Parte 1

As luzes da cidade entravam pela cortina mal fechada do quarto, em pequenos raios que iam iluminando pontos estratégicos, que remetiam às ultimas lembranças daquela noite. Se fosse a gravação de uma cena para um filme, provavelmente a câmera começaria da porta do quarto, e seguiria uma pequena e discreta trilha de roupas que iam até a cama.

Sim, esse era o passo que faltava. Kate havia resolvido mudar a sua vida e já fazia algum tempo que as coisas andavam se encaixando. Seus medos, suas dúvidas, suas lembranças, cada uma delas estava ocupando o lugar devido e ela se sentia agora uma pessoa bem mais leve. Ela sorriu. Claro que o caso de sua mãe ainda povoava sua mente, ainda apertava seu coração simplesmente não saber, mas isso agora havia ficado em segundo plano. Sim, ele havia conseguido e agora ocupava o primeiro lugar em sua vida e em seu coração.

Em um suspiro, Beckett acordou olhando agora para a pessoa que estava ao seu lado. Ele dormia, e era uma graça ver o doce movimento do seu tórax subindo e descendo com aquela respiração tão calma e serena, enquanto a mão dela apenas acompanhava o movimento, como se seguisse um leve embalo para voltar a dormir. Castle repousava sereno, ainda abraçado ao corpo sem roupa dela. Um rápido flashback dos momentos anteriores daquela mesma noite surgiu em sua mente trazendo um gostoso arrepio à sua pele.

Ela havia dormido com Richard Castle, e o sexo foi como ela nunca ousara pensar ou como pensava com uma assombrosa frequência. Maravilhosamente... louco.

...Seu corpo sobre o dele, os braços másculos em volta de seu corpo, suas mãos brincando com os cabelos, enquanto seus corpos se deixavam levar pelos movimentos de suas investidas... Sua cabeça jogada pra trás enquanto a dele estava à altura de seus seios, e com a boca lambendo os bicos já enrijecidos, levando-a a uma loucura jamais experimentada... Ele não queria que essa noite fosse breve, e com certeza ele faria o necessário para que fosse especial...

Com um pequeno sorriso nos lábios, Kate virou de lado na cama admirando as roupas espalhadas pelo quarto, procurando lembrar quando e em qual momento cada peça foi saindo de seu corpo. Não como algo negativo, mas com se assim gravasse para sempre como havia sido a primeira noite deles. Remexeu-se um pouco na cama, desfrutando da agradável sensação de ter Castle completamente nu colado à seu corpo, visto que ele a pressionava contra ele, com uma mão sobre a sua barriga fazendo-a ficar mais próxima, formando uma espécie concha.

Alguns minutos depois, Kate levantou-se devagar, não queria acordá-lo. Ela havia acabado com ele na cama e de maneira nenhuma ele deixou de fazer o mesmo com ela. Mas ela gostava de se sentir assim. Exausta. Parou ali no quarto olhando ainda o homem descansando inocentemente. A palavra gerou mais um sorriso. Após aquela noite, inocência era um atributo que jamais estaria na lista de adjetivos para descrever Richard Castle. E isso era bom... muito bom.

Vestiu a roupa devagar. Aquela camisa que ainda guardava o cheiro dele e que havia sido abandonada no chão há algumas horas por eles dois. Saiu do quarto a passos leves, descendo os degraus que levavam para a cozinha, atrás do seu líquido favorito. Seu corpo e sua mente ansiavam por um café borbulhantemente quente. Como se dançasse pela cozinha, Kate encontrava perfeitamente cada coisa que necessitava, e isso só mostrava o quão tradicional Castle era. Mesmo após três anos, desde sua pequena estadia quando seu apartamento explodiu, certas coisas continuava no mesmo lugar ao qual aprendera na primeira vez.

À medida em que seu café ia ficando pronto, Kate era remetida a momentos das noites, quando olhou para o sofá e viu o seu casaco jogado ao lado do de Castle, lembrou de como eles entraram em casa.

