Era um belo fim tarde de verão em Paris. Sentado na grama, um garoto admirava mais um pôr-do-sol na cidade, achando-o ainda mais belo por ser o último que veria. O dourado do sol contra o rosado céu parisiense, a leve e morna brisa desarrumando ainda mais seus cabelos negros, a límpida água do lado molhando seus pés descalços, os olhos tão verdes já demonstrando a falta que aquela bela cidade lhe faria. Estava tão absorto em seus pensamentos que não ouviu uma pessoa se aproximar; era sua cópia exata, porém anos mais velha e com algumas pequenas diferenças. A mais notável delas, no entanto, eram os olhos: castanho-esverdeados, e não verde-vivos como o do pequeno garoto.

- Olá, Harry. – Cumprimentou o mais velho, sorrindo.

- Olá, papai. – O garoto sorriu para o adulto, que passou os dedos em seus cabelos, arrepiando-os, exatamente como fazia há muito com os seus.

- Pronto para partir?

- Acho que sim...

- Vai ser legal, Harry. – A insegurança na voz de Harry era perceptível. Ele sentou ao lado do filho. – Acho que em Londres não temos pores-do-sol tão bonitos, mas tem coisas bem melhores! Veja, fomos lá que eu e sua mãe crescemos, lá estão todos os nossos amigos e tenho certeza de que você também fará vários. Além disso, você vai entrar em Hogwarts! Não está animado?

- Cresci ouvindo você e a mamãe falarem de lá, é claro que estou!

- Esse é o meu garoto! Agora, vamos antes que a sua mãe reclame que estamos atrasados. Sabe como ela é, certinha demais... Quer que estejamos impecáveis. – Ele fez uma careta e Harry riu.

Dez anos atrás, a família Potter havia recebido a "visita" do bruxo das trevas mais poderoso que o mundo da magia já havia visto. O Lord das Trevas havia tentado matar seu filho, com apenas um ano de idade na época, entre os braços de sua mãe, mas surpreendentemente o feitiço não surtira efeito; o pequeno Harry ganhara uma cicatriz em forma de raio em sua testa e o Lord perdera todos os seus poderes, sumindo no mundo sem nunca mais ter sido visto. Diziam alguns que havia morrido, mas outros acreditavam que ele poderoso demais para ter apenas desaparecido: estava apenas muito fraco para retornar. Independente do que tenha acontecido, Harry Potter havia se tornado excepcionalmente famoso em todo o mundo bruxo, sendo chamado de O Menino Que Sobreviveu. Para mantê-lo longe do assédio e, principalmente, de algum Death Eater em busca de vingança, a família Potter saiu da Inglaterra e morara em vários países da Europa, tendo sido sua última estadia – e a preferida de Harry – a bela Paris, na França. Do assédio não fora tão fácil fugir com tamanha fama sobre o garoto, mas ele permanecera seguro durante dez anos, e agora era hora de voltar. Seus pais faziam questão que estudasse em Hogwarts.

- Estão atrasados. – Disse uma bela ruiva aos dois quando chegaram em casa.

- Oi, mamãe. – Harry sorriu e lhe deu um estalado beijo na bochecha.

- Banho. Agora. E esteja pronto em meia hora! Você também, James.

- Não seja tão dura, amor. – James deu um beijo na esposa.

- Agora. – Frisou ela, enquanto o marido subia.

Meia hora depois estavam pai e filho prontos. Os elfos domésticos já haviam ido à frente com as malas.

- Vá com sua mãe, Harry. – Disse James ao filho. – A sensação de aparatar pode não ser a melhor, mas é melhor que chave de portal. Bem, nos vemos lá.

James beijou a esposa e deu um beijo na testa do filho, desaparecendo em seguida com um forte crek.

