Capítulo 2
UNS golpes fortes na porta indicavam a chegada do café da manhã mas Draco, claramente acostumado ao pessoal, continuou a falar enquanto Ginny continuava sentada no bordo da cama acariciando o chão com seu pé nu, envergonhada e horrorizada pelo que o empregado pudesse pensar e desejando que Draco lhe dissesse que ela não era uma mais de suas conquistas, que a última de suas hóspedes não merecia fazer parte dos mexericos dos empregados naquela manhã porque não tinha acontecido nada.
Não tinha acontecido nada!
Mas claro, Draco não fez tal coisa. Em vez disso continuou a falar com ela enquanto punham a mesa, sem se dar conta de seu desconforto.
-Come algo -disse ele, mas ela negou com a cabeça decidida a não aceitar nada dele -Um café ao menos? Ou possivelmente prefira tomar um duche primeiro?
Ginny decidiu que, se lhe oferecesse um duche outra vez, aceitaria. Mas, ao ver que Draco simplesmente esperava uma resposta, finalmente assentiu com a cabeça. Embora lhe incomodasse ter que aceitar alguma coisa de Draco Malfoy, a possibilidade de um duche era muito tentadora para deixá-la passar.
Draco dispensou o empregado com um simples movimento de cabeça.
Ela pensou que ele era tão mal educado com os seus empregados como Marcus, mas quando o empregado se dispunha a sair, Ginny ficou surpreendida ao ver como Draco lhe agradecia e lhe dava uma grande gorjeta para logo virar-se para ela com um sorriso.
-Que tal se eu falar com alguém da lavandaria? -sugeriu, e logo estendeu a mão na direcção do banho. - Há toalhas aí. Usa o que quiser e diga-me se precisar de mais alguma coisa.
-Julgo que estará tudo bem.
«Mais que bem», pensou ela enquanto entrava no banheiro e via as filas e filas de frascos de cristal que enchiam a sala.
Olhou de relance para o relógio e um alarme mental recordou-lhe que era hora de tomar a pílula. Mas com uma imensa sensação de alívio soube, nesse momento, que já tinha tomado uma decisão. Não precisava tomá-la, já não teria que preocupar-se mais com aquilo.
Agora que tinha decidido que não podia, que não se deitaria com o Marcus Flint, o sentimento de liberação foi uma autêntica revelação, uma confirmação do verdadeiro calvário a que tinha estado submetida, da agitação que tinha sofrido sob a sua aparentemente fria fachada, da agonia atrás de cada um de seus sorrisos.
Ficou a olhar o seu reflexo no espelho, o seu cabelo, os seus olhos e as suas pálpebras inchadas que resumiam toda sua vida, e não ouviu chamarem-na da porta do banho.
-Ginevra desculpe incomodá-la - disse Draco enquanto mantinha a porta aberta só uma fresta - Preciso saber seu sobrenome. A recepcionista precisa dele para os registos.
-Weasley - respondeu ela, e viu como ele elevava as sobrancelhas e entreabria os olhos.
-Weasley? -repetiu ele - Conheço esse nome? É muito familiar, verdade?
-Bom, é-o para mim -disse ela com um sorriso falso sentindo-se ferver por dentro e, pela primeira vez desde que seu estranho encontro tinha começado, sentiu que Draco não parecia esse homem tão seguro a que tão rapidamente se acostumou.
Draco estalou os dedos quando finalmente recordou de onde se lembrava do nome. Ginny odiou-o ainda mais. Durante anos eles haviam se odiado e se ofendido, durante séculos as suas famílias haviam sido rivais e agora ele tratava-os com tanto desprezo que nem se lembrava deles, depois de todo o mal que lhes tinha feito.
-Weasley? Ron Weasley, Arthur Weasley -disse antes de dar outro estalo – Ginny Weasley! Como pude ser tão distraído?! Eras a miúda que andava sempre atrás do Cabeça de Cicatriz. Ele acabou casando com a Patil não foi? – mas nem lhe deu tempo para responder - O teu pai era o dono dos Truques e Brincadeiras dos Weasleys!
