Capítulo II
Williamsburg, Virgínia, 1763
Harry Potter desmontou e amarrou o cavalo no travessão de ferro. Mal-humorado, nem mesmo reparou no sol que se insinuava entre os bordos da rua Duque de Gloucester e que deixava nas sombras os degraus de madeira na taverna Raleigh. Era uma manhã cintilante de final de setembro.
Subiu correndo a escada e notou a algazarra de um grupo de homens brancos libertos do lado de fora da forja do ferreiro. Eles praguejavam e dirigiam comentários obscenos a uma jovem escrava. Um trabalhador obeso percebeu o olhar gélido de Harry, levantou o dedo médio e cuspiu no chão, Harry inspirou fundo e voltou correndo. Santo Deus! Depois daquelas horas terríveis, nada melhor do que descarregar sua raiva em algum imbecil.
Uma carruagem parou bruscamente a poucos centímetros de Harry.
- Santo Deus, Harry! Por acaso pretende bancar o herói, jogando-se debaixo da sege? Posso garantir-lhe que há maneiras melhores de defender a honra de uma dama. Sangrar até a morte nas ruas não enternecerá o coração de uma lady, nem abrirá suas pernas.
Neville Longbottom, o melhor amigo de Harry, apeou da carruagem. Harry fez uma mesura e reparou que Neville estava bem vestido, segundo os últimos ditames da moda. Casaco de tafetá chamalote e calção de veludo que simulava musculatura nas pernas finas.
- Vejo que Rathall esmerou-se no alcochoado. - Foi o comentário ácido.
- Crina de cavalo e musselina. Milagres de um alfaiate. - Neville melindrou-se com o olhar sardônico do amigo. - Não caçoe, Potter. Nem todos os homens são abençoados com uma forma física igual à sua. Para isso existem os artifícios.
Harry não pôde deixar de sorrir. Como sempre, os ditos jocosos de Neville melhoravam seu humor.
Neville atirou as rédeas para um dos meninos que imploram para tomar contar dos cavalos por um centavo.
- Por que esse olhar fúnebre, Harry? O administrador de Stanton Grove deve ter coisas melhores para fazer do que castigar um bando de bêbados por causa de algumas palavras obscenas.
- Tem razão. - Harry virou e tornou a subir os degraus com a postura orgulhosa de um homem nascido nas Terras Altas da Escócia. Não gostava de lembrar à pequena nobreza da Virgínia por que chegara naquela colônia.
Entrou na tasca e arrependeu-se de imediato. O recinto de teto baixo fervilhava de homens que se entregavam ao prazer da bebida, apesar do horário matutino. O taberneiro Jack Sloper¹ despejava cerveja nos grandes canecos de estanho. Vários fregueses jogavam uísque, perto do bar. Um grupo de mercadores gordos e de aparência próspera vociferava sobre a inferioridade da mercadoria dos competidores. Em outra roda, jovens ricos fumavam e congratulavam-se por estar matando aula do Colégio Hogwarts.
Harry e Neville abriram caminho com dificuldade para chegar ao balcão, onde foram recebidos com um sorriso por Jack.
- Uísque ou conhaque francês, Sr. Potter?
- Uísque. - Harry respondeu. - Por que essa aglomeração? O que houve?
Jack limpou a mão no avental de couro de pôs um copo verde na frente de Harry.
- O Eillen Snape ancorou rio abaixo. O capitão Snape decidiu vender seus prisioneiros aqui em Williamsburg, à procura de um preço melhor. Os fazendeiros não gostam de subir a bordo para comprar escravos. - Sloper pegou o conhaque de pêssego da Virgínia, o favorito de Neville. - Draco Malfoy, seu vizinho, esteve aqui logo cedo, na certa para examinar a mercadoria, antes do leilão público.
Harry largou com rudeza o copo sobre o balcão. A menção a criminosos degredados deixava-o profundamente irritado.
- Ah, então temos aqui um bando de abutres que vieram aproveitar-se do infortúnio alheio. Por Deus...
