If You...

Capítulo II: Could It Be Any Harder

Fugitaka suspirou cansado, enquanto olhava para as nuvens brancas pela janela do avião. Estava indo para mais uma expedição... Outra longa e exaustiva expedição... Não que não gostasse mais do que fazia. Arqueologia ainda era sua grande paixão! Mas, recentemente, sentia-se tão vazio... Tão amargurado... Acreditava que o motivo por trás desse sentimento fosse a mudança de seu filho primogênito. Touya havia ido para a Toudai e se mudado para Tóquio. Tinha sido sem dúvida, uma das maiores felicidades de sua vida! Seu filho na maior universidade do Japão! Medicina! Não poderia estar mais orgulhoso!

Nas primeiras semanas, a casa ficou tão vazia, tão entristecida... Sakura estava um pouco abatida, mas logo se recuperou e o sorriso voltou ao belo rosto da filha. Mas porque com ele estava sendo diferente? Porque o buraco em seu peito e a sensação de perda constante? Sentia-se sozinho, abandonado... Touya ligava todos os dias e vinha aos fins de semana. Sakura estava sempre em casa, fazendo companhia, agradando-o, ajudando-o... O que faltava?

Olhou novamente para a janela e já era possível ver a cidade abaixo. Pequenina a princípio e aumentando aos poucos. Suspirou indisposto, deprimido, não querendo encarar o compromisso. Definitivamente, havia algo errado! Sempre esteve animado na espera de cada viagem, sedento por novas descobertas! Mas agora tudo era tão simples, tão profissionalmente óbvio...

Sentiu o avião pousar suavemente e observou as pessoas se movimentarem ansiosamente ao seu redor. Levantou-se lentamente, apanhou sua bagagem de mão e desembarcou. Caminhou da pista até o saguão do aeroporto em passos tranqüilos. Aproximou-se da esteira e esperou pacientemente por sua bagagem. Olhou o relógio. Colocou a mão livre no bolso da calça enquanto aguardava. Olhou novamente para a esteira. Viu aparecer na entrada uma grande mala preta. Presa em um dos zíperes havia um chaveirinho de um ursinho alado amarelo berrante. Presente de Sakura. Apanhou a mala e caminhou até a saída.

Ao sair, olhou ao redor e viu um jovem segurando uma placa. "Kinomoto Fugitaka". Aproximou-se lentamente e cumprimentou-o formalmente. O garoto retirou a grande mala delicadamente das mãos do senhor Kinomoto e colocou-a cuidadosamente no porta-malas de seu táxi. O professor entrou e o rapaz deu partida, seguindo para o hotel.

Fugitaka olhava para a paisagem pela janela do carro sem atentar-se ao menor detalhe. O pensamento ainda estava longe, perdido... Nem ao menos sabia no que pensar. Chegou ao hotel. Desceu do carro. Pegou a bagagem e pagou ao jovem taxista. Entrou no hotel. Registrou-se. Dirigiu-se ao quarto. Agradeceu ao carregador de malas. Deu-lhe uma gorjeta. Fechou a porta e respirou profundamente. Para ele tudo aconteceu em flashes. Parecia estar assistindo a um filme onde você adianta as cenas entediantes. Deus! Desde quando sua vida havia se transformado nisso?

Jogou-se na cama e passou as mãos pelo cabelo. 'Que diabos!' – pensou. Não era mais um adolescente para ter crises de identidade! Precisava parar com aquilo imediatamente! Levantou-se decidido. Olhou para o relógio. Afrouxou a gravata e retirou o paletó. Em algumas horas iria jantar no salão do hotel com o responsável pelas escavações. Iria parar de agir como um idiota. Desinteressar-se pelo seu trabalho, deixar de pensar em sua família... Aquilo estava indo longe demais. Resolveu tomar uma ducha para esfriar a cabeça e descansar um pouco.

...

Abriu os olhos lentamente. Olhou ao redor e momentaneamente não reconheceu o lugar. Olhou para si próprio e viu que estava com a camisa e a calça que havia viajado. Adormecera sem ao menos tirar os sapatos! Levantou-se de supetão e procurou pelos óculos em cima da mesa de cabeceira, encontrando-os rapidamente. Procurou por um relógio ao redor até lembrar-se do que mantinha ao pulso. Desabotoou a camisa e dirigiu-se imediatamente para o banheiro. 'Se correr dá tempo... Como pude adormecer justo agora?' – pensou tirando a camisa, jogando-a de qualquer jeito sobre a cama.

Estava tão apreensivo com o horário que conseguiu desviar seus pensamentos caóticos e teve um novo ânimo para o trabalho que adorava tanto. Saiu do banho e colocou o primeiro terno que encontrou na mala, arrumou os cabelos rapidamente e desceu para o saguão do hotel.

Aproximou-se da porta do restaurante de hotel e avistou um homem vestido impecavelmente parado no local. Acreditando ser um funcionário do hotel perguntou gentilmente se seu acompanhante já havia chegado. O senhor assentiu afirmativamente e indicou a mesa onde o outro se encontrava.

A princípio, Fugitaka achou que o recepcionista havia indicado o lugar errado, ou até mesmo que ele tivesse olhado para a mesa errada quando o homem indicou, mas ao perceber o rapaz levantar-se e esticar a mão em um saudoso cumprimento, viu que estava no lugar certo.

- Senhor Yu? –perguntou incrédulo, apertando a mão do rapaz.

- Sim. É um enorme prazer conhecê-lo, senhor Kinomoto! – disse o outro respeitosamente.

- Devo admitir, é uma grande surpresa para mim, encontrar alguém tão jovem quanto o senhor aqui! – disse visivelmente espantado.

Yu Jin riu. Estava acostumado a esse tipo de comentário, mas não esperava ouvi-lo diretamente de Fugitaka Kinomoto, um dos maiores arqueólogos do Oriente.

