NAS ESQUINAS DA VIDA


ACENDE O CIGARRO, espia pela esquina e se esconde na sobra do muro alto. O sol estava de cozinhar os miolos, é sempre assim na santa Salvador quando as nuvens não aparecem. O sol é amigo, apesar d'as vezes fazer maldades. Ali adiante está uma casa nobre, uma casa onde muita riqueza se acumula pelos cômodos empoeirados. É a casa de um par idoso que perdeu a filha faz pouco tempo. Pedro Bala fita Professor. Os dois sorriem e depois voltam pelo caminho que vieram em direção ao trapiche onde moram. Sem-Pernas ficou lá na casa dos velhos, outra vez conseguiu acolhida fazendo-se passar por pobre carente, dizendo não querer roubar ou mendigar por comida, por isso vinha pedir trabalho. A velhota o recebera e o acolhera, apesar do marido torcer o nariz para o menino coxo.

Pedro Bala e Professor seguiam como se a cidade a eles pertencia, e pertencia mesmo porque eles eram os Capitães da Areia. Foram para a praça central, lá Pedro Bala gostava de se sentar e apreciar a paisagem, enquanto Professor desenhava no chão o retrato das pessoas que passavam. Tinha consigo sempre giz de cores variadas, que furtava de uma lojinha aqui ou acolá. Gostava dessas coisas de desenho, mas gostava mais era de ler, de conhecer tudo quanto é tipo de escrita.

Professor para na esquina larga, senta no chão e se põe a observar os transeuntes, mira uma jovem mulher com seu noivo, mas eles passam rápidos e nem dá tempo de Professor fazer um esboço. Adiante segue um gordão com uma bengala, Professor começa o desenho e o gordão para e senta no banco ao lado deles. As roupas do gordão são finas, elegantes, e ele tira do bolso um belíssimo e provavelmente valioso relógio. Os olhos dos dois garotos se arregalaram para a peça. O homem levanta e vem na direção deles como se não os visse, foi Pedro Bala quem o alertou:

— Cuidado, moço! Não pisa na tua cara, não!

O gordão olha para Pedro Bala, indignado por uma criatura suja como aquela lhe dirigir a palavra, mas vê o desenho.

— Você quem fez? - pergunta o gordão.

— Não, não. Foi meu amigo aqui.

O gordão examina as proporções do desenho, acaricia a sua barriga e depois joga alguns níqueis no chão, em frente a Professor, mas é Pedro Bala quem os recolhe e logo se põe de pé, ao lado do gordão.

— Ô, moço, não dá pra ajudar só mais um pouquinho nós? É que tamos sem comer faz dois dia - e Pedro Bala se encosta no gordão, puxando o tecido da calça dele. O gordão lhe dá um pontapé e sai bufando. Pedro Bala volta a se sentar ao lado de Professor e ri alto, ri a risada típica dos Capitães da Areia. - Boniteza, não? - e estendeu a Professor o relógio que antes pertencera ao gordão boa pinta.

Os dois arrecadaram dinheiro suficiente para um bom jantar e estavam para ir embora quando Professor vê um casal saindo da cafeteria do outro lado da rua. Professor os vê porque vê Pedro Bala atento a algo e desconfiando que fosse um guarda, também examina o local. Mas não era guarda nem polícia, era o casal. Um casal bonito, bem vestido. Na verdade, não era o casal que era bonito, era a moça. A moça sim era bonita. Pedro Bala até assobiou quando ela parou na beirada da calçada e olhou para os lados para ver se podia atravessar. Quando tudo estava livre ela ia atravessar, mas o moço a segurou pelo pulso. Ela tentou se livrar dele, mas o moço era forte e bem mais alto do que ela e a dominou. Os dois se encararam e pouco depois ela voltou o olhar novamente para a rua. Pedro Bala olhou para Professor e este desenhava com vontade, a moça estava quase pronta. Professor não a desenhou acompanhada, desenhou a moça andando com o vestido esvoaçante e os cabelos se soltando por baixo do fino chapéu.

A moça atravessa a rua, livre do acompanhante, pisa na calçada e em passadas largas segue na direção dos garotos e de seu belo desenho na calçada. O moço a alcança, a chama pelo nome, mas Pedro e Professor não conseguem ouvir direito. A moça para e encara o moço, os dois conversam e logo ele estende o braço para ela, que o aceita, então os dois vêm caminhando juntos, mas calados. Quando já próximos, o moço se afasta para passar longe dos garotos, mas a moça vê o desenho e sorri; quer parar, mas é impedida por uma agressão:

— Não dê atenção a esses aí. Não merecem esmero.

— Desenhou-me! - ela exclamou parando, foi inevitável. - Quanta perfeição!

— Não seja tola! Isso não faz jus a você. Vamos, vamos andando.

A moça tirava algo da bolsinha delicada que carregava, mas o moço foi enfático:

— Não se atreva a chegar perto deles! Quem sabe quem serão? E o que serão?

— São crianças - ela exclamou novamente, agora estava irada, como a momentos atrás, do outro lado da rua. Ela tirou algum dinheiro, mas não o jogou no chão como haviam feito os outros que por ali passaram: ela sorriu para Professor e lhe estendeu a mão.

— Está louca? Pare com isso - ele a repreendeu olhando para os lados como se fosse uma vergonha se a vissem fazendo aquilo e lhe deu um tapinha na mão para que largasse o dinheiro antes que o pivete lhe tocasse.

A moça se empertiga e põe as mãos na cintura.

— Deixe-me, Ezequiel - ela falou em baixo tom.

A moça se volta novamente para Professor e finalmente lhe entrega o dinheiro, com um gentil elogio pelo excelente trabalho e lastimando por não poder levar consigo seu retrato.

— Se a madame quiser, posso fazer no papel - disse Professor, que sempre era tão tímido.

— Podes mesmo? Ora, isto seria... - mas ela não terminou a frase, o moço a puxou pelo braço com fúria.

— Você não compreende? Esses pivetes podem qualquer coisa, quiçá seriam até dos Capitães da Areia, aqueles delinqüentes...

— Ezequiel, estes são dois garotos trabalhando por algum trocado que lhes dê de comer!

— Você é muito ingênua - rosnou para ela, dando-lhe as costas, agindo como criança. Enraivecida e rangendo os dentes, ela proferiu para o moço: - Deixa-me, Ezequiel, que de ti somente posso esperar por estes tratos!

Ele se volta, ela o empurra e pede que ele vá para longe, mas antes de ele tomar uma atitude, ela sai caminhando, pisando forte o chão. Foi-se sem fechar o negócio com Professor, foi-se sem que ele pudesse ter sabido seu nome. Foi-se levando consigo o olhar dos que ali estavam e que desejavam um pouco mais de contato com ela. Professor acaricia o desenho no chão, levanta e vai embora ladeado por Pedro Bala.