Capítulo II – Olhos nos olhos
Misha chegou em casa e subiu direto para o quarto. Seu pai deveria estar nos fundos da casa, ainda organizando sua oficina. Aquela coisa toda de mudança era realmente chata. Mas não era mais do que o divórcio de seus pais. Ele já estava bem grandinho para entender que era a melhor solução, mas ainda assim não era fácil vê-los discutindo tanto. Escolhera ficar com seu pai já que eram mais próximos e porque não queria ficar na casa onde moravam, tão carregada com as últimas brigas.
Jogou a mochila em um canto e deitou-se na cama, repassando mentalmente o seu dia. A primeira palavra para ele seria "horrível". Seria. Se não fosse por um detalhe... O garoto dos olhos verdes. Jensen, repetiu o nome, para si mesmo. No instante em que entrou na sala de aula, sua atenção foi atraída por ele. De alguma forma ele se destacava entre os outros alunos. Talvez porque seu olhar não fosse tão invasivo ou hostil quanto o dos outros, enquanto o avaliavam. O olhar de Jensen parecia apenas... curioso.
Sorriu ao se lembrar de quando soprou para ele a resposta da pergunta da professora de História. O desconcerto do loiro era ao mesmo tempo engraçado e angustiante. Normalmente ele não teria soprado a resposta, teria ficado na sua, mas alguma coisa fez com que quisesse ajudar o garoto. Mas não achou que sua timidez o faria reagir daquele jeito quando ele agradeceu. Deve ter parecido um idiota, corando e ignorando o outro daquele jeito.
E então... então aconteceu aquilo no vestiário. Era por isso que ele odiava não ter um porte atlético e uma cara de mau. Na antiga escola era a mesma coisa. Ele já se acostumara ao "sistema". Sua aparência frágil parecia atrair ainda mais os valentões. Mas ele não esperava que alguém pudesse defendê-lo. Mais do que a agressão de Padalecki, o que o chocara fora a atitude de Jensen. Sentiu o coração acelerar ao rever a cena.
- Meu herói... – disse baixinho, pensando em Jensen. Depois balançou a cabeça, achando que aquilo era uma coisa muito brega de se dizer. Mas estava contente, porque parecia ter conseguido um amigo no meio de toda aquela confusão com a mudança.
J & M
Na manhã seguinte, Misha levantou-se bem disposto. Sempre gostara de estudar. Não era exatamente um nerd, mas dava importância aos estudos. Sonhava em ter uma profissão importante: um grande médico, um advogado, coisa assim. Ainda não tinha decidido.
- Bom dia, pai. – cumprimentou.
- Bom dia, filho. – respondeu Arthur Collins. – Você está animado hoje!
Misha corou um pouco. Estava tão feliz assim que dava para perceber? E ele nem sabia qual o motivo daquela disposição toda. Qualquer um estaria no mínimo desanimado para o segundo dia em uma escola nova – ainda mais se tivesse arrumado encrenca já no primeiro dia.
- Acho... acho que eu gostei da escola, só isso. – respondeu, mais para si mesmo do que para o pai.
- Que bom! – o pai respondeu, servindo-se de suco de laranja. – Sasha ligou agora há pouco. Mandou um abraço.
Misha balançou a cabeça, agradecendo o recado. Sasha era seu irmão mais novo. Preferira ficar com a mãe, em Boston. Os olhos azuis do garoto se fixaram no chaveiro em forma de anjo que o irmão lhe dera, quando foi embora. Mais uma coisa ruim da separação de seus pais era aquela, ficar longe do irmão. Embora fosse mais novo, era Sasha quem sempre o ouvia.
- Sua mãe prometeu trazê-lo no próximo final de semana. – disse o Sr. Collins, notando o silêncio do filho.
- Que bom! – disse Misha, forçando um sorriso. Se acostumaria com aquilo, mas precisava de um tempo ainda.