Neville segurou o braço do amigo com os dedos de unhas manicurados.
- Talvez devêssemos ir embora. Sei que não aprova a prática de...
- Não irei a lugar nenhum. - Harry jogou o copo vazio na direção de Jack. - Vim afogar minhas mágoas e é o que pretendo fazer.
Neville jogou uma moeda sobre a superfície riscada e enegrecida do bar. Fez sinal para Sloper afastar-se.
- Harry, conheço sua tendência ao mau humor e hoje ela está mais acentuada do que nunca. Por acaso Malfoy preparou mais uma de suas brincadeiras?
Harry de de ombros.
- Dessa vez não foi Malfoy quem me tirou do séio. Trata-se de Célia.
- De novo um desentendimento? Depois de tantos anos, os dois ainda não se cansaram de duelar? - Neville riu, revelando os dentes alvos. - Lembra-se de quando Célia não queria deixá-lo velejar para Charleston? Os dois discutiram durante dias e ela pôs óleo de rícino no seu pudim de milho. A diarréia foi tão intensa que o meu querido amigo acabou perdendo o barco. - Neville tornou a rir e bateu com o punho na coxa. O enchimento do calção deslocou-se e foi para um local inadequado.
Harry torceu os lábios e foi até a janela dos fundos. No pátio fora erguida uma plataforma baixa de madeira e coberta com lona. O leilão dos degredados logo teria início. Os homens da taverna começavam a agrupar-se na frente do tablado.
- Ora, Harry, se não queria ouvir-me repetir a censura, por que falou de Célia? Agora, diga tudo. O que foi dessa vez?
- Aquela bruxa mandona deu-me um ultimato. Se eu não me casar com Parvati, ela venderá Stanton Grove para Draco Malfoy. - Harry cerrou os dentes. Não poderia dar um passo falso. Havia muita coisa em jogo.
Harry chegara à Virgínia há dezesseis anos e devotava a sua vida a Stanton Grove. Tivera casta branca de Célia Stanton Patil, sua arrogante empregadora, e transformara Stanton Grove na maior fazenda de tabaco do James. As maneiras aristocráticas, a boa educação e um charme excepcional haviam conquistado o coração da velha. Se é que a megera tinha coração. E há três anos, para sua grande alegria...
- Ela prometeu que deixaria Stanton Grove para mim. Sabe que ninguém ama a fazenda como eu e que o local nunca foi tão bem administrado. E agora vem me dizer... - Harry atirou na lareira o copo vazio que explodiu em milhares de faíscas verdes.
Neville segurou-o pelo braço.
- Calma, Potter. Quer aumentar os boatos? Já não chegam os sussurros de que enfeitiçou madame Patil? Muita gente inveja um empregado poderoso.
Neville estava certo. Apesar da ascendência nobre que permitira a aceitação de Harry na sociedade de Virgínia, muitos fazendeiros não viam com bons olhos um simples administrador ter o controle da melhor propriedade da colônia. Diziam que Harry poderia ter exercido algum poder na Escócia. Mas ele não estava mais nas Altas Terras e chegara à Virgínia como um traidor condenado.
Harry encostou-se na parede manchada pela fumaça.
- Sei no que está pensando, Neville, e sei que fui acusado de traição. Mas eu lhe pergunto. Por que chamar de traição o apoio ao verdadeiro rei da Inglaterra? O príncipe Carlos Eduardo Stuart...
Neville levantou a mão e os babados de renda do punho dançaram.
- Chega de arengas jacobitas, Harry.
- Neville, o termo Jacobus vem do latim e significa Jaime. O príncipe Carlos Eduardo Stuart, filho de Jaime III, neto de Jaime II, bisneto de Carlos I, foi o herdeiro escolhido da rainha Elisabeth I. Os Stuart são os legítimos reis da Inglaterra.
Neville bocejou.
- Todos esses nobres homens estão me deixando com dor de cabeça. - Neville debruçou-se na janela o observou o capitão Severo Snape subir na plataforma de madeira. - O ultimato de Célia é muito mais interessante de que seus velhos Stuart empoeirados.