... Ele ainda a pressionava contra a porta, sendo beijada pelo aveludado e sedosos lábios de Castle, como ela sonhara e relembrara daquele beijo roubado naquela outra noite a muito tempo atrás. Em algumas vezes pegava o seu pensamento voando até aquele momento, em que os lábios se tocaram, e aquilo era simplesmente sensacional, mas agora... Agora ela o tinha ali, com uma mão tentando abrir a porta e a outra em sua cintura puxando-a para mais próximo dele. Ela podia senti-lo pulsando, sentia o desejo de Castle enquanto a segurava contra o seu corpo...

Ela sorriu ao lembrar-se da expressão que Castle fez.

...Quando ela levou suas mãos para passear pelo corpo dele, massageando seu membro, sobre a calça que ele vestia... Rick simplesmente interrompeu o beijo e a olhou profundamente. Quando finalmente conseguiu abrir a maldita porta, apenas pegou os casacos e, jogando-os em cima do sofá, a pegou no colo, subindo em direção ao quarto dele. O mesmo quarto que ela acordou hoje cedo...

Não planejava dormir ali, assim como também não havia planejado acabar gemendo palavras desconexas nos braços dele sobre aquele colchão. Pelo menos não naquela noite.

"- Pro inferno com todos os planos." – pensou, levantando-se.

Com a xícara fumegante em suas mãos, Beckett pensou em não voltar diretamente para o quarto. Sim, o café a estimulava e ela não tinha certeza ainda se aquele escritor aguentaria outra rodada do que ela era capaz de fazer entre quatro paredes. Pelo menos, não ainda. Sentou-se no sofá e, trazendo as pernas junto ao corpo, sorveu o primeiro gole. Com o líquido aquecendo sua garganta e renovando sua energia, ela jogou a cabeça para trás, fechando os olhos em um gemido. Os cabelos aloirados espalhavam-se pelo estofado macio enquanto ela mesma fazia uma pequena massagem na lateral do seu pescoço. Ali, mais tarde, com certeza estaria roxo e ainda assim, ela adorava essa sensação. Kate contemplou o apartamento de Castle de um jeito novo. A primeira vez depois da primeira vez deles e isso era desconfortante e ao mesmo tempo super confortável. Felizmente não havia ninguém em casa. Alexis estava em uma viagem com Lanie, e Martha em uma pequena viagem com sua turma de teatro.

... Quando chegamos a seu quarto, pedi para que me colocasse no chão, ele até não poderia estar preocupado com Alexis ou Martha, mas eu estava... Iria ser tão estranho se elas aparecessem do nada, mas como dizem às vezes grandes mentes pensam iguais, e a primeira coisa que me disse era que nenhuma delas estava em casa, sem em momento algum tirar as suas mãos de minha cintura, era com se ele não quisesse que saísse de sua frente, com medo de eu fugir... Mal sabia ele que o que eu menos queria fazer naquela hora era fugir, era sair daquele lugar...

Beckett começou a andar pela casa, caminhando na penumbra que era amenizada apenas pela luz da cozinha que ainda permanecia acesa. Sentou-se no bando do piano, mas ficou apenas admirando. Sempre quisera aprender a tocar, mas nunca achou que era boa o suficiente. Aprendera a tocar violão apenas por que sua mãe fazia, sempre achando que assim era um meio das duas conversarem em silêncio. Ela levantou a tampa do piano, pensou em dedilhar algumas teclas apenas para saber qual a sensação, mas sabia que acabaria acordando Castle. Ela precisava de um tempo para processar tudo o que havia acabado de acontecer. Apoiando o cotovelo no piano e escondendo o rosto na face da mão, seu sorriso foi se formando conforme as imagens iam retomando à sua mente.

... Olhando nos olhos dele, eu me sentia protegida, não precisava me esconder atrás de uma parede como já havia dito. Ele me trás segurança pra ser quem eu sou, e com ele eu quero aprender a ser melhor, ter uma perspectiva melhor, estar com quem eu realmente amo... Estar com ele...... Não vou negar que nunca sonhei com essa cena, estarei sendo hipócrita se dizer que nunca sonhei com Castle e eu na cama, qualquer garota apaixonada faz isso, mesmo quando eu era apenas uma tola fã, que lia seus livros por que era apaixonada pelo seu modo de descrever os casos, sempre curiosa para saber como que ele poderia saber de tantas coisas, tantos detalhes, quem diria que esse sonho se realizaria...