Segurando sua mãe, Harry desaparatou em meio a uma multidão. Todos lhe olhavam, maravilhados; alguns tinham até mesmo lágrimas nos olhos. Vários minutos se passaram até que todos lhe apertassem as mãos – alguns até mais de uma vez – e o pequeno conseguisse chegar até os pais, que lhe olhavam, orgulhosos. Perto dos pais estavam três pessoas: um homem muito, muito alto, com pés do tamanho de filhotes de golfinho, mãos do tamanho de latas de lixo e barba e cabelos espessos e desgrenhados. Havia também uma mulher, óculos quadrados e olhar severo. O último era um homem velho, olhos azuis sob os óculos meia-lua, cabelos e barba brancos e grandes o suficiente para serem presos em um cinto, e ele usava uma veste azul safira.

- Como ele cresceu! – Disse a mulher de rosto severo.

O gigante pegou um lenço muito sujo de seu bolso e assoou o nariz, recebendo um discreto olhar de reprovação da bruxa que o acompanhava.

- Desculpem-me, mas me emocionei. – Disse o gigante com a voz embasbacada – Mas não parece que se passou tanto tempo desde que os encontrei em meio aos escombros... Achei que vocês estivessem... que estivessem...

- Passou, Rúbeo, está tudo bem agora. – A mãe de Harry deu um sorriso confortador para Rúbeo, o gigante, que havia perdido a voz em meio ao choro. Sua desgrenhada barba se mexeu um pouco, e Harry supôs que Rúbeo estivesse sorrindo.

- Venha, Harry. – James chamou o filho. – Venha conhecer três pessoas da minha mais auto estima. Esses são Rúbeo Hagrid – ele apontou para o gigante –, Minerva McGonagall – ele indicou a mulher de rosto severo – e Albus Dumbledore. – O velho de veste excêntrica.

- É um prazer conhecê-lo finalmente, Harry. – Disse Dumbledore.

- Ele é a sua cara, James. – Disse McGonagall. – Mas tem os olhos de Lily. Espero que o comportamento também se assemelhe ao da mãe...

Harry riu. Desde criança ouvia as histórias do pai sobre os tempos em que estudava. Ele e o padrinho de Harry, Sirius, haviam feito coisas para serem lembrados para sempre como duas lendas de Hogwarts; sempre fora um mistério para Harry como ele e sua mãe haviam se casado, já que ela era "certinha demais", nas palavras de seu padrinho.

- Onde está Sirius? – Perguntou Harry ao pai.

- Está vindo. – James respondeu, piscando o olho para o filho sem que Lily visse. Harry deu uma risadinha abafada. Apesar dos anos, James e Sirius ainda gostavam de fazer suas "surpresinhas". Quem em geral não gostava muito disso era Lily, e por esse motivo ela ficava sem saber das coisas até o último instante.

- James Potter – Lily olhou séria para o marido –, espero que você e Sirius não estejam aprontando nada, senão-

O barulho estrondoso de um relâmpago cortou a fala de Lily. Todos se assustaram e olharam instintivamente para cima. Por sorte, todos saíram a tempo: uma enorme moto preta quebrava o teto da casa e pousava suavemente – o mais suave que uma moto daquele porte poderia pousar – sobre o chão da casa e os escombros do que antes fora teto.

- Entrada fenomenal! – Um homem desceu da moto e tirou o capacete, deixando seus longos cabelos negros à solta. Ele tinha um largo sorriso no rosto. Passado o susto, todos riram e foram cumprimentar o recém-chegado, após tirarem a poeira das vestes. Após cumprimentar todos o mais rapidamente que pôde, ele correu para Harry e lhe pegou nos braços, rodando o garoto no ar. – Quanto tempo, Harry! Veja como você cresceu, rapaz!

- Padrinho! – Harry abraçou o recém-chegado. – Quando eu crescer posso andar na sua moto? – Seus olhos brilhavam.

- Claro que pode, Harry!

- Hehem. – Pigarreou Lily. Sirius colocou Harry no chão e sorriu para a ruiva, que o encarava com o rosto franzido.

