Sensibilidade Áspera
...Eu sinto como se ninguém pudesse se importar com o que aconteça comigo,
Me sinto completamente sozinha e tento esconder todo esse tormento
Eu gostaria que isso tudo fosse embora. ...
A chuva caía fina pelos vidros da janela na fria sala comunal, fazendo com que o ar melancólico pairasse em todos os corredores de Hogwarts. A noite chegava livremente por entre o recluso pôr-do-sol. As nuvens esbranquiçadas e o alaranjado do céu davam espaço à negra solidão da noite.
Todos se recolhiam para suas respectivas casas a fim de se aprontar para a longa noite de sono, ou então apenas sentar em uma das poltronas em frente à lareira para jogar um pouco de conversa fora com os colegas.
Pansy Parkinson, não era diferente dessas pessoas, ela também havia acabado de entrar no Salão Comunal da Sonserina pela passagem secreta na parede e largava sua mochila em um canto, jogando-se em uma poltrona de veludo cor de esmeralda logo em seguida.
Estava extremamente cansada, o dia havia sido incrivelmente longo e tudo o que ela queria era ficar quietinha em seu canto. Pansy era uma garota morena, dona de cabelos negros extremamente curtos e olhos de um azul tão profundo a ponto de se tornarem violetas quando faiscavam de ódio.
Aos poucos as pessoas foram se recolhendo para dentro dos dormitórios e em dado momento apenas Pansy restara ali, recolhida dentro de seu próprio mundo, ainda sentada na poltrona, com as penas para cima, agarrando os joelhos.
Era estranho pensar em Pansy como uma sonserina frígida e sem coração, quando ele próprio a conhecia tão bem a ponto de achá-la extremamente adorável em sua frieza e indiferença para com qualquer pessoa que se atrevesse a ultrapassar a barreira de solidão que ela havia posto ao redor de si. Essa pessoa que sentia dentro de si que conhecia Pansy Parkinson tão bem era Blaise Zabini.
Blaise Zabini estava no mesmo ano que Pansy, no sétimo ano. Ambos estudavam as mesmas matérias e conviviam diariamente juntos. Blaise era um garoto moreno, de olhos muitos negros, tão negros que podiam ser confundidos com a escuridão que o céu mantinha durante as noites solitárias de Pansy na sala comunal.
Pansy continuava concentrada em abraçar os joelhos e olhar a chuva cair pela janela. Não sabia ao certo porque era tomada por aquela melancolia todo início de noite. Simplesmente era tomada de uma tristeza tão intensa que não conseguia resistir à idéia tentadora de ficar a contemplar o horizonte. Sentia dentro de si uma tristeza ardente, como se a mesma estivesse marcada forte em seu peito. Era algo que sabia não poder controlar.
- O que foi dessa vez? - perguntou ela, sem deixar de fitar os pingos de chuva desenhando imagens abstratas no vidro da janela.
Blaise apenas sorriu compreensivo. Pansy sempre sabia o que queriam dela mesmo antes de alguém dizer, talvez por isso fosse alguém tão eficiente. Ninguém sabia o quanto Pansy Parkinson era inteligente e o quanto ela possuía uma alegria contida dentro dela. Pansy era diferente de todos os moldes que haviam sido criados para as pessoas se encaixarem, ela era única.
- Apenas mais um ataque histérico dele. - murmurou Blaise, sentando-se em uma poltrona perto da lareira, um pouco distante da morena.
Pansy não ousou virar-se para encará-lo ou mesmo continuar a conversa. Não era preciso. Ela não mantinha amizades com ninguém. Andava apenas com Draco e Blaise e mesmo assim era porque era necessário. Não que a companhia deles não lhe fosse agradável, mas não havia sido algo no qual ela pudera opinar. Apenas era assim que as coisas eram.
- São assim que as coisas são. - murmurou distante, fazendo círculos imaginários com a ponta dos dedos rodopiando no ar. Suas unhas estavam pintadas de prata com uma flor verde musgo na ponta, tão incrivelmente sonserina. Ela gostava de ser o que era. Só não gostava de saber nas conseqüências que isto implicava.
- Não precisam ser. - rebateu Blaise, com o cenho franzido. Ele sempre mantinha o cenho franzido quando estava sério ou preocupado. E no momento, estava se sentindo assim. Cada vez mais Pansy se fechava em seu mundo completamente melancólico.
- Mas, são. Não é mesmo? - sorriu, fracamente.
Freqüentemente Pansy se perguntava se Blaise realmente era um sonserino.
Ele era muito bom para isso. Blaise era um cara gentil, compreensivo, até mesmo carinhoso - quando o assunto era ela e seu bem estar. A verdade era que ela preferia não pensar sobre isso. Ela não queria mentalizar aquele pensamento, porque seria ainda pior se as coisas dessem certo para ela.
- Eu não sei por que você é assim, Pansy. - sussurrou ele, quase inaudível, temeroso e perturbado. Não sabia ao certo que sentimentos aquela garota provocava nele, mas sentia que precisava protegê-la de algo que não tardaria a chegar.
- E eu não sei como você conseguiu entrar para Sonserina, Blaise. Acho que você enganou o Chapéu Seletor. - gracejou ela, em um de seus momentos raros de amigável ironia.
- Se eu consegui enganar o Chapéu Seletor, significa que eu realmente estou na casa certa. Não acha, Pansy? - rebateu ele.
Pansy sorriu de lado. Blaise era dono de uma incrível áurea de paz e tranqüilidade e realmente era difícil tirá-lo do sério. Mas, por outro lado, tinha a língua mais afiada que um punhal.
- É. Qualquer pessoa que argumenta desse jeito com certeza deve pertencer a Sonserina. - disse, com uma expressão retraída.
Blaise conhecia aquela expressão, Pansy estava começando a se fechar em seu mundinho de novo. Já fazia mais de uma semana que ela estava assim. Eles nunca foram muito próximos. Seus diálogos eram estranhos e sabiam que compreendiam um ao outro sem nem fazer esforço, e isso os assustava de tal modo que ambos preferiam manter certa distância a deixar essa ligação crescer ainda mais. Eram sonserinos, afinal de contas.
- Rendendo-se assim tão fácil? - provocou, tentando em vão manter a velha Pansy acesa, por mais que soubesse que aquilo já era uma batalha perdida.
- Hoje eu não estou com clima pra isso. Sinto muito, Blaise. - e dizendo isso levantou-se calmamente, como há exatamente doze dias fazia e encaminhou até o seu dormitório, que como era monitora chefe, não dividia com ninguém.
Pansy era assim. Sabia ser suave como o corte de uma folha de papel no dedo indicador da mão. Pansy era possuidora de uma inegável sensibilidade áspera.
... Toda dor some no momento que estou em teus braços, mas volta
assim que eu me vejo sozinha na escuridão do meu quarto,
Olhando pro teto.
As paredes, o quarto... Tudo é pequeno demais para mim. ...
