Ato II – Capítulo I – Ao final desse dia...

Província de Shandong, 1957, oito anos depois...

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O mesmo olhar altivo, as mãos cruzadas em suas costas, o jeito de quem mandava e desmandava. Sim, ele ainda era a lei, implacável e rigorosa contra aqueles que a desafiavam.

Os anos haviam passado, mas em sua fisionomia notava-se apenas por conta de algumas rugas e linhas de expressão. Os cabelos ainda longos continuavam impassíveis de movimento quando caminhava. As roupas, sempre impecavelmente bem alinhadas. E no peito, algumas das medalhas que recebera por seus serviços prestados junto ao governo e a polícia.

Porém, a medalha que mais desejava não poderia nunca ser cunhada em bronze ou prata e sim em uma deliciosa lembrança em seu íntimo: a prisão de Dohko, o prisioneiro 23612, da prisão agrícola de Fujian. Tinha prometido ir até o inferno se fosse preciso para caçá-lo e prendê-lo novamente.

Bem, levando em conta a miséria que via em Shandong, talvez não estivesse tão longe do inferno como presumia. Até a prefeitura, onde se encontrava agora, exalava esta mesma impressão.

-Desculpe por fazê-lo esperar, senhor Shion, mas o prefeito estava realmente muito ocupado. Irá recebê-lo agora, queira me acompanhar.

Com um aceno de aprovação, Shion acompanhou o jovem secretário até a sala do prefeito, onde o mesmo se encontrava de costas para a porta, observando a rua em frente pela janela.

-Senhor Chang, o inspetor de polícia Shion.

-Obrigado, Sorento. Pode se retirar ao seu trabalho.

-Com licença, senhor.

Somente depois que o rapaz saiu, o prefeito Chang dirigiu-se ao inspetor, mas ainda sem se virar para ele.

-Ouvi falar de seu trabalho e sua fama, inspetor Shion. È um homem de muito prestígio, deveria estar atrás de assassinos perigosos em Pequim e não de míseros ladrões de galinhas aqui em Shandong.

-Com todo o respeito, senhor prefeito, mas para mim assassinos e ladrões de galinha são todos a mesma coisa... A lei deve ser severa para ambos.

-Entendo. Bem, eu mesmo lhe mostrarei a nossa delegacia, inspetor.

Finalmente o prefeito virou-se para Shion e ele pôde ver então a sua face. Os cabelos castanhos estavam bem penteados, embora alguns fios teimassem em se revoltar no alto da cabeça. Os olhos castanhos eram autoritários e compreensivos ao mesmo tempo, uma grande contradição.

O prefeito encarava o inspetor. Em toda sua vida, Shion só conhecera um homem com ousadia suficiente para isso.

Dohko, o prisioneiro 23612 que conhecera na prisão agrícola de Fujian.

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A prefeitura ficava no segundo andar de uma grande fábrica de cerâmica, também administrada pelo prefeito. Quando ele e Shion desceram, o horário de almoço havia acabado e os operários retomavam seus postos. Os fornos acesos nos fundos do galpão tornavam o ambiente uma filial do inferno, mãos habilidosas moldavam vasos, pratos e travessas na argila molhada.

-Esta fábrica é a principal fonte de renda para metade da população de Shandong, inspetor Shion.

-O senhor a administra também?

-Sim, com a ajuda do senhor Kanon. É ele quem cuida de tudo por aqui quando estou atarefado com os assuntos da prefeitura.

Shion viu o homem de cabelos azuis ao fundo, dando ordens a um grupo de operários. Chamando o inspetor com um aceno, o prefeito saiu da fábrica e ganhou a rua rapidamente.

-Agora que entenderam tudo, voltem ao trabalho, há muito que fazer por aqui.

Kanon deu as últimas ordens e tomou o rumo de sua mesa, que ficava em um canto mais afastado dos fornos. Estava quase lá quando foi interceptado por uma jovem mulher de longos cabelos vermelhos (1) e olhos azuis, que evitava encará-lo.

-O que foi, Marin? Alguma dúvida em relação ao seu trabalho?

-Não, senhor Kanon, eu queria tratar de um outro assunto com o senhor.

-Pode falar.

-Eu gostaria de saber se há possibilidade de o senhor me dar um adiantamento do meu salário.

-Um adiantamento? De quanto precisa?

-Cinqüenta yuans (2), senhor Kanon.