-Antes de a comprares por uma miséria -disse ela com voz fria - e agora sou eu quem está tentando reconstruir as peças depois de as destruíres.
Draco já não precisava estalar os dedos, os detalhes atingiam-lhe como setas. A loja a um preço baixíssimo que tinha comprado fazia um ano, a culpa que decidiu ignorar por se aproveitar de um homem desesperado. A verdade era que Artur Weasley tinha procurado por Draco, embora Draco não recordasse os detalhes que o seu novo director, Marcus, tinha-lhe dado pois Artur nunca tinha chegado a falar como louro. Flint tinha tratado do negócio. Tinha dito a Draco que Artur estava metido no Jogo, ou álcool, ou uma mistura de ambos. Mas fora o que fora que havia causado as dívidas, o que o levou a ruína, a Draco tinha calhado muito bem o negócio pois transformara a loja num grande restaurante, mas, agora que olhava para cara da filha de seu predecessor, a culpa multiplicava-se.
-Foram negócios -disse Draco, mas sua voz não soava nada segura.
-Claro -respondeu ela revirando os olhos.
-Não foi minha culpa. O teu pai era um péssimo homem de negócios.
-Meu pai -disse Ginny zangada e com voz tremente sem notar que toda a formalidade com que Draco a tratara anteriormente tinha desaparecido -. O meu pai era um homem de negócios extraordinário. Ainda o é. A única razão pela que o restaurante ainda sobrevive é pelas horas que ele trabalha ali.
-Ainda trabalha ali? – Draco respondeu sua própria pergunta -Claro, eu o deixei lá como sub-gerente.
-Escravo do gerente -particularizou ela - O segundo em cargo depois do maravilhoso Marcus. Um homem que se aproveita de tudo e todos e beneficio próprio. Um homem que vive do que meu pai um dia construiu.
Draco sorriu triunfantemente...
-E por que foste prometer ficar noiva dele se o achas tão horrível? -perguntou o louro - por que entraste de braços dada com ele meio desesperada meio bêbeda?
Noutras circunstâncias aquelas palavras teriam-na ferido e envergonhado ainda mais, mas com seu estado de ânimo quase nem a afectaram. Os meses de fúria contida finalmente explodiam, com palavras tão envenenadas que quase não as podia conter.
-Porque ele deixou bem claro que, se não me deitasse com ele o meu pai perderia o emprego e a minha família iria para a ruína. Ele assegurar-se-ia de que nenhum Weasley arranjasse emprego em lugar nenhum.
-Está a te chantagear?
-Sim -disse ela - O teu querido sócio está a me chantagear.
-Sócio? Marcus não é meu sócio -disse ele abanando a cabeça com uma risada incrédula, que não durou muito. A sua expressão se obscureceu, os seus olhos cinzentos se entreabriram e deixou escapar um assobio - É isso o que ele diz? É assim que o Marcus se apresenta? É assim que exerce a sua autoridade? Deixando que pensem que é um dos proprietários?
-Co-proprietário -corrigiu-lhe ela.
-Co-proprietário? Não é o co-proprietário. Eu sou o proprietário. Todos os directores de meus negócios têm cinco por cento das acções mas apenas isso para me assegurar dos benefícios.
-Ah, claro, os benefícios -disse ela olhando com desagrado para Draco. - Mais uma vez. Estamos todos muito familiarizados com esse teu gosto por essa palavra.
-Scusi? -pela primeira vez o seu inglês desapareceu, mas logo se recompôs - O que queres dizer com isso?
-Benefício -repetiu ela. Já não havia como voltar atrás, estava metida nisto até ao pescoço mas, ao menos, poderia lhe dizer o que achava dos seus métodos, lhe fazer pagar por toda a agonia que tinha causado à sua família. Era ela quem tinha a última palavra - Esse é o que te move. Benefício é a razão por que pagas os teus empregados uma miséria, por isso têm que ficar a trabalhar noite após noite sem receber horas extras, por isso é que o teu maravilhoso restaurante é uma sombra do que já foi quando era a loja do meu pai.
