Capítulo 02 – Surprise-me

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E tudo tinha acontecido em um curto espaço de tempo. Ele não podia explicar muito bem o que na verdade não tinha explicação. Kouyou só achava que não havia mais nada a perder.

Então, quase como uma rebeldia, uma tentativa inútil de provocar ciúmes, decidiu sair com o moreno que ficava sempre na saída do colégio observando-o. Talvez se alguma coisa de errado acontecesse, Akira voltasse a direcionar toda sua atenção a ele e tudo estaria resolvido.

Kouyou sabia o quanto o pensamento era errado. Mas não se importava.

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O silêncio na mesa do pequeno café chegava a ser constrangedor. O estudante loiro estava longe de se sentir confortável sob o olhar minucioso do rapaz a sua frente e já começava a se arrepender de ter tido a idéia absurda de aceitar o convite nada casual de ir tomar café com ele.

- Não vai nem me dizer seu nome?

- Takashima Kouyou – respondeu de súbito, a voz firme e calma camuflando todos os seus receios.

O moreno sorriu, quase felinamente e Kouyou podia até adivinhar que tipo de pensamentos ele estava tendo.

- Shiroyama Yuu – e o sorriso que seguiu ao nome foi tão perfeito que por um instante fez o outro esquecer que deveria ficar alerta.

Calmamente, o garoto loiro pegou sua xícara com café e tomou um gole pequeno apenas para se certificar da temperatura, enquanto tentava ignorar o olhar sobre si.

- Eu estou intrigado... – o moreno arqueou uma sobrancelha e inclinou um pouco o rosto para frente, apoiando o braço na mesa, perguntando de forma divertida. – O que fez você mudar de idéia e aceitar o meu convite? Consegui te vencer pelo cansaço?

- Não. Apenas tédio – respondeu, a voz ainda firme, surpreendendo Yuu com a resposta tão rápida. – Estou curioso em ver a até que ponto você pode ir. Então, por favor, não me decepcione e nem me deixe entediado.

Shiroyama por muito pouco não engasgou, conseguindo controlar sua reação desconcertante a tempo. Seria ridículo, pra não dizer coisa pior, se portar desse jeito na frente de um estudante. Era o garoto que devia estar desconcertado e não ele. Mas a resposta tinha dado margem para sua cabeça trabalhar em pensamentos nada castos.

E o quê o deixava mais chateado era que o outro parecia nem um pouco incomodado com suas palavras. Não que esperasse que ele corasse timidamente, mas toda aquela segurança deixava a impressão de que todas as intenções de conquistar o rapaz não teriam o menor efeito.

Yuu não estava nem um pouco acostumado com isso. Sem saber que a arma mais eficaz do estudante a sua frente, era justamente agir com frases dúbias e que deixariam caras como ele sem saber o que dizer.

Trocaram poucas palavras e o moreno, travado como nunca ficava, tinha certeza que tinha entediado o loiro com suas frases vazias e seu ar que tinha se tornado contrariado com o jeito petulante de Kouyou.

Mas nada disso o impediu de estar na saída do colégio, como já havia virado rotina, no dia seguinte, arriscando chamá-lo novamente para um café.


Kouyou andava relativamente contente. Ele não era hipócrita de negar que gostava dos olhares de admiração, mas ele não ligava ou se importava em tentar reparar. Mas agora ele estava realmente contente por ter chamado atenção de alguém como Shiroyama, mesmo sem saber dizer por que o moreno o extasiava tanto com seus olhares.

E agora ele tinha toda a atenção de Reita voltada para si novamente. Ele sabia o quanto estava sendo egoísta preocupando o amigo daquele jeito só para ter a atenção dele. E apesar da culpa em alguns momentos, aquilo não diminuía sua alegria interna quando o loiro da faixa perguntava com um semblante sério, sobre o rapaz moreno que aparecia de carro todo final de tarde em frente ao colégio.

- Eu não gosto dele – Akira resmungou largado em uma cadeira, enquanto Kouyou arrumava as anotações espalhadas na mesa do grêmio. – Alguma coisa no jeito dele...

- Eu já disse que você não tem com o que se preocupar. Eu estou saindo com ele há uma semana e ele não fez absolutamente nada, nem me beijou ainda – o loiro mais alto tentou falar em um tom tranqüilizador, mas sua voz estava veladamente travessa. – E eu nem sou uma garota para ele me tratar desse jeito... Eu realmente achei que ele fosse tentar algo logo no nosso primeiro encontro, fiquei decepcionado.

