01
Quando se nasce em uma família rica e bem conhecida na sociedade é fácil menosprezar tudo o que se possui, porque nenhum esforço foi necessário da parte desse herdeiro sortudo. No menos sério dos casos de desdém de herança, esse filho vive sossegadamente por se saber cercado de uma fonte de conforto que não parece passiva a secar. Como é bom e fácil levar a vida quando se conhece apenas o melhor.
Era Verão, e a estrela régia cumpria seu papel de dominar a terra com sua luz e seu calor enquanto o céu usava um vibrante tom de azul e as nuvens o decoravam com leveza.
A mansão branca erguia-se imponente a despeito do peso dos anos. Os olhos de qualquer um se lançariam com fascínio sobre a construção, de tão bela e preservada que era. A colunata central conferia elegância quase majestática, inspirando respeito.
Entretanto, Heero já não percebia nada disso, pois tinha cometido o pecado de se acostumar. Mesmo depois de passar dois anos longe dali, nada sentia sobre a vista que tinha de dentro do carro negro que rodava mansamente pelo jardim frontal da propriedade. Estava voltando para casa, sim, mas contra a vontade. Olhava através da janela com a indiscrição mórbida do prisioneiro levado para a penitenciária, mesmo que sua expressão fosse fria e enigmática.
Não havia som algum dentro do carro ou mais alguém além dele e do motorista.
Ninguém o esperava na porta, nem para sua família aquele era um retorno feliz. O carro estacionou em frente à porta centenária, que abriu logo que Heero desceu do carro. Empregados vieram pegar suas quatro grandes malas de couro legítimo. Na entrada, o mordomo cumprimentou cerimoniosamente:
–Bem vindo de volta, mestre Heero.
–Só se for para você…
–O senso de humor não mudou nada. Como foi a viagem?
–Conforme o esperado.
–Ótimo. O senhor necessita de algo?
–Não, nada.
–Pois não. Sendo assim, o senhor Yuy o espera no escritório.
O rapaz tirou os óculos escuros, mostrando os olhos azuis cobalto profundos como um poço vazio. Observou o redor enquanto suas malas eram levadas para o quarto. Nada se modificara. Os quadros, o lustre pendendo do teto, o tapete forrando os degraus, as cores, o brilho do mogno, tanto que o grande espelho de cristal decorado na porta do armário de casacos parecia refletir ainda a mesma imagem do moço, congelada. Estava tudo parado no tempo. Portanto, perguntava-se como estava seu pai. Devia também estar o mesmo leão de sempre, um olhar duas vezes mais claro e cortante e a expressão triplamente mais rígida que a dele mesmo.
Este era um homem de princípios elevados, que fez da lei seu meio de vida, e foi tão bem-sucedido no seu trabalho no Direito que então era um importante e muito rico juiz da suprema corte. Não havia como escapar daquele homem, até mesmo Heero, por mais intratável que fosse, não podia resistir ao domínio dele. Ter uma pessoa dessas como pai não era nada fácil.
Dinamicamente, Heero escalou a escadaria até o próximo piso da mansão. Sem esforço ouvia em sua mente todas as palavras que o esperavam dentro do covil da fera.
Bateu na porta e esperou um minuto para receber a permissão para entrar. Fechado em seu escudo de apatia profunda, armou-se para a batalha preste a ocorrer no interior do cômodo.
–Entre.
Não houve nenhum som quando a placa de madeira deslizou suavemente, abrindo o caminho de Heero. Dois passos depois, fechou a porta, e sentiu o olhar do pai, em pé atrás da mesa.
No todo, o escritório do juiz era cinza, remetendo realmente a uma caverna, fria e nem um pouco convidativa, onde nada se movia a não ser a cortina ás vezes soprada pelo vento, e as mãos do homem sentado atrás da mesa de granito e metal.
–Você chegou na hora. –friamente, o juiz observou.
Heero assentiu, não encontrando necessidade de explicar que o trânsito estava tranqüilo em Londres, que milagrosamente o vôo saiu na hora e que o tempo estava perfeito para voar. Antes não houvesse nenhuma dessas boas condições, antes estivesse ficado preso para sempre do outro lado do oceano.
Olharam-se frontalmente, sem qualquer sentimento.
–Já viu a senhora Yuy? –e o juiz questionou gravemente.
–Não, senhor. –o maior dom de Heero era responder somente o indispensável, e quanto mais sintético, melhor.
–Ótimo.
