Capítulo I

- Se eu for te buscar, pode ter certeza de que será com o cinto na mão!

Ao ouvir a ameaça, Aimée sentiu um arrepio frio subir pela espinha. Com as mãos trêmulas, tentou calçar os sapatos rapidamente, antes que ele cumprisse o que prometia. Maldita hora em que seu pai aceitou o acordo! Ouviu os passos rápidos do homem, que pisava duro e firme no chão.

E pensar que por alguns dias sentiu-se privilegiada, feliz. Iria salvar a família, a propriedade e ainda por cima ser a senhora da região. Ledo engano!

Sacudiu os cabelos avermelhados, lembrando de como sua infância foi feliz. Brincava com seu melhor amigo, correndo pelos campos ou deitando em montes de feno. Sorriu ao lembrar do dia em que foram correndo até o rio que cortava a fazenda de seu pai, e nadaram nus. Como éramos inocentes, pensou com saudade.

Há quantos anos não via Esteban? Parecia que séculos separavam os dois, mas ao mesmo tempo parecia estar ouvindo a voz do amigo lhe encorajando a pular no rio de cima da ponte. O rangido no assoalho significava que seu dono chegava.

- Você acha que sou idiota? Preciso estar na recepção, e quero que você esteja ao meu lado! Já se vestiu? – ao que recebeu uma afirmação com a cabeça – Ótimo! Vamos embora agora, antes que eu perca a cabeça e te bata!

Trêmula, Aimée assentiu, pegando a pequena bolsa com seus documentos, espelho e batom. Não usava mais nenhuma maquiagem, não precisava: os lábios cheios convidavam ao beijo, a pele rosada mostrava a delicadeza e a suavidade, e os longos cílios deixavam entrever os olhos castanhos claros, pontilhados de amarelo.

A beleza, que um dia crera ser um presente divino, tornou-se artifício do demônio. Os cabelos vermelhos macios agora serviam como rédea, para um cavaleiro duro e implacável. A pele delicada mostrava hematomas aqui e ali. A alegria sempre vigente nos lábios morrera.

- Vamos logo, mulher!

- Casey, eu vou cair – murmurou a ruiva, poucos momentos antes de tropeçar no tapete, devido ao empurrão do homem, e cair pela escada. Não ouviu o grito da governanta, nem pode ver o brilho cruel nos olhos daquele a quem fora dada como esposa aos quinze anos.

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Ela não sabe o quanto é bela, pensou o jovem cavalariço ao ver a doce morena caminhar pelo jardim. A tristeza em seu olhar era algo que até os ratos do campo teriam percebido, mas seus pais propagavam que tinham a filha mais feliz do mundo. O sorriso artificial não se estendia até os olhos, que permaneciam frios e indiferentes.

Até o cavalariço, que ficava no estábulo, sabia que Lady Aryana não era feliz. Também, como poderia ser? Cercada de guardas, não sabia o que era o mundo real. Só podia acompanhar o mundo através da televisão, sua fiel companheira. Seus pais não falavam com ela, somente sobre ela. E sabia que seu futuro era um casamento arranjado, que favorecesse os negócios de seu pai.

O medo do futuro era grande. Sabia que seus pais estavam negociando sua mão com diversos pretendentes. Alice, sua criada de quarto, achava aquilo medieval, e ela concordava. Só que não tinha o que fazer, a quem recorrer. Sua função, como filha, era a de fazer aliança através do casamento para seu pai.

- Lady Aryana! Cuidado!

Foi o tempo de se jogar no chão para a direita, e o carro vermelho entrou pelo portão praticamente voando, estragando o canteiro de rosas. Mal respirava com o susto, sentindo o corpo vibrar de tanto tremer. Os olhos fechados, a boca mexendo rapidamente pela reza rápida de agradecimento ao seu anjo da guarda. Foi então que ouviu a voz:

- Signorina? Está bem? Quer ajuda?

Ao abrir os olhos, pensou que estava tendo alucinações. Um rosto moreno, olhos azuis, cabelos grisalhos. Reconheço este rosto, pensou ela, mas não lembro de onde. Tentou levantar, mas não conseguia controlar as pernas.

Sentiu as mãos fortes a levantando, sem tentar protestar. Ouviu o alarido dos criados, e perguntou-se se seus pais estavam preocupados. Sentiu que o rapaz que a carregava a levava para dentro de casa, onde foram recebidos por seus pais. Ao fitar o rosto do pai, viu um sorriso de satisfação. Um aperto em seu coração lhe deu a certeza de que algo não estava bem.

- Ora, ora... Então já se conheceram! Aryana, este é Luigi, filho de um amigo.

Percebeu que ele não estava em sua casa somente para o jantar pelo brilho nos olhos da mãe.

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Era um erro. O que ele estava fazendo ali, por Deus? O que estava fazendo de sua vida?

Bruna era linda, sem sombra de dúvidas. Mas ele não conseguia entender o porquê de estar atrelando sua vida à dela. No começo era curtição, aventura. Depois o relacionamento entre eles era igual ao seu com Aimée; sentia-se irmão dela.

Aimée... Lembrar dela evocava doces lembranças de infância. Como ela estaria? Não tinha notícias dela há anos. Tinha saído de casa aos dezesseis anos, ela tinha catorze na ocasião. Agora tinha vinte e um anos, estava no frescor da idade. Teria ela ido para a faculdade, fazer o curso sobre História, como sempre falava?

- Shura! Não está prestando atenção no que estou falando! – Bruna, ao seu lado, rilhava os dentes mostrando sua raiva.

- O que foi, Bruna? Não está feliz por que eu estou aqui? Agora me deixe sossegado, vá falar com um de seus amigos costureiros – respondeu o moreno.

Pisando duro ela foi, o deixando imerso em pensamentos. Lembrou da mãe, sempre atenciosa. E do pai, um homem duro, mas íntegro, que o forjou a própria imagem. Sorriu lembrando das traquinagens dos irmãos mais novos, a quem sempre defendia dos outros meninos mais velhos da região.

- ...é claro, ele é um campeão, mas não deixa de ser um camponês – ouviu um senhor falar logo atrás dele. Sorriu, pensando que aquele comentário com certeza era sobre o noivado. O seu noivado.

Aquela festa era um erro. O homem estava certo. Céus! Era um camponês, sem sombra de dúvidas. Então, por que estava ali, noivando com uma socialite? Estendeu o braço e pegou uma taça de champanhe que o garçom estendia. Olhou para as bolhas da bebida cara, e pensou mais uma vez na amiga.

- Onde você estará, Aimée? – murmurou o rapaz, com os olhos negros fixos na taça.

- Quem é Aimée? – ouviu a voz fina da noiva ao seu lado

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Ei pessoinhas!!!

Sheila Maria, você sabe que eu te amo. Te amo tanto que estou postando este capítulo hoje, só por você...

Como eu disse pra Sheila, estou numa fase meio deprê; por isso podem ir preparando os lencinhos de papel, tá? rsrs

Beijos!!!