- Mas, o senhor também começou muito jovem... – ponderou o rapaz.

- Tem razão! – disse divertido – Devo estar ficando velho!

- Nunca! O senhor é minha maior inspiração! – disse empolgado.

- Ora, não é para tanto! – disse Fugitaka encabulado – Assim eu me sinto uma espécie de celebridade...

- Mas o senhor é uma celebridade! Estou me controlando para não lhe pedir um autógrafo! – disse Jin em tom de brincadeira.

Fugitaka adorou o senso de humor do rapaz. Ele era muito espirituoso e cheio de vida. Lembrava muito a si mesmo quando começou a carreira. Apesar da pouca idade e das brincadeiras iniciais, o senhor Kinomoto percebeu a seriedade e o profissionalismo dele quando começaram acertar os detalhes para o início das expedições.

Acertaram todos os detalhes, desde o horário que se encontrariam pela manhã seguinte até todos os percursos a serem percorridos por toda Hong Kong, antes do local da escavação.

- Então... Acredito que é isso – concluiu Fugitaka.

- Sim – disse Yu levantando-se – Nos vemos amanhã, senhor Kinomoto – estendeu a mão em um gesto de despedida. – Novamente, foi um enorme prazer conhecer o senhor!

- Digo o mesmo, rapaz! – disse sorrindo – Não sabe como esse encontro surtiu efeito em mim... – olhou para o jovem, que parecia não entender nada. – Deixa para lá! – riu – Até amanhã!

Fugitaka retornou ao seu quarto, jogou-se na cama e sorriu fitando, pensativamente, o teto... As coisas pareciam que iam melhorar... E com esse pensamento, adormeceu.

...

O ânimo de Fugitaka estava completamente diferente do dia anterior. Ele levantou-se bem disposto e com uma incrível disposição para o trabalho. Encontraria Yu em pouco tempo, por isso tomou uma ducha rápida, vestiu-se e desceu até o restaurante do hotel para tomar café.

Na hora marcada, o jovem arqueólogo chegou ao hotel de Kinomoto. Eles dirigiram-se por alguns pontos importantes de Hong Kong, até o local da escavação e logo começaram a trabalhar. Estava tão bem consigo mesmo que mal percebia o tempo passar.

Mal percebia mesmo. Já fazia quase um mês que estava na cidade. Era mais uma bela manhã em Hong Kong e começava mais um dia de trabalho no campo arqueológico. Fugitaka e Jin conversavam sobre as futilidades do dia a dia, enquanto registravam minuciosamente algumas escritas antigas entalhadas em uma das grandes paredes das ruínas. Eles avistaram um dos assistentes correndo velozmente até eles e estranharam a agitação.

- Senhor Yu... – disse ofegante, apoiando as mãos sobre os próprios joelhos para recuperar o ar perdido na corrida – Telefone para o senhor... Disseram que é urgente!

Jin arqueou as sobrancelhas, demonstrando estranhar a situação. Pediu licença ao senhor Kinomoto e dirigiu-se ao pequeno escritório construído no sítio arqueológico.

- Alô... – atendeu receoso.

- Jin... – ouviu a voz da sogra do outro lado da linha – A bolsa da Shiefa estourou! Você precisa vir ao hospital, papai! – disse alegremente.

- Eu preciso ir buscá-la! – disse desesperando-se.

- Acalme-se!- disse a matriarca tranquilamente – Já estamos indo para o hospital... Vá para lá! Shiefa disse que se recusa a dar a luz se você não estiver lá! Como se fosse possível! – disse divertida.

- Certo! Estou indo imediatamente! – e desligou o telefone mais afobado do que nunca.

Chegou até onde Fugitaka se encontrava, sorrindo bobamente. O japonês estranhou o fato de Jin estar com o casaco na mão e uma caixa de ferramentas na outra. O rapaz apoiou a pesada maleta no chão e começou vestir o casaco, sem reparar que ele estava ao contrário. Aproximou-se de seu carro e tentou freneticamente abrir a porta, falhando miseravelmente, já que esta se encontrava trancada. O senhor estranhou a atitude do amigo e aproximou-se para saber o que estava acontecendo.

- Jin? Está tudo bem? - perguntou preocupado.

- Tudo ótimo! – disse ainda forçando a porta – Só não entendo porque está porta não quer abrir de jeito nenhum...

- Deve ser porque ela está trancada... – disse analisando as feições do rapaz, que lentamente compreendia o que era dito.

- Certo! – afirmou confiante – E como eu faço para destrancar mesmo? – perguntou ainda olhando para a porta.

- Você precisa usar a chave... – disse estranhando cada vez mais – Ela deve estar dentro da sua maleta – completou prevendo a próxima pergunta do amigo.

- Isso! – o jovem se abaixou e começou a procurar freneticamente dentro da caixa de ferramentas, retirando uma chave de fenda em seguida – Achei! – apontou a chave para a fechadura, quando o senhor Kinomoto segurou seu pulso.

- Jin? O que aconteceu? – perguntou realmente preocupado.

- Eu preciso ir ao hospital! Minha princesa está chegando! – disse sorridente, voltando a tentar colocar a chave de fenda na fechadura da porta do carro.

Fugitaka suspirou aliviado. Pelo menos não era nada grave. Percebendo as condições do rapaz, achou que não seria uma boa idéia ele ir sozinho até lá, era capaz de sofrer um acidente no caminho.

- Jin... Espere um momento, sim? – disse o japonês, retirando a chave de fenda da mão do outro – eu vou buscar meu casaco e levarei você ao hospital, certo?

- Mas, eu preciso ir logo! Shiefa está me esperando! – disse tentando abrir a porta do carro que permanecia trancado forçando a maçaneta. – Porque a porta não abre? – disse inocentemente.