-A sombra? – Draco ergueu uma sobrancelha arrogantemente.
-Não finjas que não o entendes! -exclamou Ginny - Está nas últimas, acabado, finito. Estou certa que ainda julgas que te trás muitos benefícios. Estou certa de que no papel tudo está correndo muito bem. Mas os empregados estão indo embora e não passará muito tempo até que os clientes façam igual.
O silêncio que houve a seguir foi horrível. Ginny quase não podia acreditar que tivesse admitido a verdade, e muito menos a Draco, o que estava mais pálido que o normal, com os músculos de sua cara apertados pela ira, com os nódulos brancos de apertar os punhos.
-Mas o que tem tudo isso a ver contigo? Por que foste...?
-Me comprometer com ele? -finalizou ela a frase – Perguntas porque me prostituir com um homem como o Marcus é isso? -insinuou. Draco não se moveu mas Ginny viu nos olhos dele que estava arrependido do que dissera - Porque são os meus pais que estão em jogo, o que me resta da minha família. Sei o que tenho que fazer e faço. O meu pai não é o patético homem de negócios que dizes. Não é um jogador nem um bêbedo que rouba o teu dinheiro. Meu irmão estava a morrer... -fez uma ligeira pausa - O dinheiro que meu pai recebeu pela compra da loja serviu para alargar a vida do meu único irmão que sobreviveu á guerra um pouco mais.
-Quanto mais?
-Seis meses. Havia um tratamento na América. Não ia salvá-lo, mas o dinheiro da loja converteu umas semanas de agonia em seis meses preciosos. Foi a Paris e a Roma, deu-nos tempo para dizer todas as coisas que tinha que dizer, para resumir toda uma vida de amor em seis mês e, se retrocedêssemos no tempo, meu pai voltaria a fazer o mesmo.
-Ainda não compreendo.
-A morte faz que se veja as coisas com outra perspectiva, mas não paga as contas. O meu pai teve que começar de novo, agora tem que trabalhar por uma miséria para a cadeia Malfoy, tem que ver como seu adorado restaurante vai á falência. Mas não se queixa. A única coisa que ele quer são mais uns anos de trabalho. Alguns anos para economizar algo para a sua aposentadoria, um dia de trabalho digno por um salário digno. Mas o que faz o grande império Malfoy sobre isso? A única coisa que te importa são os lucros.
-Enganas-te -contradisse-a Draco. - Sim, importo-me com os benefícios e com os lucros. Sou um homem de negócios ao fim e ao cabo, mas também me preocupo com os empregados e eles pagam-me isso com absoluta devoção. Não tenho que vigiá-los porque sei que dão o melhor deles.
-Dão o melhor deles porque estão aterrorizados de poder perder o emprego.
-Raios! -exclamou. Se antes o tinha visto zangado, agora estava lívido. Jogava fogo pelos olhos -. Os meus empregados sabem que cuido deles. Asseguro-me de recordar os seus aniversários, de que a sua lealdade é recompensada. Olhe o Rico, o homem com o que falei esta manhã. O fim-de-semana que vem é seu quadragésimo aniversário de casamento. Alojar-se-á nesta mesma habitação com sua esposa, receberão o mesmo serviço que exijo eu para mim.
-Com dez por cento de desconto para o empregado -contra-atacou Ginny. - Marcus também faz isso.
-Não haverá nenhum desconto. Não haverá factura absolutamente nenhuma. Rico merece.
Por um momento ela não respondeu, pois estava confusa. A verdade era que não soava como um homem de negócios que tratasse mal os seus subordinados, não parecia o homem mesquinho que ela tinha imaginado. Sua aversão inicial estava mudando. Depois da carapaça arrogante aparecia um homem muito mais consciente do que o homem malicioso que ela tinha construído na sua mente. Mas ainda suspeitava dele. Os factos falavam por si só. Ela tinha visto em primeira mão a devastação que a sua liderança tinha causado.