Dante Yuy encarava seu filho duramente, nos olhos altivos ardia uma chama que era a única evidência da fúria que sentia pelo rapaz.
–Sente. –por pouco não rugiu, embora a força imperativa de sua voz tomasse todo o ambiente.
Indisposto de vulnerabilizar-se, Heero afrontou com um fito incisivo o homem que tinha um pouco mais que o dobro de sua idade. Suspirou e seguiu de pé, imóvel, mostrando ares leoninos por sua vez.
–Que seja! –reclamou o juiz. –Você devia ter vergonha de si mesmo! Da onde é que tira caráter para seguir de pé na minha frente com esse peito cheio? Fico impressionado com sua capacidade de ultrapassar os limites! Diga-me agora, como é que justifica o comportamento que teve? O que tinha na cabeça para fazer tudo o que fez, hã? Diga-me agora!
–Não interessa.
–Se não interessasse, não perderia tempo em perguntar, insolente! –alterou-se um pouco, dando a volta na mesa, mostrando para o filho olhos incandescentes. –Realmente, tudo o que tenho feito é perder tempo com você. Acha que dinheiro é infinito, fruto de geração espontânea, que não envolve esforço? –começou a discursar, cedendo à alteração de espírito. Apanhou e sacudiu no ar todos os extratos dos cartões de crédito e a papelada da seguradora. –Você estava tentando comprar a Inglaterra? Era isso? E o carro! Heero, como é que conseguiu perder o Maybach! Pensei que tinha se esforçado tanto em conseguir a transferência para Oxford para estudar, não para apostar corridas, esbanjar dinheiro com festas e luxos desnecessários. Não me conformo! Um filho meu jamais poderia agir como você! Seu mimado esnobe, não merece a vida que têm!
Heero não teve nenhuma reação todo o tempo. O juiz atirou as folhas de papel na mesa, ofegando de raiva.
–Desde a adolescência você não mostra um pingo de responsabilidade! Nem um pingo! Achei que ao entrar na faculdade, as coisas mudariam. Os dois primeiro anos, realmente, foram surpreendentemente tranqüilos, com apenas um ou outro incidente de indisciplina… Onde foi que eu errei com você, Heero? –e por fim, o juiz murmurou entre os dentes, tirando os olhos do filho. –Só que isso não vai ficar assim, acabaram as suas chances. Não quero um filho que só desgraça a família e não se preocupa com a tradição, que acha que suas ações não têm conseqüências. Já que agiu como criança, vai ser punido como criança.
Heero estalou os lábios e por fim sentou. Aquela ladainha estava saindo exatamente como o esperado. Levou uma mão ao queixo e olhou qualquer direção, desinteressado.
–Vou te deserdar. –e o juiz proclamou, retumbante. O escritório todo se encheu daquela frase.
–Como? –Heero surpreendeu-se, virando o rosto de uma vez de volta para o pai.
–O que foi, está surdo? –irreverentemente, o juiz replicou, ferozmente.
–Faça isso! –Heero rebelou-se, pondo-se de pé. –Nunca precisei de ninguém mesmo! –e Heero rosnou, olhando para o chão, amargo e orgulhoso.
–Como é que é? Seu ingrato! Você não merece nem um centavo do que gastei com você!
–O senhor não entende! Estou cansado! Eu não estou vivendo minha vida para responder suas expectativas! Eu não sou um investimento seu!
–Claro que é! À custa de quem viveu até hoje? Sempre foi minha obrigação cumprir meu papel como pai. Por que você não cumpre o seu?
–Essa fase da minha vida já passou. Quero fazer as coisas do meu jeito.
–Você pede uma coisa, mas baseado no quê eu devo conceder? Você é um irresponsável mimado! Se sair para viver sua vida sozinho, não dura nem um mês. Você passou dos limites! Saia da minha frente agora! Agora! –e o pai ordenou, marcial.
Heero levantou-se emburrado, certo de que não adiantava dizer mais nada – Dante jamais ouviria, pois aquele homem de ferro só ouvia o que queria. Quase correu para fora da sala, tanta era a raiva que sentia. Entrou no quarto e bateu a porta.
–Que idiota! Idiota! –e era difícil entender se ele estava insultando o pai ou a si mesmo.
Caiu na cama, amassando o paletó Armani, e ficou olhando o teto.
