Ela e ele

#2: Aquela da casa dela

Kagome não conseguia entender como ela, alguém que odiava visitas e não tinha planos de se tornar mãe, acabara virando a hospedeira de seu grupo de amigos.

Verdade seja dita, ela entendia sim. Conhecia alguns deles desde pequenos, outros haviam chegado ao decorrer da adolescência. As casas de Sango, Miroku, Kouga, Ayame, Inuyasha e Sesshoumaru eram espalhadas pela cidade e a de Kagome se encontrava convenientemente no centro. Automaticamente, aquele era o ponto de encontros.

(Ela já considerara se mudar pelo simples motivo de ser inconveniente, mas todo o trabalho não valeria a pena já que os resultados mais prováveis seriam a) ela morreria de solidão, já que seus amigos eram preguiçosos demais para dirigir por mais de quinze minutos, ou b) eles se arrastariam até a nova casa de qualquer forma porque Kagome era a melhor cozinheira do grupo).

Saindo de seus devaneios — e da cozinha — ela voltava para a sala de estar depois de recolher os pratos restantes que estavam jogados pelo cômodo. Ali, acontecia uma partida ávida de Monopoly em que Sango e Miroku perdiam para Inuyasha, que expressava o típico sorrisinho sarcástico (aquele que Kagome tinha vontade de tirar a tapas). Kouga e Ayame observavam as jogadas atentamente, com o único objetivo de não perder oportunidades de rir dos demais. Era tarde da noite e a mulher se preparava para chutar todas aquelas bundas para fora.

Ela não pode deixar de perceber que uma bunda faltava. Ou melhor, o dono dela. Sesshoumaru não estava na sala e isso fez com que Kagome inspecionasse o lugar de testa franzida, apenas para sorrir ao vê-lo através do vidro da janela. O mais velho dos Taisho estava no jardim de trás, o celular grudado na orelha pontuda, provavelmente tratando de assuntos do trabalho.

Era difícil lidar com Sesshoumaru. E era eufemismo usar a palavra difícil para descrever a situação. O youkai era a personificação do conjunto introversão, rispidez, frieza e distância, principalmente quando se tratava de humanos. Por isso, Kagome ficara extremamente feliz quando sua própria teimosia começara a vencer as barreiras daquele que agora podia chamar de amigo. Ela ainda não entendia exatamente como ou quando aquilo acontecera, mas era grata mesmo assim.

Os gritos de Sango, Miroku e Inuyasha ecoaram pela casa (e pelo resto da vizinhança, provavelmente): os dois primeiros divididos entre acusações de trapaça e aceitação da derrota, e o último parecia algo como "chupa, perdedores!" seguido de gestos obscenos envolvendo dedos das mãos. Em seguida, uma discussão calorosa irrompeu, causando um ataque de riso em Ayame.

Kouga foi o único a notar Kagome se aproximando e lhe sorriu, oferecendo um lugar no puff ao lado. A morena recusou e logo acabou com a festa, chutando as almofadas e o tabuleiro e ameaçando chutar outras coisas mais.

"Está tarde." ela disse. "Fora da minha casa!"

Inuyasha, o pirralho arrogante que era, estava ocupado demais se gabando da vitória para acusá-la de ser rude ou de estar passando muito tempo com Sesshoumaru (o que, estranhamente, ela estava). Os demais proferiam obscenidades para o hanyou ou, no caso de Ayame, pareciam muito contentes em finalmente poder ir dormir.

Kagome os arrastou até a porta e os acompanhou para fora.


Chutar os amigos de sua casa e depois passar trinta e cinco minutos conversando com eles no portão era uma tradição da qual Kagome não abria mão. Era tudo friamente calculado, ela dizia: vou expulsá-los meia hora antes para podermos ter um tempinho juntos lá fora. E sempre valia a pena.

Ela ria de alguma piada que Miroku contara enquanto voltava para dentro de casa. Deu uma boa olhada no lugar, que estava uma bagunça, a começar pela sala desarrumada até a cozinha cheia de louças. Kagome estranhou quando as ditas louças emitiram barulhos e foi até a cozinha, sem se dar conta de que esquecera Sesshoumaru no jardim de trás há algum tempo.

O youkai agora estava na cozinha, de costas para ela, inclinado sobre a pia com os cabelos caindo ao redor do rosto. Kagome nunca pensou que viveria para ver Sesshoumaru Taisho lavando a sua louça, mas a vida nunca deixava de lhe surpreender.

"Está lavando a minha louça."

"Inuyasha é um idiota."

Kagome arqueou uma sobrancelha ao se aproximar e pegar uma toalha para enxaguar os talheres. Ela fitou o youkai.

"Pensei que estivéssemos listando coisas óbvias", ele explicou, como se ela tivesse cinco anos (Kagome tinha certeza que era essa a idade mental que Sesshoumaru lhe atribuía). Sendo a pessoa madura que era, ela lhe acertou uma cotovelada no braço e se continuou a fazer sua parte na limpeza.

