Uma estranha em Hogwarts – parte 2

A primeira aula de Ana era Trato das Criaturas Mágicas, o professor era o senhor Ketrleburn, um homem velho, mas robusto e forte, cheio de membros de madeira e de metal. Ana o adorou. Os alunos da Corvinal tinham aquela aula junto com os alunos da Grifinória e um trio chamou a atenção de Ana.

Um dos meninos era visivelmente calmo, inteligente e responsável. Era alto, magrelo e tinha cabelos castanhos, tinha umas cicatrizes no rosto e o uniforme gritava por um alfaiate, mas mesmo assim era bem bonitinho. Era o mais quieto dos três. Os outros também eram altos, mas tinham cabelos negros ao invés de castanhos, e não tinham nenhum respeito pelo uniforme escolar. As gravatas estavam frouxas e as camisas desabotoadas, mostrando uma outra blusa mais justa por baixo.

Um claramente amava o próprio cabelo, usava óculos e tinha uma pinta de exibido, além de tentar puxar conversa com uma menina ruiva que, pelo visto, não queria saber dele. O outro era o mais bonito, e parecia saber disso, já que ele não parava de dar em cima das meninas, tinha o cabelo comprido, que chegava nos ombros e tinha um sorriso safado no rosto. Demorou um pouco para Ana notar que não era um trio, e sim um quarteto. O último era um menininho baixo e gordinho, tinha uma carinha de rato e parecia viver para adorar os outros três.

O de óculos notou que Ana estava olhando e veio todo sorrisos conversar com ela.

-Você é a aluna de intercâmbio. – não foi uma pergunta. – eu sou o James.

-Ana. – os dois apertaram as mãos.

-Aqueles são Sirius. – o bonitão acenou. – Peter. – o gordinho acenou tremendo nas bases. – e Remus.

Eles se aproximaram e Ana apertou a mão dos três.

-Você que veio do Brasil, não é? – Sirius perguntou visivelmente interessado.

-Isso mesmo.

-Como é lá?

Antes que Ana pudesse responder o professor mandou todo mundo calar a boca e a aula começou. Quando a aula acabou os meninos se despediram prometendo falar com ela no almoço. Ana reparou na menina ruiva, a mesma que James estava tentando conversar antes, e a cara que ela estava fazendo. Parecia que ela não estava nem um pouco contente em ver os meninos conversando com Ana, especialmente James. Claro que Ana ficou curiosa, mas não tinha tempo de investigar, seus colegas da Corvinal já estavam indo para a próxima aula.

Era a aula de Poções, e ia ser junto dos meninos da Sonserina. Ela cumprimentou os franceses (que eram os únicos do mesmo ano dela) e se sentou no primeiro lugar vazio que encontrou. Só depois ela notou no menino que estava do seu lado, era magrelo, alto, os cabelos eram longos e precisavam de um salão de beleza com urgência, o nariz era grande e pelo visto sorrir era uma coisa que ele não fazia muito. Se fazia alguma fez.

-Oi. – Ana disse. – eu sou Ana.

-A aluna de intercâmbio, eu sei. – ele respondeu evitando de olhar pra ela.

-Qual o seu nome?

Ele a olhou desconfiado, como se Ana fosse atacá-lo ou coisa parecida. Ana fechou a cara e bufou.

-Eu só queria ser educada, mas pelo visto estou perdendo o meu tempo.

Ela pegou seus livros e se sentou no meio dos franceses. Estes foram muito mais gentis e amigáveis, mas o estrago já estava feito, Ana estava de mal humor. O professor Slughorn passou uma poção bem fácil e Ana terminou com tempo de sobra, não tinha sido a única, o menino ensebado que tinha sido grosso com ela também terminou.

-Finalmente temos uma aluna que consegue competir com o Severo. – o professor disse todo alegre ao ver que a poção de Ana estava perfeita.

Severo, o menino grosso, bufou e Ana cruzou os braços. A próxima aula também era com a Sonserina e a professora era Minerva. A tarefa era bem difícil, tinha que fazer as estátuas andarem, mas Ana conseguiu fazer com que a estatua desses uns dois passos antes de parar por completo. Severo fez uma careta pra ela, ela pensou que fosse, mas com aquela cara naturalmente raivosa e mal humorada a gente nunca sabe. Ele não conseguiu fazer o homenzinho dar nem um passo.