-É culpa do Marcus -disse ele com voz mais calma, embora Ginny ainda podia captar o ódio nas suas palavras. Mas escutá-lo falar mal do Marcus reconfortou-a. Doze meses de dor não eram facilmente esquecidos. - Eu nunca trataria os meus empregados assim.
-Mas tens feito! -exclamou ela. - Não entendes Draco, que tens feito exactamente isso? Pode ser que Marcus seja teu sócio, ou teu director, ou teu co-proprietário, ou algo que se chame a si mesmo, mas é o teu nome que encabeça cada papel, que assina cada cheque. És tu quem destrói o meu pai!
-Caramba! – ele disse aproximando-se dela e colocando as mãos nos ombros dela.
-Marcus esteve a me chantagear -disse, e sentiu como as mãos nos seus ombros apertavam mais ainda, viu a fúria nos olhos dele enquanto continuava pronunciando cada palavra com a certeza que merecia. - Não só despedirá o meu pai, mas também te destruirá no processo. Deixou muito claro que te acusará de corrupção se as coisas não saírem segundo os seus sórdidos planos. Já arruinou a carreira do meu pai e estará encantado em atirar a tua reputação pelo chão se for necessário para conseguir o que quer.
-O que quer?
As mãos saíram dos ombros e apertaram-se ao redor da cintura da ruiva e Ginny tentou liberar-se.
-Marcus considera que é seu direito divino ter uma formosa mulher ruiva ao seu lado. Pode parecer presunçoso mas não me importo.
-É a verdade -disse ele deixando momentaneamente de lado os factos desagradáveis e centrando-se na atractiva mulher que tinha à frente – mas parece que para ti ser bonita é uma maldição.
-Nunca disse que sou bonita -corrigiu-lhe ela - Mas, sim. Parecer uma adolescente frágil pode ter suas desvantagens tanto pessoal como profissionalmente - disse enquanto o olhava desafiante com as costas rígida – Levavas-me a sério numa reunião de negócios?
Aquela pergunta confundiu-o, mas respondeu igualmente.
-Não sou sexista. Se o que dissesses tivesse sentido e fosse um bom negócio é obvio que te escutaria.
Como resposta ela tentou soltar uma risada sarcástica, mas fracassou.
-Contradizes-te a ti mesma, Gin -respondeu ele - Pedes que levem a sério apesar de teu aspecto mas, por outro lado, estás disposta a te comprometer com um homem que te quer só como troféu. Não tem sentido.
-Pensei que podia fazê-lo -o sarcasmo tinha desaparecido de sua voz. - Pensei que poderia levar o compromisso como um negócio.
-Mas não poderias tê-lo feito -respondeu ele. Foi uma afirmação categórica, não uma pergunta, mas mesmo assim ela assentiu.
-Não sou uma romântica, Draco. Não acredito no pote de ouro no fim do arco-íris. Não acredito em almas gémeas. Casar-me com o Marcus não significava dizer adeus a algo longamente sonhado. Era só o meio para o fim, a solução a um problema. Eu devo isto aos meus pais.
-Tens uma visão muito triste do casamento matrimónio. O que teria acontecido se ele tivesse querido filhos?
-Não! -exclamou ela abanando a cabeça com força. - Nunca lhe teria dado um bebé.
-Como podes estar tão certa? O que te faz supor que não teria ido um passo mais à frente e teria exigido ter filhos?
-Poderia ter exigido tudo o que quisesse, mas isso não o teria dado. Por muito que pudesse prejudicar o meu pai.
-Ao menos isso -disse ele enquanto fixava o rosto sardento tentando conhecer mais sobre aquela mulher complexa.
-Isso não era negociável -disse ela e as suas palavras ficaram suspensas no ar. Evitou o olhar de Draco e olhou para baixo. Quase podia ouvir as coisas que ele não dizia, a espera de Draco em cada respiração, esperando que ela dissesse algo. - Nunca teria um filho dele -concluiu, e deu a volta para ir-se embora, mas ele segui-a e agarrou-a.
