Capítulo 1 • Sexta-feira, 15 de novembro, 00h45min.

Era feriado. Apesar do horário, o festival organizado em comemoração ao 80º aniversário da cidade, ainda concentrava no centro da mesma a maioria da população.

- Eu já te disse, ela é só uma amiga! – um jovem alto, de cabelos castanhos longos, sentado em uma das mesas do restaurante, tentava acalmar sua acompanhante e encerrar uma discussão.
- Estou cansada das suas amigas, Neji! – ela se levantou da mesa e jogou o guardanapo que estava antes sobre o seu colo, na cara do namorado. – Quer saber, eu vou embora! – a jovem de cabelos azulados e longos pegou a bolsa e foi saindo em direção a porta.
- Hinata! – sequer se levantou. Permaneceu sentado mexendo o vinho de uma das taças sobre a mesa. Ela parou para encará-lo. – Não vou impedi-la.
- Ótimo. – saiu do restaurante contendo as lágrimas. No fundo esperava que ele a pedisse para ficar e ouvir mais uma de suas explicações monumentais. Ela o perdoaria como já havia feito inúmeras brigas antes, e voltariam a discutir num próximo deslize dele.

Não sabia se realmente o amava, na verdade, era mais uma questão de convivência do que de amor. No começo havia paixão, depois foi ficando apenas o medo de ficar sozinha. Era muito tímida e Neji fora o único que a compreendera e ajudara todo esse tempo.
Em função disso, calou-se muitas vezes mesmo estando certa e fechou seus olhos tantas quantas mesmo em face dos piores erros dele. O porque disso tudo era 'desconhecido' até por ele própiro, pensava. Talvez o motivo de suas traições fosse a constante negação da namorada à se entregar por completo ao relacionamento.
Hinata andou mais algumas ruas e chegou em casa exausta. Sua casa ficava num dos bairros de classe média da cidade. Não haviam muitos bairros nobres lá. Sua casa era simples mas aconchegante. Tinha um jardim florido e uma árvore, plantada por seus pais quando ela nascera.

Neji insistira muitas vezes para que ela a cortasse mas Hinata sequer o deixava chegar perto. Aquela humilde planta trazia boas recordações de seus falecidos pais. Principalmente o balanço pendurado num dos galhos dela, balanço onde muitas vezes se divertiu brincando com seu pai, sua mãe e seus amigos, que nunca voltara a ver. Tinha se tornado uma garota realmente sozinha, com exceção da companhia do namorado que já não a tratava como antes.
Hinata foi direto para seu quarto e se jogou em sua cama. Era a velha cama de seus pais. Nunca conseguira se livrar de nada deles. Era como se eles ainda estivessem ali. Fechou os olhos e as lágrimas não puderam ser contidas. O que havia de errado com ela? Porque nunca conseguira ser feliz?
A janela de seu quarto dava para o corredor da área de serviço, onde havia um muro quase da altura da casa, mas que não a impedia de conseguir enxergar parte do céu que já estava clareando com a aurora. Fitou aquela paisagem resplandecente e adormeceu sonhando em voltar a ser criança.


- Niichan! - um garotinha loiro vinha correndo na direção de Naruto, sentado em uma poltrona grande ao lado da lareira. O garotinho se aproximou e parou ante o irmão cheio de curiosidade mas este por sua vez sequer o olhou, permaneceu em sua posição incial, sentado com as mãos cruzadas em frente ao rosto. - Niichan, onde você esteve a noite toda? Já vai amanhecer! - sorriu ao constatar que o irmão mais velho finalmente o observava atencioso.
- Isso não é da sua conta! - manteve seu ar frio habitual diante da criança. Mas o menino não desistiu e pulou no colo do irmão mais velho o abraçando com força.
- Niichan, me leva com você da próxima vez... Eu também quero arranjar uma namorada. - levantou o dedo mindinho e abriu um sorriso inocente fazendo com que o irmão também risse do comentário totalmente sem malicia do garotinho.

- Quem anda enchendo sua cabeça com essas besteiras.. - Naruto se levantou da poutrona com o garotinho ainda em seu colo e foi andando em direção ao corredor. - Ta mais do que na hora de você dormir.. - andou mais alguns passos pelo corredor sombrio da casa.