A professora Minerva ficou visivelmente impressionada e aquilo só fez a careta de Severo piorar. Quando Ana saiu da sala ele a chamou de má vontade.

-Como você fez aquilo?

Ana olhou bem pra ele, parecia que ele preferia pular de um penhasco do que conversar com ela.

-Eu continuei tentando. – dito isso ela saiu andando.

Ela chegou no Grande Salão na companhia dos franceses, Dylan estava na mesa da Grifinória com os outros, não demorou pra vê-la entrar. Foi correndo na direção dela e a levou pra mesa da Grifinória.

-Esses são os Marotos. – ele disse apontando pra James, Sirius, Peter e Remus.

-Eu conheci eles na aula.

-São legais, não?

-Não sei...

Sirius se aproximou dela e lhe deu um de seus melhores sorrisos.

-Deixe-me mudar isso então.

Ana caiu no riso e foi seguida por James, Remus e Peter. Sirius estava visivelmente confuso, será que tinha perdido seu charme? Mas Ana parou de rir na mesma hora que viu Severo, aquele menino tinha lhe dado nos nervos!

-Que foi? – Remus perguntou notando a cara que ela fez.

-Nada.

Sirius seguiu seu olhar e fez uma careta.

-Não liga pra Ranhoso, ele é um pé no saco.

-Agora você disse tudo. – James disse.

Eles continuaram conversando quando Ana notou na menina ruiva, ela se sentou do lado de Severo e, para o choque de Ana, ela o fez rir. Como assim? Pelo que Ana tinha visto Serevo não ria nem se sua vida dependesse disso, e lá estava ela, fazendo ele se comportar como um adolescente normal.

-Quem é ela? – Ana perguntou.

-É Lily Evans. – James respondeu. – bonita, não?

-Muito. Você já disse pra ela que gosta dela?

-Como você sabe?

-Eu acho que todo mundo sabe, Pontas. – Sirius respondeu.

Mais risos e um James muito vermelho. Ana passou o almoço na mesa da Grifinória, Sirius não parou de dar em cima dela, mas Ana não se enganou com ele, e Dylan, Kevin e Josh quase o socaram seis vezes por tamanhas audácias. Peter e Remus foram os mais educados enquanto James foi o mais cara-de-pau, não parou de falar de Lily e como precisava de bons conselhos sobre como conquistá-la. Só no final que Sirius perguntou como era o Brasil, mas Ana não teve tempo de falar muita coisa, já que era a hora da próxima aula.

História da Magia era a aula mais chata, Ana quase caiu no sono. Só começou a prestar atenção de verdade quando ele falou seu nome, não chamando sua atenção, mas dando a matéria.

-A família Stradivários é feita de uma espécie diferente de bruxos, do tipo que é muito raro se encontrar. – todos olharam pra Ana, mas ela não prestou atenção, estava muito ocupada ouvindo o professor. – vivem muito mais tempo que bruxos normais, são mais excêntricos, não escondem quem são e seus poderes são canalizados de uma maneira diferente da nossa. Enquanto nós temos varinhas, eles tem livros. E nós nascemos com poderes, sem precisar de recarga. Eles não, apesar de nascerem com poderes, eles os fortalecem com os já mencionados livros e uma vez a cada quatrocentos anos, no alinhamento dos planetas. Eles não diferenciam as pessoas, pra eles não existem bruxos e trouxas, pra eles só tem pessoas mais diferentes que as outras. A professora Mcgonagall me contou que temos uma Stradivários conosco esse ano.

Ele olhou pra Ana e ela olhou em volta, todos estavam olhando pra ela. Ela corou e voltou o olhar para o professor.

-Mas eu uso varinha e não tenho nenhum livro, professor. – ela disse.

-Acho que o motivo disso é que você não é uma Stradivários pura. Sua mãe era uma bruxa de Hogwarts, não era?

-Sim. – era verdade, a mãe de Ana não era brasileira. Tinha sido estudante de Hogwarts, esse era um dos motivos porque Ana queria tanto ir pra lá.

-Aí está a resposta. Parece que você puxou a sua mãe nessas características místicas. Mas não em todas. – ele trocou um olhar com Ana e ela engoliu em seco. – quantos anos a senhorita realmente tem?

