Capítulo 2
No seu primeiro dia naquele planeta nem um pouco familiar – era estranho pensar assim quando nem mesmo o seu próprio rosto lhe era familiar –, encontrou abrigo próximo ao riacho, num buraco dentro de um tronco de árvore que era muito, muito largo, cabendo o seu corpo dolorido e coberto em trapos sem problemas. Deitou ali mesmo, a cabeça sobre o braço dobrado e os joelhos encolhidos de encontro ao peito. Sentia fome, pois seu estômago roncava e roncava e doía – e como doía –, mas também sentia sono, tanto sono que mal era capaz de manter os olhos abertos. Então, achou melhor preocupar-se com comida apenas no dia seguinte e, antes de deixar-se levar pelo cansaço e entregar-se inteiramente ao sono, pensou se seria possível sonhar com alguma lembrança, com algum vestígio da sua vida.
Naquela noite, contudo, não sonhou com nada.
~Voltron~
Descobrir o que poderia ou não comer foi basicamente tentativa e erro. Com o passar dos sóis, aprendeu que os pequenos roedores que habitavam as proximidades do curso d'água tinham uma carne macia e suculenta quando passados no fogo, mas que os répteis que faziam suas tocas na própria terra tinham pouquíssima carne – além de serem dificílimos de serem pegos. Aprendeu também que as raízes de casca vermelha eram ligeiramente amargas, mas garantiam um bom sustento, e que as raízes de casca azulada, apesar de serem adocicadas e saborosas, não eram comestíveis – e descobrir isso, em particular, foi extremamente desagradável e doloroso.
Apesar da diversidade de árvores naquela floresta, praticamente nenhuma delas era frutífera, no entanto, ele encontrou alguns arbustos, após uma longa caminhada de reconhecimento, que davam frutinhos redondos e bem vermelhos. E que eram uma delícia.
E foi justamente durante uma dessas caminhadas, enquanto colhia algumas frutas silvestres e tentava caçar um ou outro roedor para garantir o jantar, que ele foi surpreendido por um barulho muito, muito alto. Foi como um súbito estouro, algo que se assemelhava a um trovão, e ele olhou para o céu no mesmo instante, pensando que uma tempestade se aproximava. Todavia, deparou-se com o céu limpo e quase sem nuvens e enrugou a testa, incerto do que teria causado aquele estranho ruído. Então, inesperadamente, alguma coisa riscou o céu, caindo em direção à terra e deixando um rastro de fumaça por onde passava. Assistiu, petrificado, ao que quer que fosse despencar das alturas, e quase perdeu o equilíbrio quando aquele enorme objeto se chocou com o chão, fazendo as árvores balançarem e a terra toda tremer.
Movido pela curiosidade, correu até a área do impacto e deixou um suspiro de exclamação escapar pelos seus lábios arroxeados ao ver um gigantesco robô azul de formato leonino caído sobre uma extensa cratera. Seus olhos grandes e amarelos avaliaram a cena com um misto de admiração e espanto, e suas mãos, por várias vezes, hesitaram em tocar o metal reluzente daquela magnífica criatura robótica.
Ajuda.
Alarmou-se ao ouvir a voz que pareceu ecoar dentro da sua cabeça e estreitou os olhos ao fitar, mais uma vez, o gigantesco leão metálico.
Ajuda.
Houve um tremor, e, após um instante de apreensão, a mandíbula do leão de abriu, e ele não soube explicar, mas teve a forte impressão de que aquela criatura estava lhe dando consentimento para... para entrar.
O leão robô, pelo visto, era algum tipo de nave.
Deixando o receio de lado e sendo guiado apenas pelo instinto, entrou, caminhando até alcançar o que deveria ser a cabine de controle do leão. Correu os olhos pelo painel de controle avariado, pelas paredes danificadas, pelos fios soltos que pendiam do teto e se espalhavam pelo chão, e os arregalou ao perceber que, no meio daquela destruição toda, havia alguém.
Ele correu até a criatura humanoide que se encontrava desacordada na cadeira de comando e, com muito cuidado, a sacudiu pelos ombros, tentando fazê-la despertar. A criatura, contudo, permaneceu inconsciente.
Percebendo que o recém-chegado do espaço estava ferido – pois havia manchas de sangue por todos os lados –, o pegou e o ajeitou sobre suas costas para carregá-lo para fora da nave-leão, o que não foi tarefa fácil, pois aquele ser era comprimo e pesado, mas, após muito esforço, conseguiu carregá-lo até o exterior e, depois, até o acampamento que tinha montado – e onde vivia desde que chegara naquele lugar.
Cuide dele, por favor.
Ouviu a voz de novo e, olhando para o estranho desacordado em seus braços, assentiu com seriedade, como se selando uma promessa que jamais ousaria descumprir. Retirou a armadura comprometida da criatura e lavou-lhe as feridas e o corpo sujo de poeira e sangue e, à medida que cuidava do estranho, percebeu as diferenças entre suas espécies, porque, enquanto seu corpo era coberto por tufos de pelos roxos, aquele ser tinha a pele lisa e amarronzada. As orelhas dele também eram bem diferentes, bem menores do que as suas, e o cabelo era mais curto e um pouco mais claro também, nem um pouco parecido com a cabeleira negra e selvagem que cobria a sua cabeça.
— Não se preocupe — Disse, embora soubesse que o humanoide de pele macia e orelhas pequenas não poderia escutá-lo. — Cuidarei bem de você.
Permaneceu ao lado do estranho pelo restante do dia, tal como uma mãe velando o filho. Tarde da noite, ouviu a criatura gemer de dor e notou que havia uma fina camada de suor sobre a sua testa. Correu até o riacho e pegou um pouco de água, molhando um pedaço de tecido e passando cuidadosamente sobre o rosto quente e suado do humanoide.
— Dói — O estranho disse, gemendo e se contorcendo.
— Você está com febre, e o seu corpo está ferido — O respondeu. — Mas você ficará bem.
— Febre? Não, não — A criatura continuou delirando, sua voz soando horrível e triste. — Não posso ficar doente. Não posso parar. Ele precisa de mim... Keith... ele... ele... tenho que continuar procurando. Tenho que encontrá-lo...
— Se você morrer, garanto que não vai encontrar ninguém — Disse, soando um pouco irritado e um pouco preocupado. — Precisa apenas se acalmar e me deixar ajudar. Você está mesmo muito machucado.
A resposta não foi o que o estranho queria escutar, mas pareceu acalmá-lo, pois ele logo parou de se debater e de gemer. Após alguns instantes, os cílios dele pestanejaram entre o abrir e o fechar, e, pela primeira vez, olhos azuis se encontraram com olhos amarelos.
— Galra — Havia um quê de horror e ódio na voz enfraquecida e rouca, e o humanoide tentou se mover mais uma vez, entretanto, a debilidade falou mais alto, e ele não tardou a perder os sentidos, rendendo-se, novamente, à completa inconsciência.
