Filadélfia
SEXTA-FEIRA, 21 DE FEVEREIRO 8 HORAS
Hermione Granger saiu do saguão do seu prédio de apartamentos para uma chuva implacável, misturada com neve, que caía imparcialmente sobre as polidas limusines que desciam pela Market Street, conduzidos por motoristas uniformizados, e sobre as casas abandonadas e, fechadas com tábuas dos cortiços do norte de Filadélfia. A chuva lavava as limusines, deixando-as ainda mais limpas, ao mesmo tempo em que convertia numa confusão molhada o lixo acumulado na frente das fileiras de casas negligenciadas. Hermione Granger estava a caminho do trabalho. Seu ritmo era animado enquanto seguia para leste, pela Chestnut Street, na direção do banco. Tinha de fazer um esforço para não se pôr a cantar em voz alta. Usava capa e botas amarelas, um chapéu de chuva também amarelo, que mal conseguia conter uma massa de cabelos castanhos lustrosos.
Tinha vinte e poucos anos, um rosto exuberante e inteligente, a boca cheia e sensual, olhos faiscantes, que podiam mudar de um suave castanho-mel para um castanho escuro de um momento para outro, um corpo esbelto e atlético. A pele passava por toda a gama de branco translúcido a um rosa profundo, dependendo se estava irada, cansada ou excitada. A mãe lhe dissera certa ocasião:
- Sinceramente, criança, há ocasiões em que não a reconheço. Você muda de um instante para outro.
Agora, enquanto Hermione descia pela rua, as pessoas se viravam para sorrir, invejando a felicidade que brilhava em seu rosto.
Ela retribuía aos sorrisos.
"É indecente para qualquer pessoa ser tão feliz," pensou Hermione Granger. "Estou casando com o homem que amo e terei o seu filho. O que mais alguém poderia pedir?"
Ao se aproximar do banco, Hermione olhou para o relógio. Oito e vinte. As portas do Philadelphia Trust and Fidelity Bank não se abririam para os empregados antes de dez minutos, mas Clarence Desmond, o vice-presidente sénior, no comando do departamento internacional, já estava desligando o alarme externo e abrindo a porta. Hermione gostava de assistir ao ritual matutino. Ficou parada na chuva, esperando, enquanto Desmond entrava no banco e trancava a porta.
Os bancos do mundo inteiro possuem misteriosos processos de segurança e o Philadelphia Trust and Fidelity Bank não era exceção. A rotina jamais variava, a não ser pelo código de segurança, que era mudado todas as semanas. O código daquela semana era uma persiana parcialmente abaixada, indicando aos empregados esperando lá fora que se realizava uma revista, a fim de verificar se não havia intrusos escondidos nas instalações, aguardando a entrada deles para convertê-los em reféns. Clarence Desmond estava efetuando uma busca pelos banheiros, depósito, caixa-forte e área dos cofres particulares. Somente depois de estar plenamente convencido de que se encontrava sozinho no interior do banco é que levantaria a persiana, como um sinal de que estava tudo bem.
O contador sénior sempre era o primeiro empregado a ser admitido. Ele ocuparia o seu lugar ao lado do alarme de emergência, até que todos os outros empregados entrassem, depois trancaria a porta.
Pontualmente às oito e meia Hermione Granger entrou no saguão ornado com seus colegas de trabalho, tirou a capa, o chapéu e as botas, escutou com um divertimento secreto os outros se queixarem do tempo chuvoso.
- O maldito vento arrancou-me o guarda-chuva - lamentou um caixa. - Estou encharcado.
- Passei por dois patos nadando na Market Strect – comentou jovialmente o chefe dos caixas.
- A previsão do tempo é de que podemos esperar por mais uma semana assim. Eu gostaria de estar na Flórida.
Hermione sorriu e começou a trabalhar. Era encarregada do departamento de transferências. Até recentemente, transferência de dinheiro de um banco para outro, de um país para outro, era um processo lento e trabalhoso, exigindo o preenchimento de muitos formulários e dependendo dos serviços postais nacionais e internacionais. Com o advento dos computadores, a situação mudara drasticamente. Quantias enormes podiam ser transferidas instantaneamente. A função de Hermione era extrair do computador as transferências, processadas durante a noite e, processar as transferências por computador para outros bancos. Todas as transações eram em código, mudado regularmente para impedir o acesso não autorizado. A cada dia, milhões de dólares eletrônicos passavam pelas mãos de Hermione. Era um trabalho fascinante, o sangue vital que alimentava as artérias dos negócios por todo o globo. Até que Charles Stanhope III entrara em sua vida, a atividade bancária era a coisa mais emocionante do mundo para Hermione. O Philadelphia Trust and Fidelity Bank tinha uma grande divisão internacional e durante o almoço Hermione e os colegas discutiam tudo o que acontecera pela manhã. Era uma conversa inebriante.
Deborah, uma contadora, anunciou:
- Acabamos de fechar o empréstimo associado de cem milhões de dólares para a Turquia.
Mae Trenton, secretária do vice-presidente do banco, disse:
- Foi decidido na reunião de diretoria desta manhã a participação na nova linha de crédito para o Peru. A taxa inicial é acima de cinco milhões de dólares...
