Capítulo I

Nobody knows it
But you've got a secret smile
And you use it only for me

Era quase Natal, e o cerco começava a apertar lentamente, suavemente, ao meu redor. Consertar o armário estava a ser uma tarefa árdua. Praticamente não conseguia dormir, não conseguia estudar, não conseguia comer. Esse foi talvez o meu maior erro para ti, a minha melhor asneira para mim. As ameaças do Lord não paravam de chegar e eu senti-me muito... perdido porque não via maneira de superar os obstáculos! Pus a Madame Rosmerta sobre a maldição imperius e insanamente, mandei-a entregar um colar amaldiçoado a uma aluna de Hogwarts num dos passeios a Hogsmead. Sem sucesso. Tu começaste a desconfiar do meu olhar enevoado, das minhas olheiras intermináveis, das horas em que desaparecia misteriosamente e chegou o momento em que me questionaste. Lembro-me tão bem desse momento como se tivesse sido ontem...

Eu ia a entrar na Sala Comum dos Slytherin quando vi o teu olhar questionar-me. Estava cansado e apenas pensava em deitar-me por isso continuei a dirigir-me para os dormitórios.

- Draco, não fujas!

- Pansy, estou cansado...

- Isso pouco me importa! Eu estou preocupada contigo!

- Está tudo bem Pansy, não te preocupes.

- Como não? Draco olha para ti. Estás com um aspecto doentio. Tu não dormes?

- Pansy, faz-me um favor e não te preocupes. Não fantasies. Limita-te a factos. Eu estou optimamente bem.

E enquanto me encaravas eu simplesmente virei as costas e escapei para os dormitórios.

Nos dias seguintes tive o cuidado de te evitar o mas isso nem sempre se tratava de uma tarefa fácil. Não é como se não tivéssemos as mesmas aulas, não é? Mesmo assim, mantive-me afastado (o mais afastado de ti possível) durante algum tempo. Fingi não reparar nos teus olhares, fingi não te ver. Ignorei a tua existência esperando que retorquisses pela mesma moeda e me ignorasses a mim. Que deixasses esses longos tempos me observando. Eu sabia que mais tarde ou mais rapidamente tu virias ter comigo outra vez... Era tão visível como o facto de eu emagrecer de dia para dia.

As minhas notas baixaram drasticamente e não me conseguia concentrar as aulas... Estava tão cansado. Tinha tanto sono! Não sei como as minhas pálpebras se mantinham abertas durante o dia, não fechando durante a noite. Nessa altura, revirava-me na cama uma e outra vez e voltava a ouvir as palavras de Voldemort.

Eu não podia falhar. Eu tinha que seguir em frente.

Então passado horas de conjecturas eu finalmente caía no sono, infelizmente não sem pesadelos. Ele estava em todo o lado e eu não tinha como escapar.

Mantiveste-te pouco tempo em silêncio. Eu sabia que não ias aguentar eternamente. Nesse dia estavas a olhar para mim com mais intensidade que o habitual. Mais uma vez, fingi não ver mas havia alguma coisa que me preocupava. Será que se passava alguma coisa contigo? Eu não me ia perdoar se algo te acontecesse. No entanto, mantive-me quieto.

Mais tarde, quando nos encontrávamos na biblioteca sentaste-te no lugar à minha frente e eu não podia fazer nada contra isso. Mantive os olhos presos no livro embora não soubesse o que estava a ler. Talvez o melhor fosse ir embora! Talvez, talvez, talvez...

Levantei-me e tu também. Embrenhei-me no labirinto que era a biblioteca e não sei como apareceste mesmo à minha frente e quando falavas senti o tom urgente da tua voz.

- Acaba com o jogo Draco. Estou farta de brincar às escondidas. Apanhei-te, acabou. Agora vais-me ouvir.

- Não sei do que falas Pansy, mas eu tenho de -

- Não tens nada. Não me obrigues a dizer à Madame Prince que levas livros escondidos da biblioteca!

- Levo o quê? Mas eu não levo nada!

