"Yume, não chore."
-Onii-chan...
Não era sempre que víamos uma garotinha pequena andando pela vila oculta da Areia no meio da noite. Ela vestia um Kimono laranja, e segurava um casaco enorme. Era ruiva e tinha os cabelos muito curtos, com olhos roxos e expressivos. Estava à procura de seu irmão mais velho:
-Onii-chan...onii-chan...
Estava ventando e a garotinha sentia frio. Mas parecia persistir na idéia de procurar o irmão. Bem no fim da vila, havia uma montanha, onde os Jounins iam para treinar sem prejudicar ninguém. Deduziu que seu irmão poderia estar ali. Como não era ninja, teria enorme dificuldadeem subir até o fim. Mas não era por isso que iria desistir, então, começou a subir.
A pequena demorou mais de uma hora para chegar ao topo, mas valeu a pena, pois seu irmão estava lá, sentado e olhando para o deserto.
-Onii-chan!
O homem era igualmente ruivo, e tinha um ar frio e solitário. Estava fazendo muito frio e ele estava usando apenas uma camiseta fina. A garotinha correu até ele e falou, entregando o casaco:
-Sasori-onii-chan, vai pegar um resfriado!
Sasori olhou para ela um pouco surpreso. Estava tão distraído que não havia percebido a presença da irmãzinha.
-Yume.
Yume sorriu gentilmente e cobriu o irmão com o casaco. Ele percebeu que ela também estava com frio e desagasalhada. Levantou-se e a cobriu com o casaco também. A criança tocava acima do joelho dele.
-Yume, você também pode pegar um resfriado. E está toda suja.
Yume agarrou a perna do irmão, procurando se aquecer. Este acaricia sua cabeça e a carrega no colo, para voltarem para casa.
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-Onde vocês estavam?!?!?!?!?!?!?!
Sasori e Yume, após chegarem na porta de casa, levavam uma bronca de sua avó, Chiyo. O mais velho parecia ignorar o sermão, mas a mais nova escutava tudo, assustada, escondendo-se atrás dele.
"Yume sempre teve medo de nossa avó, apesar dela ter a criado a vida toda."
-...e ainda por cima, poderiam ter pegado um resfria...
-Obaa-sama.-Interrompeu Sasori- A culpa foi minha. Demorei para voltar, e Yume foi levar um casaco para mim.
Um breve silêncio apoderou-se da sala.
-E onde esteve, se está ocupado com suas experiências?
-Parei um pouco para treinar.
Chiyo olhou-o de cima a baixo, desconfiada. Suspirou e respondeu:
-Tudo bem, tudo bem... Yume, está na hora de dormir...
Ouviu-se passos descendo a escada que levava ao segundo andar. Um homem muito velho apareceu. Rapidamente, Yume largou as vestes do irmão e correu até o senhor:
-Ojii-chan!!!
O velho abraçou a neta carinhosamente:
-Olá, Yume! Onde esteve?
-Eu estava levando um casaco pro Onii-chan!!!
-Ah, sério?
O velho olhou para o seu neto. Esse cumprimentou-o, fazendo uma reverência:
-Boa noite, Ojii-sama.
Sorriu:
-Boa noite, Sasori. Vem, Yume. Vou colocar você na cama.
-Hai!
Yume e seu avô subiram para o segundo andar, deixando Chiyo e Sasori sozinhos. Sentaram-se um em frente ao outro, em silêncio. Até a senhora quebrá-lo:
-Sasori. Você sabe que sua experiência é importantíssima para o futuro da vila. Mas parece que você é sustentado por outros motivos.
-Eu sei.
-Se você conseguir fazer os bonecos se...
-Eu sei.
O ruivo levantou-se bruscamente e subiu para o segundo andar. Passou pelo quarto de Yume e encontrou-a dormindo. Fechou a porta e foi para o seu quarto, logo ao lado. Entrou e sentou na sua escrivaninha. Havia um pequeno boneco de madeira, com cabelos pretos e vestindo um retalho igualmente preto.
Sasori conscentrou chakra em sua mão direita e tocou no boneco. Este tremelicou por um tempo e caiu. Suspirou e deitou na cama.
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Yume acordou e foi direto para a sala, tomar o seu café da manhã. Encontrou apenas os seus avós sentados à mesa:
-Bom dia, Jii-chan, Baa-chan...