Parando para pensar, o comportamento de Sesshoumaru não era de todo estranho (mas somente neste caso específico). Kagome sabia que limpeza e organização eram essenciais para ele; sujeira e desorganização o deixavam louco, principalmente quando se tratava de algo relacionado a comida. Outra razão para tal atitude era baseada em uma vaga memória de Sesshoumaru lhe dando um sermão por bagunçar seu templo de higiene, também conhecido como apartamento. Eu lhe dei abrigo, ele dissera, limpar sua própria sujeira é o mínimo que pode fazer como retribuição.

Kagome sorriu com a lembrança e passou a observar o youkai pelo canto dos olhos.

Sesshoumaru era bonito. Mas Sesshoumaru focado em algo, mesmo que algo tão mundano como lavar um prato, era ainda mais belo. Parecia de alguma forma engraçado que um youkai com tamanha força fosse tão cuidadoso com algo tão frágil. A morena gostava de observar como os olhos dourados ficavam fixos no que fosse que ele estivesse fazendo; as mãos eram precisas mas delicadas, e os cabelos prateados caídos para frente.

"Pare de me encarar."

Kagome se assustou ao ouvir a voz monótona e quase deixou um dos copos caírem, apenas para ouvir um hmpf, que podia ser traduzido para humanos idiotas, como resposta. Ela disse um palavrão e acertou o braço de Sesshoumaru novamente, usando a toalha dessa vez. Ele não pareceu notar.

Ela percebeu que os cabelos longos estavam atrapalhando o maldito e pensou em bagunça-los com as duas mãos, como fazia com Inuyasha, mas realmente não queria ter os braços arrancados de madrugada. Em vez disso, ela tirou o pulso um amarrador que sempre levava consigo e se aproximou.

"Posso...?"

Sesshoumaru a observou por alguns segundos, como se ponderasse se aquilo era uma brincadeira ou não, e então parou de mexer os braços, sem dizer uma palavra. Ela pegou os cabelos entre as mãos (pelos deuses, eles eram tão macios que Kagome fez uma nota mental para lembrar de pedir a marca dos produtos que Sesshoumru usava) e os amarrou em um rabo baixo.

Eles continuaram a limpeza em um silêncio confortável até que enfim ela entregou a toalha para que ele secasse as mãos. Kagome murmurou um agradecimento e Sesshoumaru assentiu, seguindo para a sala.

Antes que pudesse se repreender, ela abriu a maldita boca grande:

"Está tarde... Pode ficar se quiser."

O silêncio que seguiu não foi tão confortável e Kagome se sentiu na obrigação de completar a oferta com algo como no sofá, é claro; ou na casinha do meu gato, é claro. Sesshoumaru demorou alguns segundos para responder (que não, é claro) e ela não sabia se era porque ele realmente considerara a oferta ou porque gostava de deixa-la desconfortável.

Ele pegou as chaves penduradas no gancho atrás da porta e se virou para sair. Kagome não pode deixar de admitir que se surpreendeu quando ouviu a voz de Sesshoumaru uma última vez:

"Boa noite, Kagome."


Sesshoumaru fechou a porta do apartamento e pendurou suas chaves, colocando a carteira e o relógio de pulso no aparador do hall de entrada logo em seguida. Ele se dirigiu para o quarto e de lá, já em suas roupas de dormir, foi para o banheiro.

Assim que entrou no cômodo, viu seu reflexo no espelho e percebeu que ainda tinha os cabelos amarrados. Ele se aproximou da pia e puxou o amarrador, soltando os fios prateados mas mantendo o objeto na mão.

Aquilo cheirava a tecido, borracha e shampoo de morango. E cheirava a Kagome.

Não ficara tão surpreso quando se sentiu tentado a permanecer na casa da Higurashi. Eles vinham passando mais tempo juntos ultimamente do que jamais passaram em todos os anos que se conheciam. Isso porque ela se tornara uma companhia deveras agradável, pelo menos muitos mais do que qualquer outra pessoa que ele conhecia. Claro, ela ainda era invasiva e infantil às vezes, mas ele aprendera que essa era a forma dela de mostrar que se importava, e que sempre seria assim. Aquela era Kagome Higurashi, e ele aceitava os detalhes irritantes para poder fazer parte de sua vida.

O que realmente lhe surpreendera fora a vontade de fazer o caminho reverso assim que estacionara na garagem do prédio. Chegara a cogitar voltar apenas para usar a desculpa de que esquecera de devolver o amarrador. Sesshoumaru Taisho, o grande youkai, estava com impulsos de um garoto humano de treze anos de idade.

Talvez fosse uma doença, ser humano. Um vírus transmitido pelo ar que demorara a derrubar seu sistema imunológico, mas que vencera depois da constante presença da humana Kagome no seu dia-a-dia.

O que quer que fosse, ele pensou, indo até a cama, era desconhecido e seria melhor evitar.

Então, ele colocou o amarrador em seu pulso e se deitou. Naquela noite, Sesshoumaru pegou no sono sentindo cheiro de tecido, borracha e shampoo de morango. E, claro, de Kagome.


Só queria dizer que eu estou escrevendo o que me vem na telha e não sei qual o rumo dessa fanfic.

Beijos!