- Oi, Lily! Quanto tempo!

- Sirius Black. – Ela enfatizou o "Black" e Sirius torceu o nariz. – O que foi isso?

- Minha entrada triunfal! Minha moto não é o máximo, Harry?

- É sim!

- Não ponha o Harry nisso! Já pensou nas conseqüências, Sirius? Trouxas poderiam ter visto, poderia ter se machucado, poderia ter machucado alguém aqui... Pelas barbas de Merlin, Sirius! Não somos mais adolescentes, você não pode continuar agindo assim! E...

- Acalme-se, Lily. – Dumbledore sorriu para ela, e ela ficou quieta. – E sobre a sua moto, Sirius... Realmente muito engenhosa. Esses trouxas são realmente muito criativos, criando aparelhos assim. Já que não têm vassouras...

- Elas não voam originalmente. – Um bruxo ruivo aproximou-se deles.

- Arthur! – Albus cumprimentou-o.

- Elas não voam? – Perguntou Harry. O bruxo olhou-o, maravilhado.

- Não, não voam. – Respondeu Arthur, visivelmente excitado por estar conversando com Harry Potter. – Os trouxas ainda não sabem como fazê-las voarem. Eles voam em coisas enormes chamadas... chamadas... avãos, acho... Ou seriam asões? É, acho que são asões mesmo...

Uma garotinha de cabelos muito vermelhos e o rosto quase da mesma cor aproximou-se de Arthur, mas não o olhava: tinha os olhos fixos em Harry, escondida atrás do adulto.

- O que foi, Ginny? – Perguntou Arthur à garotinha.

Ela não respondeu. Olhou uma última vez para Harry e saiu correndo.

- Ela é meio tímida. – Justificou Arthur.

- Quando aparecerem garotas, desarrume seus cabelos com os dedos. – James disse ao filho. – Elas adoram.

- Ou acharão você um grande idiota. – Cortou Lily. Sirius riu.

- As que te acharem idiota têm mais chances de se casarem com você. – James abriu um largo sorriso, olhando para a esposa. Todos riram. Lily fechou a cara, fingindo-se de irritada e foi puxada pelo marido, recebendo um carinhoso beijo.

- Onde está o Rem? – Sirius fez biquinho.

- Consertando a bagunça que você fez. – Respondeu uma voz atrás deles.

Remus acabara de chegar. Cumprimentou Harry, James e Lily, cheio de saudades. Depois, cumprimentou Arthur, Albus, Minerva e Rúbeo. Por último, deu um selinho em Sirius; ou era essa a sua intenção, mas o marido o puxou e aprofundou o beijo, deixando o outro sem ar.

- Sirius! – Ralhou Remus, recuperando o fôlego. – O Harry está aqui!

- Ele faz 11 anos hoje! Quando eu tinha a idade dele, eu...

- Não queremos que ele seja como você, Sirius. – Lily disse.

- Sempre me cortando, não é, ruiva? – Sirius abaixou a cabeça com um falso constrangimento e uma mecha de seu comprido cabelo caiu sobre seu rosto, dando-lhe aquele charme que nem Harry nem James jamais teriam.

- Não é nada pessoal, Sirius. Também não quero que ele seja como James.

- Ei! – James protestou.

- Não, já chega de Marauders! – Minerva disse, exasperada. Todos riram.

O resto da festa passou-se no mesmo ritmo animado e descontraído. Com o tempo todos foram embora, até restarem apenas a família Potter, Sirius e Remus. Havia sido uma noite divertida e, se a vida em Londres fosse como aquela noite havia sido, Harry podia se conformar em viver fora de Paris. Naquela noite, todos ficariam na casa de Sirius e Remus por insistência deles, ainda que Lily tivesse resistido ("Não queremos incomodar vocês"), mas ninguém pode tirar algo da cabeça de um Black uma vez que a tenha posto ("Não posso nem aproveitar meu afilhado e meu melhor amigo por uma noite?").