Ambos responderam:
-'Dia...
A pequenina passou os olhos por toda a casa, e perguntou:
-Cadê o Onii-chan?
Sua avó respondeu:
-Já saiu.
Não se surpreendeu com a resposta, pois nunca encontrava seu irmão pela manhã. Sempre teve curiosidade em saber por que ele saia tão cedo, mas tinha medo da reação da avó se perguntasse alguma coisa do gênero. "Acho que vou sair para passear..." pensou. Despediu-se dos avós e pôes-se a caminhar pela vila.
Do outro lado da vila, onde Yume mal conhecia, estava acontecendo uma feira. Ela adorava feiras, então, decidiu observá-la. Mas acabou se perdendo no meio de tanta gente:
-Aaah...onde eu estou?!
Sentiu alguém agarrá-la pelo braço. Como impulso, gritou:
-AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!
Quando parou para observar quem era, imediatamente parou de gritar:
-Onii-chan!
-Yume.
Sem dizer mais nada, Sasori carregou sua irmãzinha e a levou para um local muito escuro e assustador.
-Onii-chan...que lugar é esse?
-É o meu local de trabalho...
Quando acendeu as luzes, Yume pôde ver milhares de bonecos cobrindo as paredes da sala inteira. Eram bonecos assustadores, que a fez ficar com medo. Estavam equipados com armas até os dentes. Ainda carregando a mais nova, Sasori levou-a até uma mesa e colocou-a sentada nesta. Acaricios o rosto dela e disse:
-Você parece uma bonequinha,Yume.
Yume ficou levemente ruborizada:
-Mas eu não sou de madeira!
O mais velho sorriu, e respondeu:
-Claro que não...mas seria eterna se fosse...
Ficaram calados por um tempo, um olhando para o outro. Yume era apenas uma criança, não compreendia direito o que o irmão queria dizer:
-Onii-chan...os bonecos falam?
-Não...
-Mas eu fui no teatro e a bonequinha falava!
Sorriu:
-Aquilo é de mentira...
Yume ignorou o comentário do irmão e continuou:
-E os bonecos chamavam o moço que criou eles de Danna!
-...
O silêncio retornou. Sasori voltou seus olhos para seus bonecos favoritos, que possuiam uma forma mais humana. Olhava-os com uma expressão melancólica em seu rosto, algo que nem sua irmã deixou de perceber:
-Os humanos são...tão belos...por que tem que morrer?
"Ela não entenderia o mínimo do que eu estava falando, mas..."
-Não seria maravilhoso... se a Arte fosse eterna?
Yume olhava para o irmão sem compreender. Mas estava se assustando. Perguntou:
-Onii-chan, você quer que eu seja uma boneca?
"Será que ela havia compreendido? Yume tinha uma beleza diferente, muito diferente. Algo que um dia desbotaria, se acabaria. Não, aquilo deveria ser para sempre."
-Onii-chan, então eu vou ser uma boneca!
Sasori observou a irmã. Estaria falando sério?
-Yume...
-E vai te chamar de Sasori-danna! Aí, eu ficar que nem a bonequinha que o Sasori-danna quer que eu seja!
Ela não havia entendido. Mas não importava. O ruivo aproximou-se de um pequeno armário e retirou uma boneca de pano com um vestidinho cor-de-rosa. A boneca era parecida com Yume.
-Olhe, Yume.
Sasori novamente conscentrou seu Chakra nas mãos, e fez a boneca se mexer um pouco.
-Uáááá... é igualzinha à mim!
-Sim...é igual a você, né?
A boneca caiu nas mãos de Sasori, que entregou a boneca para a irmã:
-Tome, pode ficar...
Yume sorriu e pegou a boneca.
-Arigatou, Sasori-danna!!!
O mais velho tornou a observar todos os bonecos da sala. E pegou dois deles.
-Olhe, esse é o Karasu, e essa, a Kuroari.
A mais nova se encolheu de medo. Eram dois bonecos assustadores. Lembrava-se de uma miniatura de Karasu no quarto de seu irmão. Sempre assustou-se com aquele boneco.
-Sasori-danna...tô com medo...
