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CAPÍTULO I - A CRISE
Trânsito e chuva.
Uma combinação perigosa. Principalmente hoje, que estou ansiosa para ver meu marido. Quero sentir que está tudo bem; quero conferir seu jeito de me olhar, de me tratar e falar comigo: sonhei que o puto me traía. E pior, a vadia era a minha melhor amiga. O mesmo sonho pela terceira vez em duas semanas. Acordei corroída de ciúmes, raiva, vontade de matá-los e por aí vai... Passei o meu expediente inteiro remoendo o maldito sonho; o dia todo sentindo uma imensa sensação de perda.
O que acontece? Eu não gosto dele e sinto ciúmes? Ou eu gosto dele e só estou numa crise pré-TPM? Isso acontecia com freqüência. Ou ainda, era só a minha menstruação chegar e eu não queria nem saber de papo com ele. Era como se meu corpo inteiro rejeitasse qualquer tipo de contato. O problema é que estou assim há um bom tempo. Não vivo na TPM e isso me deixa inquieta.
Sasuke também anda diferente. Não anda serelepe – até porque, nunca o foi. Cada vez mais monossilábico e socado, enfiado, trancado em seu mundinho sórdido. Será que ele tem outra? Será que ele também vive em pití existencial, assim como eu? Seja lá o que for, precisamos conversar; colocar os pingos nos ís. Estamos distantes um do outro e não é de hoje. Não quero parecer desequilibrada ou qualquer coisa do tipo, é que...
O que esse imbecil quer buzinando?
— QUE É, PORRA? PASSA POR CIMA! — coloquei a cabeça para fora do carro, sendo bombardeada por gotinhas de chuva.
O imbecil me mostrou o dedo. Devolvi.
— APROVEITA E ENFIA NO CU!
Fechei o vidro. Contornei a poça d'água e acelerei o máximo que pude – quase batendo nas traseiras alheias. Sabe-se lá quem era... Ele pode ser um estuprador, um assaltante, um seqüestrador...
Já deitada, perfeitamente acomodada sob os dois edredons– eu sinto muito frio – de vaquinha – é apenas uma homenagem, minha madrasta era uma –, ouvi um barulho de chaves na porta da sala; ele havia chegado. Larguei o livro embaixo da cama, puxei os edredons, me enrolei toda e virei para o lado oposto à porta. Apertei os olhos. Concentração total. Já fingi tantos orgasmos... Fingir que estou dormindo é moleza!
Ele sequer se direcionou para a cama. Foi logo para o banheiro. Provavelmente aproveitaria a situação para resolver as pendências do trabalho – com a playboy da Rita Cadillac –; ele tira a tampa da caneta e bota a tampa na caneta; tira a tampa da caneta e bota a tampa na caneta... se é que me entende.
Melhor não aprofundar esses pensamentos. Não quero ficar irritada. Quero apenas dormir.
O relógio do criado-mundo tiquetaqueava e meus olhos começavam a lacrimejar, depois de tanto tempo fechados. O barulho do chuveiro cessou e Sasuke logo saiu do banheiro; estava nu e pingando água.
— PUTA QUE TE PARIU, SASUKE! SE SECA ANTES DE SAIR DO BANHEIRO!
Ele sorriu.
Aliás, impresso em seu rosto, foi apenas o tradicional sorriso pela metade – como quem diz 'perdeu preibói'.
Bufando e engolindo com dificuldade, todos os palavrões, deitei outra vez e me afundei nos edredons. Emputeci; por dois motivos; um: fui descoberta; dois: agora o quarto tá todo molhado e eu sei que ele não vai secar. Respirei fundo. Cerrei os olhos. Comecei a contar carneirinhos.
Não tenho palavras para descrever o quanto me sinto aliviada e, ao mesmo tempo, enfadada, por chegar em casa – especialmente depois de enfrentar trânsito, chuva e uma fuga imaginária. Melhor tomar um banho, comer qualquer coisa e dormir. Sinceramente, não quero vê-lo hoje; muita coisa entalou na minha garganta, enquanto meu carro se entalava no trânsito – naquela água nojenta – e não quero fazer uma sessão descarrego depois de um dia tão exaustivo.