Ele não mentira em nenhum ponto. Apesar dos olhares maliciosos, Yuu nem sequer o tocava, algumas esbarradas de mãos casuais e alguns toques leves quando precisava chamar a atenção dele, tudo necessário e claramente sem segundas intenções. E ao mesmo tempo em que achava isso divertido, por outro lado estava começando a se sentir frustrado.

- Eu não sei, Kou-chan... Talvez ele esteja te manipulando.

- Me manipulando? – lançou um olhar ainda mais divertido a Akira. Era mais fácil ele estar manipulando Yuu do que o contrário.

- Eu conheço você bem demais, Kou-chan. E ele pode ter percebido que você não vai agüentar muito tempo ficar nesse joguinho de encontros inocentes – Akira levantou, colocando a mochila nas costas ao ver o loiro ir até o seu lado e fazer o mesmo. – E talvez ele prefira que você o 'ataque' do que o contrário. Assim ele se exime de culpa.

- Culpa?

- Você ainda é de menor... Não que eu ache que alguma medida legal fosse tomada contra ele, você não é uma criança e como disse antes, não é uma garota. E não é como se ele também fosse absurdamente mais velho... Mas acho que é só pra descarrego de consciência, entende? – Akira abriu a porta e foi seguido por Kouyou.

É, fazia sentindo. Pelo pouco que tinha observado de Yuu aquilo encaixava perfeitamente com ele.

- Bom, eu realmente não me importaria com as intenções dele. Não é como se as minhas fossem diferentes.

O loiro da faixa lançou um olhar preocupado a ele, mas decidiu não dizer mais nada a respeito de suas deduções. Kouyou nunca tinha se apegado a ninguém mesmo, talvez estivesse se preocupando a toa.

- Mas se ele fizer qualquer coisa que você não queira, me avise pra eu partir a cara dele.

Kouyou riu, negando com um aceno, seus olhos atentos ao movimento do lado de fora assim que chegaram ao pátio do colégio.

- Eu sei me defender, huh?

- Mas não gosta de se meter nesse tipo de confusão. Me ligue se precisar – disse, se afastando ao avistar o moreno com o piercing nos lábios, encostado no carro esportivo preto.

Kouyou continuou andando em frente, contendo o sorriso ao ver Yuu, tão perfeitamente displicente, apoiado em seu carro, um sorriso já formado no canto dos lábios ao ver o estudante.

- Aonde vamos hoje? – perguntou assim que chegou perto o suficiente dele.

- Cinema e depois eu te levo pra jantar. Você precisa chegar cedo hoje em casa?

- Chegando antes das onze meus pais não reclamam – respondeu e Yuu deu espaço para que ele abrisse a porta do carro, dando a volta e sentando no banco do motorista. – Mas por que você subitamente quer me levar ao cinema? – perguntou assim que o moreno entrou no carro.

- Não se faça de desentendido, Kouyou, isso não combina com você – o repreendeu de forma zombeteira.

- Estava tentando tornar as coisas mais divertidas... Não sei por que essas tentativas de encontros românticos e quase formais se você não faz nada.

Yuu riu com o tom ligeiramente indignado do mais novo. Largou o cinto de segurança para poder virar de lado e fitá-lo, suas feições um pouco cômicas ao ver o discreto bico nos lábios perfeitamente desenhados do outro.

- Você faz um péssimo juízo de mim, Kouyou.

- Talvez eu esteja fazendo mesmo... O que você queria que eu pensasse de alguém que ficou me perseguindo.

- Eu não fiquei perseguindo você – todo o ar divertido tinha desaparecido das feições do rapaz mais velho ao ouvir a última frase e ele parecia quase ultrajado ao responder. – Eu apenas observava você de longe, todos os outros passos você deu por conta própria.

Um click baixo se fez na cabeça do estudante e ele conteve o sorriso ao ver que Akira estava certo.

- E você quer que eu continue dando todos os passos, não é? – perguntou, mesmo que já soubesse a resposta, inclinando um pouco o corpo na direção dele.

Yuu parecia confuso com a pergunta, o que fez o mais novo revirar os olhos. As vezes ele era tão lento e verdadeiramente inocente - essa última parte em raros momentos - que chegava a deixar o estudante culpado por saber que estava usando o moreno. Chamar atenção de Reita. Enciumar Reita. Esquecer Reita. Qualquer uma daquelas três opções servia.

- Eu não sei por que você tem tanto receio. Você não parece se importar com nada – murmurou, os olhos presos ao dele, seu corpo quase debruçado sobre o do moreno.