Sasori Sorriu, e tornou a guardar os bonecos. Voltou a olhar para Yume e disse:
-Sabe o que eu vou fazer com esses bonecos?
-O quê?
-Vou fazer eles se mexerem sozinhos, aí, usaríamos menos chakra nas lutas. Não é legal?
-O que é cha...cha...chakura?
-Ahaha...Chakra. Mesmo que eu explique, você não ia entender...
-Hm...
-Vem, vou te deixar em casa.
-Hai! Sasori-danna!
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Por vários dias, Sasori não apareceu em casa, nem dava notícias. Yume ficava cada dia mais preocupada com o seu "Danna". Chiyo recusava-se a deixá-la sequer sair de casa, ou seja, ficava o dia todo trancada em seu quarto. Sua única companhia era a boneca que Sasori havia lhe dado de presente.
Meses se passaram. Nada. Nem uma única notícia. Yume decidiu fugir pela janela à noite, e foi o que fez. Amarrou vários de seus kimonos simples e desceu pela janela. Caminhou até chegar ao local onde trabalhava seu irmão. Estranhou, pois as luzes estavam apagadas. Adentrou o local. O que viu decididamente não foi o que ela esperava.
O local estava queimado, todos os bonecos destruídos, reduzidos a carvão e pó. A garota deixou sua boneca cair no chão. Gritou:
-Sa...sa...SASORI-DANNAAAAAAA!!!!!!
Sua voz ecoou por toda a sala, mas ninguém respondeu, o que foi um alívio para Yume. Foi até o meio, onde ficava a mesa, que agora estava reduzida a carvão. Passou-se um tempo e começou a ouvir passos vindos de fora. Olhou para trás e viu seu irmão, vestindo uma capa preta que cobria boa parte do corpo. Transbordando de felicidade, correu para abraçar o irmão:
-Sasori-danna!!!
Agarrou a barra de sua capa, delicadamente. Sasori retribuiu o abraço, mas a olhava com uma expressão séria. Yume inclinou a cabeça para olhá-lo. Foi então que ele disse:
-Não se aproxime mais desse lugar...
"Ela não se aproximaria mais dali. Nem eu. Nunca mais."
Ela não gostava da expressão que ele apresentava. Ele parecia triste, inconsolável. Algo que a fazia se entristecer também.
-Por...quê?
Sasori sorriu. E respondeu:
-Porque eu já concluí a pesquisa.
Retirou parte de sua capa e mostrou seu tronco para Yume. O que ela viu a fez desmaiar pelo choque.
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Chiyo estava berrando por todos os lados, procurando os netos. Seu irmão tentava acalmá-la de todos os jeitos, mais não estava adiantando.
-QUANDO EU ACHAR AQUELES DOIS EU...!!!
Parou de gritar quando avistou Sasori carregando Yume a poucos metros de onde eles estavam. Yume estava com os olhos arregalados, e não estava piscando. Os velhos se aproximaram e perguntaram o que houve.
-Ela se assustou...com o resultado...
Chiyo observou a parte descoberta do corpo de Sasori.
Não era humano.
Era um boneco vivo. Seu neto. Seu próprio neto. Transformou a si mesmo em um boneco. Suas articulações estavam evidentes. Seu corpo era madeira pura e fina.
"Qual seria a sensação... de ver alguém se transformando num... monstro? Yume..."
Chiyo manteu a calma:
-Sasori, o que significa isso???
Sasori fitou-a com um olhar obsessivo, mas ao mesmo tempo não deixava de ser sereno:
-Meu...resultado...
Yume, aninhada nos braços frios de Sasori, piscou duas vezes, e olhou para o rosto do irmão. Tocou-o. Estava frio.
-Saso...ri...-dan..na...
Mas ela ainda sentia uma pulsação. Conseguia ouvir o coração dele. Não conseguiu ver direito, mas uma peça a parte e seu corpo, onde um kanji estava gravado, era diferente.
Começou a chorar desesperadamente. O silêncio reinou sobre os quatro. Ouvindo-se apenas o choro de Yume. Chiyo quebrou o silêncio, e disse:
-Você...enlouqueceu!
Sasori fitou sua irmã. Sem olhar para a avó, respondeu:
-Talvez...quem sabe...sabe Obaa-sama...eu não aguento mais ficar aqui...
-O QUE ESTÁ DIZENDO!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!