Jon Creighton, o fanático do banco, acrescentou:
- Soube que vamos entrar no pacote de socorro ao México com cinqüenta milhões. Eles não merecem um único centavo.
- Isso é muito interessante – comentou Hermione. - Os países que atacam a América por ser muito obcecada por dinheiro são sempre os primeiros a nos suplicarem empréstimos.
Fora o assunto pelo qual ela e Charles haviam travado a sua primeira discussão.
Hermione conhecera Charles Stanhope III num simpósio financeiro. Charles era o orador convidado. Ele dirigia a empresa de investimentos fundada por seu bisavô e fazia muitas operações com o banco para o qual Hermione trabalhava. Depois da conferência de Charles, Hermione se aproximara para discordar de sua análise da capacidade das nações do Terceiro Mundo de pagarem as quantias assombrosas que haviam tomado emprestado dos bancos do mundo inteiro e dos governos ocidentais. Charles a princípio se mostrara divertido e depois atraído pelos argumentos veementes da linda moça à sua frente. A discussão se prolongara pelo jantar no velho restaurante Bookbinder's.
No começo, Hermione não se impressionara com Charles Stanhope III, mesmo sabendo que ele era considerado o grande prémio de Filadélfia. Charles tinha 35 anos, era rico e vitorioso, pertencia a uma das famílias mais tradicionais de Filadélfia.
Com 1,78 metros de altura, cabelos cor de areia ficando ralos, olhos castanhos e uma atitude confiante, até mesmo um pouco
pedante, ele era um dos ricos maçantes, na opinião de Hermione.
Como se lesse os seus pensamentos, Charles se inclinara sobre a mesa e dissera:
- Meu pai está convencido de que lhe deram o bebé errado no hospital.
- Como?
- Sou um retrocesso. Acontece que não penso que o dinheiro é o fim de tudo e a coisa mais importante na vida. Mas, por favor, jamais conte a meu pai que eu lhe disse isso.
Havia nele uma despretensão tão encantadora que Hermione se descobrira a apreciá-lo. Imagino como seria estar casada com alguém assim... Um homem da alta sociedade.
O pai de Hermione levara a maior parte de sua vida para construir um negócio que os Stanhopes desdenhariam como insignificante. Os Stanhopes e os Grangers jamais se misturariam, pensara ela. Óleo e água. E os Stanhopes são o óleo. E por que estou reagindo como uma idiota? É ego demais. Um homem me convida para jantar e já estou decidindo se quero ou não casar com ele. Provavelmente nunca mais tornaremos a nos encontrar...
Charles estava dizendo nesse instante:
- Por acaso está livre para jantarmos de novo amanhã?
Filadélfia era uma cornucópia espetacular de coisas para ver e fazer. Nas noites de sábado, Hermione e Charles iam ao balé ou
assistiam Riccardo Muti conduzir a Sinfônica de Filadélfia.
Durante a semana, exploravam New Market e o singular amontoado de lojas de Society Hill, vagueavam pelo Museu de Arte de Filadélfia e o Museu Rodin.
Hermione parara um dia diante da estátua de O Pensador. Olhara para Charles e sorrira.
- É você!
Charles não se interessava por exercício, mas Hermione adorava.
Assim, nas manhãs de domingo, ela corria pelo West River Drive ou pelo passeio que acompanhava o Rio Schuylkifl. Na tarde de sábado frequentava uma aula de t'ai chi ch'uan. Depois de uma hora de exercício, exausta, mas exultante, ia se encontrar com Charles, no apartamento dele. Ele era um cozinheiro gourmet e gostava de preparar pratos esotéricos como bistilla marroquins, guo bu li, os bolinhos de massa e carne do norte da China, e tahine de poulet au citron.
Charles era a pessoa mais meticulosa que Hermione já conhecera.
Ela chegara um dia atrasada 15 minutos para o jantar e o desprazer de Charles lhe estragara o resto da noite. Depois disso, ela jurara que seria sempre pontual com ele.
Hermione tinha muito pouca experiência sexual, mas parecera-lhe que Charles fazia amor da mesma maneira como levava a sua vida; meticulosamente, sempre da maneira conveniente. Houvera uma ocasião em que Hermione decidira ser ousada e anti-convencional na cama. Deixara Charles tão chocado que secretamente se perguntou se ela não seria alguma espécie de maníaca sexual.
A gravidez fora inesperada; quando acontecera, Hermione se descobrira dominada pela incerteza. Charles não levantara a questão do casamento e ela não queria que ele se sentisse na obrigação de casar por causa do bebê. Não tinha certeza se poderia enfrentar um aborto, mas a alternativa era uma opção igualmente angustiosa. Poderia criar uma criança sem a ajuda do pai? Isso seria justo com a criança?
Uma noite, depois do jantar, Hermione resolvera dar a notícia a Charles. Preparara um cassoulet para ele, em seu próprio apartamento, acabara deixando-o queimar, de tanto nervosismo.
Ao pôr a carne chamuscada na mesa, ela esquecera o discurso cuidadosamente ensaiado e balbuciara desordenadamente:
- Sinto muito, Charles. Eu... estou grávida. -Houvera um silêncio insuportavelmente prolongado. Quando Hermione já estava prestes a rompê-lo, Charles dissera:
- Vamos nos casar, é claro.
Hermione experimentara uma sensação de enorme alívio.