Ana corou mais ainda e evitou de olhar para o lado.

-Vou completar 850 no mês que vem.

Toda a sala soltou aquele "Núúúúúúúúú! Caramba! Tá conservada, hein?" e começou a rir, Ana fez uma cara feia para o professor e ele engoliu em seco, só agora notou na burrada que tinha feito. Ana fechou o livro com força e cruzou os braços, o resto da aula aconteceu num clima desagradável, onde todos os alunos esperavam ver Ana voar no pescoço do professor.

Depois da aula a coisa só piorou, a noticia se espalhou numa velocidade espantosa e em questão de minutos todos da escola sabiam. Ana estava no banco lendo seu livro de História da Magia, mais especificamente o capítulo dos Stradivários, quando Lucius Malfoy apareceu para lhe encher a paciência.

-E aí, vovó? – ele perguntou. – como você está?

-Me deixe em paz, Malfoy. – Ana respondeu sem mesmo erguer os olhos.

Lucius Malfoy não gostava se ser tratado daquela forma. Ele arrancou o livro das mãos de Ana.

-Me devolve, Lucius! – ela tentou pegar o livro de volta, mas Lucius era mais alto que ela, e mais forte.

-Olha só. – Lucius arrancou uma página que tinha a foto de um homem bem velho. – é o seu irmão?

Os alunos que estavam cercando os dois caíram na gargalhada e Ana amarrou a cara. Lucius arrancou mais uma página, que tinha a foto de uma mulher mais velha ainda.

-Não sabia que você tinha uma irmã gêmea, Ana, vocês duas tem certamente a mesma idade.

Mais gargalhadas encheram o ar e atraíram mais pessoas. Ana viu os Marotos, os australianos, os franceses, Lily, Ling e até Severo, nenhum deles estava rindo, mas Severo parecia estar aproveitando aquele momento.

-Deixe ela em paz, Malfoy. – Sirius disse ficando frente-a-frente com Lucius.

-Sirius? Eu já sabia que você gostava de meninas mais velhas, mas eu acho que já tá exagerando.

Riram mais ainda e Sirius ficou vermelho de raiva, já estava a ponto de socar Lucius quando Ana segurou o braço dele. Foi a vez dela de ficar frente-a-frente com Lucius, o loiro só riu incrédulo.

-Posso te fazer uma pergunta, Lucius? – ela tirou a capa, a blusa e a saia mais rápido que um raio. Lucius ficou mais corado que um pimentão e todos ficaram em silêncio. – eu pareço assim tão velha? – ela olhou em volta e todos estavam corados e em silêncio, Lily tinha aprovação estampada na cara e Severo e Peter pareciam que iam enfartar. – da última vez que eu me olhei no espelho eu continuava linda. E sabe o que eu acabei de notar? Eu tenho idade pra quebrar a cara de toda a sua família, Lucius, mas eu vou me contentar só com você. – e ela o socou.

Foi tão forte que ele se dobrou de dor, Ana pegou seu livro de volta e se vestiu apressadamente. Quando foi embora todos a deixaram passar. Ela só notou que Sirius estava atrás dela quando chegou na Sala Comunal da Corvinal. E não era só ele, os outros Marotos também estavam indo, junto com os australianos e Lily (eles entraram com a ajuda de Ling).

Ana se sentou no sofá e abriu o livro. Lucius tinha arrancado páginas importantes, será que tinha um feitiço que consertava aquilo?

-Você está bem? – Sirius perguntou visivelmente preocupado.

-Estou.

-Foi meio exagerado, não acha? – Remus perguntou o mais carinhosamente possível.

-É que eu adoro causar uma boa primeira impressão. – todos riram, até a própria Ana. – e além do mais, eu acabei fazendo um favor pro Lucius, ele não vai ver nada parecido com isso de novo por um bom tempo. – mais risos.

-Vocês viram a cara do Ranhoso? – James perguntou rindo.

-Não chame ele assim, Potter! – Lily disse com raiva.

-Mas você tem que admitir que a cara dele foi engraçada, Evans.

Lily amarrou a cara, se sentou ao lado de Ana e pegou o livro das suas mãos.

-Você quer que eu conserte pra você?

-Tem jeito? – Ana perguntou esperançosa.

-Claro que tem.

