Parte 2
Atrás dela, Carlos seguia-a com os olhos. Sentada naquele banco que ela tanto gostava, o cabelo fugia-lhe de trás da orelha. Ele não sabia como agir, como pensar direito. Seriam efeitos do álcool? Nao. Ele só bebera uma cerveja. As movimentadas luzes do bar reflectiam e incidiam sobre a face dela, mostrando o seu olhar de dentro das sombras.
-Carlos! - Miguel chamara-o, tentando devolve-lo a realidade. -Anda, vamos para o bilhar.
-Não. Vão vocês, não me apetece.- Resmungou em resposta. Ele sentia-se bem onde estava, observando Mia a organizar a sua mala. levou os dedos à cerveja outra vez, para constatar novamente que esta acabara. Quando ela virou os seus olhos enigmáticos para ele, corou e desviou os olhos para o jogo de bilhar. Saphira, ao seu lado, deliciava-se a observar miguel a afinar o giz do taco.
Mas Carlos não ouvia mais nada. Além de só olhar para Mia, dentro da mente tinha uma luta a travar. Nada o tinha feito prever que quando fosse almoçar com o pai a casa da avó aquilo lhe acontecesse. Não sabia se havia de rir ou chorar. O olhar pesado e mais profundo que o normal fez com que Mia se aproximasse vagarosamente. Estava tímida.
-Estás bem? - Mal eram conhecidos mas a preocupação era genuína. Mas para Carlos era o suficiente. O único problema era que ela tinha feito a pergunta errada.
-Eu vou ao quarto de banho. - Carlos tentou sorrir, mas toda a expressão lhe fugiu do controlo. Correu, já as lágrimas a caírem-lhe em torrentes. Chocou com Miguel na pressa mas não quis saber. Fechou-se no cubículo e desabou contra a parede.
Os carros passavam na estrada como se não houvesse mais nada. A Lua lutava para fugir de um cerco de nuvens e o vento levava uma brisa relaxante. Carlos estava na praia. Observava o mar em cima de um rochedo. Atrás dele, o bar bombava de alegria, risos e piadas a saltar pelo ar. Miguel ainda se entretia no bilhar, mas agora, a cada tacada, pausava para ir ter com Saphira, entregue ao seu deleite. John e Matt repousavam no bar, copos cheios nas mãos de ambos. Só Mia permanecia quieta, no seu canto, observando Carlos atrás da janela.
-Vai ter com ele! - Dizia Saphira. - Tens de ser tu.
-Mas ele hoje não está bem. Nota-se pelo andar dele. Pelos olhos.
-Acredita - interviu Miguel. - é melhor que o faças.
Então ela desencostou-se, largou a mala numa das cadeiras não ocupadas por Miguel e Saphira, e saiu para a explanada. Atravessou-a e aproximou-se de Carlos pé ante pé, sem emitir um ruído.
-O mar está a encher. - Comentou Carlos, surpreendendo Mia por ter reparado que ela já la estava. O luar banhava-lhe a face, dando aos seus olhos um aspecto místico, quase surreal.
-Eu... Eu vinha ver se estavas bem. - O nervosismo fazia com que as palavras lhe fugissem.
-Obrigado...
O silêncio ficou retido no ar, deixando Mia sem saber o que fazer.
Então ele surpreendeu-a novamente. Virou-se para ela, olhos nos olhos, havia ali algo que ele lhe queria dizer. Ela tentou soltar um sentimento pelo olhar, tentou demonstrar o que ele queria.
-Eu...
O mar acentuou o rugido da maré enchente, Mia hesitante do que dizer.
Antes que ela pudesse dizer algo, ele beijou-a, esqueceu tudo o resto. os fantasmas, os seus problemas.
Só lhe interessava ela. Ali.
Apenas a praia ouvindo a intensidade do momento...