Os carneirinhos não resolviam o meu sono, muito menos a minha vontade de fazer xixi. Quietinha, remoendo toda a irritação, eu levantei e caminhei de pés descalços até o banheiro – é claro, desviando das poças d'água que o meu querido marido deixou pela casa. Respirei fundo e abri a porta do banheiro. A cuequinha vermelha dele, pendurada no registro do chuveiro, gritava pela minha atenção; "ME OLHE! ME OLHE!".
Eu não discutiria por causa daquela cueca, não pela quarta vez na semana.
Levantei a tampa do vaso sanitário e me deparei com uma surpresa! Um braço, um morto, um tolhetão me olhava displicente; não se importaria se eu apertasse descarga naquele mesmo momento. Naquele mesmo momento, ainda que eu olhasse de relance para ele, eu conseguia imaginar o tamanho daquele vergonhoso, infeliz, obscuro... orifício. Coisa mais desagradável...
Abaixei com agressividade, a tampa do vaso, como se estivesse esfregando a cara daquele viadinho, em toda aquela – literalmente – merda. Duplamente emputecida – aliás, triplamente: primeiro, a água, depois a cueca, e ainda o cocô! –, arranquei a cueca úmida do lugar, abri a porta com violência e segui para o quarto, pisando com força – para ele ouvir. Escancarei a porta do quarto e VUM! Quando botei um dos pés para dentro do quarto, escorreguei na água que meu amado marido deixou escorrer quando saiu do banheiro. Caí de quatro, com uma das mãos na maçaneta e a outra no chão, enfiada na cueca.
Ergui-me lentamente, respirando fundo e contando até não sei quanto. Senti meu rosto em chamas; eu tremia. Parecia que de cada poro da minha pele, saíam faíscas e mais faíscas. O infeliz estava sentado – enrolado nas minhas vaquinhas – e, segurava-se inutilmente, para não rir do meu belíssimo tombo. Com toda força do meu braço, joguei-lhe a cueca ainda molhada nas fuças. Ele parou de rir instantaneamente.
— VOCÊ FICOU DOIDA, SAKURA? — berrou ele, tirando a cueca do rosto.
— O ÚNICO DOIDO AQUI, É VOCÊ, SASUKE! COMO VOCÊ CAGA E NÃO DÁ DESCARGA? VOCÊ TOMA BANHO E DEIXA A PORRA DA SUA CUECA PENDURADA NO REGISTRO DO CHUVEIRO! MOLHA A CASA INTEIRA E AINDA PERGUNTA SE EU TÔ DOIDA?
Ele pensou um pouco; os olhos fitavam a parede.
— É.
E eu, esperando que ele me dissesse algo relevante; um pedido de desculpas, ou até mesmo que admitisse que estivesse errado...
De repente, ele se levantou e caminhou na minha direção. Pegou-me pelas pernas e jogou o meu tronco sobre os ombros. Fui jogada na cama.
— Dorme e vê se a sua loucura passa. – dito isso, enrolou-me.
Puxou um dos edredons, pegou seu travesseiro e se retirou do quarto; deixava o edredom arrastar no chão – secando, talvez, sem querer, a água que deixara escorrer.
— Aonde você vai?
— Vou dormir num lugar onde cuecas não voem.
Tá. Vai lá, bonitão.
Passaram-se quinze ou vinte minutos. Silêncio – exceto pelo tique-taque do relógio que estava sobre o criado-mudo. Ele não ligou a televisão. Não ouvi nenhum ronco. Ele perdeu o sono. Pensei em levantar, deitar com ele no sofá, pedir desculpas e logo em seguida ouvi-lo dizer um 'Tudo bem. ', acompanhado de um agradável cafuné. Mas eu não faria isso. Não dessa vez; eu não engoliria meu orgulho. Foi ele quem errou. É ele quem tem que voltar para a cama, deitar-se ao meu lado e me pedir desculpas. E pior: ele não me deu nem um beijo de boa-noite!
Rolei pela cama, de uma ponta a outra. Chovia outra vez e eu odeio trovões. Deitei a cabeça sobre o colchão e afundei o travesseiro na minha cabeça; eu ouviria os trovões, de certa forma, mais distantes. E se eu gritasse, Sasuke talvez não ouvisse. O tempo passava e, apesar das circunstâncias, o sono chegava – finalmente. Dormi encolhida, com o travesseiro sobre a cabeça e... sozinha.