Harry pensou em estrangular o amigo, mas desistiu. Neville só pensava em futilidades. Seria inútil esperar que ele se interessasse pelas políticas da monarquia.
- Ela me disse que deixaria Stanton Grove legalmente para mim, se eu me casasse com Parvati.
Neville endireitou-se.
- Meu amigo, qual a dificuldade em casar-se com a sobrinha de Célia? Afinal, sou testemunha de um cortejar que dura anos. Todos nós esperávamos ouvir os proclamas.
- Neville - Harry cruzou os braços -, eu já lhe disse que terminamos tudo. Eu a surpreendi dando uma chicotada em Mercury, quando ele ousou banhar e aplicar um linimento nas feridas do cavalo dela. Ferimentos provocados por aquelas malditas esporas que ela usa...
Harry interrompeu-se perdido em memórias avassaladoras. Escócia, guerra e traição. Uma mulher mais bela e insensível do que Parvati. A atração que sentia por mulheres egoístas e interesseiras devia ser patológica, com toda certeza.
Neville ergueu as palmas à francesa.
- Perder uma fazenda por causa de um cavalo doente e de um escravo presunçoso...
Harry virou e agarrou Neville pelo colarinho.
- Jamais diga uma coisa dessas. Mercury pode ser um escravo, mas é um ser humano.
Harry soltou Neville e largou-se em uma cadeira afastada da janela. Ninguém entendia a amizade de Harry com os escravos que trabalhavam para ele. Como também ninguém compreenderia seu dilema. Harry James Potter, um guerreiro que sacrificara tudo por causa da liberdade, poderia tornar-se proprietário de duzentos escravos.
- Peço-lhe desculpas, Harry. - Neville fitou o cenário externo. - Minha mulher sempre diz que só um idiota se casaria com uma cobra como Parvati. Eu deveria dar mais atenção às palavras de Luna.
Uma jovem magra estava em pé no centro da plataforma. Suja e patética, conservava a cabeça erguida, apesar dos comentários obscenos dos estudantes bêbados. Os cabelos ruivos e engordurados chegavam até a cintura e, apesar da sujeira, a beleza exótica da escrava era inegável. A luz do sol refletiu-se nos grilhões e Harry abaixou a cabeça, vencido pelas recordações.
- O dilema é claro. Não quer casar-se com Parvati, mas quer herdar Stanton Grove.
Harry anuiu e tornou a fitar a jovem.
- Meu caro Potter, acredito que encontrei a solução perfeita. É impossível evitar o enlace com Parvati, dar o troco a Célia pelo incidente da diarréia e, se é mesmo inteligente como dizem, ainda poderá herdar Stanton Grove.
A jovem escarnecia das jacotas dos rapazes. Harry cismou se ela seria escocesa. Era raro ver tanta valentia em uma inglesa. Reclinou a cadeira nas duas pernas traseiras e fitou o amigo com tolerância estudada.
- Meu caro Neville, sobre o que está falando?
Neville abriu os braços.
- Simples. Não poderá casar-se com Parvati, se já for casado!
Harry deixou a cadeira voltar para o chão com um estrondo.
- Ficou maluco? Sabe muito bem que não quero me casar!
- Harry, como todas as pessoas autoritárias, Célia se renderá quando vir que perdeu a partida. Se continuar a mantê-la sobre controle de deu charme e de sua competência, ela não tardará a mudar de idéia, principalmente se gostar de sua esposa. Então Stanton Grove será sua, sem que tenha de apelas para a pérfida Parvati - Neville andou de um lado a outro. - Agora teremos de encontrar a esposa certa.
- Não pretendo me casar. - Harry teimou. Aprendera que mulheres não passavam de seres calculistas. Não pretendia unir-se a mais nenhuma. Havia muitas viúvas solitárias dispostas a aquecer-lhe a cama.
- O que acha de Ana Abott? - Neville lembrou de uma viúva exuberante, mãe de três filhos e dona de uma centena de acres de terra. - Ela se alegraria de aceitá-lo como marido, mesmo que não a amasse. Escute, desde quando casamento tem algo a ver com amor?
