CAPITULO 1: O NASCIMENTO DAS HERDEIRAS
A Rainha Serenity se encontrava descansando em seus aposentos. Estava sentada de frente para a janela, contemplando como a água brotava da fonte que presidia os jardins reais. A fonte era linda, no centro havia uma figura, representava a Serenity que fundou o Milênio de Prata, a primeira de uma larga geração. Na mão levava um cristal, da qual brotava a água, azul debaixo do reflexo do planeta Terra. Levantou a vista até aquela enorme esfera azul e branca e pensou em seus habitantes.
Que ignorantes... Viviam egocentricamente em seu primitivismo e se esqueceram de que mais alem da sua atmosfera havia planetas com vida inteligente. Melhor assim. Não queria misturar-se com aqueles bárbaros que comiam com as mãos, viviam em cavernas e maltratavam as mulheres. Lamentou ter enviado um embaixador a Terra com um tratado de paz. Os habitantes da Terra, aqueles terrestres, pensaram que o emissário era um louco e o exilaram no deserto, onde perderam contato com ele. Serenity não estava disposta a sacrificar a vida de nenhum membro de sua corte para tirar aqueles cavernícolas de suas sujas casas e suas lamentáveis existências.
De repente, escutou um choro, primeiro suave, como um lamento, logo mais forte e vigoroso. Sorriu para si mesma e se aproximou do berço, onde um precioso bebe de olhos grandes e azuis e sedosos cabelos prateados chorava à pleno pulmão reclamando alimento.
Serenity apanhou a Pequena Dama nos braços. A menina tinha apenas 7 meses e seu choro era digno de um membro da realeza. Suspirou feliz pensando que, depois de anos de batalha e estabelecimento de alianças, seu reino, o Milênio de Prata, havia se convertido no que sempre sonhou. Um lugar próspero e pacifico. Há anos que não havia ataques que requeressem a participação das Sailors. E se alegrou por suas fieis Guardiãs, suas ferozes guerreiras, suas amigas. Agora todas eram mães.
Lady Marte se casou sendo muito nova com um jovem príncipe de seu planeta. Fazia um pouco mais de 10 meses que havia nascido sua primeira filha. Em uma conversa com a Guerreira do Fogo, esta contou que a jovem Rei já caminhava e falava... E que demonstrava ter um forte temperamento porque quando se enfadava não havia quem a fizesse calar. Serenity suprimiu uma risada quando se deu conta de que a Pequena Dama havia adormecido em seus braços.
"Outra Serenity para a família", pensou, rememorando aquele cálido dia de junho, quando entre de dor se deu conta de que a princesa herdeira do Reino da Lua já havia nascido. Sentiu como as lagrimas apareciam em seus olhos ao recordar seu marido que morrera. Uma larga enfermidade havia arrebatado-lhe o seu amor de juventude, a única pessoa por quem havia lutado e vivido todos esses anos... A pequena Serenity era todo o que lhe restava dele e não permitiria que nada nem ninguém fizesse-lhe dano. Deixou o bebe pausadamente no berço, contendo a respiração quando viu a Pequena Dama se movendo em sonho, com medo de desperta-la.
Nos últimos quatro meses haviam nascido, respectivamente, Ami, a princesa de Mercúrio, Minako, a princesa de Venus e Makoto, a princesa de Júpiter. Suspirou ao recordar os pais de Makoto. Júpiter e seu marido, o general da guarda de Ganimedes, haviam morrido recentemente, quando a nave espacial na qual viajavam desintegrou ao colidir, de forma acidental, contra um cinturão de asteróides.
Dentro de alguns dias se celebraria a festa que comemoraria o nascimento da princesa herdeira do Reino da Lua e sentiu um nó na garganta ao pensar que uma de suas melhores amigas não iria poder assistir. Tampouco sabia se Mercúrio assistiria, porque sua filha não se encontrava bem de saúde. Em cambio, estava segura de que voltaria a ver as Outer Senshi. Suas filhas já tinham um par de anos. Não podia esconder sua apreensão que sentia por aquelas Guerreiras misteriosas, pois, mesmo que não duvidasse de sua fidelidade, eram conhecidas por sua crueldade e força.
As trombetas anunciaram sua entrada no Salão Principal do Palácio. Quando as portas se abriram, uma luz cegante lhe impediu ver as escadas que tinha a seus pés. Quando seus olhos se acostumaram à luz e seus tímpanos a musica, suave e atraente, começou a descer as escadas. A Rainha Serenity caminhou com passo firme e seguro pelas escadarias que davam ao Salão de Baile. Já havia chegado todo mundo. Buscou com o olhar suas Guerreiras e sorriu ao localizá-las ao fundo da sala, cerca do balcão.
Não viu Lady Mercúrio... Seguramente Ami havia piorado. Decidiu enviar no dia seguinte uma nota expressando seus desejos de que Ami melhorasse à Lady Mercúrio como a seu esposo, o capitão da guarda de mensageiros, Hermes.
Marte, como sempre, estava deslumbrante, com um vestido vermelho ajustado até a cintura, solto e pomposo da cintura até os tornozelos. Levava um rubi enganchado em um broche prateado no peito, presente de seu marido. Sorriu ao vê-la e lhe dedicou uma cortesia, com aquele encanto apaixonado que só o fogo de seu caráter lhe conferia. Ares, seu marido, respeitado príncipe de um dos territórios mais extensos de Marte, lhe acompanhava solicito. A recente paternidade brilhava em seus olhos como as estrelas no firmamento e, a dureza de seu olhar deixava transparecer quanto orgulhoso estava.
