DOCE DEZEMBRO
Capítulo 2
Quarta-feira, 7:00 da manhã. Ikki já saía de seu apartamento com a maçã em sua mão. Ia descendo as escadas que o levariam ao estacionamento do prédio e conferindo o horário no relógio. "É, acho que vai dar tempo", pensava ele.
Como sempre, Shun havia conseguido convencer Ikki a fazer o que lhe pedia, mesmo a contragosto do irmão mais velho. Porém, apesar de parecer que Ikki se aborrecia imensamente com isso, ele, no fundo, gostava de realizar os desejos de seu irmão caçula. Era uma forma silenciosa de agradecer por tudo o que Shun já tinha feito por ele. Ikki reconhecia que não era a pessoa que mais sabia cultivar amizades – na verdade, estava longe disso! – e, se não fosse pelo irmão, viveria completamente isolado do resto do mundo. Ikki se considerava bastante auto-suficiente, mas até ele às vezes sentia que precisava ter um pouco de contato humano. Se bem que ele preferia nunca pensar a respeito desse assunto (ou quase nunca).
7:15. Lá estava ele diante da casa cujo endereço Shun havia lhe passado na noite anterior. Ikki olhou no seu relógio. Estaria muito cedo para fazer essa visita? Bom, de todo jeito, não podia mais perder tempo com essas besteiras... já estava fazendo o favor de vir falar com ele; se não fosse recebido agora, diria a Shun que esse escritor simplesmente se recusara a participar do tal projeto de Natal e que era melhor procurar outro colaborador para escrever as canções natalinas. E, pensando dessa maneira, tocou a campainha.
Não precisou esperar muito tempo. Segundos após tocar a campainha, ouviu passos dentro da casa vindo em direção à porta. Em seguida, o barulho de alguém pegando as chaves e depois o barulho destas girando na porta. A pessoa que a estava abrindo não demonstrava qualquer pressa em executar essa tarefa, o que deixou Ikki um pouco irritado, pois contava cada segundo que estava perdendo com aquela visita.
Ikki, que já batia o pé no chão com alguma impaciência e olhava para o relógio com insistência, cessou por completo todo o movimento que estava fazendo quando a porta finalmente se abriu e ele pôde ver o morador da casa, que agora estava diante dele.
Nesse momento, Ikki ficou um pouco confuso e algo raro aconteceu: ele perdeu, mesmo que momentaneamente, a noção do tempo. Não havia pensado muito a respeito, mas inconscientemente imaginava que iria deparar com um velho e bonachão escritor. Contudo, em frente a ele estava uma figura bem diferente da imagem de bom velhinho que ele esperava. Era um rapaz jovem, de cabelos loiros que caíam displicentemente por seus ombros. Vestia um moleton e parecia que se preparava para fazer uma caminhada matinal. Mas o que chamou mesmo a atenção do irmão de Shun eram os olhos de um azul celestial tão intensos e envolventes que fizeram com que Ikki se perdesse, por um instante, ao olhar para eles.
- Pois não? – disse o rapaz.
- Ahn...? Ah! – Ikki voltava à realidade. – Você é... Hyoga? Hyoga Yukida?
- Sim, sou eu. – respondeu o rapaz com uma frieza que causou certo estranhamento em Ikki. – E quem deseja saber?
- Ah, sim... Ikki Amamiya. – e estendeu a mão para Hyoga, que apenas observou o gesto com o canto dos olhos.
- Você é repórter? Está querendo uma entrevista? – perguntou Hyoga, rispidamente, sem aceitar o cumprimento oferecido por Ikki.
- Eu? Não! – Ikki recolhia a mão, algo surpreso com a atitude desse jovem. – Vim aqui pedir um favor em nome de meu irmão...
- E eu conheço seu irmão?
- Não, mas...
- Então, não sei por que me faz perder meu tempo. – e, dizendo isso, fechou a porta na cara de Ikki.
Ikki ainda ficou parado alguns instantes em frente à porta, como se estivesse processando o que acabava de acontecer. Era claro que esse tal Hyoga não queria conversa... Olhou no relógio. 7:20. Ainda tinha tempo. Resolveu que não deixaria a situação assim. É verdade que até poucos minutos atrás, ele estava querendo ir logo embora dali, e agora, apesar de poder fazer isso, não queria. Não assim. Ninguém o tratava desse jeito. Que raio de escritorzinho é esse que se julga tão importante a ponto de fechar a porta na cara dele? Alguém precisava colocar esse rapaz em seu devido lugar, e Ikki sabia fazer isso muito bem.
Dessa vez, nem tocou a campainha. Preferiu bater à porta, vigorosamente. Não demorou muito até que a porta se abrisse novamente e aparecesse outra vez o jovem loiro, com cara de poucos-amigos.
- O que é? – falou Hyoga, demonstrando sua impaciência.
- Escuta, - começou Ikki, apontando um dedo na direção do rosto de Hyoga – eu mal te conheço e já não gosto de você! Que negócio é esse de fechar a porta na minha cara? Quem você pensa que é para agir assim? Você acha que está falando com qualquer pessoa?
Hyoga não respondeu nada. Ficou apenas olhando para Ikki, sem esboçar qualquer reação.
- Pois se você ficou frustrado porque não sou um jornalista querendo entrevistá-lo, saiba que o negócio é ainda pior! Eu sequer sabia que você existia, até meu irmão me pedir para vir aqui hoje falar com você! Viu só? Ainda se sente tão importante e superior? – ao terminar de falar, Ikki sorriu cinicamente.
Hyoga, que até então ouvia tudo sem dizer nem fazer nada, descruzou os braços para retirar uma franja que insistia em cair sobre seus olhos e respondeu:
- E quem disse que se você fosse um jornalista, eu o teria tratado diferente?
Pela segunda vez consecutiva, esse escritor que Ikki acabara de conhecer o deixava sem reação. Isso já começava a incomodar o poderoso executivo, que nunca ficava sem palavras, qualquer que fosse a ocasião. Ia tentar dizer alguma coisa para remendar a situação, mas terminou preferindo calar-se e ir embora. Sem dizer qualquer coisa, deu meia-volta, seguiu até seu carro e se foi.
De dentro do seu porsche já em movimento, olhou uma última vez pelo retrovisor para a casa do escritor e pôde ver que Hyoga continuava parado, encostado no batente da porta, com os braços cruzados. Sacudiu a cabeça, como se esse gesto fosse ajudá-lo a espantar todas aquelas estranhas impressões que ficaram nele em questão de poucos minutos. Concentrou-se na pista e foi-se afastando daquele lugar, sem olhar novamente para trás.
Continua...
