CAPÍTULO UM
Bella olhou, pela milésima vez, para a placa VENDE-SE que tinha sido colocada menos de meia hora atrás sobre o vidro da loja. Fúria e indignação faziam sua cabeça girar.
Como sua madrasta ousava fazer isso?
A floricultura UMA FLOR POR DIA era pelo menos metade sua por direito. Ela deveria ter sido consultada. Deveria ter sido considerada. Mas qualquer consideração com seus sentimentos tinha claramente acabado com a morte de seu pai. Qualquer esperança de que o negócio adorado de seu pai um dia se tomasse dela morrera com ele.
Bella havia sido tola em permanecer. Especialmente tola por trabalhar por um salário patético, considerando que era gerente da floricultura agora, e fazia a contabilidade também. Aos domingos. No seu dia de folga!
Victoria tirava quase tanto dinheiro quanto ela do trabalho. E Victoria só trabalhava de quarta a sábado. Certo, Victoria era uma excelente florista, com muita experiência, mas Bella também tinha muita experiência. Apesar de ter somente 26 anos, trabalhara com flores sua vida inteira.
Seu pai começara a treiná-la para ser florista quando Bella era muito pequena. E ela começara a acompanhá-lo à floricultura logo após seu aniversário de 15 anos.
Como eles tinham sido felizes naquela época! Apenas ela e seu pai.
E então Sue havia aparecido. Até que seu pai morresse, dois anos atrás, Bella não percebera que tipo de mulher sua madrasta era. Sue tinha sido muito inteligente durante os oito anos que fora a segunda sra. Swan.
Mas logo depois que seu pai se casara com a atraente divorciada, Bella certamente soubera que sua meia-irmã era ciumenta, vingativa e má. Infelizmente, Leah também havia sido muito inteligente com seu novo padrasto.
Bella amargamente ressentia-se da maneira que Sue e Leah haviam explorado seu pai. Somente o fato de que ele parecia feliz a fizera ficar calada sobre as maldades que Leah lhe falava em particular.
E claro, após a morte de seu pai, todos os cuidados tinham acabado. Sue começara a mostrar quem realmente era, e Leah... bem, Leah piorara ainda mais.
Bella soubera que deveria ter saído da vida delas naquela ocasião, mas não pudera se separar da floricultura de seu pai. Ainda se sentia perto dele lá. Então se mudara para o apartamento acima da loja e se determinara a restabelecer Uma Flor Por Dia.
Os negócios tinham declinado após o enfarto de seu pai. Bella estivera tão arrasada que precisara fechar a floricultura por um tempo. Levara mais de um ano para recuperar os velhos clientes e começar a dar lucro. Não que Uma Flor Por Dia tivesse sido um negócio altamente próspero algum dia. Lojas de ruas não eram muito bem-sucedidas hoje em dia. Os shoppings haviam dominado o mercado.
A floricultura e o apartamento, todavia, ainda valiam um bom dinheiro, apesar de serem antigos e não estarem nas melhores condições. Provavelmente mais de um milhão. Mais até, se o comprador adquirisse a propriedade como um negócio, juntamente com direitos comerciais.
Bella olhou para a placa VENDE-SE mais uma vez. Tinha sido louca em trabalhar tanto por tão pouco quando soubera, no fundo, que as únicas que ficariam com as recompensas seriam as detestáveis Sue e Leah. Infelizmente, seu pai deixara tudo para a esposa em testamento, feito logo após o casamento deles, quando Bella estava apenas com 16 anos. Confiara que Sue cuidaria da filha dele. Mas a viúva feliz tinha outros planos. Assim como a filha mimada dela...
Mas Bella não queria pensar sobre isso. Já havia refletido demais sobre aqueles acontecimentos durante o Natal. Se Jacob a tivesse amado realmente, Leah não teria sido capaz de roubá-lo. Mas ela o roubara de Bella. Ia até mesmo se casar com ele. Esta deveria ter sido a gota d'água para Bella, mas, estranhamente agora, não sentia assim. A gota d'água era aquela placa VENDE-SE.
