Como na cena do crime daquela noite, havia uma carta. O corpo estava na cadeira, com a cabeça recostada na escrivaninha com um profundo corte na cabeça. Porém, diferente daquela cena de crime, a vítima era Sara.
Flashback:
Sara relia a carta, o semblante triste, quando o marido chegou. Ela se sobressaltou, surpresa com sua chegada repentina, e escondeu a carta atrás de si.
O movimento não passou despercebido pelo esposo que, desconfiado, exige que ela lhe mostre o que ocultava. Diante da negativa da mulher, ele lhe desfere uma bofetada e pega a folha à força. Depois de ler o conteúdo, irado, pega um cano que havia por perto e vai em direção de Sara. Ela tenta desesperada, abrir a porta. Trancada. A chave estava na escrivaninha ao lado, mas quando vai pegá-la, é tarde demais, o marido está em cima dela...
Fim do Flashback
Os lençóis estavam suados quando Sara acordou. Ela havia se levantado em um pulo, assustada, com as mãos tremendo, chamando por socorro.
Depois de gritar muito, de olhos ainda fechados, ela percebe que tudo não passou de um pesadelo, um terrível pesadelo.
- Pesadelo – ela murmurou, dando uma risadinha nervosa e caindo de volta na cama.
Sonhos desse tipo estavam virando uma constante em sua vida.
Se dirige para a cozinha, toma um calmante e como ainda está muito agitada para dormir, senta no sofá e liga a televisão. Não ajuda nada, que a primeira cena que aparece na tela, é a de uma mulher em uma poça de sangue. Então, desliga a televisão e resolve terminar de ler O Mistério dos Sete relógios da Agatha Christie. Quando pega o livro, lembra o que Greg disse alguns dias antes quando foi visitá-la:
- OMG, Sar. Nem em casa você esquece o trabalho! Está, definitivamente, precisando de uma folga.
Mesmo estando em casa, seu pensamento estava (integralmente) no trabalho. Realmente estava precisando de uma folga, mesmo que fosse ridículo admitir isso para si mesma, workaholic do jeito que é.
Sara vai até o banheiro e lava o rosto – já estava mais que acordada, mais um de seus hábitos, nunca conseguia dormir muito, estava dependente do trabalho.
Dependência. Como detestava essa palavra na faculdade!
Naquela época, o que visava era a liberdade, uma vida na qual ela fosse a comandante. Mas, nessa reflexão da manhã, percebia que não passava de mais um marujo...
- Agora chega! - disse ela para si mesma, tentando afastar o pensamento.
Mas não era questão "querer pensar". A imagem refletida no espelho não mentia: as medonhas olheiras, o cabelo embolado, a pele maltratada pelo ar impuro da cidade...
Algo dentro dela implorava por descanso, por um pouco de cuidado, por atenção.
E mesmo que não quisesse reconhecer, ela sabia que parte era essa, a parte afetiva. Justamente a parte que ela optou por abandonar e preencher com trabalho. Entretanto, ultimamente 'trabalho' era uma palavra que servia para simplificar a frase ' vou ver o Griss' e ela tinha consciência que isso não era bom. Tirava sua atenção dos casos. Precisava de ar puro antes que cometesse um erro grave.
Diante disso, tomou a decisão que há muito vinha adiando: tiras suas férias, até então, adiadas.
Com a cabeça cheia de dúvidas e apenas uma certeza: férias. Adormeceu. Ali, no sofá mesmo. Acordou faltando uma hora para estar no lab., uma hora a distanciava de suas merecidas férias.
Com milhões de questionamentos martelando na cabeça e a convicção da necessidade de férias, ela largou-se no sofá, e adormeceu.
Pela segunda vez no dia, ela se assustou. Não por causa de outro pesadelo – o que ela agradeceu – mas por faltar meia hora para estar no lab. Agora, meia hora a distanciava de Grissom e de seu descanso.
Vestiu-se o mais rápido que pode, pegou uma maçã, e foi para o carro. No trajeto, pegou-se imaginando a cena. Ela, Sara Sidle, pedindo férias para o chefe.
Viu a sobrancelha de Grissom se arqueando, perscrutando-a, por um momento para, enfim, perguntar o porquê das inesperadas férias. Ela franziu o cenho, não havia pensando numa desculpa. Tentou criar algumas, porém tudo em que pensava, parecia clichê e falso, como ultima solução, resolveu falar a verdade.
Chegando ao lab., foi direto para a sala de Grissom, - sabendo, como todo mundo, que ele estaria enfurnado nela - não se deu ao mínimo trabalho de parar na sala de descanso para falar com os amigos.
Parou na porta da sala de Grissom, suspirou, tomando coragem para bater e entrar. Bateu, lá dentro uma voz foi ouvida:
- Entre. - disse Grissom.
- Grissom, eu preciso falar com você. - Grissom fez um gesto com a mão incentivando-a a continuar - Preciso saber quanto tempo tenho de férias para tirar e se é possível eu tirá-las hoje.
- Ok. - respondeu Grissom arqueando a sobrancelha - Posso ao menos saber o porquê de querer férias tão urgentemente?
Sara deu um leve sorriso. Exatamente como ela idealizara. Tomou fôlego e disparou:
- Sinceramente, eu estou a ponto de explodir. Ultimamente só penso em trabalho, até sonho com ele. Assisto filmes e leio livros ligados a crimes. Não tenho tempo para cuidar de mim, da minha vida... Se é que eu tenho uma. - despejou Sara de uma vez, o que fez Grissom arregalar os olhos.
Grissom ficou uns milésimos de segundo sem reação pela sinceridade de Sara. No fim, disse:
- Tudo bem, Sara. Já que é assim, vou ver o que posso fazer. - disse se levantando e saindo da sala deixando Sara sozinha lá.
- Como é possível entender esse homem? - disse Sara para si mesma.
Levantou-se e foi para a sala de descanso, o resto da equipe já estava lá. Aproveitou para explicar que tiraria férias e os motivos, - obviamente, dessa vez, ela resumiu a história e falou simplesmente o necessário - e para sua surpresa, todos entenderam perfeitamente bem e Greg, como não podia ser diferente soltou:
- Aleluia, Sarinha. Eu pensei que ia ter que te amarrar em casa.
Todos riram do comentário sem graça de Greg.