- Mas com um simples feitiço eles podiam cair na tua mala Draco, e nada do que dissesses ia impedir que pensassem que o culpado fosses tu.

- Pansy!

- Eu tinha-te avisado que estava farta! Se continuares a ignorar-me, eu vou fazer o possível para te obrigar a falar comigo!

- Nunca pensei –

- Que fosse capaz de tudo para ajudar um amigo? Somos Slytherin ou não Draco?

- Eu não tenho nada para te contar.

- Draco...

- É melhor falarmos noutra altura. Este não é o momento nem o local indicado.

- E o momento indicado é quando? Quando estiveres na enfermaria? Draco, tu estás mais doente, ou seja lá bem o que tens, a cada dia que passa! Eu não vou continuar a olhar para ti Draco, eu vou... Ou melhor, eu estou a tomar uma acção.

- Bolas Pansy, hoje à noite. Uma da manhã na sala comum quando estiver vazia.

- Livra-te de não estares lá.

E viraste-me costas, com o teu cabelo negro a balouçar perigosamente. Levei as mãos à cabeça e suspirei... Estava perdido e ainda ia fazer com que te perdesses também.

x

Era meia-noite quando me retirei da sala comum para me "deitar". Acho que esperavas que eu desaparecesse ou algo do género porque durante todo o serão estiveste ao meu lado mesmo sem teres aberto a boca. Ao levantar-me disse "Uma hora.", tu anuíste e eu fui para o dormitório masculino. Tomei um banho de água fria, fria como gelo. Parece que ainda agora, tantos anos mais tarde desse momento, ainda consigo sentir as marcas desse banho. A água estava tão fria que eu deixei de sentir, de pensar, de reagir. Aguentei debaixo daquela corrente gelada durante os 25 minutos mais frios da minha vida. Tremia tão violentamente que tive dificuldades em fechar a torneira da água. Podia ter aberto torneira de água quente, mas algo dentro de mim impediu-me. Deixei-me estar enrolado na toalha por 15 minutos e percebi que me ia atrasar. Não queria que me visses daquele jeito, mas eram os únicos momentos em que esquecia quem era. Só que nunca tinha chegado tão longe, ou então era mesmo de mim que a água estava mais fria que o habitual, mais gelada que o permitido para que alguém sobrevivesse.

Sentia-me tão fraco que quando dei por mim era uma menos dois minutos e eu ainda estava meio vestido, porque não me conseguia aquecer. Aquela sensação de frio congelou o meu sangue e ele teimava em não continuar o seu caminho para dar oxigénio às minhas células. O meu coração congelou e não batia. O sangue não bombeava, eu devia estar morto.

Lembro-me de ouvir alguém a chamar por mim mas ficou tudo tão branco que eu só me lembro de não sentir tanto frio.

x

No dia seguinte acordei, e fiquei surpreendido por conseguir mexer os dedos livremente. Sentia calor, não mais aquele frio gritante e a cama era confortável... Será que aqueles velhos muggle estavam certos e existia o céu? Será que estava no paraíso?

Abri lentamente os olhos e vi o teu olhar preocupado. Mas se eu estava no paraíso, porque tinhas ido para lá também? Tu não podias estar morta, pois não? Mas se estivesses, será que tinha sido por mim? Será que era porque não aguentavas viver sem mim? Era por isso?

Tu cortaste a minha linha de pensamento ao dizer irritada, mesmo que sorrindo:

- Draco Malfoy, és o ser mais estupidamente egocêntrico de todo o mundo. Como é que foste capaz de me fazer isto? Como?

- Isto? – Será que estavas a culpar-me?

- Draco, tu estavas a tentar matar-te? Entraste em hipotermia! A água gelada, tu és doido? Fazes ideia da minha aflição quando vi que não vinhas? Passou-se a uma hora, a uma e um quarto e tu nada! Eu disse-te que não ias escapar por isso entrei no dormitório masculino – não me olhes assim Draco, foi por tua causa não te esqueças – mas não estavas lá. No entanto, ouvi barulhos nas casas de banho e dirigi-me lá. Infelizmente para ti e felizmente para mim, não estava ninguém acordado, então pude circular á vontade. Quando te vi... – e neste momento a voz falhou-te e eu senti-me culpado – Quando te vi não soube o que fazer. Fiquei paralisada com o medo. Estavas tão branco, apenas com as calças vestidas e agarrado a uma toalha tão firmemente que quando a tentei tirar para te cobrir com a minha capa, tive receio de te partir os dedos. Parecias uma estátua de gelo. Fiquei com tanto medo!