Bella decidiu naquele momento que já brincara de Cinderela por tempo o bastante. Era hora de grandes mudanças e grandes decisões. Sabia que seria triste abandonar o orgulho e alegria de seu pai, mas isso tinha de ser feito. Porque a floricultura não seria seu orgulho e alegria por muito mais tempo.
Logo pertenceria a outra pessoa.
— Vou até a banca de jornal, Victoria — disse ela. — Preciso do Herald de hoje.
Victoria estava terminando um lindo arranjo de cravos vermelhos e olhou para cima.
— Procurando um emprego novo?
— Com certeza.
— Já estava na hora — murmurou Victoria.
Uma ruiva com pouco mais que 35 anos, Victoria já tinha vivido bastante e não era facilmente enganada. Há muito vinha dizendo que Bella precisava construir sua própria independência.
— Você tem razão — concordou Bella. — Vou procurar um novo lugar para morar também.
O jornal de sábado de Sidney, Herald, era sempre repleto de anúncios de emprego e apartamentos para dividir com outras pessoas. Holly havia dado uma olhada algumas semanas atrás, depois que Jacob a deixara por Leah. Mas naquela ocasião não tivera coragem de mudar sua vida completamente, abandonando tudo que lhe era tão familiar.
Mas encontrara a coragem agora.
Victoria sorriu de modo aprovador.
— Isso mesmo, garota. E não se preocupe comigo. Assim que você sair daqui, eu saio também. Eu não trabalharia para Sue nem que esta fosse a única floricultura de Sidney.
— Ela é cruel, não é?
— Da pior espécie. Assim como a filha dela. Leah merece Jacob. Fiquei muito feliz o dia que você se livrou dele.
— Ei... ele me dispensou, Victoria.
— A única coisa boa que fez por você. Agora pode encontrar um homem realmente bom, alguém que aprecie suas qualidades.
— Obrigada pelo elogio, Victoria, mas é difícil encontrar homens bons. Eles certamente não aparecem na minha vida. Jacob não foi o primeiro namorado imbecil que tive. Pareço atrair o tipo infiel e inconstante.
—Arranje um emprego na cidade, querida. Onde estão os ternos.
— Ternos?
— Homens de terno. Tipos executivos. Trabalhei numa banca de flores em Market Place. Havia centenas de homens de terno andando por lá. Eles são maravilhosos.
— Sim, mas o fato de usar um terno não quer dizer que o homem seja um bom sujeito.
— Não, mas geralmente significa que eles têm dinheiro. É melhor se apaixonar por um rico do que por um pobre.
— Você não fez isso. — Victoria era casada com um homem que trabalhava em estradas de ferro.
— Bem, sou uma tola romântica.
— Eu também sou uma tola romântica.
Victoria fez uma careta.
— Sim. A maioria das garotas é. Bem, é melhor você ir buscar seu Herald, antes que não encontre mais.
Bella comprou o último jornal da banca e foi para o escritório da loja estudar os classificados, mas as notícias eram desapontadoras. Não havia muitos empregos para floristas anunciados naquela semana. E somente dois na cidade. Quanto a um apartamento compartilhado...
A ideia de morar com estranhos depois de morar sozinha por dois anos a fez tremer. Todavia, não tinha condições de alugar um apartamento decente sozinha, a menos que recebesse um salário muito bom. Possuía algumas economias, mas não muito. Ter Jacob como namorado não tinha sido barato. Ela acabara pagando pela maioria das coisas, enquanto ele alegava que estava economizando para o futuro dos dois.
Quão ingênua uma garota podia ser?
Encarar seus defeitos não era uma experiência agradável. Mas quando Victoria foi embora às 4h, e Bella começou a fechar a loja, havia analisado sua própria performance patética como uma suposta mulher adulta. Não podia culpar a ninguém, exceto a si mesma, se sua vida estava uma confusão.
