SOCO AMARETTO LIME
Por Zooey Mureau
Capítulo 02 – All My Loving
All my loving I will send to you
(Todo o meu amor eu mandarei pra você)
All my loving, darling, I'll be true
(Todo meu amor, querida, vou ser verdadeiro)
Close your eyes and I'll kiss you
(Feche os olhos e eu te beijarei)
Tomorrow I'll miss you
(Amanhã sentirei saudades de você)
Remember I'll always be true
(Lembre-se que eu sempre serei verdadeiro.)
Em dezessete anos de vida, o maroto havia feito algumas descobertas, chegado a algumas conclusões. Entre elas estava a teoria de que não importava sua educação à mesa, isso não afetava em nada seu charme. Pelo contrário, de certa forma até o aumentava. Sirius, diferente de Peter, não era um glutão, mas ninguém podia negar seu apetite pantagruélico. Ainda diferente do amigo rechonchudo, não mastigava de boca aberta e nem roubava a comida do prato dos outros (só raramente!), mas dependendo do seu estado de humor, não usava talheres e fazia uma pequena algazarra (sem mencionar o hábito de chamar a atenção atirando partes da refeição – as que ele menos gostava - nos amigos). E, por mais porcamente que se comportasse, só arrancava suspiros.
Não que existisse algo que ele fizesse – ou deixasse de fazer – que não arrancasse suspiros. Era perfeito, peça única, o rascunho que nem precisou ser modificado, de tão bom que ficara. E, além de todas as qualidades requisitadas em uma pessoa perfeita, Sirius tinha algo que o diferia definitivamente dos outros homens: entendia as mulheres. Como, ao certo, ele não sabia. Admitia que sensibilidade não era exatamente um dos seus fortes, mas ele era um ser humano tão perfeito que nem precisava muito dessa qualidade. Se virava bem sem ela (e sem a modéstia).
E de uma coisa o garoto sabia: mexia com o lado mais irracional das mulheres, com todas as informações que coletara sobre elas ao longo dos anos. Desde coisas bobas, como o fato de valorizarem simplicidade e espontaneidade (por isso não se importava em ser um gentleman à mesa, elas precisavam ver um lado humano para concluírem que tal perfeição de fato existia) até assuntos mais complexos, como, por exemplo, a atração animal que tinham por ele. Não era difícil para ninguém adivinhar o motivo de tanta atração, mas se fosse só a questão da perfeição sua legião de fãs seria infinitamente menor. Almofadinhas tinha algo a mais, mais uma vez. O que prendia as mulheres. A cordialidade.
Aquela que desenvolvera durante toda sua vida, baseado em questões popularmente conhecidas, como o fato de ninguém dar valor para o que é fácil, e também o lance de mulheres serem baqueadas pela insegurança. Por isso dava em cima de todas, sem se aprofundar em nenhuma até o momento do pá. Era sua certeza de que o momento se concretizaria, sua tática infalível. Mais simples impossível, só cercar até confundi-las, fazer com que elas queiram saber quais são suas intenções. Se ele estava só brincando, já que nunca fala sério. Se estava realmente interessado, se tomaria alguma atitude. Dúvidas precisam ser saciadas. Falta de respostas gera obsessão. E isso tudo estava gravado, em alguma parte de seu subconsciente.
Sirius estava ocupado demais em devorar uma coxa de galinha estupenda e mais do que entretido em arrancar sorrisos da população feminina ao seu redor para perceber que alguém parara atrás dele, observando a cena que desenrolava naturalmente no Salão Principal.
"Você é um poço de elegância, Sirius Black."
Engoliu a mordida que triturava há alguns segundos ao ouvir o som de sua voz. Sorriu, limpando as mãos no guardanapo e virando-se para olhá-la. Ela. A que não se encaixava nas mulheres anteriormente descritas. A exceção de todas as suas regras. A menina que lhe ensinara que convicções são cárceres. A sua insegurança.
A pele branca contrastava perfeitamente com o tom bem escuro de seus cabelos castanhos, que lhe caiam um pouco acima da cintura, lisos. A parte da frente estava presa para trás, num tipo de topete Audrey Hepburn (sem a franja) que destacava mais o rosto. Traços extremamente delicados. Ela era dona do nariz mais bonito que Sirius conhecia. Não muito grande e extremamente fino, combinava demais com a boca, de lábios rosados. Os longos cílios perfeitamente alinhados em forma de arco emolduravam os grandes olhos azuis, o destaque do conjunto todo (e também os olhos mais bonitos que já vira). Sim, ele a achava maravilhosa em todas as suas particularidades. Até o corpo, considerado - por muitos - nada demais, era perfeito. Ela era tão absurdamente magra que ele às vezes tinha medo de abraçar e quebrar. E as pernas... As mais proporcionalmente compridas. Até sua silhueta era invejável.
