[Apocalipse]

2- Adão e Eva

"Aquele menino...
De cabelos negros como as trevas...
Porém lisos como o tecido dos céus...
De olhos claros como a luz...
Porém tão espertos como os demônios...
De pele suave como uma pena...
Porém de corpo forte como uma ferida...
Olhou gentilmente para mim,
Estendeu sua mão em minha direção,
E ofereceu conforto
."

Parecia que não havia mais tempo naquela rua da cidade. A menina o fez parar de tão maravilhada que ficou ao vê-lo. Já ele, não parecia estar tão surpreso assim, mas estava feliz em vê-la.
-Me desculpe, posso me sentar ao seu lado? –perguntou ele sem hesitar.
-Cla...claro! – aceitou ela, meio envergonhada, se ajeitando ao lado dele.
-Esta sozinha, não? – sorriu
-Sim...
-Quer me fazer companhia? Também estou...- riu ele - Não me apresentei...Sou Arien.
-Arien...- repetiu ela baixinho, ainda maravilhada.
-E o seu?
-Sou Ir...Carmelin.
- Que lindo, combina com você sabia?
Os olhos da menina se excitaram e encheram de lágrimas. Fazia tempo que a menina havia sequer visto um ser masculino. Depois que todas as guerras humanas passaram, só restaram os pecados mundanos, que eram mulheres. Seres femininos.
A menina mais que nada, queria tocar no rosto dele, voltar a lembrança de um mundo onde havia Adão e Eva compartilhando a mesma alegria.
- De...Desculpe-me Arien. Estou meio atordoada. – abaixou a cabeça chorando.
-Ah sim!Deve ter viajado de muito longe pra cá. Ainda mais nesse mundo vazio que restou.
-Não...- ela agüentava todo o peso da caminhada, pecados não são frágeis a simples coisas humanas –...Eu estou ainda tentando acordar de um sonho.
- Um sonho?
-Sim...Fazia tempo que eu não via um garoto ou homem.
-Sério? – se surpreendeu o garoto. – Eu também estou surpreso...Pensava que os humanos eram uma raça extinta. – Com muita alegria ele agarrou-a e abraçou-a calorosamente,
Ela quis aceitar, chegou a compartilhas a mesma alegria. Mas rejeitou logo após, se desaproximando com um sorriso morto.
-O que foi? Não lhe agradou o abraço?
- Agradou mais do que mil coisas vividas...Mas receio que não sou humana. Desculpe-me. – Ela correu o risco...Nenhum humano acreditaria nisso que ela falara.
- Não? – reagiu ele assustado.
- Sou um pecado. Meu verdadeiro ser é Ira.
- Entendo, então todos eles morreram mesmo. Ira...Pecados conseguem serem tão belos como você? É por isso que te chamam de pecado?
- O que? Ficou com medo agora? – aumentando o tom de voz – Me desculpe se não sou um ser confiáve-Naquele momento ela bateu com sua mão em um hidrante. – Ai...
O menino foi até ela e segurou sua mão que estava sangrando. Mas não era um sangue vermelho...Era um sangue parecido com água. Era assim que os demônios sangravam. O menino apertava a mão da menina, querendo que aquilo parasse e tentava transmitir calma a ela.
Como em um instante, os dois estavam muito próximos. Seus rostos quase que compartilhavam o mesmo espaço. Ela não estava irritada e olhava com ternura para ele. Por aquele momento, ela fechou os olhos e esperou o beijo. Mas ele censurou-a. Ainda com os lábios perto do dela, ainda segurando sua mão. Ele negou.
-Não...Você não entendeu. Eu também não sou humano. – desaproximando dela.
-Não é humano? – ela podia ter perdido as esperanças, mas ficou ainda mais feliz e retornou - Um anjo! – falou enchendo sua alma de esperanças.
-Desculpe desapontá-la, não poderá se apoderar do meu sangue*. Não sou um anjo. – disse ele sério agora, enquanto destruía as esperanças dela. Que começava a ficar assustada.
-Não é humano? Não é um anjo? Impossível! Não pode ser um demônio, eu e todas minhas seis irmãs vivemos juntas... É uma aparição? Uma alma perdida? É Ele?
- Acalme-se – tentava ele acalmar ela, trazendo a voz suave de volta. – Sou o que os anjos chamam de Sacrifício e o que vocês demônios chamam de Suicídio. Não sou digno de pisar no Reino dos Céus, mas também não posso ficar no Inferno. Minha missão é ficar (na Terra) e cuidar de anjos e demônios. Sou o único que posso fazer isso.
Ela ainda estava abalada pelas palavras dele.
-Olhe para sua mão machucada.
Ela olhou e se assustou, não havia mais ferida alguma ali.
-Como...?
-Como eu disse, posso curar vocês. Mas isso me custa um ano de vida.
- E quantos anos ainda lhe restam?
-Ah! Muitos, não se preocupe – ele sorriu cativantemente.
-Quantos anos têm?
- Um – falou um pouco se achando.
- COMO É QUE É? – Assustada.
- Ah...Eu já curei muita "gente" nessa vida. Queria o que?
- Mas você disse que ainda lhe restavam muitos anos de vida. Por acaso você tem um ano de vida lhe restando?
-Não, é meio complicado de se explicar. É assim. No começo você vai diminuindo seu tempo de vida. Por exemplo, uma pessoa é destinada a morrer com 80 anos de vida e ela tem 20, logo vai diminuindo até chegar aos vinte anos. Mas quando se acabam esses 40 anos de vida, em vez de eu morrer, eu começo a gastar o tanto de ano que eu tenho. De 20 eu passo a ter 19 e assim regressivamente.
-Então quer dizer que você só pode curar mais uma vez?
-Mais ou menos. Eu não "morro" se eu curar mais de uma vez agora. É assim, eu curo daí eu morro. Vou aleatoriamente para o céu ou para o inferno. Dependendo da vontade do chefe do lugar eu volto. Mas daí eu começo a contar minha vida do negativo. Tipo: -1, -2 e assim vai.
Era como ele fosse eterno.
-Meio irônico pelo nome que levo não? Pra sacrifício até que vai, mas pra suicídio? Eu continuo vivo – riu.
-Não, faz todo sentido. – pensando seriamente – Ao mesmo tempo em que você é a pessoa que todos dizem ser, você continua sendo outra pessoa. – abaixando a cabeça – e é isso que eu estou procurando. Quero ser uma pessoa diferente.
- Como assim.
- Eu não quero ser mais um demônio. Eu sei que posso conseguir um lugar no céu.

[Fim]

Notas:
* Demônios muitas vezes matam anjos para se apoderar do sangue dos mesmos para ficarem cada vez mais forte. Inventado para história.
** Quero pedir mil desculpas pela explicação de como ele perde a vida curando os outros. De qualquer forma, foi a melhor maneira de explica, o outro jeito seria desenhando.