CAPÍTULO 1 – PERGUNTAS QUE NÃO QUEREM CALAR
Enquanto Yashiro telefonava ao presidente, Ren interrogava Shingai.
"Seiji, como você chegou até ela?"
"Hum? Bem, foi por acaso. Eu estava bebendo ontem à noite com o diretor Anna e reclamando sobre esta cena. Você sabe como cenas assim são um pesadelo..."
Sim, Ren sabia bem. Sempre era um problema quando roteiristas escreviam cenas importantes demais para o enredo com personagens que apareceriam somente uma vez. Pela relevância, não poderiam ser deixadas a cargo de um amador; por serem únicas, raros eram os profissionais que se dignavam a atua-las. Afinal, um ator queria aparecer, e quanto mais tempo, melhor. Felizmente havia uma categoria de profissional, na qual Ren se incluía, que valorizava a qualidade da cena sobre a quantidade de tempo em tela, mas encontrar alguém assim era difícil e o diretor Shingai já havia passado pelo constrangimento de recusar várias atrizes.
"Enfim, só sei que o barman simplesmente me disse que conhecia a pessoa perfeita para o papel, e que ela estaria coincidentemente no estúdio no horário da gravação"
"O barman?", perguntou Yashiro, que acabava de encerrar a tentativa de falar com o presidente. "Lamento, Ren, mas Ruto disse que o presidente está em uma reunião urgente e não terá tempo para nós hoje à noite"
Ren suspirou contrariado, mas não havia o que fazer. Era o tempo de um homem com grandes responsabilidades que ele solicitava, afinal. Entendendo que deveria prosseguir a narrativa, Shingai continuou a falar.
"Eu sei que parece só mais um dos casos que vemos todos os dias, de pessoas tentando cair de paraquedas no show business, e foi exatamente isso que eu pensei no início. Como ele falava com um sotaque carregado e era visivelmente estrangeiro, imaginei que talvez não estivesse acompanhando direito a minha conversa com Anna; só sei que apenas disse a que horas a garota deveria estar aqui para encerrar de vez o assunto. Ele calou a boca depois disso e eu voltei a conversar com Anna. Esqueci completamente o acontecido até chegar ao set junto com ela"
Ren ouvia com paciência as informações que o diretor lhe passava, mas como o homem parara de falar e parecia perdido em recordações, instigara-o a prosseguir.
"Quando ela me disse quem era... se não fossem os olhos, eu não reconheceria. Eu nunca acreditei em aura, mas não consigo pensar em maneira melhor de descrever: a aura dela estava diferente. Parecia tão... segura. Tão..."
"Ela deixou algum cartão? Telefone de contato?". Ren sabia que estava sendo indelicado ao interromper o diretor; ainda que o considerasse um amigo, fazia questão de lembrar que enquanto estivessem no local de trabalho haveria uma hierarquia a respeitar, mas simplesmente não suportava presenciar Shingai descrever Kyoko com uma expressão tão deslumbrada.
"Infelizmente, não. Ela confirmou a história do barman, sobre ela estar aqui por coincidência de um outro compromisso, e apenas passou por acaso nos poucos minutos disponíveis. Basicamente gravou a cena no 'ou tudo ou nada'. Quando eu disse que a cena tinha ficado perfeita, ela se despediu dizendo que a agência dela entraria em contato com a nossa produção. E só"
"Só?". Yashiro demonstrava perfeitamente o estado de decepção no qual Ren se encontrava, mas o ator não estava disposto a desistir.
"Esse bar no qual você foi ontem, como se chama?"
"Oh? Ah, sim. É um lugar novo que abriu perto daqui e tem o sugestivo nome de 'Hideout'. Realmente, se não fosse Anna me indicar o lugar eu não o teria percebido! Tem a proposta de ser um bar exclusivo para artistas, mas não sei se sobreviverá por muito tempo com aquela localização. Espere aqui, eu vou desenhar um mapa para vocês"
Enquanto Shingai partia em busca de papel e caneta, Ren e Yashiro digerem as informações e trocam impressões.
"Eu não consigo acreditar que Kyoko-chan retornou e não nos disse nada!"
"O que eu acho ainda mais difícil de acreditar é que ela esteja em outra agência"
A cada segundo que passava o semblante de Ren ficava mais atormentado. Yashiro sentia-se um inútil por não conseguir encontrar palavras para amenizar o visível sofrimento do amigo. Quando abria a boca para dizer alguma coisa, qualquer coisa, Shingai retorna com um mapa rabiscado.
"Aqui está; coloquei o máximo de referências que pude me lembrar. Caso você chegue nos arredores do bar e não o localize, ligue para mim que talvez eu consiga orienta-lo melhor. Gostaria de poder leva-lo até lá, mas hoje ainda tenho uma audição para fazer"
"À noite? Pobre homem!"
"Que nada! Depois das cenas que gravei hoje, sinto-me revigorado!". E partiu animado, deixando Ren e Yashiro para trás.
O ator apenas analisava o mapa que Shingai lhe entregara, absorto em pensamentos. Nada fazia sentido, mas o pouco que descobrira era desanimador. Há quanto tempo ela havia voltado? Por que não o procurara? Ela procurara alguém? O presidente sabia? A qual agência ela se referia? Como poderia estar com a agenda lotada, se ele não via o trabalho dela em parte alguma? De que forma ela e um barman estrangeiro estavam ligados?
PLIM
As engrenagens mentais de Ren são interrompidas pelo som de seu celular recebendo uma mensagem. Ator e agente compartilham um momento de euforia imaginando tratar-se finalmente de um contato de Kyoko, mas quando o desânimo se tornou evidente no semblante de Ren, Yashiro quebra o silêncio com a pergunta que mais o incomodava.
"Ren, e agora, o que vamos fazer?"
Com um suspiro resignado, Ren dá a resposta que Yashiro menos esperava receber.
"Você eu não sei, Yuki. Mas eu, acabo de ser lembrado que tenho um encontro esta noite com Honoka Ootomo"
"EEEEEHHHHHH?"
N/A – Eu sei, eu sei. Prometo que tudo ficará mais claro no próximo capítulo! A quem simplesmente pulou para esta fic, ignorando as outras duas, advirto que a trama não fará sentido e as fics têm uma ordem proposital. Beijos!