Aquela era Leslie Wallace, uma das quatro únicas mulheres que amava (as outras eram Andrômeda Black, sua prima, Liserre, a única mulher que considerava uma amiga, e Dorea Potter, mãe de Pontas). Grifinória do quinto ano, Leslie, infelizmente, era cortejada por todos os garotos do colégio. Para seu desgosto ele não era o único que a achava assim tão interessante. Mas Sirius não se importava muito com isso, não era uma pessoa ciumenta. Sabia que o relacionamento deles transcendia a amizade, por mais que não tivessem nada sério (nem ao menos ficavam, contrariando todas as expectativas). Sentia-se, de fato, um pouco ameaçado por vê-la ficar com outros, mas sabia que, no fundo... ela era dele, e só dele.
"Ninguém além de você se comoveria com tamanha elegância, paixão." Deu um passo em sua direção, envolvendo-a em um abraço apertado. Encostou os lábios nos dela, levemente, se afastando depois do rápido selinho. Tinha plena noção de que a maioria das cabeças do Salão estava virada na direção deles, mas não se importou. Acostumara-se a isso. Mesmo que o relacionamento deles não fosse novidade para ninguém, continuava sendo uma incógnita (até para os dois, embora não admitissem).
"Pois é, admito que estou mais do que impressionada com seus bons modos." Sorriu aquele sorriso gostoso, extremamente fofo, marca registrada de quando estava com ele. Sirius segurou sua mão, aproximando-os, quando bateu os olhos nas vestes da menina, que exibiam um distintivo brilhante.
"Awn, você é monitora agora? Que bonitinha, crescendo e me desapontando." Sorriu. Adorava se referir a ela como se fosse extremamente pirralha, sentia-se assim digno do cargo de protegê-la dos outros, por ser tão novinha e indefesa. Não que fosse novinha e indefesa, mas isso ele relevava.
"Sim, agora eu posso mandar em você."
"Você nunca precisou de um distintivo para que eu te obedecesse..." Mordeu o lábio inferior, divertido, enquanto a observava corar. Sabia que a estava constrangendo, mas a sensação era tão encantadora que não podia evitar. Leslie tirou um pedaço de pergaminho do bolso e entregou nas mãos dele.
"Você não me escreveu nas férias." Acusou, embora não estivesse nem um pouco brava, e aparentemente não estava chateada tampouco. Isso era uma das coisas que ele mais admirava no relacionamento deles, era sempre tão simples e sem complicações. Sem ressentimentos por coisas bobas. Não se lembrava, em todos esses anos, de alguma vez tê-la visto irritada com ele.
Reconheceu sua letra e o bilhete que escrevera para ela no último dia de aula de seu sexto ano, há uns meses:
"And then while I'm away, I'll write home everyday and I'll send all my loving to you."
(E enquanto eu estiver fora, escreverei para casa todos os dias e mandarei todo o meu amor pra você.)
"E você não respondeu meu bilhete." Rebateu, se referindo ao bilhete que escrevera no almoço do dia anterior.
"Bom, eu não disse que responderia." Sorriu, se aproximando um pouco para abraçá-lo. "Mas, awn, paixão. Não sabia que você sentia tanto a minha falta, nunca vi tanto drama reunido em um pergaminho tão pequeno!" Mordeu sua bochecha, brincando, mas Sirius já não dava tanta atenção à menina, avistara Marlene McKinnon terminar seu almoço e deixar o Salão Principal, com Alice Lowe.
"Não consegui reprimir tais sentimentos." Forjou um quê magoado, fazendo com que Leslie o mordesse mais uma vez como pedido inconsciente de desculpa irreal. "Hoje você tá livre?" Assentiu com a cabeça.
"Mas vou atrasar, provavelmente. Tenho reunião de monitores."
"Não tem problema, paixão, você sabe que eu esperaria a noite inteira..." Pegou sua mochila amarela e a tacou sem muito jeito nas costas, decidido a não se demorar muito ali. "Alguém te falou dos debates, amanhã?"
