08:03 AM. Foi a primeira coisa que viu. Estremeceu ao sentir o frio na cara. Com os olhos semi-cerrados procurou a determinação para se levantar. Bastou imagina-la por um segundo. Olhou para si mesmo no espelho, o seu reflexo franzino mirou-o de volta, com o mesmo olhar confuso. Demorou apenas momentos a envergar alguma roupa, e pegar na pasta, que se encontrava tal como a tinha deixado no dia anterior. Agarrou um iogurte fugidio e arrancou estrada fora, enfrentando a neblina matinal. Passava-lhe tudo mais depressa do que se apercebia, nem reparando nas pessoas por quem passava. Assolado por dores de cabeça, resvalou num outro trausente do passeio. Murmurou um lamento e ofereceu-se para ajudar a levantar a mala que transportava. Surpreendeu-se ao notar a fraqueza que demonstrou, mas pouco importava pensou, galgando de novo o caminho húmido e rígido. Ao passar os olhos pelo céu notou sem qualquer surpresa o sol oculto em castelos de nuvens. Imaginava já as gotas de chuva que lhe iriam molhar a face brevemente. Poderia jurar que sentia essas mesmas a bater-lhe na cara. Mas ainda estava a sonhar. Ou apenas a imaginar.
-Bom dia - Disse-lhe alguém. Correspondeu com um aperto de mão, forçando um sorriso.
-Olá! - Era ela. A voz ressoou-lhe nos ouvidos ao virar-se de imediato, com o resto instintivamente iluminado
-Tás bem? Não pareces bem acordado. - Sentiu a boca curvar-se num pequeno sorriso. - És capaz de ter razão. Já tive dias melhores...
Aparentemente não estava de facto em si. Parecia-lhe tudo uma história distante, como se tivesse a contar a si mesmo o que se passara. Seria isso de facto que estava a fazer?
A manhã corria a largos passos, e as dores de cabeça não pareciam querer abrandar. A única coisa que o fazia lembrar-se do intervalo fora ela ter-lhe falado do fim-de-semana, mas até aquelas palavras pareciam vagas. Percorria agora o corredor, atrás de um grupo de camaradas e dela. Sentiu-se a caminhar eternamente. Mas, no mesmo instante, as dores de cabeça atacaram de novo e algo dentro de si mudou. Algo acordou e por uma minúscula parcela de segundo ficou consciente de tudo e todos. Os seus olhos acompanharam-na a fechar a mala, a porta de uma sala qualquer a abrir-se, metros à frente um aluno a deixar cair uma caneta, e forçadamente a sua atenção virou-se para o armário a seu lado. Deu um passo atrás no preciso momento que este cedeu para a frente, iniciando uma queda. Tudo parecia mover-se mais lentamente que um folha no vento. Sentiu a ponta do nariz roçar a borda do armário enquanto este caía. A descarga de adrenalina esbateu-se juntamente com o estrondo que se seguiu. Caíu no chão, de joelhos. Os olhos cerrados mostrando a dor que aguentava.
-Ó meu Deus, estás bem? - Em instantes ela estava a seu lado, com uma mão sobre ele. Acenou em confirmação. - Estou bem, não me atingiu.
Ao tumulto que se seguiu não prestou atenção. Ao mesmo tempo as dores de cabeça impossibilitavam-no de assimilar o que lhe diziam e dentro de si perguntava-se o que se passara, coicidindo com as palavras que dambulavam no ar, fora da sua mente. Ergue-se e ajudou os colegas a levantar o armário, agora assitido por pessoas que se ajuntaram, alarmadas pelo barulho. Continuou no seu dilema interior até chegar a cantina, ela seguia-o de perto, observando todos os movimentos.
-Queres tomar alguma coisa? Um comprimido ou assim? - Os olhos denotavam a preocupação. - Não, não te preocupes, eu estou bem.
Não era de todo mentira. Dentro de si ainda tinha a alegria de ela se preocupar com ele.
-Obrigado, mas eu estou bem, a sério. - Mostrou-lhe uma expressão reconfortante que pareceu acalma-la um pouco.
Permaneceram em silêncio até se sentarem com um tabuleiro e comida à fente.
-Olha quem é ele. - Sentiu um novo ataque à sua já dorida mente, e o mundo pareceu abrandar novamente. Ela pegou num garfo, com uma madeixa de cabelo a fugir-lhe para o nariz, uma pasta foi largada no chão sem qualquer misericórdia na mesa do lado e uma mão descia em diracção do seu pescoço. Antes que desse por si, já o braço esquerdo se tinha movido para desviar a ameaça e o direito desferido força suficiente para derrubar o vulto por detrás de si. Parou quando já estava em cima dele com o punho cerrado e apontado a ele. A sua face arreganhada em fúria, como se tivesse sido assaltado por um surto de violência, um instinto para caçar? E depois o tempo voltou ao normal e reparou na cara parva de espanto de Marlon. Levantou-se, ao sentir-se mordido pelas dores de cabeça novamente e fugiu para o quarto de banho. Ao virar-se, demorou os olhos por um segundo nela. Ela mostrava surpresa e algo mais. Correu, virou e correu outra vez. Parou apenas em frente ao espelho. Olhos nos olhos consigo mais uma vez. Mas não eram os seus olhos. Não eram os vulgares olhos castanhos de que se orgulhava. Irradiavam numa matriz dourada, a pupila fendida. Sentiu algo a picar-lhe o céu da boca. Abriu os lábios e viu os caninos mais aguçados do que queria. A mão tinha uma pelagem curta sobre os dedos, de uma cor parecida com o dourado que lhe preenchia o olhar, com um padrão de riscas pretas, porém. A manga do casaco estava desfeita na parte superior. Olhou-se de novo e tudo o que vira de tão irreal desaparecia a olhos vistos. O castanho envolvia o dourado e os dentes causavam-lhe comichão a medida que regrediam.
Apavorado, fugiu. Perseguiu os seus próprios pés de novo a casa e fechou os olhos molhados, negando a escuridão em seu redor.