Acordei com a idéia fixa de não estimular a guerra dentro de casa. Vesti qualquer roupa, não tomei café. Peguei as chaves do carro e saí. Sasuke ainda dormia – uma enorme poça de saliva na almofada. Saí. Fechei a porta – fazendo o mínimo de ruído para não acordá-lo. Frente a frente com a porta já fechada, senti vontade de voltar. Mas eu não voltaria.
Ou voltaria?
Abri a porta – outra vez, fazendo o mínimo de ruído possível. Ele estava lá. Dormia e ainda babava copiosamente sobre a mancha de saliva da almofada. Aproximei-me do sofá; flexionei ambas as pernas e abaixei-me, na altura do rosto de Sasuke. Barbeara-se na noite anterior; ainda sentia o cheiro da loção pós-barba. No maxilar, dois ou três fios esquecidos pelo barbeador. Sua respiração se fazia pesada; dormia como um porco selvagem sedado. Não acordaria tão cedo. Limitei-me a apenas cobri-lo – metade do edredom no tapete; a outra metade envolvia suas pernas.
Saí outra vez.
Não existia a menor possibilidade de eu tirar o carro da garagem sem fazer barulho. Se ele acordasse, foda-se. O que é um peido pra quem já tá cagado? Pensasse o que quisesse. Ele não sabe o quanto eu me cansei de agir, imaginando o que ele pensaria. Talvez ele nem se importe dessa vez – eu, no lugar dele, não queria ver por um bom tempo, a cara de alguém que me jogou uma cueca nas fuças.
O dia estava nublado; a garoa ameaçava cair. A temperatura permanecia amena. Apesar de agradável, o tempo me parecia conspirar. Os bons presságios me abandonaram há pelo menos três meses e, com esse tempo – sobretudo nessas circunstâncias que meu casamento está – é que eles demoram mesmo a voltar.
Dirigi sem rumo. E, no fim das contas, acabei no centro da cidade.
Pensei em visitar alguma amiga. Mas pela primeira vez, eu me senti envergonhada em contar um problema – tão íntimo – para uma amiga. Sabe como é, amigas aconselham, são carinhosas, nunca olham – ou fingem que nunca olham para o seu bofe –; mas no fundo, no fundo, elas são todas cascavéis, najas, sádicas e que riem discretamente das crises alheias.
Sinal vermelho. Eu não queria voltar para casa – não ainda.
Enquanto aguardava o sinal abrir, vi do lado direito da rua, um casarão. A pintura começava a se desgastar. Fiz o retorno e estacionei numa rua próxima aquele prédio.
Até que para um asilo, o ambiente não fedia. Por dentro, não caía aos pedaços. Era bem ventilado e estava limpo. Enfermeiros e enfermeiras circulavam. O primeiro asilo decente dessa cidade. Alguns dos moradores jogavam xadrez, damas ou qualquer outro jogo de tabuleiro; num canto da sala, três senhoras tricotavam e uma outra apenas observava absorta. Sentei-me a seu lado.
— Bom dia. — cumprimentei.
Ela, até então cabisbaixa, mediu-me por inteiro. As rugas em seu rosto faziam-se bonitas ao moverem-se para exibirem um sorriso de dentes inteiros.
— Bom dia. Veio visitar algum parente? — perguntou-me. Nunca que eu enfiaria um parente meu num asilo, dona.
— Na verdade, não. Vim conhecê-los.
Conversamos a respeito de futilidades; logo, as outras três senhoras do tricô estavam inclusas na conversa. Falávamos sobre as atrizes que estavam cada vez mais artificiais; falávamos sobre os filmes lançados no ano, sobre novelas, sobre as roupas atuais – que, para elas, não são tão glamorosas e requintadas como as de outrora. Falamos sobretudo, sobre os atores; os brasileiros e os europeus eram os mais cotados: para elas – a meu ver, também – os norte-americanos têm cara de... enfim, cu. Em momento algum, aquelas mulheres me demonstraram tristeza ou qualquer coisa do gênero; sempre falantes e risonhas.