-O quê? Marin, sinto muito, mas não será possível... Nós não dispomos de uma quantia dessas no momento.

-Por favor, senhor Kanon, é importante! Quem sabe se o senhor falar com o prefeito, ele é um homem bom e sei que vai entender...

-Esqueça, Marin! Eu não vou incomodar o senhor Chang por causa de uma bobagem dessas. Volte ao seu trabalho agora!

Sem tirar seus olhos do chão, Marin engoliu as recusas em seco e voltou para o balcão. Suspirou cansada, precisava dar um jeito de arrumar depressa aqueles cinqüenta yuans. Antes de retomar seu trabalho, retirou do bolso de seu avental uma carta e a releu, demorando-se nas linhas finais.

Sei que já tem nos dado tudo o que pode, senhorita Marin, mas a pequena esteve muito doente por esses dias, precisando de remédios e cuidados especiais. É terrível ter de fazer isso, mas peço-lhe que nos mande mais dinheiro, cerca de cinqüenta yuans. É o custo da consulta médica e dos remédios que Shunrei precisa...

Sem mais

Senhora Li Wang

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Na delegacia, Shion vistoriou tudo e nada disse em desagrado, parecia realmente satisfeito com o que via. Observando o inspetor, o prefeito o media de cima a baixo, como se tentasse descobrir em sua pessoa algo que o desabonasse.

-As grades destas celas estão cheirando a tinta fresca... Nunca houve uma prisão em Shandong?

-Algumas poucas, mas sempre gente muito miserável, que roubou para comer...

-A fome não justifica o crime, senhor Chang. Pode-se trabalhar para conseguir dinheiro e então comer.

-Como pode um homem trabalhar faminto, inspetor?

-Sinceramente, não me importam como o farão, apenas que o façam. E não existe crime menor ou maior, assim como motivos justificáveis...

-O senhor fala como se fosse Buda nos ensinando acerca do certo e do errado.

-Desculpe-me, senhor prefeito, mas não acredito em Buda ou em qualquer divindade que tente impor sua visão de moral e bons costumes.

-Vejo que temos opiniões divergentes sobre o assunto... Mas não se preocupe, eu não irei interferir em seu trabalho.

-E nem eu na prefeitura, senhor Chang.

Apertaram-se as mãos, o prefeito despediu-se e saiu da delegacia. Shion sentou-se em sua nova mesa e ficou por algum tempo olhando para o nada, pensativo. Alguma coisa naquele senhor Chang o deixava intrigado, mas não sabia dizer o que era.

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O outro dia amanheceu cinzento em Shandong. Na fábrica de cerâmica, os operários chegavam para mais um dia de trabalho, Marin entre eles, uma expressão de quem não tinha dormido nada durante a noite.

Assim que registrou sua entrada, foi procurar por Kanon.

-Senhor Kanon?

-O que foi desta vez, Marin?

-Eu gostaria de lhe pedir para sair mais cedo hoje.

-Sair mais cedo? Primeiro o adiantamento, agora isso... Marin, assim perderá o seu emprego!

-Sei disso, senhor Kanon, mas se sair no horário de sempre, não poderei ir ao correio e tenho uma carta que preciso postar logo.

-Se é algo tão urgente, deixe a carta comigo que eu a colocarei no correio quando for visitar um de nossos compradores.

Kanon estendeu a mão, mas Marin hesitou, apertando o envelope entre as mãos.

-Está com medo de que eu leia sua carta, Marin? Não confia em mim?

Ainda hesitante, Marin entregou a carta para o homem e foi para seu posto. Kanon deu uma espiada no destinatário e arqueou uma sobrancelha, estranhando o que estava escrito.

-Senhor e senhora Li Wang?

Guardou a carta no bolso da calça e iniciou seu trabalho, dando ordens ao grupo que cuidava dos fornos.

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Na sala anexa ao gabinete do prefeito, Sorento podia ouvir vozes exaltadas vindas de lá. Tentava se concentrar em seu trabalho, mas as palavras raivosas do homem que fora conversar com o prefeito não o deixavam fazer suas coisas em paz.

De repente, com um tremendo estrondo, o homem abriu a porta com tudo, ameaçando o prefeito com sua voz de trovão e seu corpanzil gingando ferozmente.

-Isso não vai ficar assim, senhor prefeito! Não vai!