"Que bom que você esperaria. Fui armazenando crédito ao longo dos anos e seria injusto nunca usar. Já te esperei por mais do que noites inteiras." Sentou-se a mesa no lugar onde ele antes estivera, aproveitando-se desse fato. Afinal, ninguém ousara sentar lá, uma vez que ainda havia possibilidade dele retornar. E ele era Sirius Black. Ninguém nunca tomava seu lugar em nada. Pelo menos ninguém que não fosse do seu círculo interno. "Remus comentou comigo, relaxa. Vou sim." Indicou Aluado - que estava sentado ao seu lado - com o queixo.
"Certo. Vou indo, vejo vocês nas masmorras." Falou, recebendo um polegar simpático de Peter, que, cheio de comida na boca, não estava exatamente apto para abri-la e responder ao amigo sem cuspir partes de galinhas em cima de James. Mas uma velha e saudosa joinha estava bom demais, uma vez que cuspir comida em James não estava na sua lista de coisas que faria e sairia vivo depois. "E você, mais tarde." Sirius depositou um singelo beijo na testa da menina, se afastando e piscando para esta, em despedida.
Correu em direção às masmorras, não tardando muito a encontrar a dupla que antes vira sair do Salão Principal. Dirigiu-se a elas, sorrindo da forma que sempre fazia, naturalmente atraindo suas atenções (e a dos outros ali presentes).
"Marlene, Alice" Cumprimentou-as, cordialmente. "Marlene, eu ficaria muito feliz em te ter como dupla de poções hoje." Lançou a proposta singela no ar, dando mais um de seus sorrisinhos característicos. Não deu chance para ela responder, girou os calcanhares e saiu apressado para dentro das masmorras.
Sirius observou sentadinho no fundo da masmorra as pessoas chegando, aos poucos, e tomando seus lugares. Lily fora uma das primeiras. Adentrara o aposento distraidamente, lendo um pergaminho. Desviou sua atenção deste assim que o viu, arqueando as sobrancelhas ao notar que ele, estranhamente, não estava atrasado. Sirius apenas sorriu para ela, que em resposta lançou-lhe uma espécie de sorriso torto – que ele julgou ser o melhor que ela conseguia direcionar a um Maroto (com exceção de Remus) – e dirigiu-se ao seu lugar, bem na frente.
A classe já estava quase cheia quando Marlene e Alice chegaram do banheiro. Por uma fração de segundo Sirius achou que a primeira não fosse se sentar com ele, mas ela girou os calcanhares e alcançou a carteira que ele ocupava. Alice se adiantou até Liserre, que estava, até então, direcionando toda sua atenção para a tarefa de Feitiços que fazia (tanto que nem havia notado o amigo quando chegara). Algum tempo depois e um tanto quanto atrasados, os marotos restantes entraram nas masmorras. Remus e Peter sentaram-se nos seus lugares habituais, um do lado do outro, como parceiros. E James... Bem, James olhou para Sirius um tanto quanto deslocado, e a única explicação que se seguiu foi um grande polegar encorajador. Confirmando sua tese de que Marlene não estava sentada em seu lugar por engano, afagou os cabelos e com seu melhor sorriso estampado no rosto, se aproximou de Lily. E preencheu o único lugar vago na sala, ao lado dela.
A cena que se seguiu arrancou muitas gargalhadas (internas, já que ele não era louco de rir alto) de Sirius. Evans era, realmente, como James sempre dizia, uma pessoa muito singular. Ao sentir uma presença sentar-se ao lado dela, desviou os olhos do pergaminho que lia para saudar a amiga, e voltou para sua leitura. Ao notar que a amiga não era exatamente a amiga, e sim uma versão um pouco mais alta, troncuda, sorridente, de olhos escuros e cabelos curtos, desviou novamente o olhar para tal figura, recém identificada como James Potter. Então veio uma expressão muito engraçada, que oscilava entre ultraje, surpresa e revolta. Sem dizer nada, Evans correu os olhos pela sala, fixando-os nas carteiras no fundo desta, mais precisamente neles, Sirius e Marlene. Então fechou a cara completamente, balançando a cabeça em negação. Estava emputecida com a traição da melhor amiga.
"Acho que já posso me considerar uma pessoa morta." Marlene suspirou, em falso pesar. "É bom que você tenha um bom plano para ajudar seu amiguinho, não quero perder minha vida em vão."