Uma delas me disse que jamais deixaria o tédio invadir sua vida; era antiga na matéria, contudo, em espírito conservou-se jovem e não queria que o tédio daquele lugar apagasse essa dádiva. Todas elas contaminadas por aquele pensamento – que me senti tentada a deixar-me contaminar também. Afinal, era o tédio – a rotina – quem insistia em se enfiar no meu casamento.
Por um instante me perguntei quais seriam as circunstâncias que as levaram até ali. Era a minha primeira visita, então não perguntaria. Eu voltaria mais vezes – indubitavelmente.
A custo encerramos nossa conversa. Eu queria conhecer os outros hóspedes.
Caminhei na direção de uma porta-janela. Do outro lado, havia uma espécie de pátio.
Sentei-me num banco, no centro do pátio.
Vários outros senhores espalhados ali; alguns em cadeira de rodas. Pela milésima vez no dia, outra sensação estranha. Uma súbita vontade de chorar. Então era aquilo mesmo? Eu viveria com Sasuke naquela crise até ficarmos velhinhos e sermos jogados num asilo por nossos filhos? Ou ainda, nosso casamento seria empurrado com a barriga em virtude de a crise não ter saída? Ainda tenho tempo de mudar isso. Separação.
Mas só de pensar em separação o meu couro cabeludo coça, meus cabelos querem cair e eu perco a fome. Pensou que eu sentiria vontade de comer chocolate até virar uma vaca gorda, não é? Errou. Eu não me enquadro no estereótipo de mulher fútil que se enche de doces quando tá com algum distúrbio hormonal ou crise no relacionamento.
A vontade de chorar aumentava e eu começava a beliscar Deus em pensamento. Fechei os olhos e respirei fundo. As lágrimas voltavam, uma a uma. O fervor que subira a meu rosto passava e Deus se livrava de meus beliscões. Senti que alguém se sentava a meu lado.
— Prender o choro faz mal, moça.
Olhei para o lado e um simpático velhinho – de barba, sobrancelha e cabelos muito brancos – me observava. Espantei-me. Será que eu dou tanta bandeira assim?
— Eu só estava pensando um pouco... — esbocei um grande sorriso amarelo. — A inflação subiu e os sapatos estão muito caros. Olha como os meus estão gastos... Eu não tenho dinheiro pra comprar outro par. — Claro, ele não engoliu.
Nossa longa conversa teve início aí.
Falamos sobre sua vida – sei até seu nome completo; Hiruzen Sarutobi. Inclusive, sobre a minha. Fiz aquela ladainha... Contei que meu casamento estava submerso na rotina e que eu já não sabia o que fazer; falei também a respeito do meu pití existencial e da nossa discussão da noite anterior; não aguentei e desabei; tentei o auto-controle e parei de chorar o mais rápido que pude. Afinal de contas, eu não deveria contaminá-los com a minha felicidade suicida: afinal, eu estava ali para leva-los um pouco de esperança ou qualquer coisa do gênero – e não acrescentar-lhes mais amargura.
Consegui sorrir.
Ele me sorriu de volta.
Os dentes, – todos incrivelmente bem alinhados – levemente amarelados e o olhar dócil, transmitiram-me uma paz quase que paternal. Eu deveria me sentir envergonhada de transparecer tanta fraqueza exatamente ali, naquele asilo; mas a única coisa que eu sentia, era alívio.
Uiu :D que bom que você gostou. espero que este capítulo também te agrade.
Strikis espero que goste :D
Tomoe-chan HAHAHA, tem que acompanhar mesmo, hein Mih ):
SYYYYYYYYYYYYYLVIO :DDDDDDDD vc é suspeito pra falar dessa fic ;x
- -0 Iummy-chan 0- espero que você goste e que realmente acompanhe. hehe :D e não, eu não sou paraense, sou de Sampa.
- Ary-chan espero que goste :]
- Kynn-chan
Obrigada e espero que goste :D
~ OBRIGADA PELAS REVIEEEEEEEEEEWS ! *-*
N/A: RETOQUE NO FIM DO CAPÍTULO :)
O8 - O8 - 2O11
