" ~ Quando você se sente cansado, mas não consegue dormir."
No radio tocava aquela velha música, que talvez moldasse seu estado atual. Perguntava-se por que diabos ainda lembrava daquela data. Mas continuava a cantar baixinho, contornando as palavras com seus lábios.
" Quando as lágrimas começam a rolar pelo seu rosto,
Quando você perde algo que não pode substituir.. ~ "
Privou-se de continuar aqueles versos, tragando forte o cigarro e demorando-se ali. Semicerrava o olhar, lutando para que não ficassem marejados. Deixava o corpo cair para o lado, deitando-se no sofa, sobre os controles do velho playstation2. Não importou-se com a dor que sentia pelas partes mais salientes do controle fincarem-lhe a costela. Na televisão, as letras de "Game Over" piscavam, obsoletas. Empurrou com os lábios o que restou do cigarro para o chão, e esmagou com o pé. Esperava mais que tudo, poder dormir naquela hora... Foi quando o celular dela tocou. Ele a viu remexer-se na cama, mas sem dar ouvidos ao aparelho.
É sempre assim, depois que transamos...
Suspirou, entre um pensamento e outro. A um ano morava com uma antiga amiga do Orfanato, Linda. Haviam se encontrado enquanto o Ruivo fazia um de seus bicos, como entregador de pizza - seu emprego às quartas, quintas e sextas. Não que ele precisasse de dinheiro - sua 'familia' havia deixado muito em sua poupança - mas para que se sentisse um pouco mais... "humano". Contrariado, levantou-se, e mirou os números piscando na tela do aparelho. Um numero sem identificação. Jeevas não atendeu - justamentamente porque o celular lhe era tomado das mãos, pela garota seminua que levantava-se da cama. Ele coçou a cabeça, dando as costas.
- Desde quando te interessa quem me liga?
Ela não perdeu a oportunidade de o importunar - era o jeito de Linda para mostrar tamanho amor que tinha para com o rapaz - tentava dia e noite não ser apenas uma amiga que ele dividia o quarto e com qual ele transava de vez em quando. Ouviu ele abrir a geladeira, então riu - voltando apenas agora os olhos para a lista de chamadas não atendidas do celular.
- Foi reflexo...
Ele murmurou, fitando-a com o canto dos olhos. Mas ela rapidamente sumia, entrando no banheiro e saindo devidamente vestida. O ruivo mal conseguiu processar em sua mente toda aquela pressa da garota. A viu enrolando um cachecol no pescoço, então finalmente ele ergue os olhos para ela.
- Aonde tu vai...? E com as chaves do meu carro?
Ela estremeceu, suando frio. Ele não sentiu pena, nem nada. Permaneceu estático, esperando uma resposta da mulher.
- É urgente. Preciso de uma carona... pra algum lugar. Te explico no caminho.
- Como assim?
- Jeevas, por favor, não faça perguntas... eu pago a gasolina e pago cigarros pra você, que seja, apenas vamos!
Inconscientemente, ele começou a seguí-la. Afinal, não iria perder nada com aquilo - muito pelo contrário. Ele pouco se importava, mas era melhor que ficar apodrecendo no sofá, naquele maldito dia, naquela maldita data. Entrou no carro e achando seu velho cachecol, enrolava em seu próprio pescoço também, estava frio pra caralho. Via que Linda mechia no celular, avidamente, sem tirar os olhos do aparelho, o guiava, dizendo as direções.
- Isso é um GPS, é? Desde quando tu tem toda essa técnologia no teu celular?
- Desde que trabalho pro FBI.
Ela responde seca, preocupada com outra coisa. Cuspia as direções, anciosa, afoita. A face do ruivo continuava inexpressiva. Até que ela lhe manda estacionar em um beco, que dava entrada a vários outros. Desceu do carro e saiu correndo, becos àdentro. Ele suspirou.
- Se já tem a porra do GPS, poderiam ao menos dar um carro pra ela também. Maldito governo.
( Olá leitoras(es). Continuei, e pretendo adiantar as outras também. Thanks, folks! 3 )