Harry ignorou o comentário e fixou a atenção na escrava de cabelos ruivos. Provavelmente tratava-se de uma cigana. Ela provocava Dennis Creevey com a gíria dos mendigos londrinos, dos ciganos e dos larápios.
- Dance para nós! - Dennis gritou.
Para surpresa de Harry, a jovem começou a dançar. Era esguia e conseguia ser graciosa, apesar das correntes que lhe prendiam os tornozelos delicados. O busto ereto se sacudia debaixo do corpete rasgado. Harry sentiu calor na virilha. As, as mulheres eram mesmo umas desavergonhadas. Até uma escrava infeliz sugeria prazeres exóticos com sua dança. Harry corou e procurou disfarçar o embaraço.
- Chega de tolices. - Harry foi até o balcão do bar. - Prefiro casar-me com aquela cigana de que desposar Ana Abott ou Parvati, ou qualquer outra mulher da colônia.
Harry serviu-se de uísque e tomou a bebida de um só gole. Ao escutar risadas do lado de fora, voltou a fitar o pátio. Neville aproximou-se do amigo.
- Eu já lhe disse que Norberta deus cria? - Norberta era o bem mais precioso de Neville. Uma égua castanha que vencera o garanhão de Harry em todas as corridas da colônia.
Harry serviu-se de outro drinque, sorveu-o de uma só vez e fulminou o amigo com o olhar. Cavalos eram a sua paixão. Desejava Norberta tão intensamente quanto ansiava por Stanton Grove.
- Quando decidirá vender-me essa égua? Sabe muito bem que não pode dar ao luxo de conservá-la.
- Pelo contrário. Não posso permitir-me de vendê-la. Ela me rende quinhentos barris de tabaco a cada corrida. Porém... - Neville pegou o copo vazio de Harry e atirou-o no ar. - Podemos fazer uma aposta com ela.
- Como assim?
- Bem, se ganhar, meu caro Potter, levará Norberta e quem sabe... Stanton Grove.
Harry apanhou o copo no ar.
- Qual seria a aposta?
- Não precisa ficar tão carrancudo. Sua bela fisionomia fica transfigurada. - Neville tirou uma poeira imaginária da manga. - Se eu ganhar, ficarei com mil barris de tabaco, com Norberta e com a satisfação de saber que meu ilustre amigo não é tão brilhante e bem-educado como pensa que é.
Harry endireitou-se e olhou de cima o amigo.
- Do que se trata?
- Muito simples. Em três semanas terá de casar-se com a rameira cigana que está cobiçando tanto. Terá também de transformá-la em uma dama capaz de conquistar Célia Stanton Patil.
Harry saiu abruptadamente do recinto, mas ainda escutou a voz de Neville.
- Terá de casar-se com ela, Harry!
Ginny estremeceu e rezou para que os mamilos endurecidos por causa do frio não ficassem salientes por baixo da blusa rasgada. Era horrível permanecer no meio daqueles sujeitos asquerosos. Mas ergueu o queixo, apesar dos cabelos emaranhados, da sujeira dos comentários de baixo nível. Era preciso reverter àquela situação humilhante. Teria de demonstrar o próprio valor ao homem que a comprasse. Só assim poderia convencer seu dono a ajudá-la a encontrar Mick.
O capitão Snape ordenou-lhe para dar um passo à frente e ela teve de engolir as lágrimas. Não se conformava com o que acontecera. Na última noite a bordo do porão pestilento do navio, prometera uma vida nova nas colônias.
- Virgínia não é um belo nome? - Ela murmura, segurando a mão pequena e esquálida. - Eu lhe garanto que seremos felizes ali. Teremos uma bela casa, comeremos rosbifes, pães quentes e pudim de ameixas todas as noites. Não passaremos frio. Usaremos roupas limpas, renda de Bruxelas e seda chinesa.
- Não precisamos de tantas coisas, Ginny. - Os olhos azuis haviam ficado ainda maiores no rosto encovado. - Nós temos um ao outro.