Sentia-se tão humilhado! Quando é que entenderiam que ele levaria a vida como quisesse? Estava exausto de ter de cumprir as exigências alheias. Amaldiçoou a vida que levava, deixando de considerar quão privilegiada e boa era ela. Tudo o que queria era sua independência, uma vida que fosse só dele, mas era fácil notar que enquanto vivesse naquela casa, talvez jamais pudesse se considerar completamente dono de si.
E nem dava importância aos delitos que cometeu ou a quanto difamou o nome de sua família. Porque tudo que aprontou, foi de caso pensado, como um grito de guerra. Revoltado, não se importava com as vantagens que tinha, só queria acabar com tudo que considerava prendendo-o. Não queria mais ser questionado por suas ações, independentemente se fossem boas ou ruins.
Se seguisse aquela forma de pensamento, com certeza iria se arruinar, não só financeiramente, mas também como um ser humano, porque a maioria dos desejos de Heero eram perigosos e inconseqüentes. E ainda assim, não queria se justificar para ninguém. Que espécie de advogado ele se tornaria era algo impossível de entender. Com certeza Dante pensava nisso também.
O celular de Heero tocou em seu bolso e alguém bateu na porta, tudo ao mesmo tempo. Com um impulso, se colocou de pé, apanhou o aparelho enquanto ia até a porta:
–Pronto.
–Fala aí, cara? Já tá em casa?
Heero incomodou-se com a intimidade de seu interlocutor, e tirou o telefone do ouvido para olhar o identificador. Era Duo. Meneando a cabeça, Heero respondeu enquanto abria a porta:
–O que é que você quer?
–Como foi a viagem? –mas Duo tinha uma grande habilidade para nunca responder o que Heero perguntava.
Heero olhou o mordomo parado do lado de fora de seu quarto.
–Olha, eu te ligo mais tarde.
–Ah, eu ia te chamar para gente se encontrar a noite com os caras, que tal?
–Tá, tudo bem. Depois te ligo! –e Heero desligou, sem esperar mais nenhuma frase do amigo, se é que realmente Duo fosse considerado assim. –O que foi agora? –e no mesmo humor, indagou prepotente o mordomo.
–A senhora Yuy o está aguardando na biblioteca, mestre Heero.
–Oras, estou indo.
Mas talvez não devesse, de irritado que estava.
Normalmente, Heero não tinha um gênio muito bom ou mostrava traços de alegria, e embora seu humor sempre pudesse piorar, as chances de mudar eram inexistentes. O máximo que ele podia fazer era lançar um olhar desinteressado ou apático para os demais seres e objetos.
O mordomo o anunciou, abrindo a porta de vidro fosco da biblioteca e Heero apareceu no vão, olhando para frente desanimado. Athina Yuy levantou-se tomada de amor materno pelo menino que ainda via no jovem homem de cara amarrada, que, por sua vez, não demonstrava o mesmo deleite em ver a pessoa que devia lhe ser extremamente querida.
–Ah, Heero, meu querido! –se aproximou, trazendo-o para dentro da biblioteca. O mordomo saiu, fechando a porta. –Meu querido filho, por que faz sofrer tanto o coração de sua mãe? Não pensa nem um pouquinho na tristeza que me faz sentir quando se comporta tão mal?
–Ai, mãe, não sou mais criança e sentimentalismos nunca me afetam.
–Você fala tal qual seu pai. Vocês dois são tão parecidos, é que não admitem.
–Grande coisa. Não tenho a menor ambição de ser parecido àquele homem.
–Oras, Heero, não fale assim do senhor Yuy. Ele é um grande homem. Dessa vez, vou apoiá-lo, ele tem motivos para ficar furioso. Você nos decepcionou. Achamos que tinha crescido.
–Mas cresci. Me deixem em paz, sei bem o que faço.
–Não duvido que saiba, entretanto não se esqueça que embora se julgue crescido, ainda tem algumas dependências te ligando ao senhor Yuy. E ele não é um homem muito flexível.
–Às vezes só queria que se esquecessem de mim.
–Me pergunto em qual sentido, pois tenho certeza que detestou ouvir a palavra "deserdar".
–Não achei nada. Se for assim que ele quer, que seja.
–Você é orgulhoso mesmo. Como acha que vai viver sem o apoio do senhor Yuy?
–De alguma forma. Meu pai sabe que se me deserdar, eu faria questão de mostrar que não preciso dele ou do dinheiro dele para viver.
–Sabe mesmo e exatamente por isso que ele não te deserdará.
–Não?
–Claro que não. Ele só está com muito ódio por enquanto para pensar em uma disciplina muito mais efetiva. –ninguém conhecia Dante Yuy melhor do que ela.