O ambiente, assim como a casa toda, era iluminado apenas por estranhas luminárias de luz fraca. Haviam centenas de quadros dos dois lados nas paredes do corredor. Chegou até uma porta onde se encontrava uma pequena plaquinha de metal com morceguinhos desenhados e o nome do garoto, Himoto.
Abriu a porta e adentrou no quarto cheio de bichinhos de pelúcia de aspecto macabro e bonecos assustadores. Depositou-o na cama e o cobriu com carinho. O garotinho logo adormeceu, tinha esperado o irmão chegar, mesmo sabendo que ele estava demorando mais do que o de costume e que isso afetaria seu sono depois.
Havia uma especie de idolatria dele para com o irmão mais velho. Naruto era um vampiro como qualquer outro, mas para Himoto ele era diferente, era o melhor. Coisas de irmão mais novo. O que Himoto mais admirava era o fato de que sempre comentavam sobre as muitas 'namoradas' do irmão. Sabe, coisa de garoto..
Depois de ter certeza que o irmão havia dormido, Naruto deixou seu quarto e foi caminhando até o dele para enfim repor suas energias com um longo sono diurno. Apesar de que, Naruto poderia muito bem sair durante o dia, era um vampiro 'impuro', ou melhor, um vampiro nascido da união de uma vampira com um homem normal.
Graças a isso, Naruto podia vagar pela noite e seguir seus instintos herdados da mãe vampira, e podia tranquilamente se misturar aos mortais comuns com suas vidinhas insignificantes e tediosas durante o dia. Porém, quase nunca fazia isso, somente em casos de extrema necessidade. Não gostava nada desses seres 'normais', pra ele eram apenas COMIDA.
Entrou no quarto e foi direto ao banheiro tomar um banho para relaxar antes de dormir. Tinha sido uam noite longa e tediosa como todas as outras, e as próximas.. Quem sabe...!?

O dia amanheceu. A manhã virou em tarde. E a tarde passou depressa. Já eram mais de 3hrs, Hinata permanecia na cama. Na verdade havia acordado a mais ou menos uma hora, mas a preguiça e a depressão não a deixavam ter forças para seguir com sua rotina.
Enfim decidiu se levantar e sair debaixo das cobertas. Havia dormido com a mesma roupa da noite anterior e sequer tomara um banho. Correu para o banheiro e abriu bem o chuveiro para sentir a água quente esguichar em seu corpo sonolento. Ficou assim alguns minutos. O mundo podia acabar naquele exato momento que ela não sairia dali por nada.
Fechou o chuveiro após o banho, se enxugou e vestiu. Sentiu-se nova, mas ainda sem forças para sair de casa. Tinha recebido um dia de folga, assim como a maioria dos trabalhadores da cidade, devido ao aniversário da mesma. Foi até a cozinha e preparou um café forte e umas torradas com geléia de morango para fortalecer o estômago vazio.
Depois de repetir a si mesma que não era certo ficar ali trancada se fazendo de vítima o dia inteiro, Hinata resolveu sair e ir fazer umas comprinhas. O armário estava mais vazio do que seu bolso. Vestiu o casaco e saiu de casa indo para o mercado.


Naruto acordou sentindo os raios de sol de uma tarde extremamente ensolarada, porém muito fresca e agradável, baterem em seu rosto pálido. As orbes azuladas lacrimejaram ao encontrarem a luz e o rapaz se viu obrigado a levantar e fechar as cortinas da janela.
Seu quarto era bem simples. Havia uma cômoda, um guarda-roupa e uma cama somente. Não gostava muito do luxo em que sua mãe estava acostumada a viver e a impor aos outros da casa. Mas como sempre nunca conseguia fazer a cabeça do filho em prol de seu gosto de 'madame'.
O rapaz levantou da cama só de cueca e foi pro banheiro tomar um banho. Apesar de preferir ficar acordado durante a noite, ainda não conseguira perder o hábito de acordar durante o dia que ele tinha desde mais novo. Abriu o chuveiro e deixou a água quente molhar seus cabelos loiros.