Eu fiquei sem palavras nesse momento. Foi naquele momento que eu soube que haveria de te proteger para toda a vida.

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Mesmo com a minha ida para a enfermaria por duas noites não melhorei das insónias. Continuava a saber que tinha uma missão a cumprir e que nada nem ninguém a ia fazer por mim.

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Tu não desististe do que tinhas para me dizer naquela noite. Num dia depois das aulas disseste subtilmente que o melhor para a minha débil saúde – e disseste isto com um sorriso sarcástico nos lábios – era mesmo ir dar uma volta pelos jardins.

Eu não tinha outra alternativa que não seguir-te. Quando finalmente falaste disseste algo que de certa forma me perturbou.

- Estive a investigar durante todo aquele tempo que me ignoraste, eu sei que não dormes de noite. Sei que te contorces como se te tivessem aplicado a cruciatus e pedes que a missão acabe. Draco, eu sei que és um devorador da morte. Qual é a tua missão? É tão grave que impede de dormires? É matar o Potter?

- Pansy, deixa-te de fora disto. Eu vou fingir que não disseste nada.

Tu agarraste-me num braço e pela maneira desesperada como falaste eu olhei para ti.

- Não Draco! Eu posso ajudar!

- Não podes. De onde é que tiraste aquelas suposições?

- Perguntei ao Crabbe. E eu mesma vi a marca negra quando desmaiaste. Não, não descansa. Apenas eu vi. Eu vesti-te uma camisola e pus a minha capa por cima de ti antes de chamar o Snape. E não te abandonei nem uma vez na enfermaria. Draco, olha para mim.

- Estou a olhar Pansy.

Suspiraste.

- Eu posso ajudar-te – espera, deixa-me falar – mesmo que não me digas o que se passa. Eu posso ajudar-te. Eu posso fazer com que durmas.

- Eu não quero poções nem feitiços Pansy. Se eu quisesse que toda a escola soubesse que eu tinha insónias eu já o teria feito. Sabes que alguém minimamente habilidoso magicamente consegue perceber quando alguém está sobre uma poção desse calibre, eu iria andar como sonâmbulo durante as primeiras horas até que o efeito da poção passasse. Tu sabes disso, e eu não quero chamar atenções para mim. Além do mais, acho que só tu reparaste.

- Essa última parte é mentira. Tenho visto alguém muito interessado em observar-te... O Potter. Ele desconfia que algo se passa contigo, é normal. Mas eu tenho uma solução.

Abriste a tua mala e procuraste lá dentro até descobrires uma pequena caixa rectangular. Pegaste nela, mostraste-me e sorriste abertamente.

- O que é isso?

- Ainda bem que perguntas, é a solução para todos os teus problemas Draco.

- Não percebo.

- Medicamentos muggle.

- Medicamentos muggle?

Eu estava claramente escandalizado. Mas como assim medicamentos muggle?

- Tomas um com água e vais dormir como um anjinho. Mas é melhor que o faças mais ao fim de semana ou assim, eles podem ser muito poderosos. Pensando bem, é melhor tomares mesmo só meio comprimido.

- Comprimidos?

- Sim, são as pequenas cápsulas que se encontram dentro.

Abriste a caixa a mostraste-me os "comprimidos".

- Quando fores tomar, fazes força aqui no revestimento em que consegues vê-lo que ele sai pelo outro lado. Pegas nele, metes na boca e com a água ele vai descer pela garganta abaixo ao engolires.

Tu sorrias enquanto me dizias estas coisas.

- Deves estar a brincar. Muggle?

Quase cuspi aquela palavra.