Conversaram sobre assuntos triviais, enquanto terminavam o café da manhã. Misha olhou para o relógio e se apressou para apanhar sua mochila, pois já estava um pouco atrasado para pegar o ônibus da escola.
- Tchau, pai! – despediu-se, abrindo a porta.
- Até mais tarde, Mish!
O ar fresco da manhã animou um pouco o garoto, enquanto caminhava para a parada do ônibus, a uns dois quarteirões de sua casa. Hoje conheceria alguns professores novos. E quem sabe se enturmaria melhor com seus colegas... Mas ele duvidava disso. Sempre fora muito tímido para ter muitos amigos. No entanto, pelo menos um amigo ele parecia ter conquistado. Sorriu ao pensar em Jensen. Estava ansioso por conhecê-lo melhor.
Precisou correr para alcançar o ônibus. No dia anterior, sentara-se numa das primeiras cadeiras. Mas hoje seus olhos esquadrinharam os assentos antes de escolher um lugar.
- Sai da frente, magrelo! – alguém disse, empurrando-o.
Jensen não estava ali. Talvez ele pegasse o ônibus em outra parada. Talvez fosse de carro. Um pouco frustrado, sentou-se num banco mais pro meio do ônibus, perto da janela. Não gostava muito daquela algazarra toda. O que, certamente, não contribuía muito para sua popularidade. Tirou um livro da mochila e tentou se abstrair do barulho. Desistiu depois de ter lido uma linha três vezes sem conseguir entender. O jeito era se distrair com a vista da janela.
Durou menos do que ele esperava. Ainda assim, ficou agradecido em descer do ônibus amarelo. Tentou se lembrar do caminho até sua sala – seu senso de direção não era dos melhores.
- E aí, Misha?
O garoto quase teve uma síncope ao sentir a mão no seu ombro. Por um segundo pensou que fosse Jared, disposto a cumprir suas ameaças. Mas então ele percebeu que aquela voz não era a de Padalecki. E aquele tom era amigável. E ao seu lado estava Jensen.
- Você está bem? – ele perguntou, a voz preocupada.
- Estou. – respondeu Misha, recuperando o fôlego. – É só que você me assustou. Pensei que fosse o Padalecki.
- Desculpa, cara. – disse Jensen, dando um tapinha no seu ombro.
- Sem problemas. – disse Misha. – Pensei que você vinha no ônibus da escola. – disse, antes que pudesse se controlar. Não queria parecer interessado demais na vida do outro. Afinal de contas tinham se conhecido no dia anterior.
- Ah... – fez Jensen, parecendo um pouco surpreso com a pergunta. – Normalmente eu venho mesmo. Mas esses dias meu pai tem me dado uma carona, já que está indo pro trabalho mais tarde. Eu estou louco pra tirar carteira de motorista logo! Parar de ficar dependendo assim dele...
- Você parece o tipo de cara que dirige um desses carros clássicos por aí, ouvindo um rock bem alto. – Misha comentou. De fato, não era muito difícil imaginar o loiro no volante de um carro, fazendo pose de "bad boy".
- Pareço, é? – perguntou Jensen, rindo.
Misha fez que sim com a cabeça, acompanhando o riso do outro. Sem perceber, deixava que o loiro o guiasse pelos corredores da escola até a sala de aula. Se todos os dias fossem daquele jeito, não aprenderia nunca o caminho, pensou, quando viu que já estavam na porta.
Caminharam por entre as carteiras até o mesmo lugar onde tinham se sentado no dia anterior. Misha ainda pôde perceber alguns olhares hostis. Ele ainda era o "novato". No entanto, ter pelo menos Jensen ao seu lado já o animava mais. Ele era um cara legal.
Não demorou muito e o professor de Inglês, o Sr. Morgan, entrou. Tinha jeito de ser bravo. Misha olhou de relance para Jensen, esperando ler na expressão dele alguma dica de como o professor era. Mas não dava pra saber. Virou-se para frente, esperando o pior.