Deitado no quarto que Sirius havia feito para ele – decorado em vermelho e dourado ("Ele será da Grifinória, com certeza!") –, Harry ficou observando os jogadores nos pôsteres do Chuddle Cannons marcarem pontos e, por vezes, brigarem entre si. Ele sorriu, satisfeito com a vida que levara durante seus 11 anos. Ele esperava seus pais abrirem a porta a qualquer momento e lhe entregarem seus presentes; eles sempre deixavam para a última hora, para Harry pensar que haviam se esquecido. E o pequeno bruxo sempre fingia que estava irritado, embora tivesse percebido há anos a intenção dos pais.

- Harry, está dormindo? – Chamou a voz de Lily.

- Não. – Ele disse, com manha fingida.

- Venha, vamos tomar um chocolate quente.

- Não quero.

- Pare de birra. – Lily sentou-se na cama do filho e lhe fez cócegas.

- Não, não! Cócegas não! – Harry ria alto. – Tudo bem, tudo bem, vamos...

Os dois seguiram até a sala, onde uma enorme pilha de presente os aguardava. Presentes dos bruxos que haviam ido à festa e Harry não conhecia, presente de Rúbeo, Albus, Minerva, de seu padrinho, de Remus e de seus pais. Ele havia recebido todo o tipo de presente que uma criança poderia querer: doces da "Dedo de Mel", réplicas da Nimbus 2000 (o mais novo modelo de vassouras), espelhos que dão palpites em suas roupas, jogos de todo o tipo, objetos de todo tipo, tamanho, formato e função; até mesmo meias que podem se modificar de acordo com a vontade do dono Harry havia recebido. Esse presente bastante peculiar – e inútil, para Harry – era um presente de Albus. Apenas um presente fora inspecionado por James, que não parecia nada feliz em vê-lo: um kit para preparo de poções, enviado por "S.S.". Havia um bilhete endereçado à Lily:

Estive ocupado hoje e não pude ir à festa. Peço desculpas.

Irei até sua casa amanhã para vê-la, espero que o Potter não se incomode.

Se ele se incomodar, irei do mesmo modo.

Espero que seu filho goste do presente.

E transmita-lhe meu voto de feliz aniversário.

Atenciosamente,

Seu Sev.

- Jay, não faça essa cara.

- Eu sei, Lils. Eu sei. – Ele fechou a cara, com o "Seu Sev" entalado na garganta. Lily respirou fundo.

- Seu Sev... O Snivellus não tem jeito mesmo! – Sirius disse o que James gostaria de ter dito, se não se referisse ao melhor amigo de sua esposa.

- Não o chame assim, Sirius. Ele é meu amigo.

- Você esqueceu que no nosso quinto ano ele te chamou de-

- Esquece isso! E vamos parar de discutir. É aniversário do Harry, lembram? E não somos mais estudantes de Hogwarts, realmente poderíamos esquecer dessas coisas. Deveríamos esquecer.

Sirius e James nada disseram, e esqueceram o assunto por aquela noite.

N/A: Primeiro capítulo prontinho! Espero que gostem. Não sei se ficou bem explicado por que o James e a Lily sobreviveram; digam o que acharam e me contem, porque acho horrível fics que deixam pontas soltas. Desculpem pela demora, eu realmente queria ter acabado o capítulo mais cedo, mas me enrolei com outras coisas e acabei atrasando um pouco, mas vou tentar atualizar o mais rápido que puder. Se quiserem que eu faça mais rapidinho, mandem REVIEWS, são sempre um ótimo incentivo!

ps.: o me odeia, então não consegui mudar o nome do Prólogo, que ficou como "Chapter 1", eu acho. Mas, de qualquer modo, esse é o 1º capítulo, oks?

Beijinhos, e até a próxima.

Agradecimentos especiais a Mara - Rey Yoshikawa - Felisbela - Nicky Evans. Obrigada mesmo pelas reviews, meninas!