- Seu carro está dormindo... – disse o senhor Kinomoto calmamente, como se falasse com uma criança – Vamos no meu carro, que está acordado, sim? – disse dirigindo o rapaz até a porta do seu veiculo.

- Ah... Shiii... – disse Jin, colocando o dedo indicador em frente aos lábios, pedindo silêncio – Não podemos acordá-lo, certo?

- Isso mesmo... – concordou Fugitaka, que abria a porta do seu veículo, deixando o rapaz sentado, enquanto ia buscar seu casaco, rindo levemente.

...

Ao chegarem ao hospital, Jin saltou do carro e entrou desesperado, correndo pelos corredores do recinto. Fugitaka, após estacionar o carro, entrou e perguntou a localização da esposa de seu amigo na recepção. Dirigiu-se ao local indicado pela moça, encontrando o rapaz chinês, agarrando um jovem residente pela gola da camisa, gritando freneticamente que não encontrava a esposa. Aproximou-se do rapaz, fazendo com que ele soltasse o garoto - que parecia muito assustado – dizendo que sabia o local onde a senhora Yu estava.

Chegando a ala da maternidade, Jin correu até a sala onde sua esposa estava, sendo segurado por Yelan, que estava na sala de espera, junto com a família.

- Você não pode entrar! – disse a senhora – Não assim! – apontou para as roupas do genro.

- Por que não? – perguntou o rapaz, sem entender – Achei que pudesse estar presente na hora do parto...

- E pode! – disse a senhora Li – Mas, não assim! Precisa se trocar, primeiro! Não pode correr o risco de trazer alguma infecção para Shiefa ou até mesmo para Sun...

- Certo! – disse o rapaz, vendo a enfermeira se aproximar – Vou me trocar! Preciso estar com elas!

Quando o rapaz se retirou, um pouco mais calmo e racional, Yelan, pôde respirar um pouco mais aliviada. Não imaginava como Jin havia chegado até ali ileso... E com esse pensamento, finalmente, reparou outra pessoa na sala de espera. Aproximou-se lentamente do senhor, que parecia levemente desambientado.

- Com licença... – disse se aproximando de Fugitaka – Por acaso, foi o senhor que trouxe o Jin até aqui?

- Sim... – disse um pouco sem jeito – Peço desculpas pela intromissão, mas achei que ele não estava em condições para dirigir...

- Por favor! Não se desculpe! – disse Yelan – Nós que devemos agradecê-lo por isso! Ele realmente pode ser um pouco imprudente quando está ansioso... – disse risonha.

- Não precisa agradecer... – disse simples – O importante é que estão todos bem...

- Muito prazer! Sou Yelan Li, sogra de Jin! – disse estendendo a mão ao japonês.

- O prazer é meu... Sou Fugitaka Kinomoto... – respondeu, apertando a mão que lhe era oferecida, sorrindo serenamente.

...

No dia seguinte, Fugitaka retornou ao hospital, levando consigo um grande urso de pelúcia amarelo com asas nas costas e uma bela fita cor de rosa, amarrada graciosamente no pescoço.

Aproximou-se do quarto e bateu levemente na porta, esperando que fosse aberta. Segundos depois, o senhor reconheceu seu companheiro de trabalho, abrir um enorme sorriso ao vê-lo.

- Senhor Kinomoto! – disse abrindo mais a porta – Entre, por favor! Precisa conhecer minha princesa!

- Com licença... – pediu, ao entrar no recinto – Trouxe para sua garotinha... Minha filha adora bichos de pelúcia, então...

- Muito obrigada! – disse Shiefa, sentada na cama, com a pequena Sun nos braços – É um prazer finalmente conhecê-lo, senhor. – disse sorrindo – Jin fala muito sobre o senhor...

- O prazer é meu, senhora Yu – disse Fugitaka – Espero que não seja uma má hora...

- Não é! Aliás, é uma ótima hora! – disse a jovem mãe – Meu irmão gostaria muito de conhecê-lo, ele foi até a lanchonete, mas logo estará de volta. Por favor, sente-se! – disse indicando uma poltrona próxima a cama.

Kinomoto acomodou-se e ficou a conversar por alguns minutos com o jovem casal, relembrando da época em que seus filhos nasceram, até que a porta se abriu, revelando um jovem de cabelos castanhos desalinhados.

- Desculpe Shiefa... – disse sem reparar a presença do japonês – Eu bem que tentei interceptar um chocolate para você, mas a enfermeira foi mais rápida que eu... – disse desanimado.

- Não tem problema, Xiao Lang... – disse a irmã mais velha – Quero te apresentar alguém...

O rapaz olhou para trás e viu o senhor olhando para ele, sorrindo serenamente.

- Você deve ser o jovem Li, certo? – disse Fugitaka se aproximando – É um grande prazer finalmente conhecê-lo! Fiquei sabendo que gosta muito de arqueologia! – disse sorrindo, apertando a mão do rapaz, que parecia chocado.

- O prazer é todo meu, senhor Kinomoto! – disse entusiasmado – É uma grande honra para mim! Nossa... Tem tanta coisa que eu gostaria de perguntar para o senhor...

O jovem casal ficou olhando para o arqueólogo e o rapaz que saiam do quarto conversando animadamente, sorrindo docemente.

...

Fazia uma bela manhã e Fugitaka havia levantado mais cedo do que de costume. Havia se passado alguns dias desde o nascimento da filha de Jin e hoje, o rapaz voltaria ao serviço. O senhor sentia falta da espiritualidade do jovem.

Como ainda era muito cedo e, Fugitaka já estava enjoado da comida do hotel, resolveu tomar café em outro lugar. Há alguns dias atrás, havia passado em frente a um café que lhe pareceu extremamente convidativo e, hoje, seria uma ótima oportunidade para passar por lá.