Apesar da febre maligna, ela conseguira manter Mick vivo. O menino fechou os olhos, demonstrando sentir dor. Em pânico, Ginny debruçou-se sobre o irmão.
- Não tente falar, Mick. Ainda está muito fraco.
- Onde estão aquelas cartas? Ainda as tem?
Ginny anuiu. Ela as escondera debaixo de uma tábua solta que ficava atrás dos baldes cheios de urina. O mau cheiro afastaria qualquer um que fosse mais curioso.
- Mas elas servem somente para ludibriar os incautos.
Mick insistiu e Ginny teve de satisfazer-lhe a vontade de ouvir algumas palavras sobre o futuro. Pegou as cartas e embaralhou-as. Pediu a Mick para cortar o monte e pegar um dos retângulos de ouro. Era o Ás de Espadas.
Mick empalideceu e Ginny sentiu um aperto no coração. Aquele naipe significava destruição, revolta, sofrimento, separação e até morte. Prognóstico de um péssimo porvir. Ginny relacionou a carta com a doença terrível de Mick e a incerteza do que os aguardava.
- Esse é um mau sinal, Ginny - Mick arregalou os olhos.
- Ah, meu tolinho, quantas vezes eu já lhe disse que ninguém é capaz de prever o futuro? - Ginny tirou-lhe a carta da mão. - Isso depende de como nossa vida transcorre. Nós somos os responsáveis pelo nosso destino.
Era o que ela sempre pensara, embora a dúvida começasse a incomodá-la.
O navio chegava ao porto. O balanço da atracação soltou um pedaço de corda do catre suspenso de Mick.
- Já sei. Papai ensinou-me isso. - Ginny amarrou uma das pontas no pulso fino de Mick. - É como o cordão que se usa em casamentos ciganos.
- Faremos um juramento? - Mick franziu a testa.
- Isso mesmo. Na cerimônia romani, o casal promete ficar junto, enquanto durar o amor. Depois cada um seguirá seu caminho. Mas como somos irmãos e sempre nos amaremos, ficaremos juntos para sempre, não importa o que aconteça. Nada haverá de separar-nos. Promete?
- Sim, Ginny.
Ela amarrou a outra ponta no próprio pulso.
- Agora estaremos presos de corpo e alma. Nada haverá de nos separar. Se isso acontecer, não descansaremos enquanto não resolvermos a situação.
- Agora há uma opção excelente.
Ginny foi arrancada de suas fantasias e fitou a multidão aglomerada nos fundos da taverna Raleigh. Observou vários homens respeitáveis de meia idade vestidos com casacos feitos por encomenda, calções de casimira, sapatos de couro brilhante, fivelas de prata nos joelhos e chapéu de três pontas. Pareciam bastante prósperos. O capitão Snape lhe dissera que, na Virgínia, encontravam-se as maiores plantações de tabaco do mundo.
Ginny teria de parecer dócil e meiga, se pretendia ser comprada por um desses cavaleiros.
- Adiante-se. Mostre-nos seus valores.
Ginny observou um grupo de janotas que não passava dos dezoito anos. Cheiravam rapé, sacudiam as perucas empoadas, fumavam cachimbos entalhados e bebiam em garrafas de prata. O que fizera pouco dela encostou-se na plataforma. Migalhas de comida espalhavam-se pelo paletó e marcas de varíola, no rosto sardento. O rapaz piscou com lascívia.
- Afaste-se, sir - O capitão Snape pediu com energia. - O senhor está muito bêbado. Este é um leilão respeitável dos melhores servos ingleses. Não queremos patifes por aqui.
O rapaz puxou uma algibeira recheada e fez uma mesura.
- O senhor está se excedendo. Sou Dennis Creevey e vim à procura de uma criada para minha mãe. - Ele tentou guardar a bolsa no colete. A mesma se abriu e moedas caíram no chão. Dennis nem notou.
Ele levantou a barra da saia de Ginny.
- Vamos lá, beleza. O que me diz de uma inspeção privativa?