"Aaah, Marlene... Assim você me superestima!" Brincou, fingindo que estava tocado com tal estima. Olhou para um recém-chegado Slughorn de soslaio. Esse discorria sobre algum assunto desinteressante que ele não estava a fim de ouvir. "Mesmo eu sendo uma pessoa extremamente generosa, seria somente meia verdade admitir que estou ajudando meu querido amigo Pontas a se aproximar de Lily. Mas vou te mandar a real, o motivo de ter te chamado para ser minha parceira é para benefícios pessoais..." Sorriu, um tanto quanto malicioso. "...desfrutar da sua adorável presença." Terminou, com simplicidade.
"Oh, então vou passar a minha última hora de vida na sua presença! É bom que valha a pena." Desafiou, sutilmente. É óbvio que qualquer hora na presença de Sirius Black valia muito mais do que a pena, mas ela era uma pessoa comprometida e, ainda por cima, não sabia quais eram as intenções dele com ela. Estava sempre brincando, nunca falava sério, ia além da compreensão. Mas era divertido, e ela decidira entrar na brincadeira. Afinal, assim podia dar moral pra ele o quanto quisesse, sem ele saber se era sério ou não.
"Pelo menos você vai morrer feliz. Isso deve valer de alguma forma. Passar a última hora de vida na presença de Sirius Black é privilégio de poucos."
"Black, eu realmente acredito no seu potencial de manter as pessoas entretidas por horas a fio, sem dizer uma só palavra. Mas, como esse não é o caso, tenho minhas dúvidas." Sirius sorriu encabulado com tamanho elogio. Fez um gesto como quem diz 'é a vida', e murmurou baixos 'tsc, tsc'.
"Não é o caso?" Sutilmente, o maroto deslizou os dedos pela perna da menina, brincando de fazer desenhos abstratos com a ponta desses. Por fim sossegou a mão lá. "Eu diria que é sempre o caso, só basta querer. Tem várias salas desocupadas por aqui..."
Ouch. Ele era direto. E ela uma otária.
Uma imbecil.
Marlene se repreendeu violentamente por não conseguir evitar os arrepios que sentiu com aquele simples toque. Tinha um namorado lindo que a amava e que ela amava. Aquela atitude excedia o limite até do inaceitável.
"Então acredito que eu não queira." Levou sua mão até a dele, tirando-a de sua perna, e entrelaçou seus dedos, mantendo as duas mãos unidas embaixo da carteira, para que nem ela pudesse ver o absurdo em questão. Sorriu, se esforçando para que ele não percebesse sua respiração descompassada.
"Se você diz..." Inclinou-se na direção dela, encostando seus lábios na bochecha de Marlene, levemente. Demorou um pouco para voltar ao seu lugar, certificando-se que causaria o impacto que queria e também aproveitando para sentir o cheiro do perfume dela. Não insistiria mais naquele round, sabia quando parar. E, por hora, estava mais do que satisfeito em estar de mão-dada com ela, duvidava muito que a garota fosse aceitar ir para uma sala deserta com ele, naquela altura do campeonato.
Poucos metros mais para frente estavam James Potter e Lily Evans, discutindo baixinho para não terem suas atenções chamadas por Slughorn – mais uma vez.
"Eu não sei o que você fez com a Marlene, Potter, mas pode tratar de desfazer porque eu não te quero como meu parceiro de poções!"
"Lily, juro que não fui eu! Quando eu cheguei ela já tava sentada lá e eu não tive nada a ver com isso. Esse, para minha felicidade, era o único lugar vazio, então eu meio que nem tive escolha, por mais irônico que soe." Lily cruzou os braços, não querendo acreditar. Não queria mesmo acreditar, mas os fatos estavam contra ela e a favor de Potter.
1 – O olhar de Marlene para com ela foi de imensa e total culpa, e não um de 'desculpa, não tive escolha!'.
2 – Ele realmente chegara atrasado.
3 – Por mais que não se compadecesse nunca pelos olhares inocentes de Potter, aquele parecia mesmo real.
Droga. Nenhum fato estava a favor dela. Somente seu orgulho, este nunca a abandonaria! Agarrando-se a ele como sua última esperança, balançou a cabeça negativamente, informando-o que não estava convencida.
"Você só não acredita porque quer continuar brava comigo." Lily o viu reprimir um sorriso, sabendo que isso só a irritaria mais. Mas já era pró em discutir com ele, sabia até identificar sorrisos reprimidos.
