Akumu1
"Esses pesadelos vão envolver suas mãos malignas
Em volta da minha alma à noite,
Eles tentam me puxar profundamente para dentro de
Um mundo que está cheio de medo."
Christy Ann Martine
All around me are familiar faces
(Tudo ao meu redor são rostos familiares)
Worn out places, worn out faces
(Lugares desgastados, rostos desgastados)
Bright and early for the daily races
(Claro e cedo para suas corridas diárias)
Going no where, going no where
(Indo a lugar nenhum, indo a lugar nenhum)
Mais uma vez Hiei se via preso naquele pesadelo. Era o dia de seu nascimento. Sua mãe estava dando à luz Yukina e ele. E, ao mesmo tempo, ele estava ali parado observando tudo. Podia ver os rostos das mulheres do País de Gelo com expressões de nojo ou desprezo para ele. Ele era um ser que não deveria existir naquele lugar. Era uma abominação. O amor de sua mãe por seu pai já era algo repulsivo, portanto o fato de ele existir era repugnante. Era algo antinatural. Aquelas mulheres olhavam para sua versão bebê como se ele contivesse todo o mal do mundo.
Toda as vezes em que tinha aquele sonho sua vontade era de destruí-las uma a uma por terem tratado sua mãe e a ele daquela maneira. Sequer deixaram que sua mãe o pegasse no colo. Ele nunca pudera sentir seu calor... Seu amor. Sabia que ela o amara. Talvez houvesse sido a única pessoa no mundo capaz de amá-lo... Mas nunca poderiam se conhecer. Ele era a "Criança Proibida" e tinha que ser destruído.
Hiei viu, pela milésima vez, o pequeno embrulho, que era ele, ser entregue à melhor amiga de sua mãe. E mais uma vez vira o desespero dela ao tentar evitar que ele fosse levado para longe de seus braços. Para o terrível destino que o aguardava. Ele podia notar que Rui não queria fazer o que lhe fora ordenado, mas ela nunca faria algo contrário aos desígnios das anciãs do país de Gelo.
Sua mãe tinha que ser segurada pelos braços para que a impedissem de alcançá-lo. E as mulheres que não ajudavam a contê-la apenas observavam tudo em silêncio. Aquelas mulheres não tinham qualquer remorso diante do que estavam fazendo. Rui seguiu até um local onde poderia jogá-lo fora. Fora do País de Gelo, que ficava entre as nuvens. Aquilo era assassinato e ela sabia disso. A jovem prendeu sua Hirui Seki a seu pulso e desejou que ele crescesse e se tornasse forte para poder voltar ali e se vingar e em seguida o despejou, como se não fosse nada.
Their tears are filling up their glasses
(Suas lágrimas estão enchendo seus óculos)
No expression, no expression
(Sem expressão, sem expressão)
Hide my head I wanna drown my sorrow
(Escondo minha cabeça, quero afogar meu sofrimento)
No tomorrow, no tomorrow
(Sem amanhã, sem amanhã)
A pior parte não era ver o desespero de sua mãe naquele momento. A pior parte não era saber que ele fora desprezado. Ele estava ali, bem, vivo, apesar de tudo. Mas o destino de sua mãe fora completamente diferente do seu. Sua mãe não suportava a ideia de ter perdido seu filho daquela maneira. E, além disso, mantinham Yukina afastava dela. Fora muito sofrimento para ela e, por isso, ela resolvera acabar com sua própria vida.
Hiei não conseguia continuar vendo aquilo. Baixou a cabeça em agonia. Sua mãe nunca poderia ver como Yukina crescera, como ela era gentil. Quanto a ele... Talvez fosse melhor ela não poder ver o que ele se tornara. Provavelmente ficaria decepcionada. Aquele pesadelo tinha que parar. Ele queria acordar. Não aguentava mais tanto sofrimento, embora...