Os amigos dele gritaram, e Ginny percebeu o desastre. Os respeitáveis fazendeiros haviam se desinteressado dela. Na certa por achá-la não adequada para um trabalho sério. Rezou para que a sorte não a abandonasse. Analisou o rosto de Dennis. Apesar de ébrio, os olhos castanhos revelavam bondade e as roupas eram caras. Ela se afastou e estreitou os olhos.
- O senhor pretende fazer graça, mas minha privacidade é meu valor, e isso é particular.
Dennis enrubesceu. Os colegas tornaram a gritar e cutucaram suas costas.
- A senhora parece cigana - Um deles falou. - Poderia dançar para nós?
- Isso mesmo, pode começar. - Dennis não lhe desfitava o busto.
Ginny inspirou fundo. Ela não era uma peça de carne para ser avaliada, cutucada, apertada e vendida no mercado. Por que não a enxergavam como uma pessoa respeitável? Palha nos cabelos e sujeira no rosto não a tornavam uma meretriz? Muito menos uma blusa rasgada e uma saia listrada de amarelo e vermelho. Gostaria de cuspir em todos eles.
Lembrou-se de Mick, doente e fraco por causa da febre. Ela o amava mais que a própria vida. E teria de encontrá-lo, custasse o que custasse. Caso contrário, nem queria imaginar o que aconteceria. Por ele, faria qualquer coisa. Até mesmo dançar como uma louca. Agarrou a saia, fechou os olhos e começou a dançar. A multidão urrava a aplaudia.
Ginny rodava, rodava, zonza. As correntes machucavam-lhe o tornozelo e a dor subia pelas panturrilhas. Sentia o cheiro do próprio suor e escutou o trinado de um tordo. A brisa fria acariciou-lhe a face corada. Virgínia era um belo nome. Conseguiria encontrar Mick e juntos começariam uma nova vida? Ou o Ás de Espadas lhe traria pobreza, moléstia, sofrimento e morte?
- Pare com essa dança ridícula!
Ginny abriu os olhos. Um homem gritara com ela. E não fora um desclassificado qualquer. A voz forte, profunda e ressonante lembrou-lhe um aristocrata ou um guerreiro poderoso. E na certa pertencia a quem se aproximava dela a passos largos. Os jovens turbulentos afastaram-se de seu caminho.
O homem era alto, bem proporcionado, musculoso, tinha ombros largos e se movia com a graça de felino predador. Os cabelos rebeldes eram negros e brilhantes. Trajava-se com a sobriedade de um clérigo ou de um erudito. Camisa branca, calção impecável e casaco preto com botões de prata.
Ele subiu os degraus podres e Ginny pôde analisar seu rosto. Era muito atraente e tinha traços bem definidos. A fisionomia severa era impenetrável.
O cavalheiro ignorou-a e dirigiu-se ao capitão com que falara em voz baixa, mas audível para Ginny.
- Bom dia, Snape. Quero comprar essa jovem, mas não pretendo fazê-lo em público. Vamos entrar? Eu lhe asseguro que minha oferta será superior à que o senhor pode auferir com o leilão. - Sem esperar resposta, o desconhecido afastou a cortina de lona que servia de porta e entrou na tenda.
O capitão não se fez de rogado. Agarrou-a pelo cotovelo e apressou-se para dentro. Ginny tropeçou na beira da plataforma, as correntes de prenderam na madeira e ela caiu para frente.
- Olhe por onde anda. - O estranho levantou-a pelo braço e conduziu-a para o interior da cabana. - Eu mandarei tirar esses grilhões em seguida. Na verdade, isso é uma barbárie que ninguém deveria ser obrigado a suportar.
Ginny não teve tempo de agradecer. O estranho soltou-a e afastou-se. Confabulou em voz baixa com o capitão por alguns segundos e, depois de Snape ter deixado o abrigo, virou-se para Ginny.
- A senhora dança com muita desenvoltura. Suponho que seja cigana.
