Minha irmã estava morta.

Eu ainda não sabia muito bem como processar isso. Angela era tudo que me restava e agora ela se foi.

Eu me sentia culpada. Havia perdido todos os momentos importantes, seu casamento, nascimento dos filhos, o primeiro aniversário... Eu sempre estava ocupada demais para poder ir visitá-la. Motivo esse que nos rendia várias discussões. Eu nunca estive presente na vida dos seus filhos, havia visto os gêmeos somente duas vezes.

O policial que me ligara havia dito tudo. Acidente de carro, parecia até ser uma maldição de família. Os dois haviam ido para Seattle fazer compras quando um animal apareceu na frente do carro e não puderam desviar, o engraçado é que ela odiava compras.

Eu não sei se era por causa do choque ou se eu estava ficando realmente louca. Mas assim que desliguei o telefone comecei a rir. Podia sentir minhas lágrimas caindo por meu rosto, não lembrava a última vez que chorei, acho que no enterro dos meus pais.

Mas isso não importava agora. Minha única irmã, a única família que me restava, havia ido e não a veria nunca mais.

Antes que eu pudesse perceber já estava em um avião em direção a Forks. Durante todo o caminho minha mente estava em branco, não sabia o que pensar. A ideia de ver Angela dentro de uma caixa de metal cercada de flores me apavorava.

Como deveriam estar as crianças? Será que como eu quando soube a morte dos meus pais?

Ninguém havia me contado nada sobre eles. Será que já estavam sabendo?

Eu realmente nunca havia parado para pensar nos dois pequenos pedaços de Angela que ficaram no mundo. Tudo o que eu sabia sobre Louise e Ryan era pouco, somente pelo que Angela me descrevia nos telefonemas. Louise era animada e elétrica, como se fosse ligada 24 horas na tomada, já Ryan era calado e um pouco tímido, o que fazia minha irmã sempre agradecer por isso. Ela não aguentaria duas crianças fora do controle.

Era exatamente por isso que eu não queria ter filhos.

Quando cheguei a Seattle estava chovendo, por um momento eu havia esquecido o constantemente clima daqui.

Preferi pegar um táxi, eu não estava em condições de dirigir.

Lembro-me que sempre achei esse caminho longo. Quando eu me mudei para New York pareceu ser uma eternidade até chegar ao aeroporto de Seattle. Hoje, porém, o caminho pareceu curto, algum tempo depois nós já estávamos em Forks, acho que eu estava tentando evitar ao máximo o que veria a seguir. Era engraçado como o tempo passava rápido quando não queríamos.

Forks continuava igual ao que me lembrara, excessivamente verde e vazia, especialmente hoje.

Preferi não ir para casa, queria enfrentar a realidade o quanto antes. Logo o taxista parou em frente ao pequeno cemitério, havia algumas pessoas do lado de fora. Reconheci uma delas, Gianna a irmã de Eric, estava abraçada a uma mulher chorando copiosamente.

Tive que respirar duas vezes antes de sair do carro.

A maioria das pessoas ali me era desconhecida ou eu não lembrava. Alguns murmuravam seus pêsames, mas eu estava aérea a isso, a única coisa que conseguia ver eram os dois grandes caixões perto do túmulo.

Meus pés pareciam pesados, como se pensassem dez vezes mais do que o normal, meu coração eu já não podia controlar, podia sentir meus dedos gelados. Eu não conseguia mais andar, eu estava tremendo? Talvez estivesse... Não sei, o mundo havia parado ali para mim.

Havia uma foto em cima do caixão. Eles estavam abraçados, sorrindo, os olhos de Eric pareciam estar quase fechados por causa dos seus traços orientais, as maçãs do rosto de Angela coradas, o brilho em seus olhos... Era como se ainda estivesse viva.

Alguém, que não sei, me ajudou a sentar. Podia escutar sua voz longe, mas não conseguia entender bem o que. Meus olhos não conseguiam sair da caixa onde minha irmã estava presa. Morta.

Exatamente como eu me sentia.

–-

O enterro havia sido rápido.

Eles só estavam me esperando chegar para poder enterrá-los. Por um lado eu estava aliviada por não ter que ver Angela de olhos fechados, sem vida. Por outro lado não pude dizer o meu adeus, não ver seu rosto pela última vez.

Os pais de Eric foram muito gentis ao me deixar ficar em sua casa. Ainda não me sentia preparada para entrar na minha antiga casa e vê-la vazia. Depois da morte dos nossos pais Angela se mudou para a casa deles, foi a única herança que eles haviam deixado para nós e ela não queria vendê-la.

Agora eu não sabia o que fazer com aquela casa.

– Tome aqui querida. Isso vai lhe fazer bem – a voz de Maggie, mãe de Eric, me fez acordar e percebi que ela trazia em suas mãos uma xícara.

Ela era uma senhora gentil. Apesar do seu olhos tristes, ainda me mostrava um sorriso, talvez estivesse sentindo alguma compaixão por mim. Ela ainda teria seus outros filhos e marido para a consolarem, ela conseguiria seguir em frente. Já para mim isso seria um caso diferente.

– Obrigada.

– Precisamos conversar sobre as crianças - as palavras de Gianna me fizeram olhá-la com atenção.

– Oh sim, as crianças. Havia esquecido delas, onde estão? – perguntei e todos os presentes na sala olharam receosos para Maggie.