Lady Venus deu um passo a frente ao ver sua soberana e esboçou com elegância e distinção uma cortesia. Vestia um vestido ajustado, largo até os pés, entre laranja e dourado, que contrastava com seu cabelo loiro, quase branco, e destacava sua forma volupiosa. Sorriu, ligeiramente ruborizada ao ver que vários soldados, que se acercavam ao balcão, a olhavam de soslaio, sorrindo-lhe. Volcano, príncipe do satélite que leva seu próprio nome, um homem alto e corpulento, corcunda e meio torto olhou com fura os aduladores. Serenity, no entanto, se surpreendia ao ver tão estranho casal. Como a personificação da beleza podia estar casada com um homem tão pouco agraciado? Mas... Os mistérios do amor são desconhecidos, ela mesma havia experimentado-os. Sorriu pensando na sorte que a princesa Minako teve por haver nascido sem parecer fisicamente com seu pai, ainda que tenha se arrependido desses pensamentos depois.
Lady Saturno se encontrava pegando um copo de ponche, acompanhada por um gigante de mais de dois metros de altura, cabelo escuro e olhos penetrantes. Era Titan, o temível marido de Saturno. Chegavam rumores de que Titan estava provocando guerras internas em seu planeta para conseguir uma revolução... Mas não eram mais do que isso: rumores. Sorriu a dama e se dirigiu aos músicos da orquestra. Estavam tocando uma lenta canção de piano e violino, suave, criando uma atmosfera perfeita para uma reunião de amigos que haviam ido a conhecer sua futura Rainha recém nascida.
De repente, viu Lady Netuno, acompanhada por Anfitrite, velho amigo de infância da Guerreira dos Mares. Segundo Serenity os dois faziam um bom casal, mas se deu conta de que os olhos de netuno pareciam tristes. Um sorriso agraciou seu elegante e pálido rosto quando avançou até onde ela estava e esboçou uma graciosa cortesia, deixando que seu largo vestido de seda aquamarina acariciasse o solo. Perguntou a bela dama de Netuno por suas companheiras e o sorriso converteu-se em uma careta, mescla de dor, ira e tristeza. Anfitrite respondeu, com voz profunda, aveludada e cálida, dizendo-lhe que havia visto Plutão no balcão, tomando um pouco de ar.
A Rainha Serenity saiu ao balcão e avistou Lady plutão, sozinha. A maturidade era o único atrativo daquele rosto queimado pelo sol e curtido pelas correntes temporais das Portas do Tempo, das quais quase não saia. Há varias semanas que Lord Charon, marido e primo de segundo grau de Plutão havia saído do palácio de seu planeta e ainda não havia retornado. Ainda que já o dessem como morto, seu corpo ainda não havia sido encontrado. O planeta Terra refletia nos olhos cinza de Lady Plutão, seu cabelo azul escuro reluzia com a luz da noite. Serenity colocou sua mão no ombro de Plutão e esta se deu meia volta repentinamente, surpreendida. Ao identificar a sua soberana, agachou a cabeça solenemente e sorriu com tristeza. Estiveram conversando durante um longo período, até que um cortesão informou a Rainha de que era hora de apresentar a Pequena Dama em sociedade. Serenity sorriu e foi buscar sua filha no dormitório.
Aplausos e ovações foram os primeiros sons que a Pequena Dama escutou ao aparecer na sala de Baile. As luzes, as cores, os doces odores e a suave brisa que acariciava sua pele a deixaram assombrada. Estirou as mãozinhas, brincalhona, para apanhar a luz que brilhava no teto, mas não conseguiu pegar nada. Fez bico, apenada, mas sua mãe, percebendo isto, a abraçou contra o peito.
Serenity apresentou com orgulho e alegria sua filha. A futura Rainha Serenity, fora apresentada como "Usagi", para não ser confundida com sua mãe.
Lady Urano se acercou a sua soberana e pegou a Pequena Usagi nos braços. A menina, tentada pelo laço que a Guerreira dos Ventos levava atado ao pescoço, se esticou para pega-lo, mas Urano a reteve entre seus braços, comentando que a Pequena Dama era uma criança muito alegre e agitada. Serenity sorriu orgulhosa e perguntou a Urano por Umbriel, seu marido. Lady Urano deu de ombros e comentou que fazia meses que não o via. Umbriel era um casanova consumado que se dedicava a explorar os diferentes satélites do planeta do vento em busca de damas a quem tentar. Por outro lado, que Umbriel se encontrasse ou não flertando com outras, não parecia importar demasiado à sua esposa.
"Típico de Umbriel" comentou uma marinha e delicada voz detrás de urano.
Lady Netuno apareceu junto de Anfitrite e acariciou as prateadas madeixas da Pequena Dama. Lady Urano devolveu a menina a sua mãe e sem dizer uma palavra saiu ao balcão, pegando um copo de ponche de uma mesa próxima. Netuno sorriu de forma sarcástica e Anfitrite franziu a testa.
Algo não estava bem. Urano e Netuno eram a melhor dupla de combate do Milênio de Prata e as melhores amigas que podiam existir. Lady Júpiter disse uma vez que, em campo de batalha, era como se pudessem ler suas mentes. Seus ataques conjuntos eram os mais devastadores do exercito e sua velocidade na hora de correr era a inveja de qualquer Guerreira. A soberana viu uma ponta de ódio nos olhos de Lady Urano quando esta lhe entregou Usagi em seus braços... Não toleraria ressentimentos entre suas Guerreiras, assim que pensou discutir o tema com as envolvidas na reunião que teria com as Outer Senshi no dia seguinte no Salão do Trono.
