Quatro horas e quarenta e cinco minutos, esse o tempo exato para a tão esperada liberdade. Era assim que Sarah estava se sentindo, livre, livre de todas as preocupações, pelo menos por agora.

Bahamas! Há quanto tempo ela não voltava ali, a última vez ainda nem pensava em estudar medicina, mas foi graças àquela viagem que ela tomou a decisão tão importante. Seu pai médico muito solicitado nas ilhas a fez ter orgulho e decidir-se por seguir seus passos, isso não deixou sua mãe muito contente, mas acabou por aceitar.

E novamente ali estava ela, agora como médica.

Desembarcou e logo o reencontrou, a recebeu com um forte abraço, apesar de amá-lo foi um momento que para ela era íntimo demais, chegando a ser constrangedor, demonstrações de afeto não eram de sua natureza, principalmente em público. Pega desprevenida ficou sem ação.

Após o momento o qual ela agradeceu mentalmente por não se alongar seguiram direto para o chalé que ele chamava de casa, constituído de uma cozinha americana, um dormitório, um banheiro e uma varanda com mesa para o chá e uma rede. Seu pai realmente continuava o mesmo, o chalé ainda era o mesmo, os móveis também não mudaram e novamente ela teria que se ocupar da cama dele, enquanto ele ficava com o sofá-cama.

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Há dois dias ele havia finalmente se despedido de seu mentor. Sentia-se em paz. Toda a sensação de incapacidade, todas as incertezas haviam sumido e agora ele podia se dar ao luxo de saborear uma boa marguerita ao som do excelente jazzque estava sendo apresentado ao vivo.

Eram quase vinte e duas horas e ele ainda não tinha intenção de voltar ao hotel. Havia flertado com algumas moças, mas em momento algum sentiu vontade de conhecê-las mais intimamente. O breve, porém, tórrido romance com Sam o fez precaver-se mais com relação a mulheres e relacionamentos. Não, ele não a amou, mas era um relacionamento estável e ele estava decidido a fazer com que durasse. Mas, diferente dele, ela não queria o mesmo e assim que teve a oportunidade saiu fora. E quem poderia a julgar, era a carreira dela, ele nunca deixou claro suas intenções, nesse quesito ele é péssimo, nunca soube lidar com as garotas e muito menos com seus sentimentos, fosse ele o mais ínfero. Por isso ele aceitou e deu o maior apoio quando ela disse ter aceito a proposta de ser a cirurgiã-chefe no Johns Hopkins em Baltimore.

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Sarah não sentia a menor vontade de sair àquela noite, seu pai, porém não lhe deu tempo de recusa e antes que ela pudesse pensar eles já estavam a caminho do que ele considerava o melhor bar com o melhor som de jazz. No caminho ela se perguntava por que jazz? Estavam no Caribe com sua cultura própria. Preferiu não perguntar em voz alta, ele provavelmente lhe faria uma lista e levaria a noite toda para terminar, e já que ela estava ali para se divertir, ela iria se divertir.

Logo percebeu que seu pai era mais que um cliente naquele estabelecimento, todos o cumprimentavam e brincavam como que com um irmão e ele não perdia a chance de apresentá-la, para alguns reapresentar, e vangloriar-se por ter seguido seus passos.

Após todos os abraços e beijos ela só queria sentar e fingir ser uma turista qualquer, aproveitar o fato de não ter nenhum conhecido de Chicago por perto, seria ótimo, ela poderia ser quem ela quisesse, poderia fingir ser alguém mais descontraída, inventar uma história sobre quem ela era, poderia ser uma artista se quisesse, todos amam os artistas, ninguém nunca iria saber se era atuação ou ela mesma.

Infelizmente seus planos foram por água abaixo quando ela o viu, sentado a umas seis mesas da sua, de cabeça baixa, ele estava ali, com sua elegância de sempre, bronzeado, a barba por fazer o deixando ainda mais másculo, e muito mais intimidante, Dr. Rhodes. Com exceção do dia que ele pagou o lanche para os colegas, eles nunca trocaram mais palavras que as relacionadas aos pacientes. Porém, só o fato de estarem ali na mesma ilha e o perigo de acabarem se encontrando mais do que o que ela queria já acabava com todos os seus planos. Não que ela o detestasse ou coisa do tipo para querer não encontrar-se com ele, mas ela pretendia, se possível, nunca deixar que ele soubesse que ela estava ali, ele simplesmente a deixava intimidada, não só por ele ter sido quase um professor pra ela, mas por sua beleza e autoconfiança, por ser sempre tão mandão, nas vezes que teve que trabalhar com ele acabava quase sempre errando algo ou não conseguindo fazer, ele nunca a repreendeu na frente dos outros e até lhe auxiliou em alguns momentos, e ela acabava se sentindo ainda mais deslocada.

Levantou com o pensamento de ir-se dali imediatamente, torcendo para que ele ainda não a tenha visto, e nessa tentativa inútil de se fazer aperceber, ela acabou por chamar ainda mais a atenção quando acabou derrubando a cadeira.

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Connor ouviu o soar de madeira batendo contra madeira e instintivamente levantou a cabeça. Ao fazê-lo reconheceu imediatamente a responsável por tal desastre. Reese, a interna de longos cabelos cacheados e volumosos, a garota audaciosa, que chegou a ser arrogante com ele em uma das vezes que ele tentou ajudá-la. Ela diversas vezes mostrou que não desiste fácil, e quando Samantha a tratou como uma aluna do colegial, ela se esforçou ainda mais, o que o fez admirá-la. Ele sabia que ela ainda seria uma grande médica.

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Mais uma vez Connor a fez sentir-se constrangida ao olhá-la tão profundamente, e tudo o que ela queria era sair dali e... Espera aí, ela poderia sair, ali ele não era nada mais que um cara qualquer. Então ela fingiu que não o reconheceu e o deu as costas saindo calmamente, ou pelo menos tentando aparentar calma.

Já do lado de fora ela parou e respirou fundo, para logo em seguida perceber o quão infantil foi sua atitude, é claro que ele iria perceber que ela o viu e claro que ele iria perceber que ela estava fugindo, ele é um homem e não um garoto.

Seus pensamentos foram interrompidos por aquela voz grave e que ela conhecia tanto, chegando a assustar-se.

- Reese!