- Não quero que você pense que eu... Não precisa casar comigo por causa disso.
Ele levantara a mão para impedi-la de continuar.
- Quero casar com você, Hermione. Tenho certeza que dará uma esposa maravilhosa. - E um instante depois ele acrescentara, falando bem devagar: - É claro que meu pai e minha mãe ficarão um tanto surpresos.
Charles sorrira e a beijara. Hermione indagara, suavemente:
- Por que eles ficarão surpresos?
Charles suspirara.
- Querida, creio que você não compreende em que está se metendo. Os Stanhopes sempre casam... e saiba que estou usando aspas... "com sua própria espécie". Nas famílias tradicionais de Filadélfia.
- E já lhe escolheram uma esposa - adivinhara Hermione.
Charles a tomara nos braços.
- Isso não tem a menor importância. O que conta é quem eu escolhi. Jantaremos com mamãe e papai na próxima sexta-feira. Já é tempo de você conhecê-los.
Quando faltavam cinco minutos para as nove horas, Hermione percebeu uma diferença no nível de ruído no banco. Os empregados passavam a falar um pouco mais depressa, a se movimentarem um pouco mais rapidamente. As portas do banco seriam abertas dentro de cinco minutos e tudo tinha de estar pronto. Pela janela da frente, Hermione podia divisar os clientes em fila na calçada lá fora, esperando sob a chuva fria. Hermione observou enquanto o guarda do banco terminava de distribuir fichas de depósito e retirada pelas bandejas de metal nas seis mesas no corredor central. Os clientes regulares recebem fichas de depósito com um código magnetizado pessoal no fundo; assim, a cada vez que se efetuava um depósito, o computador creditava-o automaticamente na conta apropriada. Mas, frequentemente, os clientes apareciam sem suas fichas de depósito e preenchiam as comuns.
O guarda levantou os olhos para o relógio na parede. Enquanto o ponteiro das horas se aproximava do nove, ele encaminhou-se para a porta e cerimoniosamente destrancou-a.
O dia bancário começara.
Durante as horas subsequentes, Hermione se manteve ocupada demais no computador para pensar em qualquer outra coisa. Cada transferência tinha de ser conferida, a fim de certificar-se de que exibia o código correto. Quando havia um débito, ela registrava o número da conta, a quantia e o banco para o qual o dinheiro estava sendo transferido. Cada banco possuía o seu próprio número de código; havia um catálogo confidencial que continha os códigos de todos os principais bancos do mundo.
A manhã passou voando. Hermione planejava aproveitar a hora do almoço para arranjar o cabelo e tinha uma hora marcada com Larry Stefla Botte. Ele cobrava caro, mas valia a pena, pois ela queria que os pais de Charles a conhecessem em sua melhor aparência. Tenho de fazer com que eles gostem de mim. Não me importo com quem escolheram para Charles, pensou Hermione.
Ninguém pode fazer Charles tão feliz quanto eu farei.
À uma hora da tarde, quando Hermione pegava sua capa, Clarence Desmond convocou-a para seu gabinete. Desmond era a própria imagem de um executivo importante. Se o banco fizesse comerciais de televisão, ele seria o porta-voz perfeito. Vestia-se conservadoramente, com um ar de autoridade sólida e antiquada, parecia uma pessoa em quem se podia confiar.
- Sente-se, Hermione. - Ele se orgulhava de conhecer o primeiro nome de cada empregado. - Um tempo horrível, não é, mesmo?
- É, sim.
- Mas as pessoas ainda precisam cuidar dos seus problemas bancários. - Desmond esgotara todo o seu estoque de conversa amena. Inclinou-se agora sobre a mesa e acrescentou: - Soube que você e Charles Stanhope estão noivos.
Hermione ficou surpresa.
- Ainda não anunciamos. Como...
Desmond sorriu.
- Qualquer coisa que os Stanhopes fazem é notícia. Estou muito feliz por você. Presumo que voltará a trabalhar conosco. Depois da lua-de-mel, é claro. Não gostaríamos de perdê-la. Você é uma das nossas funcionárias mais valiosas.
- Charles e eu conversamos a esse respeito e concordamos que eu seria mais feliz se continuasse a trabalhar aqui.
Desmond sorriu, satisfeito. Stanhope & Sons era uma das casas de investimentos mais importantes na comunidade financeira e seria maravilhoso se obtivesse a sua conta exclusiva para a sucursal que dirigia. Ele recostou-se na cadeira.
- Quando voltar da lua-de-mel, Hermione, haverá uma boa promoção à sua espera, assim como um aumento substancial.
- Puxa, obrigada! Isso é sensacional.
Ela sabia que merecia e experimentou um sentimento de orgulho. Ficou ansiosa em contar a Charles. Parecia a Hermione que os deuses conspiravam para fazer tudo o que podiam para inundá-la de felicidade.
Os pais de Charles Stanhope III viviam numa mansão antiga e imponente, na Rittenhouse Square. Era um marco na cidade pelo qual Hermione passara muitas vezes. E agora, pensou ela, vai se tornar uma parte da minha vida.