A conversa continuou, mas logo logo Minerva apareceu chamando Ana. Nunca tinha parecido mais ultrajada.

-O diretor quer te ver, senhorita Stradivários.

Ana engoliu em seco, será que eles iam mandá-la embora? Depois de apenas um dia? Só podia ser um recorde! Sirius apertou sua mão a encorajando a Ana foi com a professora. A sensação de entrar na sala do diretor foi interessante. Não era todo dia que precisava de senha pra ser expulsa!

Dumbledore stava brincando com sua fênix quando as duas entraram.

-Aqui está Ana Stradivários, diretor.

-Certo, sente-se Ana.

Ana se sentou na cadeira a frente do diretor e Minerva foi embora. Ele continuou brincando com a fênix.

-Você causou uma bela impressão hoje, senhorita Stradivários. Não só ficou seminua na frente dos colegas como também feriu Lucius Malfoy gravemente. – ele finalmente olhou pra ela e Ana engoliu em seco. – o que tem a dizer em sua defesa.

E Ana contou tudo, como estava sendo chamada de velha pelos colegas, como eles estavam tirando saro dela e como ela não tinha pensado nas consequências. Dumbledore escutou tudo em silêncio e quando Ana terminou ele sorriu.

-Ana Stradivários, você, com certeza, vai entrar na história dessa escola. Todos os Stradivários entram.

-Eu não sou a única?

-Não, seu pai já deu aula aqui por alguns meses, isso foi há 848 anos. Foi aqui que ele conheceu a sua mãe.

-Como o senhor sabe disso, diretor?

-Eu tenho as memórias do diretor antes de mim, seu pai também deu uma bela primeira impressão. Mas a sua mãe, Isabela, não ligou pro jeito excêntrico dele. Era uma aluna do sétimo ano, bem bonita era ela. Você puxou muitos traços do seu pai, mas os olhos são de Isabela, isso tá na cara.

-Obrigada diretor.

-Só fico curioso com aquela coruja...

-O que tem a Preta?

-Foi o último presente de sua mãe. E ela morreu a séculos atrás, como Preta vive até hoje?

-Um feitiço muito complicado e difícil.

-Imaginei. Provavelmente coisa do seu pai...

Ele ficou quieto pensando por tanto tempo que Ana achou que ele a tivesse esquecido.

-Diretor? – ela perguntou meio insegura.

-Sim? – perguntou como se tivesse sido acordado de um sonho.

-Como eu fico?

-Você? Continua linda e excêntrica como sempre foi. Uma perfeita Stradivários.

-Então eu posso ir?

-Pode. – Ana já estava nas escadas quando ele a chamou. – mas Ana, não faça isso de novo. Nós ingleses não estamos acostumados com tamanha exposição.

Ana riu.

-Não se preocupe diretor, nós brasileiros também não fazemos isso. Só em datas muito especiais.

Ana saiu da sala feliz da vida e deu de cara com Lucius, ele a olhou de cima a baixo e corou. Ela riu e saiu saltitando até a Sala Comunal da Corvinal, seus amigos ainda estavam lá. Lily e James discutindo sobre como consertar o livro de Ana, Remus e Peter tentavam puxar conversa com o tímido Ling, os australianos conversavam entre si e Sirius ria da discussão de James e Lily. Quando Ana colocou o pé pra dentro todos pararam o que estavam fazendo e o rodearam.

-E então? – todos perguntaram ao mesmo tempo.

-E então nada, eu vou ficar, meus amores!

Sirius a abraçou e todo mundo comemorou. Ana realmente sabia dar uma primeira impressão. Escreveu uma carta pra avó naquele dia, dizendo tudo o que tinha acontecido, não mentiu e nem escondeu nada. Afinal não tinha vergonha do que tinha feito. Aproveitou ainda pra pedir a avó que mandasse o seu livro, tinha esquecido ele no Brasil.

-Leva pra vovó, Preta? – Ana perguntou pra coruja.

A corujinha bateu as asas aceitando o desafio e Ana riu amarrando a carta na pata dela. Lhe desejou boa sorte e abriu a janela. Mal levantou voo Preta desapareceu na noite e Ana ficou aproveitando a vista. Hogwarts era mesmo um lugar incrível!

Se tudo aquilo tinha acontecido no primeiro dia, o que aconteceria no segundo? Ela tinha até medo de pensar!

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