Sem responder, Sasori jogou-lhe dois pergaminhos verdes com faixas vermelhas:
-Pegue. Não preciso mais deles.
Chiyo agarrou os pergaminhos. Sabia o que era. Yume ainda chorava desconsoladamente, agarrou as vestes do irmão e perguntou, entre soluços:
-Sasori-danna...o que aconteceu...? Sasori-danna...
Sorriu tristemente para a irmã mais nova. Respondeu:
-Eu não consegui...fazer outros bonecos se mexerem...então...eu desenvolvi um kinjutsu. Resolvi testar em mim mesmo. E funcionou. Agora eu sou meio boneco, meio humano. Um semi-imortal. Não é maravilhoso?
Mal acabou de falar, e vários ninjas da ANBU da Areia apareceram e cercaram-no. Chiyo havia os convocado.
-Podemos recuperar seu corpo, Sasori. Entrege-se.
Sasori respondeu:
-Nunca.
Com rapidez, matou todos os ninjas da ANBU, e nocauteou seus avós. Yume assistira a tudo, desmaiando em seguida.
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Yume acordou, um pouco tonta. Ainda era de noite, mas ela não estava na vila da Areia. O local era cercado por uma floresta. Levantou-se e viu que estava em uma pequena casa de chá.
-Já acordou, Yume?
Virou e se deparou com seu irmão mais velho:
-Sasori-danna...
Aproximou-se de seu irmão e tornou a tocar em seu rosto. Ainda estava frio. Não havia sido um sonho ruim.
Sasori acariciou a cabeça dela, sorrindo daquele jeito melancólico.
-Eu sei que você está com medo de mim.
"Não...não era medo, Sasori-danna... a última coisa que eu sentiria de você é medo!"
Yume negou com a cabeça:
-Eu não tô com medo...não tô...
Lágrimas voltaram a cair.
O ruivo olhou para a lua e falou:
-Eu vou...sair por algum tempo...e vou te deixar aqui.
A mais nova olhou-o atentamente.
"Vai me abandonar? Me diz, Sasori-danna, para onde você está olhando?"
-Nã...nã...
-Não me impeça, Yume. Eu voltarei pra te buscar.
"Era mentira."
Levantou-se e fitou a irmã última vez. Ela pôde reparar que ele estava vestindo uma capa diferente. Era preta e decorada com nuvens vermelhas. Sorriu:
-Yume, não chore...
Deu um salto e sumiu por entre as árvores.
-Sasori-danna...sasori-dan...
Deu uma pausa e gaguejou. Ajoeçhou-se e começou a chorar:
-ONII-CHAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAANNN!!!
"Adeus."
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"Meu ânimo de viver, de expressar emoções, era zero. Zero. A dona da casa de chá generosamente permitiu que eu vivesse lá, desde que não causasse incômodo. As vezes eu ia passear na floresta. Um dia acabei me perdendo e indo mais além. Ouvi sons de chutes, socos, árvores caindo. Já era tarde da noite e a lua iluminava o local. Parei para observar. Era um garoto. Loirinho, olhos azuis. Muito bonito. Parei e fiquei observando-o.
A expressão de seus olhos lembrava-me aos de Sasori-danna... me aproximei, nãodeixando que ele visse o meu rosto."
-Para onde está olhando?
"Ele me pareceu irritado. Mais me respondeu."
-Para você, que me chamou a atenção.
"Ele era muito belo. Conversei um pouco mais com ele. E acabei irritando-o."
-É mesmo? Me desculpe.
"Por um momento, o vi paralisado. Mas ignorei e voltei correndo para a casa de chá. O que eu não sabia...é que eu poderia encontrá-lo de novo depois de tantos anos...e acabaria morrendo por ele."
CONTINUA...
Deidara está à procura de Sasori. Sasori está envolvido em uma organização.
Quero agradecer aos que mandaram reviews, muito obrigada mesmo!
No caso de Sasori e até mesmo de Deidara, não quero fazer uma história muito enigmática, para não interferir com a obra original. Até achei este capítulo uma espécie de "Tiro no Escuro", pois achei que ficou bem U.A. Mas isso não importa. Estou gostando de escrevê-la. n.n
Muitíssimo Obrigada
KiNdOu HiRuMo