Saiu do hotel e caminhou poucos metros até chegar ao local desejado. Entrou no pequeno estabelecimento e acomodou-se no balcão. Uma jovem e espirituosa garçonete veio atendê-lo graciosamente.

- Bom dia, senhor. O que deseja? – perguntou.

- Um café e algumas panquecas... – disse após olhar rapidamente no cardápio.

- Trago em um minuto! – respondeu prontamente.

- Obrigado... – agradeceu Kinomoto.

Ele ficou a observar a decoração do local, enquanto aguardava a chegada do seu pedido. Era um lugar simples, mas extremamente aconchegante. Percebeu alguém sentar-se ao seu lado, no balcão, mas não viu realmente que estava ao seu lado.

A garçonete voltou com o pedido de Fugitaka, que agradeceu e ouviu a garota perguntar alegremente para a pessoa ao seu lado: "Bom dia, senhora Li! O de sempre?". O japonês olhou para o lado e viu a bela senhora. Sabia que a conhecia de algum lugar...

- Senhor Kinomoto? – disse surpresa.

...

Estavam sentados em uma mesa reservada daquele estabelecimento que freqüentavam juntos há quase duas semanas. O primeiro encontro havia sido casual. Os seguintes não. Ele passou tomar café naquele local todas as manhãs. Ela sempre o freqüentara.

- Eu não quero ir... – começou ele – Mas, também não posso ficar...

- Eu não quero que você vá – disse ela, apertando a mão dele firmemente sobre a mesa – Mas, também, não posso pedir que fique... – completou melancólica.

- Eu... – começou sem jeito – Não quero deixar você... Nunca... Não agora que eu a encontrei... Você me completa...

- Entendo o que quer dizer... – disse sorrindo ternamente – Estar com você, faz com que eu finalmente me sinta por inteira... Você me entende mais do que qualquer outra pessoa...

- Temos vidas muito parecidas... – disse ele docemente – Passamos por coisas que somente nós sabemos... Perdemos que mais amávamos e tivemos que permanecer forte pelos nossos filhos...

- Sem poder chorar e hesitar... – completou ela – Sem demonstrar fraqueza ou rancor...

- Yelan... - disse ele – Venha comigo!

- Como assim? – perguntou confusa.

- Vamos para o Japão, comigo! – disse ansioso – Eu não posso deixá-la! Só os céus sabem que eu não suportaria!

- Fugitaka, eu... – balbuciou perdida nas palavras.

- Só você sabe como eu me sinto por ter perdido aquela que eu mais amava. Você sabe, porque sente o mesmo! Você é o apoio que eu preciso! Que eu sempre procurei! E eu posso apoiá-la. Prometo fazer de tudo o que estiver ao meu alcance para conseguir apoiá-la! – disse segurando as mãos dela entre as suas, com um olhar esperançoso.

- Mas Fugitaka... E quanto a sua família? E Xiao Lang? – perguntou pensativa.

- Seu filho virá também! Adoro aquele rapaz! Seria um prazer para mim, ter a companhia de vocês dois! – disse radiante.

- Eu não sei... – hesitou – Acho que não seria uma boa idéia...

- Yelan... – disse firme, sabendo que aquela era uma decisão muito importante, mas com nenhuma dúvida ou medo do arrependimento – Case comigo!

x x x

Sakura piscou algumas vezes, tentando assimilar a informação. Olhou para o lado e viu o irmão de boca aberta, totalmente paralisado. Voltou o olhar para o pai, que parecia ansioso por uma resposta.

- Será que eu ouvi direito? – perguntou Sakura sacudindo a cabeça veemente.

- Eu vou me casar! – repetiu Fugitaka – E eu gostaria muito do consentimento de vocês – disse sincero.

- Mas parece que o senhor já tomou sua decisão, não é mesmo? O que a nossa opinião irá mudar isso? – perguntou Sakura alterada.

- Sakura, querida... – começou o pai – Não é que eu não me importe com o pensamento de vocês, mas...

- Mas o quê? – disse se levantando e batendo as mãos com força na mesa. Nesse momento, Touya segurou um dos pulsos dela, não com força, apenas como um pedido silencioso para que ela se acalmasse.

- Vai continuar aí, sem dizer nada? – voltando-se exaltada para o irmão. Ele permaneceu de olhos fechados, ainda segurando o pulso de Sakura, dando um leve gole em seu suco.

- Vou para o meu quarto. Obrigada pela comida – disse secamente, livrando-se do irmão e dirigindo-se ao quarto.

-Touya, eu... – começou Fugitaka.

- Papai... – disse interrompendo-o – Sakura está sendo egoísta e infantil. O senhor tem direito de ser feliz. Irei falar com ela. Com licença. – disse sem demonstrar nenhuma emoção, levantando-se da mesa.

- Percebo que também não obtive seu consentimento, mas agradeço sua maturidade – disse serenamente – Saiba que ninguém será capaz de substituir minha Nadeshico, eu ainda a amo e sei que ela não queria que eu fosse infeliz para sempre, assim como eu não iria querer isso para ela.

Touya nada disse, mas sentiu-se emocionado com as palavras do pai. Era possível perceber em sua voz todo o amor por sua mãe. Ela nunca saíra do coração dele. Seguiu em direção ao quarto da irmã. Bateu levemente na porta, mas não obteve nenhuma resposta.

- Sakura... – começou docemente – Eu posso entrar? Precisamos conversar a sós!

Ele ouviu a porta ser destrancada, mas não aberta. Esperou alguns segundos e entrou no quarto suavemente. Encontrou-a sentada em sua cama olhando fixamente para um ponto qualquer, acariciando um ursinho de pelúcia. Ele sentou-se ao seu lado e permaneceu em silêncio, aguardando que ela se pronunciasse.

- Você concordou, não é? – perguntou sem encará-lo.

- Sim – respondeu simplesmente.

- Como você pôde? Traidor! – acusou-o sem piedade.