– Bella querida, precisamos conversar - suas mãos pegaram as minhas com gentileza – Nós achamos um documento na casa de sua irmã que lhe dava a custódia das crianças em caso de morte.

A surpresa era evidente em meus olhos. Eu não estava tendo certeza no que ouvia, Angela não seria capaz disso. Ela nunca havia me dito nada sobre isso. Era um engano.

– Isso é um engano - afirmei. Eu não conseguia cuidar nem de mim mesma, como iria criar duas crianças?

– Não é, podemos te provar se quiser. Mas não se preocupe, podemos ficar com as crianças se quiser, só temo que demore um pouco. Sabe como é toda aquela burocracia...

Fechei os olhos por um momento, voltando a morder os lábios, hábito que eu havia parado há muito tempo. Pela primeira vez em anos eu estava hesitando em uma decisão, o que fazer?

– Eu... Eu preciso pensar - disse lhes de uma só vez.

– Compreendendo querida. Te daremos todo tempo necessário para pensar.

– Eu posso vê-las? As crianças? - o sorriso que ela abriu foi enorme.

– Claro, mas acho que elas podem estar dormindo agora...

– Não tem problema. Eu só quero vê-las um pouco.

– Tudo bem. É só subir a escada, segunda porta a direita.

– Obrigada.

Foi difícil, para mim, abrir a porta. Era como se eu estivesse tomando um novo rumo, uma grande decisão, o que não deixava de ser verdade. Pois o que eu encontrasse do outro lado da porta decidiria o meu futuro.

Não me sentia preparada para ser responsável por duas crianças, de duas vidas. Eu mal me alimentava bem! Que futuro esses meninos iriam ter?
Acho que o que me fez abrir aquela porta não foi o medo que sentia, mas sim porque queria provar a mim mesma que por tudo que Angela se sacrificou valeu a pena, e eu queria ver isso com meus próprios olhos.

Absolutamente nada me preparou para o que veio a seguir. A última vez que eu havia visto os gêmeos eles ainda eram bebês, eles não pareciam em nada com Angela. O menino, Ryan, parecia ser uma miniatura do pai, os olhos puxados, bochechas gordinhas, cabelo preto liso e os traços orientais predominavam, talvez a única coisa que puxara de sua mãe havia sido os olhos castanhos, assim como os meus.

Já Louise era uma mistura, os cabelos castanhos havia puxado da mãe, o rosto delicado lembrava-me o de Renée, minha mãe. Os olhos, que eu havia visto ao nascer, eram os da vovó Swan, o pequeno nariz arrebitado era parecido com o meu e as faces gorduchinhas com certeza havia herdado do pai.

Eles não pareciam ser gêmeos, eram tão diferentes...
Sem que eu percebesse eu já estava ao lado da cama, onde os dois estavam deitados. Meus dedos corriam pela face de Louise, ela parecia ser tão frágil, como uma boneca de porcelana.

– Você é a fada do dente? – meu corpo congelou por completo ao ouvir aquela doce voz infantil. Estava tão perdida em pensamentos que não percebi as duas orbes verdes me fitando com intensa curiosidade – Você não parece ser a fada do dente...

– Eu não sou a fada do dente – disse-lhe sorrindo – Não me reconhece?

Seus olhos curiosos me fitaram, pensativa. Suas pequenas mãos delicadas seguraram meu rosto, parecendo examinar-me?

– Você é a tia que nunca vem – afirmou convicta parecendo orgulhosa, provavelmente por ter lembrado de quem eu era – Acorda Ryan. A tia que nunca vem está aqui.

Antes que eu pudesse fazer algo ela estava balançando o irmão, o que o fez acordar imediatamente. Eu fiquei um pouco confusa com o comportamento de Ryan, quando o garoto percebeu a minha presença seu corpo se retraiu, inclinando-se para trás, parecia com medo?

– Oi Ryan, eu sou a tia Bella, lembra de mim? – disse tentando acalmá-lo. Não havia entendido seu comportamento. Sua cabeça balou afirmativamente, mas a tensão ainda presente.

– O que a senhora faz aqui? Mamãe disse uma vez que você só apareceria quando o mundo estivesse acabando... O mundo está acabando? – Louise olhou ao redor franzindo as sobrancelhas e suspirei. Isso não estava sendo fácil...

– Não, o mundo não está acabando. Eu vim aqui por causa do... Do que aconteceu aos pais de vocês.

– Ah... – seus olhos desviaram de mim por um momento – A mamãe e o papai foram para o céu não foi?

– Sim, eles foram – admitir isso foi mais difícil do que pensei. Ryan não me olhava nos olhos, mas eu podia perceber seus olhos baixos, tristes.

– E eles vão voltar?

Foi ali, olhando para seus olhos esperançosos, que eu tomei a minha decisão. Eu não conseguia entender o motivo para Angela ter me dado a guarda das crianças, haviam muitas pessoas melhores que eu, pessoas que poderiam fazê-los felizes e ter uma vida normal. Não, eu nunca conseguiria entende-la.

Mas seja qual for o motivo, ela acreditara em mim, e eu deveria fazer o mesmo.

– Não, eles não vão voltar – meus braços os envolveram. Foi um abraço estranho, desajeitado. Os dois não esperavam por tal ato, eu mesma não esperava, pude sentir seus corpos hesitantes, mas aos poucos a tensão diminuiu e eles se entregaram aquele abraço, assim como eu – Mas eu vou cuidar de vocês agora. Eu prometo.