- Bom dia. – ele disse, numa voz um tanto seca, ao que os alunos responderam. – Na última aula eu disse que daria o trabalho de literatura do semestre. Pois bem. Vou querer um resumo e uma análise de dois livros de Shakespeare. Pode ser qualquer uma das obras mais clássicas: Romeu e Julieta, MacBeth, Sonho de uma noite de verão, etc. Mas quero uma análise bem feita, sem copiar da internet, ouviram?
Alguns alunos fizeram que sim com a cabeça. A maioria tinha uma expressão de desagrado no rosto.
- Como eu estou de bom humor esses dias, vocês poderão fazer em duplas. Que eu escolherei. – acrescentou, fazendo os sorrisos de alguns murcharem. – Vamos ver... – o professor continuou, pegando a lista de chamada. – Anderson e Moore, Green e Carter, Mitchell e Lewis...
Misha sentiu-se um pouco apreensivo, enquanto o professor ia escolhendo as duplas. Não conhecia ninguém ali direito. E aquele trabalho demandaria algum tempo para ser feito. Além do fato de que ele realmente detestava gente que apenas se escorava nos outros na hora de fazer trabalhos.
- Ackles e Collins...
Os dois garotos se olharam imediatamente. Misha pensou que era coincidência demais. Mas ainda assim sorriu. Se pudesse ter escolhido, escolheria Jensen para fazer o trabalho, já que ele era a pessoa mais próxima dele até aquele momento. O loiro sorriu de volta para ele. O que significava que também estava contente com a idéia de fazerem o trabalho juntos.
O restante da aula foi até interessante. O professor Morgan não era tão ruim quanto parecia. Mas Misha estava ansioso para falar direito com Jensen. Ficou contente quando o sinal tocou.
- Então... – disse, enquanto se levantavam.
- Legal, cara! Vamos fazer o trabalho juntos! – Jensen exclamou. – Mas eu já vou avisando que não sou muito bom em literatura...
- Não tem problema. – disse Misha. – Desde que tenha interesse, eu posso ajudar.
- É mesmo... – disse Jensen. – Esqueci que você é um geniozinho.
- Geniozinho? Como assim?
- Bom... deve ser. Quer dizer, pelo seu jeito na sala de aula.
Jensen estava ligeiramente vermelho. Misha sorriu um pouco. Ele ficava engraçado daquele jeito.
- Assim eu vou achar que pareço um idiota. – disse o garoto dos olhos azuis.
- Não, não foi isso que eu quis dizer. – explicou o outro, o vermelho do rosto ficando mais forte.
- Eu entendi, eu entendi. – disse Misha depressa, rindo mais abertamente. – Não precisa ficar assim. Na verdade eu gosto mesmo de estudar. Mas não sou nenhum nerd.
O loiro apenas balançou a cabeça. Parecia realmente envergonhado.
- Então, precisamos combinar como vamos fazer o trabalho. – disse Misha, enquanto eles andavam na direção dos armários.
- Ah... podemos ler os livros juntos. – sugeriu Jensen. – Você pode... pode ir lá em casa, depois da aula, se quiser.
- Sua casa? – repetiu Misha, um pouco espantado. – Er, claro. Seria muito legal.
- Combinado, então! – disse Jensen, abrindo um sorriso. – Vamos, agora é aula da McKinnon! – acrescentou, como se a aula de História fosse uma sessão de tortura.
J & M
- Vem, Misha! – disse Jensen, enquanto subia pelas escadas de madeira.
O garoto dos olhos azuis ainda estava olhando a sala simples da casa. Não que estivesse reparando demais, mas é que achara o lugar bem acolhedor. As muitas fotos da família Ackles diziam que eles eram uma família feliz. A mãe de Jensen, que os tinha pegado na escola, tinha sido muito simpática com ele.
Misha seguiu o loiro até o andar de cima, simples como o de baixo. Um corredor, as portas dos quartos, alguns quadros e fotografias. Jensen conduziu-o até a última porta à esquerda.