- Muggle sim. E podes crer que os vais tomar nem que não seja pela maldição imperius.

Curiosamente tu continuavas a sorrir embora mais sarcasticamente agora.

- Duvido que me obrigasses.

- Duvidas mal. Tenho que fazer agora Draco, aproveita e toma um comprimido hoje. Amanhã é sábado. Vai-te fazer bem dormires.

E afastaste-te, andando de uma maneira segura, confiante e quente.

x

Tomar ou não tomar?

Dois pedaços de mim lutavam internamente. Uma parte, a que dizia não, relembrava-me constantemente que Malfoys não usam coisas muggle. A outra parte só queria uma noite de descanso. E havia tanto tempo desde a última vez... E de certeza que irias saber se eu tinha tomado ou não... Bem, não tenho nada a perder. Tu só me querias ajudar.

Fiz o que tu me disseste, mas decidi tomar o comprimido inteiro. Não era assim tão grande não percebi o porquê de tomar metade. Tive alguns problemas com o engolir aquela coisa. Deu-me vómitos o tentar descer, que coisa esquisita.

Aqueles muggles parvos só inventam coisas esquisitas.

Ainda era cedo, não estava ninguém nos dormitórios e eu não sabia bem o que fazer.

Deitei-me e peguei num livro. Olhei para o relógio. Já tinham passado 10 minutos.

"Draco és um parvo. A Pansy deve estar lá fora a gozar com a tua cara. Coisas de muggle não funcionam em feiticeiros!" - pensei eu.

Decidi levantar-me e ir á tua procura mas entretanto adormeci.

x

Quando acordei no dia seguinte eram quatro da tarde. Tinha dormido 16 horas sem pesadelos, apenas descansei. Senti-me tão bem tanto física como psicologicamente que me dirigi ao espelho. Se pensei que iria estar uma pessoa nova enganei-me. Continuava com as olheiras, no entanto menos roxas que davam um aspecto menos doentio. A pele continuava mais branca do que o normal e eu continuava a parecer doente. No entanto sentia-me vivo. Sentia-me como se o mundo estivesse aos meus pés. Seja lá o que eu fizesse nesse dia, eu ia conseguir.

Isto era melhor que Felix Felicis.

x

-Pansy!

Chamei por ti nessa tarde quando te vi perto do lago.

Olhaste para mim, sorriste e caminhaste na minha direcção. Estava-te tão grato por esta noite, que não sabia como te explicar.

Percebeste o meu olhar, já nem necessitava de falar perto de ti.

- De nada.

E riste-te abertamente, aquele riso que fazia com que as outras raparigas se revirassem porque era fútil. Para mim, era perfeito.

De repente, vi um ligeiro tom corado na tua pele branca. Eu nunca te tinha visto assim tão frágil. Tu fazes-me lembrar a minha tia Bellatrix. Sempre a sorrir sarcasticamente, sempre a lutar pelo que querias, sendo fútil e muitas vezes inútil. Mas naquela vez, eu vi em ti alguém que era diferente. Apeteceu-me abraçar-te.

E eu o fiz.

Apeteceu-me beijar-te.

E eu o fiz.

x

Sempre que sentia que era seguro, eu recorria aos comprimidos. Era bom dormir decentemente uma vez por semana pelo menos.

E os dias lá iam passando.

Antes que me desse conta, as aulas acabaram. Teria de interromper as coisas por agora. Nesse dia, tentei escapar-me para a sala precisa quando pela primeira vez fui apanhado pelo Filch. Menti e disse que ia para a festa e ele levou-me lá. Quando estava lá e admiti que não tinha sido convidado, vi os olhos do Potter na minha figura. Não deveria estar famoso. Não dormia à duas semanas, estava ligeiramente acinzentado. Tu tinhas-me chamado à atenção para esse facto nessa manhã. O Snape apanhou-me e tentou descobrir o que eu estava a tramar. Mantive-me o mais forte possível. Eu não lhe ia dar os frutos do meu trabalho. Esta missão estava a despedaçar-me. Mas eu não ia cair.


N/A: Música: Secret Smile - Semisonic