Eu Lembrarei

A voz dela sempre foi alta. Irritante até, você pensava.

Então você se apaixonou por ela, e pela voz.

O modo como flutuava até você, dentro de você, através de você... o modo como todas as vezes em que ela cantava, parecia que existiam apenas Rachel e você, sozinhas no mundo e até mesmo fora dele.

O modo como ela sussurrava palavras só para você, os dedos dela sempre espalhando amor pelo seu corpo, a voz rouca, em decibéis que ninguém além dela poderia alcançar..

Mas agora... a voz dela está cada vez mais alta.

Ela não percebe quando as pessoas ao redor dela estremecem. Você está feliz que ela não possa ouvir Kurt murmurando algo sobre alerta-la para Mercedes.

A voz de Rachel sempre alcançava as notas altas quando cantava, agora parecia que ela tentava derrubar o teto sobre a cabeça de todos. Shuester parecia irritado, olhando para você, dizendo. "Conserte isso."

Você não sabia como.

Você já tinha conversado com os pais de Rachel, porque é claro que eles perceberam também: o volume de sua voz, do rádio e da televisão, a constante necessidade de repetir o que eles diziam, sempre supondo que o que eles diziam soava errado – pois ela sempre perdia as palavras importantes.

Então quando Rachel pede a Kurt para repetir o que disse pela segunda vez, você a puxa para o lado depois do ensaio, no corredor. É a primeira vez que você segura a mão dela na escola, e você sabe que isso a assusta.

Mas o choque desaparece quando você se inclina e sussurra suavemente contra a orelha esquerda dela – que parece ser a pior.

"Você precisa ir ao médico."

Os olhos dela escurecem e você espera um discurso épico de Rachel Berry... mas para a sua surpresa, ela visivelmente reconsidera e aperta sua mão, antes de assentir.

Em casa, você se joga em listas telefônicas, procurando nomes, e depois na internet, pesquisando tais nomes. Rachel sempre ria sobre como você é obsessiva quanto se trata da saúde dela.

Ela não percebe que você se recusa a esquecer o que costumava fazer com ela. Os insultos, os nomes, as gargalhadas todas as vezes que uma raspadinha encontrava o rosto da morena.

E se a preocupação com a saúde de Rachel Berry à ponto de se tornar uma obsessão é sua penitência, então que assim seja.

Rachel insiste em ligar ela mesma e marcar a consulta, então você apenas senta ao lado dela, enquanto Rachel digita os números.

Quando ela diz baixinho a recepcionista: "Eu acho que estou perdendo a audição," você segura a mão dela e a aperta.

Você odeia os consultórios, mas quando ela lhe pede, mordendo o lábio inferior e parecendo assustada, você sabe que tem que acompanha-la. Você senta na sala de espera com ela, ignorando as revistas; seus olhos estudam cada quadro nas paredes, cheios de termos que você não compreende, e desenhos que fazem sua bile subir pela garganta. Você odeia o cheiro peculiar desses lugares, eles lhe lembram morte e tragédia e o toque suave de um bebê em seus braços.

Mais do que tudo, eles lhe lembram o vazio.

E os olhos de Rachel estão vazios enquanto ela morde mais uma vez o lábio inferior.

Você não tem orado muito desde que seus pais a expulsaram de casa, mas você acha que hoje é um ótimo dia para recomeçar.

Vocês duas não se falam, até você perceber as lágrimas dos olhos dela. Você encosta seus lábios perto do ouvido dela, beijando o lóbulo antes de dizer.

"Está tudo bem, querida, está tudo bem, vai dar tudo certo. Eu te amo, você vai ficar bem."

Você reza pedindo para que o que está dizendo seja verdade.

Rachel se encolhe de dor quando o médico toca em seus ouvidos, puxando a pequena lanterna para ver o interior. Você não percebe que resmungou até o médico olhar para você com uma sobrancelha erguida, enquanto Rachel revira os olhos, acariciando sua mão.