- Isso não é uma guerra, Sakura! – disse irritado – Não existem lados nessa história!

- Vai deixar uma estranha entrar em nossas vidas? – disse revoltada – Roubar o lugar que é da nossa mãe?

- E o que você queria que eu fizesse? – disse alterado – Que batesse o pé e gritasse como uma criança? Que pensasse somente nos meus sentimentos, enquanto quem realmente sofre é o papai? Era isso que você queria que eu fizesse? Acredito que não, já que você se encarregou muito bem desse papel!

- Você podia ter feito alguma coisa! Qualquer coisa! – disse olhando firmemente para ele.

- Tente entender, Sakura! – disse suplicante – A mamãe morreu há muito tempo... Ele nos criou sozinho! Trabalhou a vida toda! Eu acho que ele merece qualquer coisa e se isso for se casar, eu não irei impedir!

- Você diz isso porque não mora mais aqui! Tem a sua vidinha de universitário agora! – disse nervosa – Você não terá que presenciar a "nova" vida dele todos os dias! Não terá que aturar uma intrusa na sua vida daqui em diante – berrou.

- Eu estou longe, mas essa ainda é minha família! Minha vida! Minha casa! Vocês são tudo que eu tenho! Que droga! – praguejou - Não me trate como um estranho, como se eu não soubesse o que você está sentindo agora! – gritou indignado.

- A mamãe vai sumir! – gritou – Vai sumir para sempre... Eu não me lembro dela, você está longe e agora o papai vai deixá-la... Eu não quero... Eu sinto tanta falta dela... Eu gostaria... – não conseguiu terminar e caiu no choro.

Touya abraçou firmemente a irmã. Ela soluçava agarrada a camisa dele e não conseguia dizer nada.

- Eu também sinto falta dela... – disse emocionado – Todos sentimos... Ela não irá sumir jamais, enquanto ela morar aqui... – apontou o coração da garota.

- Eu gostaria tanto me lembrar dela... – desabafou – Seu cheiro, seu sorriso, sua voz... Eu não lembro nada...

- Você era muito nova... – disse Touya suavemente, abraçando fortemente a garota – O importante não é lembrar e sim amar... E isso você faz muito bem! – sorriu levemente.

Ela ergueu o olhar para ele e sorriu. Era verdade, enquanto a amasse, ela nunca iria sumir, e ainda tinha o Touya. Ele falava com uma doçura sobre sua mãe, que era impossível não admirá-la.

Sakura, aos poucos foi se acalmando, enquanto Touya acariciava carinhosamente os cabelos da irmã. Ela soltou-o, enxugou as lágrimas e olhou seriamente para o irmão.

- Você tem razão. Eu agi como uma garotinha mimada e egoísta. Pensei somente em mim e não no papai... – abaixou a cabeça – Peço desculpas.

- Você não precisa pedir desculpas para mim... – disse docemente, erguendo a cabeça da irmã pelo queixo – Não fez nada de errado, foi uma reação natural e impulsiva... Mas o que você acha de dar seu apoio ao papai agora. Acredito que ele está precisando disso.

A garota sorriu e balançou a cabeça positivamente. Passou a manga da blusa no rosto e desceu para falar com seu pai. Ela o encontrou recolhendo os utensílios usados no jantar muito abatido.

- Papai... – chamou docemente.

Fugitaka olhou para a filha surpreso.

- Gostaria de me desculpar com o senhor... – começou olhando para baixo, com vergonha da cena que havia criado – Fui egoísta e insensível... Quero que o senhor saiba, que o mais importante para mim é que o senhor seja feliz, independente de como seja, quando, onde e por que... – olhou para o pai – E eu sempre estarei aqui, para o que o senhor precisar, assim como o senhor sempre esteve presente para mim e Touya...

O senhor Kinomoto estava emocionado, não esperava uma reação tão madura de Sakura. Não tão rápido! Ela estava ali, se desculpando e dizendo que o apoiaria em sua decisão. Ele mal podia acreditar... Correu em direção sua filha e a abraçou firmemente, deixando-a surpresa com a reação do pai.

- Não imagina como é bom ouvir isso, Sakura! – disse com os olhos marejados – Eu te prometo que nunca irei falhar com você ou com seu irmão e saiba que ninguém substituirá sua mãe... Nadeshico é única para mim...

Sakura apenas balançou a cabeça afirmativamente e voltou abraçar seu pai. No andar de cima, Touya, que ouviu a tudo apoiado no batente da porta do quarto da irmã, sorriu orgulhoso e dirigiu-se ao seu quarto.

x x x

Eram apenas cinco horas da manhã e o dia ainda nem havia clareado, mas Shaoran estava acordado, fazendo o alongamento inicial antes de começar seu treinamento. Apanhou sua espada e começou a movimentá-la no ar. Seus movimentos eram precisos e sistemáticos, os olhos permaneciam fechados todo o tempo. Respirou um pouco mais fundo e tomou velocidade executando um salto perfeito em sincronia com a espada. Na volta ao chão, para um amador, diria que havia sido um pouso perfeito, mas para Li, um perfeccionista de carteirinha, não passava de uma aterrissagem medíocre. Suspirou fundo e sentou-se no chão, olhos fechados, respiração calma e compassada...

Abriu os olhos e suspirou longamente. Não conseguia se concentrar de maneira alguma. Levantou-se e decidiu tomar um longo banho. Algo lhe dizia que aquele não seria um bom dia.

Entrou no quarto, guardou sua espada, separou o uniforme escolar e o colocou sobre a cama devidamente arrumada, dirigindo-se em seguida ao banheiro.

