— Ele está tentando me separar de você! – esbravejou Rebecca.

Encarei seus olhos que ela dizia ser cinza, mas eu enxergava azul. Seu cabelo era cheio de cachos volumosos, bem diferente do meu liso, escorrido e minguado. Nós andávamos pelo gramado do parque onde ela combinou de me encontrar. Eu tropecei numa pedra solta porque estava distraída demais olhando pra Rebecca incrédula.

— Tem noção do que acabou de dizer? Ele nem conhece a gente, Bequinha! Como pode estar tentando nos separar? E o mais importante, por que ele faria isso?

— Eu não sei, tá. – Ela balançou os cachos. – Só acho suspeito ele marcar a monitoria no dia do nosso handebol.

— Foi coincidência, além disso podemos achar outro dia pro handebol. Eu sou uma pereba nesse esporte, nem sei por que a gente pratica isso.

— É pela amizade, e você melhorou muito.

— Não tinha como piorar.

Consegui arrancar uma risada dela. Rebecca não tinha muitos outros dias disponíveis para o nosso esporte amigável, ela era uma pessoa mais ocupada que eu, então decidi deixar ela escolher o melhor dia. Eu só não podia nas segundas que era o dia da monitoria de biologia.

— Se você não fosse tão autruista... – Ela deixou a frase no ar.

— Isso é uma coisa boa. – Me ofendeu um pouco ser criticada por fazer a coisa certa.

— Você realmente se importa com essas pessoas? Ou só faz isso para se sentir inteligente? Seja sincera consigo mesma.

— Eu falo com você amanhã.

Comecei a andar mais rápido deixando Rebecca para trás, ela não tentou me alcançar ou fez qualquer tentativa de se desculpar. Aquilo era o cúmulo! Insinuar que eu ajudava os outros apenas para alimentar meu próprio ego. Minha intensão era fazer as pessoas conhecerem a sensação de tirar uma boa nota, e perceberem que com esforço e dedicação elas poderiam conseguir tudo. Claro que aquilo também me ajudava, cada vez que eu repassava a matéria ela se fixava melhor na minha mente e eu aprendia alguns detalhes que antes passaram despercebidos, era uma via de mão dupla. Eu me sentia inteligente, mas não me sentia superior. Rebecca era uma ótima amiga, mas eu havia notado que em algumas ocasiões ela agia com bastante insensibilidade. Como agora, dizendo coisas que podiam magoar sem nem se dar conta. Não tinha problema, ela voltaria ao normal no dia seguinte e nós continuaríamos sendo boas amigas. Mas nesse momento eu precisava esfriar a cabeça.

— Oi Maia! – Joseane acenou para mim.

Ela estava junto com Carlos e outros dois alunos da nossa turma. Eu não tinha muitos amigos além de Rebecca, só colegas com quem falava apenas o essencial.

— Oi – respondi sem saber se deveria parar e conversar mais ou se simplesmente ir embora seria considerado rude.

A dúvida foi sanada em tempo quando Joseane me convidou para participar do piquenique com eles. Eles abriram espaço para mim na roda. Sem cerimônia pequei um sanduíche e o desenrolei do papel alumínio, uma menina que eu achava se chamar Samantha me entregou uma caixinha de suco.

— Como eu dizia, às vezes me pergunto como certas pessoas chegaram no ensino médio. Eu preciso explicar a mesma coisa quatro ou cinco vezes pra que o indivíduo comece a entender – falou um garoto chamado Saulo.

— São pessoas com dificuldade de aprendizado – Carlos justificou.

— Sim, mas até a dificuldade tem limites.

— Saulo é monitor de matemática – Joseane explicou ao notar que eu não fazia ideia do que eles estavam falando.

— Você é monitora também, não é? – Carlos perguntou.

— Sim, de biologia, e agora sociologia também.

— Duas matérias? – Samantha se alarmou.

— É, mas só tem um aluno precisando de ajuda em sociologia.

— Quem? – Saulo quis saber.

— Caleb.

— Ah sim! O pedaço de mau caminho. – Joseane suspirou e os meninos reviraram os olhos.

— Ele é estranho, nunca vi ele falar com ninguém – Samantha comentou.

— Também nunca vi ninguém falar com ele. Talvez ele seja tímido – Carlos acrescentou.

— É, pensa bem, ele acabou de chegar e aparentemente não tem nenhum conhecido por aqui – Joseane argumentou.

— Então vamos falar com ele e descobrir se é isso mesmo – Saulo sugeriu.

— Você falou com ele? – Samantha voltou a me incluir na conversa.

— Não muito.

— Maia – Uma voz chamou atrás de mim. Me virei e encontrei Rebecca a pouca distância.

Achei que ela já tivesse ido embora, pedi licença ao grupo e fui na direção dela. Não trocamos uma palavra, apenas andamos lado a lado voltando para casa. Não era costume de Rebecca pedir desculpas, mas eu entendia seu silêncio como uma forma de se desculpar. Acontecia sempre que nos desentendiamos, ela ficava quieta ao meu lado apreciando minha companhia e pensando num jeito de se redimir que não envolvesse dizer "sinto muito".

— Fico pensando no porquê de não fazermos amizade com mais gente.

— As pessoas são estúpidas e nós somos as excessões – ela falou em voz baixa.

— Tenho certeza de que existem outras excessões por aí, precisamos procurar.

Ela deu de ombros não se opondo nem fazendo muita questão. Rebecca era uma garota bonita e não tinha problemas para falar obque lhe vinha a cabeça, muita gente ia gostar do seu jeito de ser, não sei o motivo dela não ter amigos além de mim. Talvez estivéssemos ocupadas demais uma com a outra para incluir terceiros no nosso grupo de amizade. Chegamos na minha casa e Rebecca se despediu de mim prometendo achar outro horário para o handebol, levei aquilo como uma trégua e disse que cobraria isso dela mesmo que fosse péssima no esporte.