And I find it kind of funny, I find it kind of sad
(E eu acho isso meio engraçado, eu acho isso meio triste)
The dreams in which I'm dying are the best I've ever had
(Os sonhos onde estou morrendo são os melhores que já tive)
I find it hard to tell you, I find it hard to take
(Eu acho difícil te dizer, eu acho difícil entender)
Embora aquele fosse o único lugar onde poderia ver sua mãe novamente. Aquele fora o único momento em que estiveram juntos. O momento em que ela o vira nascer para depois morrer. Ela nunca saberia que ele sobrevivera. Nunca mais teriam uma oportunidade de se encontrar. Portanto, apesar de toda a tragédia que aquele dia carregava, ele tivera a oportunidade de conhecer o rosto de sua mãe; e aquilo sempre estaria com ele.
- Hiei. – O koorime ouviu alguém o chamando e, finalmente, pôde acordar daquele pesadelo. Abriu os olhos e percebeu que já era noite. Os guardas já haviam acendido as tochas nos corredores da prisão. Ao olhar para as grades da cela, viu quem o chamara. Era aquela onna novamente. Dessa vez estava feliz por ela ter aparecido e tê-lo tirado daquele tormento. – Está tudo bem? – Ela perguntou genuinamente preocupada. Algo que lhe era estranho.
- Por que não estaria? – Ele indagou de maneira rude. Botan abriu a boca levemente surpresa. Era a primeira vez que ele falava com ela desde que fora preso.
- Eu não sei. – A jovem respondeu se recompondo. – Você parecia estar tendo algum tipo de pesadelo. Parecia angustiado. – Hiei respirou fundo e manteve sua expressão de indiferença. Ninguém nunca o acordara de um sonho ruim. Ninguém nunca o ajudara. Ele sempre tivera que se virar sozinho e era assim que continuaria.
- Mesmo se isso fosse verdade, não seria da sua conta, Baka Onna. – O koorime disse desafiadoramente.
- Ok. Me desculpe por me importar. – Botan respondeu um pouco magoada. Hiei sabia que ela não estava agindo daquela maneira por mal, mas não aceitaria sua pena.
- O que está fazendo aqui, afinal? Você já trouxe meu jantar. E, com certeza, já passa das duas da manhã. Não sabia que Guias Espirituais tinham que patrulhar as prisões. – Ele falou de maneira sarcástica, fazendo-a corar.
- Não estou patrulhando. – A jovem disse baixando a cabeça envergonhada. – Eu só... Tive um pesadelo e resolvi dar uma volta. Acabei parando aqui. – Botan voltou a erguer a cabeça com um pequeno sorriso no rosto. – Estranho, não? – Hiei podia notar traços de lágrimas no rosto dela. Seu sonho devia ter sido bem ruim para fazê-la chorar. – Acho melhor voltar para o quarto. Desculpe por ter me intrometido. – A jovem lhe deu as costas, mas não chegou a dar um passo para se afastar.
- Estou na metade do livro. – O youkai disse de repente, sentando-se na cama. Não sabia exatamente o porquê de ter dito aquilo. Provavelmente por não querer voltar a dormir. Talvez por saber que ela também não queria voltar a dormir.
- Sério? – Ela se voltou para ele sorrindo. – O que está achando do livro? – Botan se sentou no chão de frente para ele. Hiei cruzou as pernas sob seu corpo, assim ficaria numa posição confortável para conversar com ela. Não que houvesse planejado transformar aquilo numa conversa.
- Como a indicação veio de uma Baka Onna, estou surpreso por a história ser tão boa. – Ele falou num dar de ombros para irritá-la.
- Seu chato. – A jovem disse ainda sorrindo, não caindo na implicância dele. – Em que parte você está? Quero comentar a história, mas não quero falar de alguma parte que você não tenha lido ainda.
E foi assim que eles passaram a noite... Falando de um livro, que Hiei sequer quisera ler em primeiro lugar, com uma pessoa com a qual ele nunca imaginara que pudesse ter algo em comum. Era loucura se sentir tão tranquilo ao conversar com aquela onna?
When people run in circles
(Quando as pessoas andam em círculos)
It's a very, very mad world
(É um mundo muito, muito louco)
Mad world, mad world, mad world
(Mundo louco, mundo louco, mundo louco)
[Mad World – Gary Jules]
Início e Término: 15/02/2017.
1 Pesadelo – Tradução do Japonês.