- O quê...? – e ele se xingou mentalmente, impaciente com a lerdeza de Yuu em um hora nem um pouco apropriada.

Com a mesma impaciência, se inclinou mais, fechando os olhos milésimos antes de pressionar os lábios contra os dele, gentilmente como se estivesse testando algo. O autocontrole de Yuu, provavelmente.

Mais aquele dia em particular o mais velho estava lento ao extremo e foi preciso que Kouyou invadisse a boca dele com a língua para que percebesse o que estava acontecendo.

E não havia mais hesitação em seus gestos quando correspondeu ao beijo sofregamente, como se estivesse necessitando daquele contato há um longo tempo. Suas mãos puxavam o corpo do estudante contra o seu, pressionando, talvez machucando devido a intensidade, mas ele não podia se refrear quando tinha os lábios macios com que vinha sonhado nos últimos dias, pressionando os seus.

Ele se esqueceu que devia se conter, todos os esforços de não assustar o loiro indo por água abaixo quando teve a língua sugada e as mãos dele segurando seu rosto.

Apertou a coxa do mais novo, sua outra mão buscando a pele dele quando adentrava a camisa, pressionando os dígitos e testando a textura com a ponta deles.

Kouyou arfou, parando o beijo e só então notando que estava quase no colo do outro, o espaço limitado do carro tornando a posição um pouco desconfortável. Agradeceu internamente por ao menos os vidros do carro serem escuros o suficiente para que ninguém visse aquela cena.

Yuu já corria os lábios suavemente pela sua garganta, fazendo-o ofegar baixinho em meio a um suspiro, os lábios entreabertos em uma tentativa de dizer algo. Mas antes tentou ordenar os pensamentos, tentando planejar os seus atos.

- Yuu... – chamou, estranhando o próprio tom de voz que mais parecia um ronronar manhoso. Levou as mãos até os ombros dele, em uma tentativa de afastá-lo com suavidade, apenas o suficiente para poder fitar o rosto do moreno. – Aqui é muito... sufocante – reclamou, uma das pernas em um ângulo incômodo.

O moreno riu suave contra seu pescoço, acariciando a pele antes de afrouxar os braços ao redor dele e indicar que voltasse a se sentar no banco.

- Posso mudar os planos do cinema, então?

- Me surpreenda, eu já disse – resmungou, se acomodando no estofado e ligando o som antes de colocar o cinto de segurança.

Yuu riu novamente, dando partida no carro.


- Certo, quando eu falei pra você me surpreender eu não achei que fosse tanto. E isso só me faz voltar a fazer mau juízo da sua pessoa – disse zombeteiro, os olhos observadores vasculhando cada detalhe do pequeno apartamento. – Até que você é organizado... – murmurou, acariciando os braços dele ao redor do seu corpo e contento um suspiro ao ter o pescoço beijado.

- Agora você não tem razões para reclamar sobre espaço e falta de ar... – murmurou no mesmo tom que ele, sua mão adentrando a camisa dele.

- Você não devia tirar sarro de um claustrofóbico – resmungou, atento as mãos de Yuu que pressionavam sua pele de forma prazerosa, admitindo a si mesmo que talvez as coisas estivessem saindo um pouco do seu controle. Não estava nos seus planos atiçar o moreno a ponto dele levá-lo até o seu apartamento.

A intenção de Yuu ficou ainda mais evidente quando teve suas costas pressionadas contra a parede e o pescoço sugado fortemente, provavelmente marcando-o.

- Hey... – murmurou em meio a um ofego, xingando-se mentalmente ao ver como sua respiração estava descompassada e que seu corpo começava a reagir aos toques de Yuu.

- Você quer que eu te surpreenda, Kouyou? – o moreno desafivelou o cinto do mais novo mesmo sem resposta.

- Hai... – murmurou, mordendo o lábio com força ao ouvir a própria voz. Estava se deixando levar por Yuu e agora já não tinha nenhum controle de suas ações ou das do moreno.

E o pior era admitir que não desejava ter mais nenhum controle.

– O quê... o quê você vai fazer? – perguntou ao ver o outro se abaixar, deixando beijos pelo seu peito e tórax até alcançar o cós da calça e se deter ali, erguendo o rosto para fitar o loiro.

- Surpreender você, Kouyou... – murmurou quase inaudível, um sorriso malicioso adornando os lábios cheios.

E Kouyou apenas manteve os olhos abertos a tempo de vê-lo descer o zíper da sua calça com a boca.

Continua...