Ficou mais tempo que o normal debaixo da ducha quente, mas sabia que isso não o atrasaria, já que havia treinado menos do que o de costume. Deixou a água cair em seus cabelos enquanto permanecia de olhos fechados. Estava com uma sensação péssima, como se uma mão forte pressionasse seu estômago. Aquilo não era bom sinal. Aprendera muitas coisas com seu falecido pai e uma das lições mais valiosas foi que ele jamais deveria ignorar seus instintos. Desligou o chuveiro e enrolou-se na toalha, voltando para o quarto. Arrumou-se e foi tomar café da manhã. Ainda era muito cedo para ter alguém acordado, mas ele não se importava, comeria alguma coisa e iria para a escola, desejando que esse dia terminasse logo.

Entrou na cozinha e assustou-se ao ver a mãe sentada a mesa tomando uma xícara de café.

- Bom dia, Xiao Lang – disse a senhora, levando a xícara aos lábios.

- Bom dia, mãe – respondeu, dirigindo-se a geladeira – O que faz acordada tão cedo?

- Queria falar com você – Shaoran arregalou os olhos, parando imediatamente o que ia fazer – Sei que é sempre o primeiro a acordar – continuou Yelan.

- Mas eu nunca sou o primeiro a chegar à cozinha. Sempre demoro no treino. – disse tentando esconder seus pensamentos.

- Conheço a intuição dos Li. Sei que está inquieto. – disse tranquilamente, apontando uma cadeira para que ele se sentasse.

Ele obedeceu prontamente e ficou em silencio esperando que a mãe se pronunciasse. O coração tamborilava no peito como uma bateria, num misto de nervosismo e ansiedade.

- Sei que é um assunto delicado e eu gostaria de conversar primeiro com você antes mesmo de falar com suas irmãs, pois é uma decisão que afetará diretamente a você – começou Yelan olhando firmemente para o filho.

- Estou ouvindo – disse respeitosamente.

- Eu vou me casar com Fugitaka – anunciou sem rodeios – E você e eu nos mudaremos para o Japão.

Shaoran arregalou os olhos e fechou as mãos com tanta força que chegou a machucar as palmas.

- Então, o que me diz? – perguntou a mãe esperançosa.

O que achava? A vontade de Li era de gritar e dizer o quanto havia detestado a idéia, que não queria aquele estranho em sua família, que não queria sair de sua casa, seu país. Queria apontar o dedo para sua mãe e dizer o quanto ela estava sendo irresponsável ao tomar uma decisão tão precipitada sem se importar que isso afetaria diretamente outras pessoas. Queria dizer que não iria e que se ela quisesse estragar sua vida, que fizesse isso sozinha. Queria gritar o quanto a detestava naquele momento. Queria... Queria, mas não o fez. Apenas, abaixou a cabeça e limitou-se a dizer:

- Fico feliz pela senhora. Mudaremos-nos quando a senhora achar mais conveniente. – disse sem emoção – Com licença, preciso ir, senão chegarei atrasado – e levantou-se da mesa, deixando o desjejum intocado.

- Xiao Lang? – chamou-lhe.

- Sim? - perguntou, sem virar-se para a mãe.

- Eu o conheço, meu filho. Sei o que está pensando, mas quero ouvir você dizer. – disse seriamente.

- Não concordo com a sua decisão – disse sério, virando-se para a matriarca – Mas, em respeito à senhora, não irei me opor.

- Achei que você admirasse Fugitaka! – exclamou surpresa.

- Admiro – confessou-lhe – Como se admira uma estrela no céu. Sem realmente alcançá-la.

Yelan olhou para o filho e viu o quanto aquilo estava sendo difícil para ele. Sabia que ele não concordava com a idéia, mas fazia um grande esforço para não deixar transparecer.

- Então, por que aceita? Por que não me diz que você não vai? – perguntou angustiada.

- Eu poderia gritar tudo o que estou prendendo aqui – e apontou para a própria garganta – Mas, eu aprendi com meu pai – enfatizou a palavra pai – que eu sempre deveria respeitar vocês e é exatamente o que eu estou fazendo – disse sério.

- Sabe que ninguém nunca vai substituí-lo... – Shaoran permaneceu calado e ela continuou – Posso não ser uma Li em sangue, mas seu pai também me ensinou muitas coisas, e uma delas foi confiar em meus instintos... É exatamente isso que eu estou fazendo agora Xiao Lang – disse enigmática.

Shaoran não comentou mais nada sobre o assunto. Apenas pediu licença e saiu da sala.

x x x

A noite havia sido péssima para Sakura, por mais que tivesse apoiado a decisão do pai e a conversa com Touya haviam trazido um pouco de alívio, ela ainda estava receosa com tudo aquilo. Uma sensação ruim...

Quando ela entrou na sala de aula, Tomoyo logo percebeu que havia algo errado com Sakura. Ela estava com olheiras, olhos vermelhos e uma cara péssima. Ela praticamente jogou-se na cadeira ao sentar-se e soltou um fraco "Bom dia" para a prima.

- Sakura? O que houve? – perguntou visivelmente preocupada.

- Ai Tomoyo... – começou desolada – Uma notícia terrível... Bem que o Touya me disse, mas eu não quis ouvir... – choramingou.

A professora entrou na sala, dando inicio a aula e só deu tempo de Sakura murmurar um "depois eu te conto" para a prima. Durante a aula, que para Tomoyo, durou uma eternidade, Sakura parecia estar muito longe. Ás vezes, Tomoyo lançava olhares a prima, mas essa passou todo o tempo olhando pela janela, mergulhada em seus próprios pensamentos, suspirando tristemente algumas vezes.

O sinal tocou indicando o fim da aula. Tomoyo levantou-se e puxou Sakura pelo braço para fora da sala. Ela parecia nem ter ouvido o sinal, pois se assustou com a atitude da prima. Chegaram à grande cerejeira onde sempre passavam o intervalo e sentaram-se.

- Conte-me tudo antes que eu surte! – exigiu.