Ela estava nervosa. Seu fino penteado sucumbira à umidade no ar. Trocara de vestido quatro vezes. Deveria se apresentar com simplicidade? Formalmente? Tinha um Yves Saint-Laurent que economizara para comprar na Wanamaker's. Se eu o usar, eles pensarão que sou uma esbanjadora. Por outro lado, se puser algum dos meus vestidos de liquidação da Pôst Hom, elas pensarão que o filho está casando com alguém abaixo de sua classe. Ora essa, eles pensarão assim de qualquer maneira, concluiu Hermione. Ela escolheu finalmente uma saia de lã cinza bem simples e uma blusa branca de seda, pondo no pescoço a corrente fina de ouro que a mãe lhe mandara de presente de Natal.
A porta da mansão foi aberta por um mordomo de libré.
- Boa noite, Senhorita Granger - O mordomo conhece meu nome, pensou Hermione. Isso é um bom sinal? Um mau sinal?
- Posso ajudá-la a tirar o casaco?
Ela estava pingando água no lindo tapete persa. O mordomo conduziu-a por um vestíbulo de mármore que parecia duas vezes maior do que todo o banco. Hermione pensou, em pânico: Oh, Deus, estou vestida completamente errada! Deveria ter usado o Yves Laurent. Ao entrar na biblioteca, ela sentiu um fio correr no tornozelo da meia-calça, mas estava frente a frente com os pais de Charles.
Charles Stanhope pai, era um homem de aparência austera, com sessenta e poucos anos. Parecia de fato um homem bem-sucedido;
era uma projeção do que Charles seria dentro de 30 anos.
Tinha olhos castanhos, como os de Charles, queixo firme, uma orla de cabelos brancos. Hermione gostou dele instantaneamente.
"Era o perfeito avô para seu filho."
A mãe de Charles tinha uma aparência impressiva. Era um tanto baixa e corpulenta, mas apesar disso irradiava uma impressão suntuosa. Ela parece fina e digna de confiança, pensou Hermione.
"Dará uma avó maravilhosa."
A Sra. Stanhope estendeu a mão.
- Minha cara, foi muita gentileza sua vir nos visitar. Pedimos a Charles que nos concedesse uns poucos minutos a sós com você. Não se importa?
- Claro que ela não se importa - declarou o pai de Charles. - Sente-se... Hermione, não é mesmo?
- Isso mesmo, senhor.
Os dois sentaram-se num sofá, diante dela. Por que me sinto como se estivesse prestes a sofrer um interrogatório? Hermione podia ouvir a voz da mãe: Meu bem, Deus jamais lhe impingirá qualquer coisa que não possa manipular. Basta apenas que dê um passo de cada vez.
O primeiro passo de Hermione foi um sorriso que saiu completamente errado, porque naquele instante podia sentir o fio corrido na meia-calça subir para o joelho. Tentou escondê-lo com as mãos.
- Pois muito bem! - A voz do Sr. Stanhope era vigorosa. - Você e Charles querem casar.
A palavra querem perturbou Hermione. Certamente Charles lhes dissera que iam casar.
- Isso mesmo - murmurou Hermione.
- Você e Charles não se conhecem há muito tempo, não é? - perguntou a Sra. Stanhope.
Hermione fez um esforço para reprimir o ressentimento. "Eu estava certa. Será um interrogatório."
- Tempo suficiente para saber que nos amamos, Sra. Stanhope.
- Amor? - disse o Sr. Stanhope.
A Sra. Stanhope interveio:
- Para ser franca, Senhorita Granger, a notícia de Charles foi um choque para seu pai e para mim. - Ela sorriu indulgentemente. - Charles lhe falou sobre Charlotte, não é mesmo?
Ela percebeu a expressão no rosto de Hermione e se apressou em acrescentar:
- Entendo. O fato é que ele e Charlotte cresceram juntos. Sempre foram muito ligados e... francamente, todos esperavam
que, anunciassem seu noivado este ano.
Não havia necessidade de uma descrição de Charlotte. Hermione podia perfeitamente imaginá-la. Morava na casa ao lado. Rica,
do mesmo meio social de Charles. Todas as melhores escolas. Adorava cavalos e ganhara taças.
- Fale-nos a respeito de sua família - sugeriu o Sr. Stanhope.
"Por Deus, esta é uma cena do filme da madrugada na televisão, pensou Hermione, irritada. Sou a personagem de Rita Hayworth,
encontrando-me pela primeira vez com os pais de Cary de um drinque. Nos filmes antigos, o mordomo, sempre aparece em socorro com uma bandeja de drinques."
- Onde nasceu, minha cara? - perguntou a Sra. Stanhope.
- Na Louisiana. Meu pai era um mecânico. -Não havia necessidade de acrescentar isso, mas Hermione fora incapaz de resistir. Que eles fossem para o inferno. Ela tinha o maior orgulho do pai.
- Um mecânico?
- Isso mesmo. Ele abriu uma pequena fábrica em Nova Orleans e desenvolveu-a numa das grandes companhias em seu setor. Quando papai morreu, há cinco anos, minha mãe assumiu o comando da empresa.
- O que essa... hum... companhia produz?
- Canos de descarga e outras peças de automóveis.
Sr. e Sra. Stanhope trocaram um olhar e murmuraram em uníssono:
- Hum...