Aquilo preocupou Heero por um instante. Bufou, olhando aleatoriamente os livros e bustos pelas prateleiras.
–Mas é ótimo tê-lo de volta! Estava com muitas saudades. –e alisou o rosto dele, fascinada com a velocidade do tempo que transformou sua criança em um adulto que ela mal conhecia. Sorriu de modo agridoce, fixando-se no olhar do filho, que era sempre azul e intransponível.
Após alguns segundos, ele escapou ao toque da mãe, deixando de olhá-la, aborrecido.
Quanto tempo demoraria em notar que ser deserdado não era a solução e que o curso de comportamento rebelde não o levaria a lugar algum? Tudo o que sabia era afrontar o pai, tamanha a aversão desenvolvida das formas usadas pelo juiz para criar a família.
Voltou para o quarto, um lugar onde poderia ficar a sós com seus pensamentos. Nem havia tocado nas malas. O pacote de livros de Direito, o uniforme de Oxford, essas eram coisas que ele não queria encontrar. Perguntava-se porque levava adiante aquela idiotice de advocacia. No Outono iria começar o último ano, e embora fossem apenas 365 dias, faltava muito para que ele conseguisse se formar e exigiria bastante esforço e dedicação, coisas que havia parado de praticar, especialmente concernente aos estudos. Nas últimas semanas, apenas andava pensando em como fugir daquilo tudo.
Ligou para o amigo. Queria saber sobre o encontro proposto no telefonema anterior. Animado como sempre, Duo explicou sobre o novo clube inaugurado poucos dias antes da chegada de Heero. Era lá que programava o reencontro dos demais amigos que também mal haviam chegado para as férias de Verão.
Fazia tempo que Heero não via sua turma, e embora não fosse de seu feitio demonstrar afeições, queria muito reencontrá-los, ouvir as novidades. Conhecia aqueles rapazes desde a infância, sempre tendo estudado junto deles. Eram muito como irmãos, conheciam-se bem. Em Londres, fez amizades que jamais poderiam se semelhantes àquelas. As fez somente para servir-lhe os interesses. Normalmente, não desejava vínculos, que dizer de vínculos duradouros.
–Se você não estivesse nessa situação delicada, eu ia falar para você pagar o camarote… –e Duo provocou no decorrer da conversa.
Heero grunhiu:
–Nem que eu não estivesse, pagava.
–Mesquinho! Quantas vezes já paguei? –Duo reclamou, embora sua voz sempre soasse despreocupada.
–Você gosta de esbanjar dinheiro.
–Não como você. –devolveu espertamente, sabia bem o que Heero andara aprontando.
–É diferente.
–Na verdade, não é, mas vou fingir que sim. Tenho medo de você.
Heero meneou a cabeça. Duo era muito imaturo para ele.
–E sua irmã? –ouviu. –Já voltou?
–Não, só chega no domingo.
–Ah, que pena.
–E o que você quer com Akane?
–Nada demais…
–Eu não vou fingir que isso é verdade.
Duo estalou os lábios.
–Menino egocêntrico! Você desaparece dois anos e acha que as coisas param de acontecer na sua ausência? Eu e ela andamos saindo…
–Meu pai vai detestar saber disso.
–O juiz detesta tudo, qual a novidade? –e depois Duo riu. Heero suspirou.
–Vou desligar. Encontro vocês às oito horas.
–Entendido!
Duo tratou de espalhar a combinação. Depois de muito tempo, os cinco amigos estariam reunidos outra vez.
Heero deitou mais uma vez, jogando o braço sobre os olhos. O quarto preenchido de luz e elegantemente decorado, não combinava com sua juventude, porém com sua sofisticação. Ele tampouco se lembrava da beleza do ambiente. Achava tudo uma prisão, só queria saber de escapar daquele mundo.
Acabou por cochilar, entretanto acordou a tempo de se trocar para o jantar. Já se fez pronto para ir encontrar os amigos, sairia logo após a refeição. Queria passar o mínimo tempo possível em casa.
O jantar foi realizado em total silencio, embora os talheres batessem na porcelana. Heero não fazia mesmo questão de falar ou de ouvir. Comeu depressa, esqueceu da sobremesa, pediu licença para deixar a mesa.
–Para quê? –mas o juiz não estava disposto a simplesmente conceder.
–Vou sair.
–Para onde?
–O centro, encontrar meus amigos.