"Também, mas isso é um direito meu. Posso ficar brava com quem eu quiser quando eu quiser, e no momento tô bem satisfeita em estar brava com você." Na verdade só não queria admitir que ele estava certo porque isso seria admitir que ela estava errada. E admitir que estava errada em qualquer coisa direta ou indiretamente relacionada a James Potter era algo que exigia uma preparação psicológica que ela não tinha.
"Mas não sem motivos! Ao contrário você estaria só descontando sua vontade de ficar brava em mim, o que seria injusto e te faria perder a razão e, portanto, estar errada. Você estando errada significa eu estando certo." Que tom de voz mais petulante esse insuportável tem. E quanta prepotência! Cuidado, vai explodir qualquer dia.
"Estar na sua presença por mais de cinco segundos é um motivo muito razoável, Potter. Ser obrigada a ser sua parceira de poções então é um motivo muito forte, que ganha qualquer discussão!"
"Isso nos seus critérios, quem disse que eu concordo com eles?" Perguntou, todo zombeteiro. "Se eu tivesse te obrigado, até concordaria, mas fui obrigado também. E nem por isso tô reclamando! Sou o único aqui que leva a sério a proposta de trégua, você simplesmente não consegue não brigar comigo, nem quando sou totalmente inocente."
Lily não pôde dizer o quanto aquele comentário a irritara. E, mais ainda, não pôde dizer o quanto o fato de aquilo tê-la irritado a irritara mais ainda. Ou seja, estava enlouquecida por constatar que ele estava certo. Aquilo não podia ser verdade. Ela era uma pessoa extremamente controlada. Um poço de autocontrole. E, ainda assim, não conseguia fazer valer uma simples trégua. A idéia de uma trégua com ele não era algo que despertasse seu interesse, mas saber que ele não achava que ela conseguia era forte demais pra ser ignorado. Precisava provar que conseguia. Não só para que ele não mais duvidasse dela, mas também para provar que ele estava errado.
Respirou fundo, contando até dez mentalmente, para manter a calma e não esparramar com ele. Era uma boa oportunidade para começar a operação-trégua.
"Pare de falar da sua suposta inocência como um veredicto! Não foi aprovado, está sendo sentenciado ainda...-"
"Vamos fazer assim, eu te deixo escolher o tema do debate de amanhã e você esquece esse assunto." Interrompeu James, como quem negocia doce com criança. Era uma proposta tentadora, tendo em vista que por mais que Lily quisesse encerrar aquilo, não podia sair por baixo e parar de discutir, seu orgulho não deixava. Mas essa proposta anularia o sentimento.
"Eu posso escolher?"
"Sim. Eu e Almofadinhas estivemos conversando e decidimos que cada semana uma pessoa diferente deve escolher."
"Ok." Descruzou os braços, pensando por um momento. Fitou os olhos blindados por lentes de óculos de Potter, por fim se decidindo. "Vamos discutir sobre as três maldições imperdoáveis serem ou não liberadas para o ensino escolar."
Marlene observou o restante das pessoas deixarem a sala calmamente, após o sinal ter soado. Só restava ela, Liserre e Lily, as duas últimas conversando baixo. Viu os cabelos claros de Liserre esvoaçarem em direção a porta. Ao passar por Marlene, levantou o polegar de forma encorajadora, sorrindo bondosamente para a amiga. Coragem era um grande pré-quesito para encarar Lily, que arrumava seus materiais calmamente, provavelmente esperando por este momento desde que se deparara com Potter sentado ao seu lado. O momento de soltar os cachorros para cima da melhor amiga, tirar uma senhooora satisfação, produzir uma grande quota de drama para fazê-la se arrepender amargamente de ter compactuado com Black e suas grandes idéias. Colocou o bolsão em torno do ombro, segurando uns livros com a outra mão. Levantou-se da carteira, lançando um olhar de poucos amigos para Marlene, que já a esperava na porta da sala. A alcançou num estalo, abrindo a boca para desferir montes e montes de orações mal-humoradas e intimidantes, mas não conseguiu por sua idéia em prática, pois foi atropelada por um furacão de palavras.
"Eu realmente, realmente, realmente, estou afim de Sirius Black." Marlene concluiu tão rápido que Lily demorou alguns segundos – que para a amiga pareceram longos minutos – para formatar uma frase conexa em sua cabeça. Depois desse primeiro intervalo de tempo veio outro, uma longa maré de segundos nos quais Lily tentava interpretar o que achava que ouvira na intenção de concluir que ouvira errado. Infelizmente não pôde adiar o momento da aceitação por um período maior, e assim se seguiu o terceiro e último intervalo de tempo: Infinitos segundos nos quais suas expressões oscilavam entre descrença, incompreensão e horror.