- Não repare a bagunça. – disse, quando entraram.
Mas o lugar não estava bagunçado. Era um quarto normal de adolescente. Não era muito grande, mas cada centímetro das paredes estava coberto por pôsteres de bandas de rock. A cama ficava ao lado da janela, que dava para o jardim de grama bem cuidada. Em uma das paredes havia uma escrivaninha, na outra uma pequena estante atulhada de livros, papéis e CDs.
- Quarto legal. – Misha observou.
- Valeu! – respondeu Jensen, colocando a mochila no chão, perto do criado mudo ao lado da cama. - Agora ele é só meu. Antes eu o dividia com meu irmão mais velho. Mas ele foi pra faculdade.
Misha assentiu. Lembrou-se de Sasha e sentiu o coração apertar um pouco. Mas não ia pensar naquilo agora. Colocou sua mochila perto da de Jensen.
- Que chaveiro bonitinho! – o loiro comentou em tom de gracejo, apontando o anjo de metal pendurado na mochila do outro.
- Ah, sim. – disse Misha, tentando dar a voz um tom descontraído. – Meu irmão me deu.
Jensen arqueou as sobrancelhas.
- Você tem um irmão? – perguntou.
- Mais novo. – explicou Misha. – Mas ele não mora comigo... quer dizer, não mora mais.
O garoto dos olhos azuis parou de falar, passando a mão pelos cabelos negros. Talvez fosse muito cedo para falar sobre aquilo. Fez-se um momento de silêncio e ele ficou aliviado porque Jensen não insistira no assunto.
- Precisamos escolher os livros. – Jensen disse, sentando-se na cama e indicando uma cadeira em frente a uma mesa de computador.
- Qual livro de Shakespeare você gosta? – perguntou Misha, recuperando o tom de voz normal.
- Pra ser sincero... eu não conheço muitos. Só me lembro de Romeu e Julieta.
Misha sorriu. Já imaginava aquilo.
- Bem, nós temos muitas opções... se quiser eu posso pegar uma lista das obras na internet. Isto é, se você não se importar de me deixar usar o seu computador.
- Claro que não. Fique a vontade.
O loiro levantou-se e ligou o computador. O cheiro do perfume dele, marcante, fez Misha respirar fundo. O moreno sentiu o rosto queimar. Aquilo certamente fora estranho. Fingiu estar interessado nos próprios sapatos enquanto Jensen voltava para a cama. Esperou até que o computador estivesse pronto e voltou-se logo para a tela.
- Ah... aqui está uma lista das obras dele. – disse, depois de algum tempo.
Sentiu mais do que ouviu o movimento do outro atrás de si. Aquele perfume invadiu suas narinas novamente. Involuntariamente, virou-se para trás e deu de cara com o rosto de Jensen, abaixado, próximo do seu. Os dois pares de olhos se encontraram, verde e azul refletidos um no outro. Era a primeira vez que se viam tão de perto. Perto o suficiente para Misha reparar nas pequenas sardas do outro. Perto o suficiente para Jensen notar o quanto o azul dos olhos do outro era intenso. Perto o suficiente para sentirem a respiração um do outro...
Nota da Beta: Ai, ai! Estou apaixonada pela sua história... Tão doce, tão fluffy! E fico tão feliz de ser a única por aqui, além de você, é claro, que sabe o que vai acontecer... Vai ficar cada vez mais gracinha, embora alguns momentos de grave tensão estejam previstos. Quero mais! Senta logo em frente ao PC, de volta ao trabalho! *estala o chicote*
Nota do Autor: Aí está o capítulo II! Obrigado a todos que leram e que comentaram, e aos que não comentaram também XD! Não tenho experiência com longfics, então espero que não me perca no enredo! Mas ainda bem que tenho o chicote da minha AnarcoGirl pra me por na linha, rsrsrsrs!