-Diz-me só mais uma coisa -disse ele enquanto a olhava nos olhos, dourados, ferozes, desafiantes - Como ficaste tão fria, Gin?
Por um momento ela vacilou. Queria lhe gritar e lhe dizer que estava enganado mas, do que serviria?
Seria melhor que pensasse que era uma mulher farta da vida, melhor partir o quanto antes.
-Olha só quem fala. A vida ensinou-me, já perdi muito e já são anos de prática. Agora... -disse enquanto forçava um sorriso. - Se me devolveres a cintura, por favor, eu gostaria de tomar o meu duche.
Sentiu-se feliz ao sentir a água deslizar-se pelo seu corpo, levando-se consigo a maquilhagem e a laca do cabelo. Então deixou sair as lágrimas que tinha estado aguentando e ficou sob o jorro do duche, pensando no que tinha feito, nas enormes repercussões que teria a caixa da Pandora que acabava de abrir.
Envolveu-se em numa toalha branca e começou a pentear-se. Estava virtualmente apática, todas as emoções liberadas a tinham deixado seca. Olhou o seu reflexo no espelho. Olhou os seus olhos e viu-os pela primeira vez inseguros. Tremia-lhe o lábio superior enquanto procurava um buraco de saída, alguma solução a seus problemas.
Pensara que podia fazê-lo.
Tinha acreditado que podia deixar as emoções de lado, ignorar as horríveis implicações que traria consigo um compromisso vazio, fazer algo para conseguir que seu pai tivesse um pouco de paz. Mas no final tinha fracassado.
Pôs de lado as desculpas que se amontoavam na sua mente com a mesma força que abriu a porta do banho.
Não havia desculpa.
Draco Malfoy tinha razão. Tudo se reduzia a uma simples verdade: simplesmente não conseguia tê-lo feito.
-Sinto muito -disse ele ao senti-la sair do banho -. Sinto muitíssimo o que aconteceu contigo e á tua família. É tudo minha responsabilidade.
Não a olhava. Estava junto à janela e ficou a olhar através do vidro.
-Não é tua culpa -inclusive Ginny surpreendeu-se com aquela afirmação. Durante um ano o nome de Draco Malfoy tinha lhe causado tanta dor e tanto ódio e, entretanto, ao estar ali com ele, ao sentir a sua culpa, aquele ódio desapareceu e ela soube que o tinha julgado mal. Draco Malfoy havia mudado desde a guerra, desde que deixara Hogwarts e tinha mudado para melhor, ao contrario dela.
-Mas claro que é culpa minha -disse ele -. Tinhas razão. É o meu nome que encabeça todos os papéis. Sou eu quem assina os cheques - disse apertando os punhos. - É o meu nome que o Marcus utilizou. Se o café estiver frio, os pratos estiverem muito salgados, se o vinho não for bom é minha responsabilidade. Claro que não posso estar em todos os lugares. Tenho que confiar nos gerentes, mas quando um deles... -então voltou-se e olhou-a. -Está despedido. Despedido. Esquece-o para sempre.
-Não é tão fácil. Embora ele tenha exagerado, Marcus ainda tem...
-Despedido -disse Draco com tal precisão que Ginny quase acreditou.-
Quase.
Ao longo de sua vida tinha deixado de acreditar nas pessoas. Nesse mesmo instante, Draco provavelmente estaria dizendo a verdade, e Ginny não o duvidava, não questionava sua sinceridade. Mas em poucas horas retornaria a Roma, ao seu mundo, um mundo muito afastado dela, e as suas intenções, por muito boas que fossem, converter-se-iam em nada.
Já o tinha comprovado antes, em muitas ocasiões.
As promessas não significavam nada.
-Tem um contrato -observou Ginny num tom profissional, como o faria frente a um cliente. - Há leis sobre a demissão sem justa causa.