- Ontem durante o jantar, papai nos deu uma notícia terrível... – choramingou.

- Pare de enrolar, Sakura! – disse Tomoyo, batendo com as mãos abertas nos próprios joelhos.

- Meu pai vai se casar! – já derramando lágrimas.

- Sakura! Nunca mais me assuste assim! – ralhou, percebendo o olhar de confusão da prima, continuou: – Eu achei que era algo grave, como uma doença!

- Mas é grave! Não entende? – respondeu exasperada.

- Não tão grave Sakura! Pare de fazer tempestade num copo d'água! – disse rindo.

- Mas... Mas... – choramingou.

- Você não deve pensar pelo lado ruim. Já pensou se acontece alguma coisa com o seu pai? – ponderou – Pelo menos ele está feliz, não está?

- Está... É que... – começou incerta.

- Acho que está na hora de você aceitar as mudanças da vida... – disse em tom maternal.

Sakura pareceu ponderar os argumentos de Tomoyo. Primeiro Touya e agora as palavras da prima. Realmente estava sendo muito infantil. Tomoyo percebendo o olhar de compreensão que a prima mostrava, sorriu internamente.

- E então? Vamos voltar para a sala? – perguntou animadamente.

- Claro! – respondeu Sakura, parecendo muito melhor – 'Eu precisava mesmo de uma sacudida!' – pensou rindo.

x x x

Sakura acordou ouvindo as vozes de seu pai e seu irmão vindo do andar de baixo. Olhou para o relógio e constatou que eram nove horas da manhã. Aconchegou-se mais entre as cobertas e cobriu a cabeça. 'Sábado...' – pensou desanimada. Hoje era o "grande dia". O dia em que conheceria a futura esposa de seu pai...

Ouviu batidas na porta, mas manteve-se totalmente coberta. Não estava muito a fim de conversar... Ouviu a porta ser aberta lentamente e decidiu fingir que ainda dormia.

- Sakura... – a garota reconheceu a voz de seu irmão que vinha da porta – Papai está precisando de ajuda! Você não acha que vai ficar o dia inteiro na cama e fugir do trabalho! Sai logo dessa cama, monstrenga!

Sakura permaneceu imóvel fingindo que dormia profundamente. Suspirou aliviada ao ouvir a porta de seu quarto ser fechada. Quando achou que estava tudo livre, sentiu um peso em sua cama e congelou. Touya estava ali.

- Sei que está acordada... – começou ele – Você sempre resmunga quando eu te acordo... Sei que não está gostando muito dessa situação, mas faça pelo papai, Sakura... – pediu gentilmente.

Sakura continuou coberta, ouvindo as palavras do irmão. Ele suspirou levemente e passou a mão na cabeça da garota por cima do edredom e levantou-se. Ao chegar a porta o rapaz voltou-se para a irmã que permanecia deitada.

- Levante-se logo! Eu não vou fazer tudo sozinho! Se você não descer em meia hora, eu volto aqui e te derrubo dessa cama! – disse brincalhão e se retirou do quarto.

Quando Sakura teve certeza que ele não estava mais no quarto, descobriu-se e suspirou derrotada. Levantou emburrada e dirigiu-se ao banheiro para uma ducha rápida.

Saiu do banho, colocou uma blusa rosa de finas alças, uma saia jeans curta e permaneceu descalça. Prendeu os longos cabelos em um coque firme e desceu para cozinha, tomar o desjejum e ajudar seus familiares no tão importante jantar.

Trabalharam toda a manhã e boa parte da tarde. Acabou sendo produtivo. Ficar ao lado do pai e do irmão rindo e conversando o dia inteiro havia desviado os pensamentos de Sakura da tão esperada chegada da senhora Li.

Mas o que Sakura não esperava era a maravilhosa novidade que veio de seu pai, pouco antes de voltar para seu quarto para se arrumar.

- Acho que vocês irão se dar muito bem... – disse Fugitaka enquanto lavava a louça utilizada e Sakura o ajudava a secar.

- Hein? – perguntou confusa.

- Tenho certeza disso! Vai ver como ele é ótimo! – disse sorrindo, lembrando-se do jovem Li.

- Do que está falando, papai? – perguntou arqueando uma sobrancelha.

- Do Shaoran, é claro! – respondeu, notando que a filha continuava a fitá-lo – Eu não te disse sobre ele?

- Não – respondeu simplesmente.

- Yelan tem um filho... Bom, cinco... Quatro garotas e um garoto, mas elas já são casadas, enfim... Ele virá com ela para cá. – respondeu.

Sakura arregalou os olhos e teve que esconder a enorme vontade de gritar. Apenas terminou de ajudar o pai e dirigiu-se ao quarto para se arrumar.

Entrou em seu quarto e teve que se controlar para não bater a porta. Estava irada! Como assim? Um filho? Já não bastava agüentar o Touya, agora teria que agüentar um pirralho babão dentro da sua casa. Isso era um ultraje! 'Agora que eu finalmente me livrei do Touya que vivia enchendo o saco, vou ter que servir de babá para esse fedelho!' – pensou irritadíssima. Dirigiu-se ao banheiro e bateu a porta. Essa ninguém iria ouvir. Tomou um banho gelado, mas a água parecia evaporar ao bater em sua cabeça muito quente.

Saiu do chuveiro e colocou a roupa que havia separado para a ocasião. Um vestido estilo balonet um pouco acima do joelho e sem alças, lilás, sandálias de salto médio, prateadas e manteve os cabelos soltos. Passou uma leve maquiagem, máscara para cílios incolor, um leve lápis preto, um batom cor de boca e por cima um gloss com um leve brilho.

Chegou à sala e sentou-se no sofá ao lado do irmão. Reparou em como ele estava bem vestido. Usava uma calça social preta, camisa mangas longas vinho, porém sem gravata, os sapatos, também pretos, estavam lustrosos. A barba impecável demonstrava um pequeno contraste em comparação aos cabelos, levemente despenteados.