Apenas só por relembrar Kate pegava-se sorrindo, um sorriso de amor e satisfação, um sorriso que apenas Rick conseguia tirar dela. Olhando para o interior da sala conseguia ver vários porta-retratos espalhados. Fotos dele com a mãe, dele com a filha, dos três juntos... Simplesmente estava à vontade em estar ali, não se sentia mais uma estranha... Era com se, agora, aquele lugar fosse a extensão de sua casa. O café a havia despertado e outra coisa que ela gostava de fazer era ler. E céus, ela estava na casa de um escritor. O que não faltaria ali eram livros dos mais diversos autores e estilos. No entanto só um importava: os que ele escreveu. E, em especial, os que ele escreveu sobre ela. Levantou-se mais uma vez e, com passos calmos, foi passeando pela longa e aconchegante sala, olhando as estantes com livros, uma paixão que ambos desfrutavam. Ele em escrever, ela em ler. Viu a porta do escritório entreaberta, lembrou-se da primeira vez que esteve ali, a mesa de Castle de frente para a porta, estrategicamente ou não, posicionada bem de frente pra cozinha.

...Castle novamente a pegou no colo, dessa vez o vestido ficou ao chão, juntamente com os sapatos de ambo. Ela era menor que ele, e era isso que ele mais adorava ver. O quão frágil ela se tornava apenas por ser um pouco menor que ele. Quanto estava no colo, Kate ia desabotoando a camisa de Castle, se sentindo meio que em desvantagem. Ela já estava seminua, enquanto ele ainda todo vestido. Rick a deitou na cama, e foi ajudando-a desvencilhando-se do cinto enquanto ela terminava de livrá-lo da parte de cima de sua roupa. Ele não conseguia tirar os olhos dela. Já havia sonhado com esses dias a muito tempo, mas até a última semana na qual ele havia descoberto que ela lembrava, era com se o seu pequeno fairy tails houvesse simplesmente desmanchado. Tudo pelo qual ele havia esperado, simplesmente esvaeceu à sua frente. Foi difícil bancar o indiferente diante dela, quando o que mais ele queria era gritar na cara dela que sabia de tudo, e que dizer "obrigado por ter me feito de idiota". Mas algo dentro dele o impedia, talvez o próprio segredo que guardava...

Sentou-se ali na mesa do escritor e ficou tentada em dar uma pequena olhada no computador de Castle que estava a sua frente, lembrando-se de que Castle havia comentado estar com dificuldade em um certo ponto da história de seu novo livro. Beckett pensou que não haveria problemas de tentar continuar a história sem a presença do seu criador. Pensou consigo mesma de que nada melhor do que Nikki Heat, para escrever sobre a própria Nikki, e então ela ameaçou tocar no teclado do aparelho, mas optou por não fazer. Não havia dúvidas de que Castle havia capturado tão bem a essência de Kate, que muitas vezes ao ler a história de Nikki, pensava em estar lendo a sua própria, então preferiu ser surpreendida pelos últimos acontecimentos que ele havia programado para Nikki. Depois, quem sabe, ela podia revelar a Castle o quanto ela era apaixonada por seus livros, e talvez fizessem amor novamente por cima daqueles papéis espalhados pela mesa. Com certeza, fariam.

... Já não havia barreiras sobre seus corpos, ou melhor quase nenhuma barreira. Castle estava sobre ela beijando-a. Com certeza ele também lembrou daquele dia, ou melhor daquele beijo roubado. Não podia negar que foi bom, mas esses estavam melhores. Não tinha a surpresa da entrega dela como houve no outro, mas havia a certeza que de que ela era dele. Com uma de suas mãos, ele lentamente caminhou em direção à ultima barreira, sua calcinha preta de renda. Por um tempo ficou ali apenas acariciando-a por cima do tecido fino. Adorava o quão entregue seu corpo demonstrava pra ele cada vez que a tocava naquela região. Ele mandava no corpo dela, mesmo que ela que ainda tentasse negar isso...