-Ele não ia fazer o mesmo com o teu pai? -respondeu Draco com rapidez. - São detalhes sem importância. Os meus advogados encarregar-se-ão disso. Prometo-te, Ginny. Não tens que o voltar a ver. Não terás que voltar a preocupar-te com as suas chantagens.
-É meu pai que me preocupa -assinalou ela. - Eu posso me cuidar sozinha.
-Não, Gin, é evidente que não -disse ele enquanto se aproximava dela sem deixar de olhá-la - Ontem à noite podias ter cometido uma grande asneira.
-Estás exagerando -contradisse ela com voz firme, embora no seu interior sentia que não tinha razão. Draco tinha razão. Na noite anterior tinha jogado um jogo perigoso, um jogo estúpido, e sua única salvação tinha sido aquele homem que estava frente a ela. A mudança nos seus sentimentos assustou-a, pô-la nervosa, sentiu um arrepio percorrê-la.
Não podia sentir-se atraída por Draco Malfoy.
Certamente seria uma resposta primitiva que ele tinha desencadeado. Estava confundindo a gratidão com a luxúria. Foi preciso um grande esforço para controlar a sua respiração e o seu ritmo cardíaco enquanto rezava para recuperar a prudência. Era gratidão o que ela sentia, nada mais, e era melhor lembrar-se disso. Clareou a garganta e falou com toda a convicção que pôde.
-Sabia no que me estava a meter.
-Possivelmente – ele disse com voz suave - O que teria acontecido se não tivesses vindo comigo? O que se teria passado se outro homem...? O que?
Olhou-a, passou-lhe a mão pelo cabelo e viu que a mulher que tinha á sua frente não tinha nada a ver com a sofisticada beleza em que se fixou ao princípio. Aterrorizou-o pensar em Marcus a tocá-la.
-Mas não aconteceu nada -disse ela numa voz muito alta. Sentia-se capturada pelos olhos cinzentos, na linha de fogo e, o mais surpreendente de tudo, sem vontade de ir-se embora -. Acabei aqui, contigo -acrescentou com um meio sorriso. - E tu disseste que não foi difícil não te aproveitares de mim.
-Menti! – ele aproximou-se mais a ela, ainda com a mão no cabelo ruivo e a outra na sua cintura. Ela podia mover-se, dar um passo atrás, tirar a mão dele da sua cintura e do seu cabelo, mas ficou ali, de pé, alucinada pelos sentimentos que ele despertava nela. Quase podia sentir a tensão sexual no ar. Cada pelo da sua pele, cada poro, cada célula estava embriagada pela presença masculina.
-Custou-me muito resistir. – disse com a voz rouca.
Draco fechou os olhos por um momento e recordou a felicidade de tê-la entre os seus braços. Recordou como reconfortou aquela adorável desconhecida, o sentimento protector que tinha despertado nele, e quando ela havia adormecido, recordava seu fôlego quente contra sua mão, seus peitos subindo e baixando contra ele, sua perna enredada nele, seu aroma, seu tacto. Havia-lhe feito um esforço sobre-humano para ficar ali sem fazer nada, sem acariciá-la. Mas nesse momento, vendo-a sem maquilhagem, tão jovem, tão inocente, sentia que o sentimento de amparo desaparecia. A mulher sofisticada e comprometida que havia conhecido tinha desaparecido e tinha deixado em seu lugar uma mulher mais suave, mais amável e muito mais desejável.
Ginny podia sentir o calor da sua mão através da toalha, apertando contra as suas costas e sentiu-se estremecer. As mensagens sublimes que o seu corpo tinha estado enviando eram muito mais descaradas. Percorreu os lábios com a língua e suas pupilas se dilataram, ocultando parcialmente a cor dourada dos seus olhos, justo antes dele juntar os seus lábios com os dela, fazendo que tudo o resto deixasse de existir.
Fê-la sentir-se segura.