Olhou para seu pai, que andava nervosamente de um lado para outro na sala. Vestia um terno preto, camisa branca e uma elegante gravata azul escuro. Visual impecável e completo com os sapatos pretos bem polidos. Ele olhava o relógio, seguia até a cozinha e olhava se estava tudo certo e retornava a sala para olhar novamente o relógio.

- Está bonita... – comentou Touya, olhando levemente para a irmã.

- Obrigada! – disse sorrindo – Você também!

- Acho até que está bonita demais... – murmurou levemente irritado.

- Como assim? Não entendo o porquê está irritado... – disse estranhado. Sabia que Touya era ciumento, mas não entendia o motivo do ciúme agora.

- Não sei para que se arrumar tanto... – continuou, vendo que a irmã ainda não entendia – Quer se mostrar para esse moleque? É isso? – perguntou irritado.

- Que moleque? O filho da senhora Li? Por favor, Touya... Porque eu iria me mostrar para um pirralho? – perguntou rindo.

- Sakura? – ergueu uma sobrancelha – O que o papai te disse sobre ele?

- Não muito... – lembrando-se – Só que ele iria morar conosco...

Touya iria contar o que sabia sobre o garoto, quando ouviu a campainha tocar. Observou o pai olhar nervosamente para a porta, mexendo as mãos freneticamente, antes de ir atender. Voltou o olhar em direção aos filhos e viu o primogênito assentir silenciosamente, passando-lhe confiança.

Dirigiu-se a porta, suspirou e abriu-a sorrindo abertamente ao vê-los parados a sua frente.

- Yelan... – disse sorrindo.

- Fugitaka... – esboçou um sorriso discreto, sendo percebido apenas pelo arqueólogo.

- Jovem Li! – disse olhando para o rapaz, que apenas acenou a cabeça – Fico feliz que tenham vindo! Entrem, por favor! – disse dando passagem para os dois.

Eles entraram, seguidos por Fugitaka, que se apressou em fazer as devidas apresentações.

- Esses são meus filhos: Touya e Sakura – apontou, enquanto ambos reverenciavam respeitosamente – Essa é Yelan e seu filho Shaoran.

Os filhos de Fugitaka puderam observar bem os "novos parentes". A senhora era muito bonita. Vestia um vestido tradicional chinês longo, preto com detalhes em prata, sandálias pretas de salto médio. Os cabelos presos em um impecável coque e a maquiagem era discreta, sendo apenas destacada pelos lábios pintados em um vivo tom vermelho. Ela transmitia um ar imponente, mas não intimidador. Já seu filho...

O olhar de Sakura demorou um pouco mais no rapaz a sua frente. Sim, rapaz! Ele usava uma camisa verde escuro com mangas ¾, calça social preta e sapatos da mesma cor. E os cabelos, como Sakura mesmo gostou de descrever mentalmente, estavam 'atrevidamente desalinhados... '. Ele mantinha as mãos nos bolsos da calça enquanto olhava a casa despreocupadamente.

'Definitivamente... Ele não tem nada de pirralho... ' – pensou enquanto observava o rapaz se afastar em direção a sala de jantar com Yelan e Fugitaka.

- Hei mostrenga! – chamou Touya, tirando-a de seus devaneios – Vamos jantar! E... Fecha a boca que você está babando todo o chão! – alfinetou.

Sakura, entendendo a piada do irmão, o seguiu furiosa e principalmente, envergonhada.

x x x

Continua...

x x x

N/A: Hei pessoas queridas do meu coração de melão! Como estão vocês? (ouve somente sons de grilos ao fundo...). Venho aqui novamente – depois de mais de dois anos – postar um novo capítulo de If You...

Antes de vocês tentarem arrancar minha cabecinha de vento... Deixe-me explicar o motivo do meu imenso sumiço... – Se é que alguém realmente se importa...

Resumindo: TCC, bloqueio, trabalho escravo na empresa, bloqueio, problemas, bloqueio, PC mais lesado que a dona - e olha que aí tem que ser lesado... Anyway...

Depois de longas conversas com minha amiga e comadre, ele saiu e eu acho que valeu a pena... Eu queria fazer um capítulo digno de leitura, afinal é péssimo alguém dedicar seu precioso tempo lendo e o capítulo não corresponder às expectativas... E, eu realmente, espero ter conseguido...

Sobre o capítulo: Sim! Nosso protagonista perfeitamente magnífico apareceu! Eu sei que não foi lá uma aparição muito longa... Mas é que eu gosto muito de um suspense, tipo novela das oito... E, como esse capítulo ficou longo! Acho que ele saiu um pouco do meu controle... Mas, vamos imaginar que foi uma compensação pelo tempo de espera... Espero não cansar vocês com esse capítulo gigante...

Só para constar... A parte em itálico é para indicar flashback... Espero que tenha dado para entender...

A música que intitula esse capítulo é "Could It Be Any Harder" do The Calling... Essa banda e, em especial, essa música é muito importante para mim...

Eu gostaria de agradecer a todos que leram o capítulo anterior e deixaram reviews! Muito obrigada mesmo! Vocês me deixaram muito feliz! Acredito que eu tenha respondido por reply, mas caso alguém não tenha recebido é só me avisar... Obrigada também aos que leram, gostaram, mas por um motivo ou outro, não deixaram reviews...

Dedico esse capítulo a todos que leram e gostaram... E principalmente, a minha amiga Rose'n Faith... Muito obrigada pela sua paciência! Te Adoro!

Aguardo ansiosamente reviews! Elas nos ajudam a seguir em frente! Quero muito saber a opinião de vocês!

Beijokas... Darkky"

"Nada é permanente nesse mundo perverso... Nem mesmo nossos problemas..." – Charles Chaplin