CAPÍTULO II

"Vento e Cerejeiras"

Na manhã seguinte, mal o dia raiou, Saito entrou pela porta adentro do quarto do jovem capitão do primeiro esquadrão dos Shinsengumi! Verificou o quarto todo, como um policial á procura de provas de um crime! Não encontrou nada e suspirou de alívio.

- Saito, tens noção das horas que são? – perguntou Okita, sonolento.

- Tu não dormiste com ela! – disse, como se fosse a coisa mais importante da sua vida!

- Não! – confirmou Okita – Mandei-a para o quarto!

- Ó meu Okita! – sorriu Saito, atirando-se para cima dele, que logo o afastou.

- Pára com isso! – debateu-se Okita.

Deu um empurrão a Saito, que caiu no chão de madeira, fazendo um enorme estrondo. Okita levantou-se do seu futon e correu a ver se o capitão do terceiro esquadrão estava bem.

- Desculpa! – disse Okita – Eu não consigo medir a minha força!

- Não faz mal! – sorriu Saito, depois abraçou fortemente Okita – Que bom, meu amor! Estou tão contente por não teres feito sexo com ela! Ainda te está a guardar para mim …

- Já te pedi para parares! – repetiu Okita, afastando Saito – Não dormi com ela porque não concordo com o que lhe estão a fazer! Mas tu dormiste!

- Tenho de admitir que sim! – sorriu maliciosamente, Saito.

Não percebendo porque, Okita sentiu um sentimento bem negativo a crescer dentro de si! Sentiu raiva, ciúme. Não percebia o que se estava a passar na sua cabeça, mas sentia uma batalha interior. Como se a "Razão" estivesse a travar uma luta contra o "Coração".

- Nunca pensei que vocês pudessem fazer uma coisa assim! – disse Okita – É repugnante!

- Eu não penso dessa maneira! – riu-se Saito – Até acho que a miúda é uma óptima maneira de aliviar o stress acumulado das batalhas! Tu estás muito tenso! Devias experimentar. Sentias-te muito mais relaxado. E que tal agora, hum?

Okita afastou-se de Saito e foi até á varanda do seu quarto. O leve vento da noite passada invadiu o quarto, sentiu o cheiro a flores de cerejeira. Olhou para o jardim e viu-a. Ichiru debaixo de uma cerejeira, sentada no chão. A sentir o mesmo vento que ele.

- Ninguém come hoje? – perguntou Sanosuke Haraga, o capitão do décimo esquadrão dos Shinsengumi.

- Bom dia, Sanosuke-san! – sorriu Okita – O pequeno-almoço está pronto?

- Está! – afirmou Sanosuke – Hayume-san (cozinheira inventada por mim) já estava a preparar antes do sol nascer!

- Então vamos! – sorriu Okita, seguindo Sanosuke.

Saito sentiu-se frustado e irritado. Saito já tinha tentado milhares de vezes e Okita nunca cedia! O que se passaria com o jovem capitão?

Depois do pequeno-almoço , Okita decidiu ir dar uma volta ao jardim do Dojo. Era bom sentir aquele vento e aquele aroma a cerejeiras. O festival estava próximo. E Kyoto já estava decorado. Andou, andou, mas os seus pés pararam automaticamente quando deu de caras com Ichiru. Ela aproximou-se.

- Bom dia, Souji! – sorriu Ichiru.

- Bom dia, Ichiru-san! – sorriu, como habitual, Okita.

- Não sabia que gostavas de vir ao jardim! – disse Ichiru – Os outros Shinsengumi não fazem isso.

Com o vento a esvoaçar os longos cabelos e o aroma a cerejeira tornavam-na mais bela. Ichiru era o tipo de mulher que não precisa de produção para ser bela. Ela apenas usava um quimono vermelho com um obi preto, muito simples mas elegante.

- Eu gosto de apreciar as coisas simples da vida! – sorriu Okita, aproximando-se dela – Eles não são muito dados a isso! Mas eu gosto de apreciar o que é belo.

Okita sorriu. Um leve vento envolvido com pétalas de flores de cerejeiras invadiu o cabelo de Ichiru, fazendo com que o belo rosto fosse totalmente descoberto, revelando toda a sua beleza. Uma beleza angelical que contrastava com um corpo sensual que todos os homens admiravam e muitos já possuíram.

- O Festival está a chegar! – disse, por fim, Okita.

- Na época do Festival eu era a mais requisitada pelos homens de altos cargos do exército!

Ichiru caiu no chão, a chorar. Okita não se conteve e abraçou-a.

- Não chores! – sussurrou Okita – Isso é passado! Não vai voltar.

- Eu … sniff … sou uma prostituta! – chorou Ichiru – Sniff … uma … prostituta!

Para justificar a profissão que ela obrigada a ter, Okita não conseguia encontrar palavras de consolo. Apenas a abraçava. Sentia o seu aroma … a cerejeira.

- Calma – sorriu Okita, colocando o rosto dela nas suas mãos – A culpa não é tua!

- Eu estou sozinha neste mundo! – chorou a jovem.

- Não, não! Tens-me a mim! Sou teu amigo!

Okita surpreendeu-se com as suas palavras, mas acalmaram Ichiru e fizeram-na esboçar um tímido sorriso.

As semanas foram passando, o Festival ia-se aproximando. Okita e Ichiru estavam cada vez mais próximos. Era ela que cuidava das feridas dele quando ele se magoava numa batalha, uma vez ele chegara com muitos cortes e Ichiru ficou desesperada:

- Já viste como é que ficaste!?

Ichiru observava as costas de Okita, que tinham um enorme corte, que sangrava, Okita tossiu e expeliu sangue, mas pensaram que seria do corte. Ichiru desinfectou a ferida e cozeu-a com o maior cuidado possível. A sua afecção pelo jovem capitão ia crescendo com o tempo que iam passando juntos, e vice-versa. Ichiru tornou-se como essencial nos dias de Okita, que já não conseguia viver sem a presença da rapariga.

Saito é que não achava piada nenhuma a esta aproximação; para os outros Shinsengumi esta ligação nem sequer existia! Estavam mais preocupados em matar revolucionários. Saito ainda tentava inventar desculpas ridículas e sem nexo para Okita se afastar de Ichiru, mas sem efeito! Okita já estava demasiado apegado á jovem prostituta!


CONTINUA no próximo capítulo: "Cores Quentes do Festival"