2. Preparação

Agora que eu escolhera o meu destino, só havia uma coisa a fazer: enfrentar Scorpius e obrigá-lo a encarar a realidade. No entanto, estava certa de que não seria uma tarefa simples, visto que eu tinha de obrigá-lo a esquecer as suas anteriores certezas e a abraçar novos pontos de vista: os meus.

Estava já a caminho do Salão, quando estaquei a meio do corredor, subitamente gelada com o rumo dos meus pensamentos. Eu acabara de admitir para mim própria que iria tentar vergar o meu amado à minha vontade! Não estaria prestes a comportar-me como os Slytherins que o meu pai tanto odiava, aqueles que não olhavam a meio para atingir os fins?

Não, eu não iria ceder a esse impulso, por mais desesperada que estivesse! Se eu queria mudar o futuro da minha relação com o meu loiro, tinha de agir com a coragem da minha equipa, e não com a astúcia ambiciosa da sua. Contudo, uma dúvida não parava de me assaltar: conseguiria eu fazê-lo acertadamente? Eu estava tão cega pela minha paixão que não pensara bem no que estava decidida a fazer. Quase cometera o maior erro da minha existência! Não, eu não podia agir de cabeça quente; tinha de ponderar bem na questão e analisá-la de todas as perspectivas, de modo a escolher a opção correcta.

Entrei numa qualquer sala de aula abandonada e sentei-me no chão, com as costas apoiadas na parede. Fechei os olhos, apelando a toda a concentração e força de vontade que conseguia. Eu necessitaria de tudo isso e da coragem que, supostamente, eu possuía para me debruçar nas minhas recordações, procurando algo que me fosse útil.

Revi, vezes sem conta, o nosso último encontro. Não me demorei muito nas nossas ainda amigáveis e cúmplices conversas, nem tão-pouco no nosso único beijo. Em vez disso, avancei para a parte em que o confrontara com o seu plano, exigindo uma justificação. Revi a sua declaração de amor, sem evitar lembrar-me do desespero que lhe toldara a voz, como se receasse que eu não acreditasse nele. E não foi mesmo isso que eu fiz? Duvidei da franqueza do seu sentimento, obrigando-o a ter de decidir o que era mais forte: a sua parte Malfoy ou o seu amor por mim, apenas mais uma Weasley. Só agora me dava conta da impossibilidade do meu pedido, feito com o sangue a ferver com a traição e a cabeça toldada pelo ultraje.

Naqueles minutos em que estava ali sentada, isolada do mundo, consegui esquecer-me do meu ser e deslizar para a pele de Scorpius, numa tentativa de compreender o seu dilema. Nós pertencíamos a realidades contrárias: famílias antagonistas, equipas adversárias, educações contraditórias e meios de actuação opostos. Tentar que tudo isso convergisse num único ponto era quase tão impossível como voar até ao Sol numa reles vassoura.

Como se todas as diferenças que nos separam não fossem suficientes, ainda tínhamos de somar uma boa dose de intransigência e orgulho familiar. Eu, simplesmente, não conseguia imaginar o dia em que os nossos pais se sentariam à mesma mesa, falando amigavelmente e trocando impressões sobre o que quer que fosse. Acho que nem mesmo a felicidade dos filhos os levaria a esquecer as divergências do passado. Talvez a minha mãe e Mrs. Malfoy fizessem um esforço, mas não os homens.

Não vás por aí.

Sim, estava a escolher o caminho errado. Não era a felicidade das nossas famílias que estava em causa, mas sim a minha e a de Scorpius. Pela minha parte, estava certa de que só o conseguiria junto dele. E, pelo que me parecera, ele também pensava desse modo. Para tal, teríamos de nos isolar do mundo, concentrando-nos apenas em nós e no nosso amor.

Lembro-me de chegar a desprezá-lo. Contudo, isso foi muito antes de o conhecer, quando eu pensava que tudo o que o meu pai dizia era verdade. Mais tarde, quando entrei para Hogwarts e descobri que partilharia o meu quotidiano com ele, compreendi que a descrição do meu pai era quase falsa. Obviamente, não podia negar o seu orgulho e altivez, mas não consegui detectar qualquer rasto de crueldade ou traição no seu ser. No entanto, estas conclusões pertenciam a uma Rose jovem e inexperiente, que nunca desejara nem pensara tornar-se amiga de um Slytherin como ele.

Hoje, vejo-o com outros olhos. Um rapaz de fortes convicções, que deseja brilhar e ser recompensado pelo seu esforço. Um homem orgulhoso de si e dos seus, sempre um passo à frente dos seus adversários, com uma astúcia e ambição desmedidas. E, contudo, não passa de uma criança cujo valor necessita de ser reconhecido pelas pessoas que preza.

Talvez tenha sido por isso que ele desistiu: por temer a reacção da família. Ou, então, receava decepcionar-me, mostrando-se incapaz de deixar que o amor o subjugasse, relegando a inveja para um qualquer recanto de seu ser.

Eu estava disposta a derrubar as barreiras que nos mantinham verdadeiramente afastados. Não os obstáculos sociais e familiares, mas sim pessoais. Porque, no fundo, era isso que nos afastava: as nossas personalidades.

Tanto eu como ele éramos orgulhosos; a nossa última conversa provava isso mesmo. A desconfiança e a cautela também eram características que partilhávamos, já para não falar no grau de inteligência e de astúcia. As nossas semelhanças não paravam por aqui, contudo, de nada servia continuar a enumerá-las, sem qualquer propósito definido.

Por outro lado, havia bastantes aspectos em que divergíamos: eu era mais escrupulosa, ele mais ambicioso; eu importava-me com o bem-estar dos outros, ele relegava os outros para segundo lugar; eu admirava, ele invejava. No entanto, eu era mais carente, ele mais independente; eu deixava-me levar pelos impulsos, ele preferia que a razão o comandasse.

E depois de tudo isto, já chegaste a alguma conclusão?

Sim. Após descartar tudo o que rasgasse a esfera pessoal, eu debruçara-me sobre o verdadeiro problema. E descobrira. Descobrira que não eram as nossas equipas, famílias e amigos que nos separavam, mas sim nós próprios. Se eu caminhasse para Norte, ele iria para Sul. Se ele dissesse que gostava de Transfiguração, eu diria que amava Encantamentos. Os nossos passos eram contraditórios, porque ambos acreditávamos na impossibilidade da nossa relação. Nunca, nem que fosse por um só segundo, tínhamos pensado que poderíamos ficar juntos. Havia demasiadas incertezas entre um Malfoy e uma Weasley, entre um Slytherin e uma Gryffindor. E nós não queríamos dúvidas, não queríamos criar falsas esperanças. Exigíamos certezas, verdades absolutas e inquestionáveis, sem nos darmos conta de que pedíamos mais do que, na nossa simples condição de mortais, merecíamos. Só os Deuses vivem rodeados por um mar de veracidade e previsibilidade. Nós, meros humanos, temos de nos contentar com as incoerências da vida.

Levantei-me de um salto, pensando estar totalmente preparada para enfrentar o meu amor. Dir-lhe-ia tudo o que pensava, confidenciar-lhe-ia todas as conclusões a que chegara. E, então, poderia ser que ainda houvesse uma hipótese de impedir que o vento da discórdia apagasse a nossa chama.