–Oras… –o juiz reprovou, meneando a cabeça, e sem dizer mais nada, assistiu o filho sair.
Sem dar mais nenhuma satisfação, Heero deixou a casa. Precisaria caminhar quarenta minutos, porém, não se incomodava com isso. Tinha saído do bairro quando recebeu uma ligação:
–Estamos te esperando na entrada. Tá demorando por quê? –era Duo.
–Estou caminhando.
–Por que não chamou um táxi, pelo menos?
–Não quero saber do dinheiro do meu pai.
–E do dinheiro de quem quer saber? Oras! Sei que você e o juiz andaram se desentendendo, mas isso está ficando besta. Deixa de ser orgulhoso e…
–Cala a boca. –Heero mandou sintético e agressivo.
–Ah, ok, ok… calma aí. Vê se se apressa.
Duo desligou e suspirou, aborrecido.
–Afe, que frescura. Nunca vi ninguém reclamar de barriga cheia feito o Heero. –e comentou, pensativo, com Trowa ao seu lado.
–Mas na perspectiva dele, não está de barriga cheia. –e Trowa raciocinou de volta.
Duo deu de ombros.
–Só espero que resolvam logo isso, quem é que vai devolver para mim os gastos de hoje do nosso amigo?
Trowa riu, malvado, e Duo não gostou nada do que entendeu daquilo.
Não demorou muito, Heero surgiu virando a esquina.
–Até que enfim! –Wu Fei anunciou, irritado, e Quatre meneou a cabeça em reprova da atitude do amigo.
Era um grupo de amigos muito singular. A maior semelhança entre eles era o status e o dinheiro, no mais, eram opostos. Porém, de algum modo misterioso, combinavam muito bem.
–Que notícias traz o nosso correspondente europeu? –e Trowa brincou ao dar a mão para Heero.
Sem responder nada, ele apenas olhou todos de uma vez, com um ar arrogante característico, e sorriu mau e maroto.
–Chega de ficar aqui fora! –Wu Fei apressou todos.
A fila estava bem comprida, mas quando Quatre e Duo se aproximaram da hostess, ela deixou os cinco passarem facilmente. Eram conhecidos e afortunados demais para serem retidos. Ela sorriu para Duo, charmosa, seus olhos cravaram em cada rosto que caminhava por ela, o último sendo o de Heero, cheio de um magnetismo selvagem. Ele não olhou para ela, apenas seguiu seu caminho, mexeu no cabelo. A hostess nunca o tinha visto antes, mas não precisaria ver os olhos dele uma segunda vez para ter certeza de que ele tinha uma personalidade muito forte. Até sentiu um arrepio. Porém, os que acharam que aquilo era uma brecha perfeita para entrarem, receberam uma censura firme, enérgica, mandando todos para trás.
A entrada que usaram conduzia-os direto para o piso dos camarotes. Havia movimento, mas o clube não estava muito cheio. Da passarela, viam as três pistas de dança e os dois bares. Havia praticamente um tipo de música diferente em cada espaço. Os rapazes seguiam conversando ainda assim, habituados com o barulho.
Heero olhou as pessoas abaixo de si, os feixes de luz revolvendo pelo seu rosto, tingindo seus olhos de verde, amarelo e rosa, as cores trocando em cadência frenética. Ele não pensava em nada sobre elas, não se incomodava, como se fosse ininfluenciável.
Uma festa esperava os amigos em um camarote por ali, oferecida por um amigo comum de todos. A porta abriu para eles como se estivessem sendo esperados. Houve muitos cumprimentos e bagunça, especialmente por causa do retorno de Heero ao ninho. Velhos conhecidos comemoravam-lhe a chegada e novos rostos admiravam-se com sua presença renomada. E Heero, sempre o mesmo, ninguém sentia diferença – misterioso e luxento. Não dava muita atenção para as brincadeiras e comentários, como se superior a tudo.
Primeiro, misturaram-se no grupo, conversando, flertando, bebendo champanha. Depois, entediados das companhias, o quinteto reuniu-se numa mesa para conversarem sobre o tempo em que estiveram separados. Todos eram universitários e cheios de tarefas, assim, acabavam vendo-se pouco mesmo que estivessem sempre na cidade ou arredores. Não restava dúvida de que precisavam aproveitar as férias de Verão ao máximo.
