outra mão. –Christian Dampier; ele completou voltando-se para a jovem que tinha a expressão inalterada.
Ela realmente não fazia a mínima idéia de quem era; ele pensou agradavelmente surpreso.
Continua...