Você nem mesmo sabia que tímpanos poderiam se romper, você tem que lutar contra uma risada porque a idéia lhe lembra Finn tocando bateria. Você sabe que a reação pode a afastar de Rachel, e você está preocupada, de qualquer jeito, porque ela precisa fazer uma tomografia que vai dar resultados em um cronograma.

E para uma garota que odeia hospitais e médicos, você sabe que tomaria o lugar de Rachel em um piscar de olhos.

Já que não pode, você sabe que não vai sair do lado dela.

Então dói quando ela se recusa a deixa-la acompanha-la. Você senta na sala de estar, mudando os canais da TV e não prestando atenção. Os resultados do cronograma se repetem em sua cabeça. É grotescamente engraçado para você, como algo tão importante como a audição, algo tão importante para a vida de uma pessoa, pode ser reduzido a gráficos e tabelas.

Grave perda auditiva condutiva.

As lágrimas começam assim que a realização chega até você.

Ela anda será capaz de cantar?

Você se força a não pensar nisso, e quando Rachel chega em casa e entra em pânico quando percebe que você ligou as legendas da televisão, você só se preocupa em segurar a garota chorando em seus braços, Rachel, Rachel, Rachel...

Fazer com que Rachel não esqueça sua voz.

Colesteatoma. A palavra entra e sai de seu cérebro, enquanto você senta na sala de espera do hospital com os pais de Rachel por três horas, enquanto ela está na sala de cirurgia. A lista de prognósticos não faz nada para aliviar seus medos.

Tontura. Meningite. Paralisia facial. Abscesso encefálico.

Você sabe que se as coisas não saírem como devem, vão fazer cirurgias de seis em seis meses para evitar a perda de audição completa.

O médico sai e explica que o pior está se tornando realidade.

Como você vai dizer para Rachel?

Os pais dela tentam se voluntariar, mas você sacode a cabeça.

Você não pode deixar ninguém dizer a Rachel que os ossos de seus ouvidos internos estavam destruídos, que ela está surda de um ouvido e que estará completamente surda por volta dos 21 anos.

Você espera que sua voz esteja macia e suave, porque o olhar de Rachel está lhe matando aos poucos. Você luta contra as lágrimas quando Rachel se afasta e pede que você a deixe.

Quando Rachel chora até dormir, você desliza por trás dela e enrola seus corpos juntos. Tirando a dor, tirando o medo e tomando-os para si, para que Rachel não tenha que lidar com isso. Sua mente volta para sua infância, versículos da Bíblia atravessam sua cabeça, palavras que você não entendia até agora.

Não existe amor maior do que o de um homem que dá a sua vida pela de seus amigos.

"Pai," você sussurra no escuro. "Se for da tua vontade, afaste este cálice dela. Em vez disso, dê ele para mim. Mas que sua vontade seja feita."

A voz de Rachel estava dura e furiosa quando ela acorda e diz para que você se afaste novamente.

É a primeira vez que você a recusa.

A biblioteca do William McKinley High School é insuficiente para a pesquisa que você precisa fazer, e você se sente grata pela existência da Biblioteca de Lima, levando seis livros para casa. Rachel está dormindo no andar de cima enquanto você os estuda, e a realização chega mais um vez.

Ela estará surda pelos 21 anos.

Depois disso, Rachel Berry, que aprendeu a cantar antes de falar, nunca seria capaz de cantar novamente.

Você chora quando ela canta que ama você, porque você a ama tanto que dói, e você está tão assustada.

Você começa a escutar cada gravação de Rachel em pode pôr as mãos. Do primeiro recital quando ela tinha 7 anos, até aqueles vídeos no MySpace que uma vez você odiou. Você se sente feliz por ela ter deixado você apagar aqueles comentários. Lagrimas caem quentes enquanto On My Own preenchem o espaço vazio do quarto de hospedes, o quarto que uma vez já fora nosso quarto – antes que o quarto de Rachel se tornasse também nosso quarto. Você coloca os fones de ouvido e o som de Rachel ecoa pelo seu corpo.

E você chora.