O tom deles deixou Hermione tensa. "Quanto tempo precisarei para amá-los?", perguntou a si mesma. Olhou para os dois rostos impassíveis à sua frente e, para seu horror, começou a balbuciar meio contrafeita:
- Tenho certeza de que gostarão muito de minha mãe. Ela é bonita, inteligente, simpática. Uma mulher do Sul. Bem pequena, é claro, mais ou menos de sua altura, Sra. Stanhope...
As palavras de Hermione ficaram pairando no ar, sufocadas pelo silêncio opressivo. Ela soltou uma risadinha tola, que se desvaneceu sob o olhar severo da Sra. Stanhope. Foi o Sr. Stanhope quem rompeu o silêncio, dizendo sem qualquer expressão:
- Charles nos disse que você está grávida.
Ah, como Hermione gostaria que ele não tivesse revelado isso! A atitude dos seus pais era de franca desaprovação. Era como se o filho nada tivesse a ver com o que acontecera. Eles a faziam sentir como se fosse um estigma. Sei agora o que deveria ter usado, pensou Hermione. Uma letra escarlate.
- Não compreendo como atualmente ...
A Sra. Stanhope não pôde continuar a falar porque nesse momento Charles entrou na sala. Hermione nunca se sentira tão contente por ver alguém, em toda a sua vida.
- E então? - disse Charles, radiante. – Como se estão dando?
Hermione levantou-se e correu para os seus braços.
- Muito bem, querido.
Ela se aconchegou a ele, pensando: Graças a Deus que Charles não é como os pais. Nunca poderia ser como eles. São pessoas de mentalidade tacanha, esnobes e frias.
Houve uma tosse discreta por trás deles e o mordomo se adiantou com uma bandeja de drinques. "Tudo acabará bem" disse Hermione a si mesma. "Este filme terá um final feliz."
O jantar foi excelente, mas Hermione estava nervosa demais para comer. Discutiram negócios bancários e política, a situação aflitiva do mundo, uma conversa sempre impessoal e polida.
Ninguém chegou a dizer em voz alta: "Você preparou uma armadilha para levar nosso filho ao casamento." Para ser justa, pensou Hermione, devo admitir que eles têm todo o direito de estar preocupados com a mulher com quem o filho vai casar. Charles possuirá a firma um dia e é importante que ele tenha a esposa certa. Hermione prometeu a si mesma: E ele terá.
Gentilmente, Charles pegou-lhe a mão, que torcia o guardanapo por baixo da mesa, sorriu e piscou-lhe um olho. O coração de Hermione se reanimou.
- Hermione e eu preferimos um casamento pequeno - disse Charles - E depois...
- Não diga bobagem - interrompeu-o a Sra. Stanhope. – Nossa família não tem casamentos pequenos, Charles. Haverá dezenas de amigos que desejarão vê-lo casar.
Ela fez uma pausa, olhando para Hermione, como a avaliar sua figura.
- Talvez devêssemos providenciar para que os convites do casamento sejam expedidos imediatamente. - Uma pausa e, com uma reflexão posterior, ela acrescentou: - Isto é, se for aceitável para você.
- Claro que é.
"Haveria mesmo um casamento. Por que cheguei a duvidar disso? "A Sra. Stanhope disse:
- Alguns dos convidados virão do exterior. Tomarei as providências para que fiquem hospedados na casa.
O Sr. Stanhope indagou:
- Já decidiram onde passarão a lua-de-mel?
Charles sorriu.
- Essa é uma informação confidencial, papai.
Ele apertou a mão de Hermione, enquanto a Sra. Stanhope perguntava:
- Qual o prazo da lua-de-mel que estão planeando?
- Cerca de cinquenta anos – respondeu Charles.
Hermione adorou-o por isso. Depois do jantar, eles foram tomar conhaque na biblioteca. Hermione correu os olhos pela sala antiga e adorável, com painéis de carvalho, as prateleiras com livros encadernados em couro, dois Corots, um pequeno Copley e uma Reynolds. Não faria a menor diferença para ela se Charles não tivesse qualquer dinheiro, mas admitiu para si mesma que seria uma vida bastante agradável.
Já passava da meia-noite quando Charles levou-a de volta a seu pequeno apartamento, ao lado do Fairmont Park.
- Espero que a noite não tenha sido muito difícil para você, Hermione. Mamãe e papai podem ser às vezes um pouco irredutíveis.
- Oh, não... eles foram maravilhosos - mentiu Hermione.
Ela estava exausta da tensão da noite, mas mesmo assim indagou, quando chegaram à porta de seu apartamento:
- Não vai entrar, Charles?
Ela precisava aconchegar-se em seus braços. Tinha vontade de lhe dizer: "Eu o amo, querido. E ninguém neste mundo jamais poderá nos separar".
- Esta noite não será possível - disse ele. - Terei uma manhã sobrecarregada.
Hermione ocultou seu desapontamento.
- Eu compreendo, querido.
- Falarei com você amanhã.
Ele deu-lhe um beijo rápido e Hermione observou-o se afastar pelo corredor.
O apartamento estava em chamas e o som insistente das sirenes dos bombeiros romperam abruptamente o silêncio da noite. Hermione soergueu-se abruptamente na cama, tonta de sono, farejando a fumaça no quarto às escuras. A campainha continuou e lentamente ela percebeu que era o telefone. O relógio na mesinha-de-cabeceira informava que eram duas e meia da madrugada. Seu primeiro pensamento de pânico foi que alguma coisa acontecera com Charles. Ela pegou o telefone bruscamente.