"Não, Marlene. Eu acho que você quis dizer que está realmente, realmente, realmente, afim do seu namorado, Harry Lydon."
"Não, eu quis dizer o que você ouviu mesmo." E, para sua surpresa, a expressão de Lily suavizou e ela começou a rir, descontroladamente. "O que foi?" Perguntou, incerta, arqueando as sobrancelhas.
Lily ponderou por alguns segundos, pensando em qual política adotar. De duas, uma. Podia julgar a amiga e dizer o quanto estava inconformada com a atual conjuntura ou podia simplesmente aliviar a consciência dela, já que qualquer pessoa (considerável) que se encontrasse nessa situação, afim de Sirius Black, já tinha uma enorme dívida com a consciência. Uma dívida parecida com as dívidas externas que países subdesenvolvidos têm e nunca, em toda a eternidade, conseguirão pagar. Aliviar a consciência não era exatamente sinônimo de apoiar, uma vez que seria contra sua natureza apoiar o relacionamento de uma pessoa decente e sensata como a que estava parada em sua frente com... Sirius Black. Não, não, aí já era pedir demais. Black só não era pior do que Potter – e isso estava longe de ser um elogio.
Sendo a boa amiga que era, Lily resolveu que Marlene já estava numa posição ruim o suficiente para ter que ouvir mais reclamações, e, portanto, resolveu poupá-la do grande discurso que havia preparado sobre Potter e do grande discurso que estava preparando sobre Black.
"Desde que você não traia seu namorado, sentir uma mísera atração física por Sirius Black não é tão mau assim. Não sei, pra ser sincera, acho que nunca sequer conversei com ele. Por mais idiota que pareça, nem berrar com ele eu berro! Tipo, sempre grito com o Potter, não tenho intimidade com o Black..." Lily comentou, um pouco surpresa com essa última parte. Nunca tinha parado pra pensar que não trocara mais que duas frases com Sirius, e nada relativamente pessoal para poder formar uma opinião justa sobre ele. Por mais que duvidasse muito que algum dia redefiniria seus conceitos sobre o maroto, sabia que o julgava pelas fofocas que ouvia a seu respeito e por associá-lo a James Potter, e isso não era exatamente o que costumava chamar de uma atitude legal. Vai ver, lá no fundo, ele não fosse uma pessoa assim, tão insuportável. É... não. O fato de ser melhor amigo de James Potter excluía essa opção. Mas ainda tinha o lance de ser melhor amigo de Liserre, também. Isso aumentava demais suas chances.
"Lily, não tem disso de 'não tenho intimidade com ele'. Sirius é patrimônio público, sabe? Todo mundo tem intimidade, pode brigar com ele o quanto você quiser, acho que ele não se importaria. Desculpa pelo Potter, eu não sabia que ele acabaria sentando justo com você."
"Tudo bem, Marlene, acho que você tem coisas mais importantes pra se preocupar agora." Vendo a amiga arquear as sobrancelhas em incompreensão, Lily continuou. "Como tirar Sirius Black da cabeça e colocar seu namorado no lugar."
N/A:
Demorei só uma semana para postar porque fiquei empolgada e felicíssima com o que li de vocês. Agora eu entendo isso de reviews influenciarem a rapidez de atualização, por mais bobo que pareça. Muito obrigada pelos comentários, meninas. Respondi todos.
Eu, como a grande beatlemaníaca que sou, não podia deixar de citá-los assim, logo de cara. "All My Loving" é a música do capítulo.
Eu adoro o próximo capítulo, acho que ele é muito esclarecedor e, ainda assim, dá muita margem para interpretação (hahaha, que contradição!). Aborda bastante a visão que os personagens têm uns dos outros, sem imparcialidade... e fala um pouco do relacionamento louco que o Sirius tem com a Leslie.
Queria agradecer, novamente, à minha beta Satty, que perde horas importantíssimas da vida dela corrigindo meus erros macabros. Não poderia ser mais grata, querida. E a todos que leram e comentaram. Não sabia como seria, depois de tanto tempo ausente do fandom de Harry Potter.
Coloquei o marketing visual da Marlene e da Leslie no meu perfil, Sirius só no próximo capítulo.