Ginny teve certeza que nunca vira olhos tão verdes em sua vida. Pareciam duas esmeraldas envoltas em uma nuvem de cílios negros. O contraste com a pele queimada de sol era surpreendente.
Recriminou-se por ter ficado fascinada. Sua situação não lhe permitia ter fantasias. Era preciso agir com tino para que a negociação se desenrolasse em temos favoráveis a ela.
- Sou cigana, meu senhor, e orgulho-me de minha origem.
- É mesmo? - Ele a fitava com indiferença.
Ginny pôs as mãos na cintura, aborrecida.
- Os rom fazem parte de uma raça muito antiga que incluem reis e rainhas. Somos mais afortunados, mais inteligentes, mais espertos, mais limpos e mais orgulhosos de que os gorgios... ingleses.
- Na verdade, sou escocês. - Ele franziu a testa. - Mais limpos, a senhora disse?
- Exatamente, milorde. Não se fie nas aparências. O Eillen Snape não é nenhum exemplo de capricho. É cheio de ratos enormes e piolhos descomunais... - Ginny interrompeu-se. Se o cavalheiro a supusesse infestada de doenças e vermes, jamais compraria seu contrato de serviço.
Para desgosto de Ginny, ele desviou o olhar. Ela percebeu a atenção que o acometia. Ora, se aquele interessado não podia ouvir falar de sujeira, paciência.
- Se o senhor não pretende comprar-me, será melhor não perdermos tempo. - Ginny agarrou a barra da saia e ergueu o queixo.
Ele segurou-a pelo pulso, com olhar penetrante.
- Não tenho a menor intenção de comprá-la. Planejo casar-me com a senhora.
Se não fosse a mesa de nogueira do capitão Snape, Ginny teria caído. Apertou o estômago faminto, completamente zonza. Na certa era a fome que a fazia escutar absurdos.
- Perdoe minha brusquidez. Não tive intenção de perturbá-la. Sou Harry James Potter, de Stanton Grove. - Ele fez uma mesura elegante. - Por motivos que não posso esclarecer, preciso de uma esposa imediatamente. Pareceu-me que... - Ele fitou os sapatos com fivela de prata e ensaiou um sorriso -... a senhora seria uma esposa conveniente.
- O senhor é doente mental? - Ginny correu até a entrada com a rapidez que as cordas lhe permitiram. - Capitão Snape! Tire-me daqui! Esse homem é maluco?
Harry divertiu-se.
- Maluco? Talvez eu seja mesmo. Mas de nada adiantará gritar. Pedi ao bondoso lobo-do-mar para conceder-nos alguns minutos a sós... assim poderemos travar um pequeno conhecimento.
Ginny virou-se, furiosa. Não a agradara nem um pouco o tom malicioso embutido naquelas palavras. Fosse ele quem fosse, não haveria de aproveitar-se dela.
- Conhecer, é? Pois fique sabendo de uma coisa. Embora eu esteja com uma aparência lamentável, não sou nenhuma rameira que pode comprar com meia dúzia de palavras e alguns centavos. Eu jamais me deitaria com alguém como o senhor. - Disse várias imprecações em romani. - Não perca seu tempo!
Harry segurou-lhe o queixo e passou-lhe o dedo nos lábios.
- Tenha calma. Rainhas ciganas não devem praguejar. - O sorriso dele era fascinante e duas convinhas aumentava o encanto da boca sensual. O lábio inferior tinha uma minúscula depressão central. Irresistível.
Harry soltou-a e ficou sério.
- Senhora, minha solicitação é a mais respeitosa possível. Por motivos particulares, preciso de uma esposa por algum tempo. Se a senhora aceitar meu pedido, eu lhe dou minha palavra de cavaleiro de que o enlace será inteiramente casto. Eu lhe asseguro que não tenho pretensões de comprometer sua virtude. - Ele não pôde deixar de fitar-lhe o busto, com um sorriso provocativo.
Ginny afastou-se e avaliou a fisionomia de Harry. Sincera, prepotente, selvagem. Uma pequena cicatriz marcava um dos lados do lábio superior.