- Alô?
Uma voz de homem distante indagou:
- Hermione Granger?
Ela hesitou. Se era um telefonema obsceno...
- Quem está falando?
- Aqui é o Tenente Miller, do Departamento de Polícia de Nova Orleans. Estou falando com Hermione Granger?
- Ela mesma.
O coração de Hermione começou a disparar.
- Infelizmente, tenho uma má notícia a lhe dar.
A mão de Hermione apertou o telefone com toda a força.
- É sobre sua mãe.
- Ela... mamãe sofreu algum acidente?
- Ela está morta, Senhorita Granger.
- Não!
Foi um grito. Era de fato um trote. Algum maluco tentando assustá-la Não havia nada de errado com sua mãe. Ela estava viva. Eu a amo muito, Hermione. Mas muito mesmo.
- Detesto ter de lhe dar a notícia desse jeito, Senhorita Granger.
Era real. Era um pesadelo, mas estava acontecendo. Ela não podia falar. A mente e a língua ficaram paralisadas. A voz do tenente acrescentou:
- Alô? Está me ouvindo, Senhorita Granger? Alô?
- Pegarei o primeiro avião.
Hermione sentou na pequena cozinha do apartamento, pensando na mãe. Era impossível que ela estivesse morta. Sempre fora uma
mulher vibrante, cheia de vida. Haviam desfrutado um relacionamento íntimo, repleto de amor. Desde que era garotinha que Hermione podia levar seus problemas à mãe, falar sobre a escola e os garotos, posteriormente sobre os homens.
Quando o pai de Hermione morrera, haviam sido apresentadas muitas propostas por pessoas que queriam comprar a empresa. Ofereceram a Doris Granger dinheiro suficiente para ela viver confortavelmente pelo resto de sua vida. Mas a mãe se recusara obstinadamente a vender.
- Seu pai fez esta empresa. Não posso agora jogar fora todo o trabalho árduo.
E ela mantivera a empresa em plena prosperidade. "Oh, mamãe. Eu a amo tanto!", pensou Hermione. "Agora, você nunca conhecerá
Charles, nunca verá o seu neto." Ela se pôs a chorar.
Hermione fez um café e deixou esfriar, enquanto continuava sentada, no escuro. Queria desesperadamente telefonar para Charles e contar-lhe o que acontecera, tê-lo a seu lado. Olhou para o relógio da cozinha. Eram três e meia da madrugada. Não o acordaria; ligaria para ele de Nova Orleans. Especulou se aquilo afetaria os planos de casamento e no mesmo instante sentiu-se culpada pelo pensamento. Como podia pensar em si mesma num momento como aquele? O Tenente Miller dissera:
- Quando chegar aqui, pegue um táxi e venha direto para a chefatura da polícia.
"Porquê a chefatura da policia? O que acontecera?"
Parada no apinhado aeroporto de Nova Orleans, esperando por sua mala, cercada por viajantes impacientes, a se empurrarem, Hermione sentia-se sufocada. Tentou chegar mais perto do carrossel de bagagem, mas ninguém lhe dava passagem. Estava ficando cada vez mais nervosa, receando o que teria de enfrentar dali a pouco. Empenhava-se em dizer a si mesma que tudo não passava de um equívoco, mas as palavras ressoavam em sua cabeça: Infelizmente tenho uma má noticia a lhe dar... Ela está morta, Senhorita Granger... Detesto ter de lhe dar a notícia assim...
Depois que finalmente pegou a mala, Hermione embarcou num táxi e repetiu o endereço que o tenente lhe fornecera:
- South Broad Street, sete-um-cinco, por favor.
O motorista sorriu-lhe pelo espelho retrovisor.
- Uma encrenca, hem?
Nada de conversa. Não agora. A mente de Hermione estava dominada demais pelo turbilhão. O táxi seguiu para leste, pela Lake Ponchartrain Causeway. O motorista puxou conversa:
- Veio aqui para a grande festa, moça?
Hermione não tinha a menor idéia do que ele estava falando, mas pensou: "Não. Vim aqui para a morte." Ela estava consciente do
zumbido da voz do motorista, mas não escutava as palavras.
Sentada muito rigída, alheia ao ambiente famíliar por que passava. Foi somente quando se aproximaram do Bairro Francês que Hermione tornou-se consciente do crescente barulho. Era o som de uma multidão enlouquecida, amotinados berrando alguma antiga litania frenética.
- Só dá para trazê-la até aqui - informou o motorista.
Foi nesse instante que Hermione levantou os olhos e viu. Era uma visão incrível. Havia centenas de milhares de pessoas gritando, usando máscaras, fantasiadas de dragões e crocodilos, de deuses pagãos, povoando as ruas e calçadas à frente, com uma cacofonia de som desvairada. Era uma explosão insana de corpos, música e dança.
- É melhor saltar antes que eles virem o meu táxi - advertiu o motorista. - Esse maldito Mardi Gras...