Raivoso, ele saiu pisando duro. Sorento, meio assustado, foi até o gabinete ver se estava tudo bem.

-Precisa de alguma coisa, senhor Chang?

-Não, Sorento... E não se preocupe com a aparente fúria de Aldebaran, eu não o temo.

-Entendo... Mas, se me permite a indiscrição, o que ele desejava com o senhor?

-Queria que eu o contratasse como cocheiro para o transporte de mercadorias da cerâmica. Algo impossível, levando-se em consideração que a carroça dele não suportaria uma única viagem até o porto de Pequim.

Alterado, Aldebaran saiu da prefeitura direto para a delegacia. Encontrou o inspetor Shion imerso em papéis, alguns deles amarelados de tão antigos.

-Inspetor?

-O que deseja, senhor...

-Meu nome é Aldebaran e quero prestar uma queixa contra o prefeito Chang!

-Uma queixa contra o prefeito? E o que o faz pensar que eu aceitaria tal disparate?

-E se eu lhe contasse a história de um homem de passado misterioso que conseguiu chegar ao mais alto posto de uma província por meios até hoje obscuros?

Arqueando uma sobrancelha, Shion indicou uma cadeira ao homem e ajeitou-se na sua para prestar atenção no que ele tinha a dizer.

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Nesse meio tempo, passou-se o dia e também a tarde, com ela soou o apito que indicava o fim do turno de trabalho na cerâmica. Marin, exausta, lavou depressa suas mãos no tanque de limpeza e ainda estava enxugando-as no avental quando foi chamada por Kanon em sua mesa.

-Pois não, senhor Kanon?

-Marin, eu menti a você esta manhã... – ele começou, mostrando à mulher o envelope que ela lhe entregara, aberto – Eu li sua carta e tenho uma pergunta a lhe fazer: quem é Shunrei?

Branca de susto, Marin não conseguiu articular uma única palavra. Torcia as pontas do avental, tentando encontrar uma saída para aquela situação.

-Marin, eu vou repetir a pergunta que lhe fiz: quem é Shunrei?

-É minha filha, senhor Kanon... – a mulher disse por fim, extremamente envergonhada. O homem suspirou, abrindo uma das gavetas de sua mesa.

-Eu já desconfiava de sua resposta e por isso me antecipei... Marin, você está despedida!

Kanon estendeu a ela um outro envelope, com dinheiro. Mas Marin não o pegou, parecia paralisada pela surpresa sobre o que havia acabado de ouvir.

-O que disse, senhor Kanon?

-Está despedida, Marin. Não posso manter empregada em meio às pessoas de bem uma mulher que tem uma filha sem estar casada.

-Por favor, senhor Kanon, não faça isso! Sem trabalho eu não posso sustentar minha filha, ela está muito doente...

-Não adianta, Marin! Você conhece muito bem as regras de conduta e moral que o senhor Chang exige de seus empregados e você quebrou uma delas!

-Mas o senhor Chang é um homem muito bom, eu sei que ele vai entender minha situação e...

-Eu estou transmitindo ordens do senhor Chang, Marin... Como disse, eu já desconfiava de sua resposta e expus a situação para ele. Está despedida e ponto final!

Com os olhos vermelhos, Marin baixou a cabeça e pegou o envelope com o dinheiro dos dias trabalhados e também sua carta. Nervosa, a mente confusa, ela deixou a fábrica e saiu pela rua, sem rumo certo.

O que seria de sua vida agora? E pior, o que seria de sua pequena filha, doente e longe de sua mãe?

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Drama! Eu gosto disso, e Victor Hugo foi mestre em descrevê-lo em "Os Miseráveis"... Fiquei até com dó da Marin, tadinha... E o Shion? Javert, o personagem que inspirou o Shion aqui nesta fic, é o meu preferido no livro e por aqui não é diferente...

Descrevi a Marin com cabelos compridos porque isso será importante mais para frente. Porém, só mais para frente, não me perguntem antes o motivo!

Yuan, a moeda oficial chinesa desde o início do século. Mas o valor é fictício, eu não encontrei nenhuma tabela de conversão de Real, Dólar ou Euro para Yuan.

"Ao final desse dia", canção que faz parte do primeiro ato do musical "Les Miserábles", cantada pelos trabalhadores da tecelagem (que aqui substitui por uma cerâmica).

Este capítulo foi betado pela minha querida Arthemisys. Beijão, amiga!