Pela primeira vez em muito tempo havia um homem em quem podia apoiar-se, um homem que possivelmente, só possivelmente, faria com que as coisas fossem melhorar. Embora fosse só momentâneo, desfrutou da segurança que proporcionavam os seus braços, da possibilidade de escapar do mundo durante um momento e concentrar-se nos sentimentos que ele desatava.
Sentimentos que, até esse momento, Ginny não sabia que era capaz de ter.
Enquanto a língua de Draco deslizava pelos lábios de Ginny, não havia na sua mente nem uma pergunta, nenhum tipo de vacilação. Sentiu-se como se estivesse caindo, em queda livre, com seu corpo a mercê dos elementos. Mas não sentia medo, só um maravilhoso sentimento de abandono, de liberdade. Devolveu o beijo, movendo sua língua de uma vez, saboreando-o, e apertou seu corpo contra o dele enquanto ele a tomava nos braços e a levava sem nenhum esforço através do quarto.
Deteve-se junto à cama durante um momento e olhou-a com luxúria mas também com preocupação.
-Tens a certeza?
A razão quase apareceu então, a prudência quase prevaleceu. Ela nunca tinha tido relações íntimas com nenhum homem, mas sua virgindade não era motivo de medo, nem nenhum tesouro escondido esperando o homem dos seus sonhos. As relações tinham ficado de lado por culpa dos exames, pela enfermidade do seu irmão, mas aí estava, às portas do descobrimento, e a prudência poderia ir para o inferno. A necessidade de sentir seu tacto, de fazer o amor com ele, estava-a desfazendo por dentro. Só queria que Draco a deitasse na cama que ambos tinham compartilhado e que a fizesse sentir como a mulher que era, explorando cada parte de seu corpo.
Estava certa que era aquilo que queria. O facto de ter odiado aquele homem toda a sua vida até momentos atrás nem passava pela sua cabeça.
Estava mais segura do que alguma vez tinha estado na sua vida.
-Faz o amor comigo, Draco.
O desejo em sua voz foi toda a confirmação que ele necessitava. Deitou-a na cama e sua respiração se acelerou quando abriu a toalha e o corpo do Ginny ficou exposto. Ele ajoelhou-se sobre ela e levou um de seus mamilos à boca, percorrendo-o com a língua enquanto ela lhe desabotoava a camisa e lutava com as suas calças. Precisava sentir sua pele contra ela, precisava vê-lo, senti-lo, e ele deu-se conta dessa necessidade, assim abandonou a suavidade dos seus peitos e se livrou da pouca roupa que ainda vestia. Atirou a toalha para longe de maneira a que não houvessem mais barreiras entre eles.
Quando lhe separou as pernas lentamente, Ginny sentiu um pouco de medo no seu interior. O peso do seu corpo sobre ela era o precursor do poder dele. Doeria, sabia que doeria, mas não sucumbiu completamente à dor, gritando enquanto ele a penetrava cada vez mais dentro, enroscando as pernas ao redor de sua cintura, querendo mais, mais dele.
Podia sentir-se a si mesma contrair-se abraçada a ele, e os primeiros espasmos do prazer a apanharam despreparada. Um calor imenso alagou seus peitos, suas bochechas, seu pescoço, seus ouvidos. O pulso lhe acelerava cada vez mais, cada espasmo sacudia o seu corpo. Ele deslizou as mãos debaixo ela e agarrou-a com força. Cada contracção dela o excitava mais ainda, e quando Draco soltou um gemido profundo e animal, o corpo do Ginny soube instintivamente como responder.
Depois, quando ela estava deitada em seus braços, com o cabelo sobre os peitorais fortes de Draco, a tempestade se converteu em calma. O seu corpo ainda tremia e soltou um suspiro enquanto desfrutava desse momento de paz.
Desfrutava da tranquilidade que tinha encontrado nos braços daquele homem misterioso de quem tanto ouvira falar e que agora parecia desconhecer completamente. Quem era Draco Malfoy? Certamente não era quem ela acreditara que ele fosse durante todos aqueles anos.