... Castle lentamente empurrou a calcinha para lateral e introduziu um dedo, depois dois, isso fez com que Kate se movimentasse em direção a ele, arfando sobre os ombros largos, enquanto suas unhas iam desenhando pequenas pequenos riscos nas costas dele, deixando-o ainda mais incentivado. Sua boca passeava sobre seus seios, sugando-os e deixando-os ainda mais estimulados. Era incrível o que aquele homem sabe fazer com a boca. Lentamente ele começou a descer os seus beijos em direção à barriga trilhando para um caminho mais perigoso e, agora, onde haviam dedos brincando, havia uma língua incrivelmente sedosa e habilidosa, fazendo-a gemer quase que instantaneamente. Era tudo o que ele precisava ouvir. Em algum momento ela ficaria um pouco envergonhada de seu pequeno gemido, mas agora... Agora não... Agora era hora de aproveitar a cada instante que ele estava lhe proporcionando. Com movimentos circulares ele começou a estimular ainda mais o seu clitóris alternando com pequenas sugadas, e era nesse momento que ela se entregava ainda a ele...

Suspirando, Beckett caminhou até o outro lado do escritório, onde haviam mais livros, de autores consagrados, de autores desconhecidos, e mais alguns retratos nas prateleiras bem organizadas. Pegou um deles em suas mãos, mas imediatamente foi surpreendida por algo que caiu fazendo um pequeno barulho. Um controle remoto, escondido entre as fotos, e ela soube automaticamente que era de seu próprio murder board . Lembrou-se de quando viu Castle utilizando o aparelho e seria hipocrisia se ela dissesse que não o invejava. Era um equipamento muito interessante, mas por sorte dela, únicas mortes que ele "guardava" era do seu personagem. Antes que pudesse se abaixar para desfazer a bagunça que havia provocado, uma grande luz surgiu por detrás dela, iluminando a sala, indicando que o aparelho fora ligado pelo impacto do seu pequeno controle no chão. Ela pode resistir à curiosidade de ler, mas não resistiria à curiosidade de ver, uma vez que ali apenas estariam dados, possíveis fotos, e palavras desconexas que para ele fariam todos os sentidos do mundo. Afinal o aparelho havia "se ligado sozinho".

Kate se virou, segurando o restante de seu café mais próximo ao corpo, enquanto dava um passo para trás tentando ver bem a imagem daquele esquema com uma única foto. A sua. Achando aquilo estranho, se aproximou novamente, mas antes que terminasse de dar o primeiro passo, pequenos dados com outras fotos foram aparecendo. Pouco a pouco foi sentindo seu sangue congelar em suas veias, ao reconhecer cada peça daquele quebra-cabeça que havia estudado por anos. Infelizmente, nem todas. Seu olhar de admirado passou para perplexo, ele ainda estava investigando, por mais que ela pedisse para ele se afastar, por mais que ele soubesse o quão mal estaria fazendo para ela, ela que quase morreu na ultima vez que continuou a investigar. Ali estava a foto de sua mãe com a data de sua morte, mais ao lado a foto de Lockwood, e algumas informações, assim como a foto de Montgomery, e todas as informações por ela coletadas. Por um momento ela pensou que ele havia se atrevido a escrever sobre o caso de sua mãe, mas percebeu em poucos segundos que haviam peças extras ali. Havia a foto de uma pessoa que ela nunca viu na vida e alguns comentários sobre coisas que ela nunca havia ouvido falar, mas que encaixavam perfeitamente no grande emaranhado de teias que era o assassinato de Johanna Beckett.

Kate sentiu a cabeça girar as letras e imagens naquela tela ficarem cada vez mais turvas. Sentia-se como se fosse sufocar e antes que pudesse evitar, um som abafado escapou de sua boca. Seu corpo tremia e o líquido no recipiente em suas mãos, fazia movimentos de vai e vem desrritimados e confusos. Como que em câmera lenta, a caneca de café caiu ao chão, despedaçando-se no assoalho daquele ambiente, quando um pequeno sussurro veio por trás dela, fazendo seu próprio nome atravessar o escritório.

- Kate...

Continua...


Nota das Autoras: Todos os capítulos foram baseados em uma música, mais ou menos nossa fonte de inspiração para escrever, apenas o capítulo Zero que não por que foi meio que escrito as pressas, então sempre estaremos colocando dicas de músicas para vocês escutarem, para assim entrarem no "clima" da Fic.

1° Música: Lady Antebellum - Last Night Last.

2° Música: Foo Fighters - I Should Have Known