- Onde conseguiu esse sinal? - Ele apontou a marca.
Harry passou o nó do indicador na marca.
- Nada importante. Agora diga-me, senhora. Concorda com minha proposta?
Pelo sotaque, Ginny não duvidou de que o pretendente fosse escocês.
- Mas por que eu? Um figurão como o senhor certamente terá muitas conhecidas entre as quais poderia escolher a que...
- Digamos que eu não preciso de uma dama, mas sim de uma... rainha. - Harry tornou a sorrir e a prudência de Ginny desvaneceu-se.
- O capitão Snape explicou-nos que há uma lei proibindo os servos de se casarem até que a pena seja comprida.
- Sei disso. Se consentir com minha proposta, eu a libertarei antes do casamento. Em troca, terá de concordar em agir como minha verdadeira esposa... durante um certo período. Depois de cumprir nosso acordo, eu lhe entregarei o comprovante de alforria.
- Por quanto tempo terei de representar o papel?
- Calculo que seja de um mês... até um ano. Até que eu herde Stanton Grove.
- Por acaso é uma fazenda?
- Sim. A mais bela da Virgínia.
Ginny entendeu que o plano de Harry lograria as intenções de alguma ou de algumas pessoas. O que, no entanto, não a intimidou. Pelo contrário. Excitou-a. Suportara um verdadeiro inferno naquele navio que a trouxera da Inglaterra. Nada poderia ser pior. Além disso, precisava encontrar Mick.
- Eu poderia concordar, sir - Ela estreitou os olhos -, mas também tenho uma condição.
- A senhora não está em circunstâncias de impor normas. - Harry falou com frieza, embora fosse perceptível um tremor no canto dos lábios.
- Sei disso. Mas se vou ajudá-lo, o senhor pode prestar-me um favor.
- Do que se trata?
- Tenho um irmão de oito anos que está muito doente e que poderá morrer. Ele foi vendido esta manhã pelo capitão Snape. Não sei quem o comprou. O capitão Snape recusou-se a dizer-me o nome da pessoa.
- A senhora está abusando de minha paciência. Repito que não está em condições de impor nada. Não preciso de nenhum menino bisbilhoteiro.
- Mas...
- Não discuta. Sou eu quem dá as cartas por aqui. Uma cigana deve entender do que estou falando. Ou a senhora concorda com meus termos que incluem um período rápido de casamento pró-forma de ambiente de conforto, ou será levada de volta ao navio do capitão Snape... Dali será levada até Barbados, onde cumprirá dez anos de trabalho forçado nos campos açucareiros.
Harry segurou-a pelo braço e aproximou o rosto do dela. Ginny sentiu o cheiro de uísque.
- Posso assegurar-lhe, minha senhora, que os fazendeiros de barbados não se parecem com os cavalheiros da Virgínia. É raro um servo sobreviver à pena.
Ginny desvencilhou-se. Disfarçou o tremor das mãos, segurando a saia. Recriminou-se por tê-lo achado atraente. Harry Potter não passava de um monstro sem coração que ousava dar as costas a um pobre menino doente perdido nas selvas da Virgínia. Mas também como poderia ajudar Mick, se fosse para Barbados? Teria de agarrar a chance de liberdade e a oportunidade de encontrar Mick. Não havia outra opção.
- Milorde - Ela fez uma cortesia -, concordo com suas condições.
Ginny prometeu a si mesma usar Harry da mesma forma como ele a usaria. Representaria o seu papel com perfeição, encontraria Mick e ambos fugiriam daquele lugar rumo à nova vida que ela lhe prometera.
Continua...
Antes de mais nada, explicando:
Romani: Língua que os ciganos originados de Portugal falam.
1- Jack Sloper (ou Juca Sloper, na língua da Wyler) foi aluno da Grifinória, que aparece pela primeira vez em "Harry Potter e a Ordem da Fênix", na página 372, para substituir um dos gêmeos no Quadribol.
N/A (adaptadora). Mais um capítulo. Espero que gostem. Até "Uma Segunda Chance". Beijos da Juh.