Você não percebe que Rachel entrou no quarto até sentir os fones de ouvidos serem levantados, enquanto ela se ajoelha ao seu lado, olhando para você com preocupação, silenciosamente perguntando o que há de errado.

Você balança a cabeça. "Eu não quero esquecer sua voz."

Porque você não sabe o que é isso, você não sabe como funciona, você tem quase certeza de que ela não será mais capaz de cantar, mas isso não importa.

O que importa é a gargalhada de Rachel quando acha algo engraçado. O jeito animado como ela fala sobre algo nos ensaios do Glee. O suave "Bom dia, amor," sussurrado em seu ouvido quando o sol entra pela janela revelando seus corpos um contra o outro. Risadinhas quando você fazia cócegas nela, gemidos macios quando seus dedos dançavam sobre cada centímetro dela.

O modo como você sabe, apenas pelo som da voz dela, que ninguém nunca vai lhe entender – ou amar – como Rachel Berry.

Quando suas lágrimas começam a cair, ela fica de pé e as leva para cama.

Enquanto ela tira suas roupas, todas as palavras que ela diz, são só para você.

Mas então algo começa a acontecer, e você não tem certeza do que é.

Rachel começa a se afastar de você, e você está presa nesse misto de raiva, confusão e ciúmes quando Rachel sussurra algo para Artie, e ele balança a cabeça e eles batem os punhos. Ela pára de ir para casa com você após os ensaios de Glee, dando uma desculpa esfarrapada, algo sobre precisar ajudar Shuester com suas habilidades lamentáveis nas seleções das músicas.

Você viu Shuester deixando o estacionamento e sabe que Rachel está mentindo.

Ela sabe que você sabe, mas não diz nada.

Finalmente, um noite você diz com raiva que se ela não a deseja mais, então que ela simplesmente diga, porque você não suporta mais.

Ela olha para você, os olhos arregalados e ilegíveis.

Ela não diz nada, e você passa a noite chorando no quarto de hospedes.

Quando você acorda, na manhã de sábado, algo lampeja sob a luz solar, no travesseiro ao seu lado.

Você pega o CD; contra o dourado do objeto, escritas com total cuidado em letras pretas:

Para Quinn, para que você possa lembrar.

Você enfia o CD no laptop; os fones de ouvidos estão bem pressionados contra suas orelhas quando Rachel fala com você.

"Oi, querida. Estive trabalhando nisso com Artie após os ensaios de Glee. Espero que você goste. Eu te amo, Quinn."

Rachel ri quando Artie conta uma piada. Sua voz está suave e gentil quando ela diz coisas que só você sabe, que só ela sabe (e você espera que Artie tenha saído da sala de gravação enquanto ela dizia aquelas coisas), e entre tudo isso, a voz de Rachel cantando.

Músicas que você ama, músicas que nunca ouviu antes mas que as ama mesmo assim porque Rachel as está cantando. Rachel à capela, Rachel e Artie na guitarra. Canções que Rachel canta só para você.

Você está chorando abertamente quando chega a ultima canção do CD, uma das ultimas musicas que você ouviu antes de segurar um bebê de olhos azuis nos braços que mudou sua vida.

Antes de Rachel entrar com força na sua vida após as Regionais, e mudar tudo que você pensava saber sobre si mesma.

E mais uma vez os fones de ouvidos são tirados de você, e você está nos braços de Rachel.

Ela se inclina e canta gentilmente contra seus lábios.

Oh, girl, you stand by me… I'm forever yours, faithfully.

Rachel sorri quando você descansa a testa contra a dela. "Nunca se esqueça disso." Ela diz carinhosamente, lhe beijando.

E você a beija de volta.

Ela não precisa se preocupar.

Você vai se lembrar.

Fielmente.


E aí vai o segundo capítulo. Pelo que eu entendi da história, elas moram juntas desde o nascimento da Beth. E o resto é isso aqui... a autora original tem histórias muito boas, talvez eu traduza mais delas um dia. Mas por enquanto não esqueçam de O Admirador do MySpace e Eu Estarei, e obrigado pelas Reviews em todas elas e nessa também.