Mas é claro! Era fevereiro, o momento em que toda a cidade celebrava o início da Quaresma, fazendo o seu carnaval. Hermione
saltou do táxi e parou por um instante junto ao meio-fio, com a mala na mão. E no momento seguinte foi envolvida pela multidão a gritar, dançar. Era obsceno, um sabá de feiticeiras, um milhão de Fúrias comemorando a morte de sua mãe. A mala foi arrancada da
mão de Hermione e desapareceu. Ela foi agarrada e beijada por um homem gordo, com uma máscara de demónio. Um cervo apertou-lhe os seios e um panda gigante agarrou-a por trás e levantou-a.
Hermione tentou se desvencilhar e fugir dali, mas era impossível.
Estava cercada, acuada, uma parte da celebração de canto e dança. Foi se deslocando com a multidão frenética, as lágrimas escorrendo pelas faces. Não havia escapatória. Encontrava-se à beira da histeria quando finalmente conseguiu se livrar e fugir para uma rua mais sossegada. Ficou parada por um longo tempo, encostada num lampião, respirando fundo, lentamente recuperando o controle de si mesma. E, depois, encaminhou-se para a chefatura de polícia.
O Tenente Miller era um homem de meia-idade, de expressão mortificada, o rosto enrugado, parecendo genuinamente contrafeito no papel que tinha de desempenhar.
- Lamento não poder recebê-la no aeroporto, mas a cidade inteira enlouqueceu - disse ele - Examinamos as coisas de sua mãe e você foi a única que pudemos encontrar para chamar.
- Por favor, tenente, conte-me o que... o que aconteceu com minha mãe?
- Ela cometeu suicídio.
Hermione sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo.
- Mas... mas isso é impossível! Por que ela haveria de se matar? Ela tinha tudo para viver!
A voz de Hermione era trêmula.
- Ela deixou um bilhete para você.
O necrotério era frio, indiferente e aterrador. Hermione foi conduzida por um corredor comprido e branco até uma sala
grande, asséptica e vazia. E subitamente compreendeu que a sala não se achava vazia.
Estava povoada pelos mortos. Pela sua morta.
Um atendente de jaleco branco aproximou-se de uma parede, estendeu a mão para uma alça e puxou uma gaveta enorme.
- Quer dar uma olhada?
Não! Não quero ver o corpo vazio e sem vida estendido nessa caixa. Ela queria sair dali. Queria voltar algumas horas no tempo, quando o alarme de incêndio soava. E que seja um incêndio de verdade, não o telefone, não minha mãe morta.
Hermione adiantou-se, lentamente, cada passo um grito interior. E depois estava olhando para o corpo inanimado que a gerara, alimentara, rira com ela e a amara. Ela inclinou-se e beijou o rosto da mãe. O rosto estava frio e flexível.
- Oh, mamãe! - sussurrou Hermione. - Por quê? Por que fez isso?
- Temos de efetuar uma autópsia - disse o atendente. - É a lei estadual nos casos de suicídio.
O bilhete que Doris Granger deixara não oferecia qualquer resposta:
Minha querida Hermione:
Perdoe-me, por favor. Fracassei e não podia suportar ser um fardo para você. Esta é a melhor solução. Eu a amo muito.
Mamãe
O bilhete era tão inanimado e desprovido de sentido quanto o corpo que se achava na gaveta.
Hermione tomou as providências para o enterro naquela tarde,depois pegou um táxi para a casa da família. À distância, podia ouvir o rugido dos foliões do Mardi Gras, como alguma celebração estranha e lúgubre.
A residência dos Grangers era uma casa vitoriana no Garden District, na área residencial conhecida como Uptown. Como a
maioria das residências de Nova Orleans, era construída em madeira e não tinha porão, pois o lugar situava-se abaixo do nível do mar.
Hermione crescera naquela casa, que estava povoada por recordações agradáveis e afetuosas. Ela não estivera em casa no ano anterior. Quando o táxi diminuiu, a fim de parar diante do prédio ela ficou chocada com o cartaz grande que avistou no gramado: à VENDA - COMPANHIA IMOBILIáRIA DE NOVA ORLEANS. Era impossível. Nunca venderei esta casa, a mãe dissera muitas vezes. Fomos muito felizes aqui.
Dominada por um medo insólito e irracional, Hermione passou por uma enorme magnólia, encaminhando-se para a porta da frente.
Ganhara a chave de casa quando estava na sétima série e a carregava desde então como um talismã, uma lembrança do refúgio que sempre estaria ali, à sua espera.
Ela abriu a porta e entrou. Parou prontamente, aturdida. Os cômodos estavam inteiramente vazios, desprovidos de móveis.
Todas as peças antigas e bonitas haviam desaparecido. A casa era como uma casca vazia, abandonada pelas pessoas que outrora
a ocupavam. Hermione correu de um cômodo para outro, com uma incredulidade crescente. Era como se tivesse ocorrido um desastre repentino. Subiu apressadamente e parou na porta do quarto que ocupara durante a maior parte de sua vida. O quarto a fitava, frio e vazio. Oh, Deus, que pode ter acontecido?
Hermione ouviu a campainha da porta da frente e desceu a escada para atender, como se estivesse em transe.
Otto Schmidt estava parado na porta. O capataz da Granger Automotive Parts Company era um homem idoso, o rosto todo enrugado, um corpo muito magro, em que se destacava a barriga de cerveja. Uma tonsura de cabelos brancos emoldurava o crânio.
- Acabei de receber a notícia, Hermione - disse ele, com um forte sotaque alemão - Eu... eu não sei como lhe dizer o quanto lamento.