Escolhendo não opor resistência, permitira que as pessoas pisassem sobre ela. Mas bastava. Na segunda-feira de manhã, entraria em contato com um dos muitos serviços que elaboravam currículos. Nunca tivera de procurar um emprego antes, mas sabia que você precisava se apresentar bem. Então se candidataria para aqueles dois empregos na cidade.
Victoria estava certa. A cidade era o caminho a seguir.
Mas não ia cair no erro de aceitar um emprego mal remunerado. Precisaria de um bom salário se quisesse continuar morando sozinha.
Não era necessária tanta pressa. Uma floricultura como Uma Flor Por Dia não seria vendida da noite para o dia. Provavelmente tinha alguns meses para fazer planos e executá-los.
Enquanto isso, não contaria nada a Sue. E economizaria cada centavo que pudesse.
A visão de um enorme buque de rosas vermelhas num canto lhe chamou a atenção. Era um pedido que recebera pelo telefone na tarde anterior. Não um de seus clientes usuais. Um homem, prometera apanhá-las por volta do meio-dia de hoje.
Com um suspiro, Bella checou seus registros, encontrou o nome e número dele e telefonou. Secretária eletrônica. Ela detestava secretárias eletrônicas.
Após deixar um recado dizendo que cancelara o pedido, Bella desligou com um suspiro. Que desperdício. Adorava rosas vermelhas. Eram caras também. Ele não quisera botões, mas flores abertas. Não durariam mais do que alguns dias. Impossível vendê-las para outra pessoa.
Então uma ideia lhe ocorreu.
Sra. Cullen. Ela amava rosas vermelhas, e não viajaria para o exterior até o fim da próxima semana. Holly poderia levar-lhe as flores como um presente de boa viagem. E como um agradecimento por todas as vezes que ela fora à floricultura para conversar e tomar um chá.
A sra. Cullen era uma boa mulher.
Se Bella divagasse de vez em quando sobre Edward Cullen, logo reprimia os pensamentos. Entretanto, houvera uma época que pensara muito sobre o único filho precioso da sra. Cullen. Até mesmo tinha tecido loucas fantasias com ele, como eles se conhecendo algum dia, e ele se apaixonando por ela.
Victoria estava certa. A maioria das mulheres eram tolas românticas!
Pegando sua agenda de endereços, ela ligou para a sra. Cullen a fim de ter certeza que ela estaria em casa.
Linha ocupada.
Bem, pelo menos ela estava em casa.
Bella tirou as rosas do vaso, arranjou-as num papel prateado e amarrou-as com um laço vermelho da mesma cor das rosas. Iria até a casa da sra. Cullen e lhe daria as flores pessoalmente. Não era longe, e a tarde estava quente e ensolarada.
Nunca ocorreu a Bella que Edward Cullen poderia estar na casa da mãe, mesmo que fosse fim de semana. A sra. Cullen lhe contara que raramente via o filho hoje em dia.
Aparentemente, ele tinha sido promovido a diretor-executivo do banco, e estava mais viciado em trabalho do que nunca.
Bella foi caminhando devagar, apreciando o ar fresco, enquanto mentalmente pensava sobre as coisas que teria de fazer nas semanas seguintes.
Número um: encontrar um emprego, de preferência na cidade.
Número dois: achar um apartamento, de preferência perto da cidade.
Número três: encontrar um bom homem. Preferencialmente um que usasse terno e trabalhasse na cidade.
Ela fez uma careta, então riscou o número três da lista. Isso definitivamente podia esperar um tempo.
Apesar de Jacob ter se provado um traidor, ainda havia sido seu namorado por mais de um ano, e ela pensara que o amava. Acreditara que ele a amara também. Jacob costumava dizer isso com frequência.
O fato de tê-la dispensado por Leah tinha sido doloroso. A autoestima de Bella ainda estava muito baixa, e não se sentia pronta para entrar num outro relacionamento.
Não, iria se concentrar nas duas coisas com as quais podia lidar. Um novo emprego e um novo lugar para morar.
Encontrar um novo namorado não estava em seus planos, não por um bom tempo.