Quatre era herdeiro de uma cadeia de hotéis luxuosos presentes nas principais capitais do mundo. Por isso, estudava administração na mais renomada faculdade do país. Apreciava muito o negócio da família, não tinha do que reclamar, afinal, não era de seu feitio isso. Dava-se bem com tudo e todos e tinha grande carinho pelo seu bem-sucedido pai. Loiro e de modos meigos, sorriu brandamente para Heero:
–Como andam as coisas? –e indagou, interessado. Seu rosto era sempre iluminado.
Heero o encarou sobre a borda da taça de champanha. Parou de beber, meneou a cabeça. Para ele, aquele tipo de pergunta era inútil.
–Andam iguais e isso é uma merda.
Trowa soltou um riso desdenhoso. Ele, que era extremamente habilidoso com lógica e matemática, fazia economia e já participava nas movimentações dos investimentos da empresa de sua família. Era perspicaz como poucos e também calado, embora gostasse de aparecer aristocrático e charmoso.
–O vírus inglês de xingar te infectou. Não encoste em mim. –e provocou, a voz luxenta. Era sempre muito controlado, muito cerimonioso, e não gostava nada de comportamentos chulos.
Heero detestou e bufou.
Duo, por outro lado, viu graça na piadinha tonta, e riu sincero – uma coisa que ele era sempre. Também, era muito desinibido, comunicativo, vivaz. Já há quatro anos cursava engenharia voltada para a automobilística. Amava o assunto e já fazia parte do corpo de engenheiros projetistas.
–Essa foi interessante… mas o Heero sempre xinga quando bravo, nem que em pensamento só. E hoje, ele deve estar xingando muito! –e alongou bastante o "u".
–Não sei para quê tanto. Que idiotice! Por que não se acerta com o juiz, cara? –Wu Fei, crítico como nunca deixou de ser, apontou, invocado, sacudindo o copo de uísque e ouvindo o gelo bater.
As raízes de sua família estavam na China, onde ele próprio nasceu. Possuíam uma transportadora muito requisitada, principalmente para carregar produtos frágeis, preciosos e fazer serviços para o governo. Estavam no ramo há quase duzentos anos, e dia após dia se tornava um conglomerado maior, engolindo tudo o que podia e ampliando seus serviços.
Heero esfaqueou Wu Fei com seus olhos glaciais afiados, entretanto aquilo nunca impressionara Wu Fei.
Por que ninguém entendia? Ninguém realmente parecia creditar os motivos da revolta sentida, o que o revoltava mais ainda. Suspirou pesadamente, num falho esforço de controlar a raiva. Pousou com frieza a taça sobre a mesa.
–Tenho me acertado com o juiz a vida toda, sempre fazendo a vontade dele, agindo do jeito dele… –e protestou, furiosamente, descontando na mesa.
–Calma, Heero… –Quatre, preocupado, pediu. Tendia a ser o pacificador. Heero também detestava essa atitude às vezes. Em outras, nem dava importância. –Não fique assim… esse nervoso todo só piora a situação.
–Nada pode piorar minha situação – meu pai ameaça me deserdar, não me entende, não me dá uma chance.
–Isso é porque você não merece mais nenhuma. –Trowa era sempre o destemido racional.
–Cala a boca!
–Mas é verdade… –e explicou nada em adição, porque sabia que Heero o entendia muito bem.
Heero poderia ser cheio de defeitos, mas não era idiota. Porém, a arrogância que tinha quase o tornava tolo, porque o impedia de identificar a falta de sabedoria nas coisas que fazia, que em vez de o aproximá-lo do objetivo, só jogava-os mais longe.
Bom dia, leitores!
Estou voltando, mansamente, ao com meu novo romance de HxR!
Me deu imensa vontade de postar as partes prontas, e cá estão!
Espero que gostem. Esta história está muito interessante e tensa, mas por enquanto, não dá para saber o que vai acontecer...
Esperem para ver bastante novidades, tomei minhas liberdades...
Dessa vez, o foco maior será em Heero. Até queria narrar na pessoa dela, mas acho necessário falar sobre os sentimentos de Relena, então não será dessa vez que eu entrarei fundo na psique do rapaz.
Esta história terá uma temática um pouco mais adulta e estou incerta de que aguentarei o tranco.
Conto com vocês!
Quero saber a opinião de todos à respeito do que já está publicado, por favor, não deixem de escrever uma preciosa review para mim.
Yours,
Co-Star.
18.06.2009
REVISADO 23.06.2009 (gente, tava feia a coisa, por que ninguém me disse? Se ainda tiver muitos erros, me avisem, plz.)