Hermione segurou-lhe as mãos.
- Oh, Otto, não sabe como estou feliz em vê-lo! Mas entre.
Ela levou-o para a vazia sala de estar. - Lamento que não haja lugar para sentar. Importa-se de se sentar no chão?
- Claro que não.
Sentaram-se de frente um para o outro, os olhos aturdidos pela dor. Otto Schmidt fora empregado da companhia por tanto tempo quanto Hermione podia se lembrar. Ela sabia o quanto o pai dependia dele. Quando a mãe herdara a companhia, Schmidt continuara para dirigi-la.
- Não entendo o que está acontecendo, Otto. A polícia diz que mamãe cometeu suicídio. Mas você sabe muito bem que não havia
motivo para ela se matar. - Um pensamento súbito ocorreu-lhe.
- Ela não estava doente, não é mesmo? Ela não tinha alguma doença terrível...
- Não. Não foi isso.
Ele desviou os olhos, contrafeito, alguma coisa em suspense nas suas palavras. Hermione disse, lentamente:
- Você sabe o que foi.
Ele fitou-a com os olhos azuis remelentos.
- Sua mãe não lhe contou o que vinha acontecendo ultimamente. Não queria preocupá-la.
Hermione franziu o rosto.
- Não queria me preocupar com o quê? Continue... por favor.
As mãos calejadas de Otto Schmidt se abriram e fecharam.
- Já ouviu falar de um homem chamado Joe Romano?
- Joe Romano? Não. Por quê?
Otto Schmidt piscou os olhos.
- Romano procurou sua mãe há seis meses e disse que queria comprar a companhia. Ela respondeu que não estava interessada em vender. Mas ele ofereceu dez vezes mais do que a companhia valia e ela não pôde recusar. Ficou muito animada. Investiria
todo o dinheiro em aplicações seguras, que proporcionariam uma receita de que vocês duas poderiam viver, confortavelmente, pelo resto de suas vidas. Tencionava fazer-lhe uma surpresa. Fiquei muito satisfeito por ela. Há três anos que eu estava querendo me aposentar, mas não podia deixar a Sra. Doris sozinha, não é mesmo? Esse Romano... - Otto pronunciou a palavra com uma fúria evidente. - Esse Romano deu a ela uma pequena entrada. O dinheiro grande,... o pagamento do saldo... deveria entrar no mês passado.
Hermione disse, impaciente:
- Continue, Otto. O que aconteceu?
- Assim que assumiu, Romano despediu todo mundo e trouxe o seu próprio pessoal. E começou a depredar a companhia. Vendeu
todos os bens e encomendou uma porção de equipamentos, vendendo tudo, mas não pagando. Os fornecedores não se preocuparam
com o atraso no pagamento, porque pensavam que ainda estavam tratando com sua mãe. Quando finalmente começaram a pressionar sua mãe pelo pagamento, ela procurou Romano e exigiu que ele explicasse o que estava acontecendo. Ele disse que desistira da transação e estava lhe devolvendo a companhia. A esta altura, porém, a companhia já não valia mais nada e ainda por cima sua mãe devia meio milhão de dólares, que não tinha condições de pagar. Quase me matou e à minha mulher, Hermione.
Acompanhamos a luta de sua mãe para salvar a companhia. Mas não havia jeito. Eles a forçaram à falência. Tomaram-lhe tudo... a companhia, esta casa, até mesmo seu carro.
- Oh, Deus!
- Há mais. O promotor distrital comunicou à sua mãe que ia pedir uni indiciamento por fraude, que ela se arriscava a uma sentença de prisão. Acho que foi nesse dia em que ela realmente morreu.
Hermione fervilhava com uma onda de raiva impotente.
- Mas tudo o que ela tinha de fazer era contar a verdade... explicar o que aquele homem lhe fez.
O velho capataz sacudiu a cabeça.
- Joe Romano trabalha para um homem chamado Anthony Orsatti. E Orsatti manda em Nova Orleans - Descobri tarde demais que Romano já tinha feito a mesma coisa com outras companhias. Mesmo que sua mãe o levasse aos tribunais, muitos anos se passariam antes que tudo ficasse esclarecido. E ela não tinha dinheiro para lutar contra ele.
- Por que ela não me disse nada?
Era um brado de angústia, um brado pela angústia da mãe.
- Sua mãe era uma mulher orgulhosa. E o que você podia fazer? Não há nada que alguém possa fazer.
Você está enganado, pensou Hermione, furiosa.
- Quero falar com Joe Romano. Onde posso encontrá-lo?
Schmidt disse, incisivamente:
- Esqueça-o. Não faz idéia de como ele é poderoso.
- Onde ele mora, Otto?
-Ele tem uma casa perto de Jackson Square. Mas não adiantará ir até lá, Hermione.
Hermione não respondeu. Estava dominada por uma emoção que lhe era totalmente desconhecida: o ódio. Joe Romano pagará pela
morte de minha mãe, jurou Hermione para si mesma.
Nota: E ai ? O que acharam ? Mil desculpas pelo atraso eu ia postar no sabado, mas não tive tempo nenhum. Mas mil obrigados pelas reviews, queria responder mas tive que vir postar rapidinho. Espero que continuem mandando reviews. Beijos e ate a proxima.
