É Assim Que Você Me Lembra...
Arashi Kaminari


Capítulo 2 - ...O pior dia da minha vida

Havia ficado algum tempo a mais após a retirada de Benetona. Não queria admitir a si mesmo o fim. Era uma dor tão dilacerante, que pensou que fosse morrer. Verteu várias lágrimas de sofrimento.

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Shun havia estranhado o comportamento de Ikki. Se a suposição de uma briga com Shaka fosse verdadeira; seu irmão deveria ter ficado calado – com a cara mais emburrada do que a habitual – para em seguida resmungar e xingar Shaka até a última geração, descontando sua raiva em tudo e todos que visse pela frente. Mas ele parecia tão... triste.

Esperou por Ikki na entrada do campus por mais de uma hora. Perguntou para um e outro sobre o paradeiro de seu irmão, até defrontar-se com um garoto alto e esguio, de ondulados cabelos ruivos. Lembrava-se vagamente dele, mas achava que o garoto era da mesma turma de Ikki. Aproximou-se e indagou-lhe, obtendo a tão desejada resposta: ele ainda estava na sala de aula.

Estranhou ainda mais. Ikki nunca se interessou pelos estudos e agora ficava além da hora na sala? Subiu apressadamente as escadas, cumprimentando algumas pessoas em seu caminho.

Encontrou seu irmão sentado numa das últimas carteiras, dormindo profundamente. Caminhou até ele; agachando-se ao seu lado em seguida, arrumando seus pertences. Levantou seu olhar, paralisando-se de imediato ao deparar-se com as recentes marcas de lágrimas no rosto de Ikki.

Custou a acreditar no que seus olhos lhe mostravam. Aquela cena era inacreditável. Em dezessete anos de vida, nunca havia presenciado lágrimas naquele rosto bronzeado e marcado.

Acariciava-lhe a face, quando ouviu passos. Voltou-se a entrada em tempo de ver o garoto ruivo aproximando-se do batente da porta. Sorriu quando foi indagado se precisava de ajuda. Aceitou.

Mime pôs Ikki em suas costas, enquanto Shun pegava o material dos três. Desceram pelas escadas de emergência. Não queriam perguntas e comentários de outros sobre a situação.

Entraram no carro de Mime e acomodaram-se, após deitarem Ikki no banco traseiro. Mime sorriu e logo deu a partida no conversível, quando soube onde Ikki morava. Conhecia bem o local e melhor ainda o prédio.

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Deixou o carro na garagem. Tomou Ikki em suas costas novamente, assim que saltaram. Shun estranhou de início um desconhecido ter entrado sem dificuldade alguma no prédio, logo depois pensou na possibilidade de Mime ser um morador. Caso estivesse certo, ele deveria ter status, pois somente pessoas com cacife moravam naquele prédio.

Subiram pelo elevador de serviço – onde encontraram uma servente, que prontamente cumprimento-os pelos respectivos sobrenomes. Entraram silenciosamente. Mime quebrou o silêncio com sua voz potente e melodiosa.

"Poderia apertar o botão?"

"Hã!?... Claro!"

"Indicou o terceiro andar. Permaneceram mudos até saírem do elevador e entrarem no apartamento de Ikki."

"Onde devo deixá-lo?"

"Não precisa se incomodar. Pode deixá-lo no sofá, depois eu o carrego para o quarto."

"Não é incômodo algum."

"Se é assim... Primeira porta à direita."

"Com licença."

Caminhou até o quarto em passos calmos. Abriu a porta, empurrando-a gentilmente com o quadril. Localizou a cama e acomodou o corpo maior nela. Abriu um pouco a janela e retirou-se do quarto. Ikki deveria estar esgotado.

Passou pela sala; pegando seu material, pronto para ir ao seu apartamento. Despediu-se de Shun, que agradeceu-lhe a ajuda.

Retirou-se do apartamento e rumou até o elevador novamente. O conforto de sua casa lhe aguardava dez andares acima.

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Despertou horas mais tarde, todo dolorido. Esfregou os olhos com os dedos e levantou-se. Despiu-se, enquanto caminhava até o banheiro. Arrumou-se rapidamente. Olhou para o relógio sobre a cabeceira e certificou-se do óbvio: estava atrasado para o trabalho.

Pensava em como havia chegado em casa, se a sua última lembrança era o fora que havia dado no ruivo metido da sua classe. Estava indo em direção a sala para procurar sua jaqueta e pegar as chaves da sua moto, quando percebeu a presença de Shun.

"Shun!?"

"Oi! Eu arrumei as coisas por aqui, enquanto você descansava. Não havia muito a se fazer. Contratou uma empregada?" – perguntou, trocando os canais da televisão.

"Não..." – respondeu, pegando sua jaqueta que estava sobre a cadeira – "Uma diarista. Ela vez uma vez por semana. Esteve aqui ante ontem."

"Ela faz um ótimo trabalho. Para deixar tudo aqui em ordem..." – disse por cima do ombro do braço que estava estirado sobre as costas do sofá, revirando os olhos.

"O... O que você está fazendo aqui?" – indagou, ainda meio desnorteado.

"Eu... Ah! Eu..." – tentou encontrar uma explicação onde não precisasse citar sobre o estado em que o havia encontrado.

"Esquece! Eu tenho que ir trabalhar."

"Mas já!?..." – fingiu, sentindo-se aliviado na verdade – "Você acabou de acordar, nem almoçou."

"Eu como algo quando chegar lá." – disse, tomando a chave da moto de sua mão.

"A moto está na faculdade. Pedi para o porteiro tomar conta."

"Afff!!!" – resmungou, deixando as chaves.

"Posso dormir aqui hoje?"

"Faça o que você quiser." – respondeu Ikki, já no corredor do prédio.

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Pegou o primeiro ônibus que passou. Estava lotado e apesar de ser rápido, teria que andar um estirão até chegar a boate. Apertado como uma sardinha, com corpos suados e fedorentos esfregando-se em seu corpo, com vozes alteradas e risadas fora de harmonia: sua cabeça parecia que ia explodir.

Saltou do coletivo e começou a correr, tirando a jaqueta pelo caminho – tamanho o calor. Entrou pela porta dos fundos. Esperava não encontrar o gerente, que era filho dos donos.

"Atrasado, Fênix!" – recriminou uma garota.

"Eu sei... Eu sei, RB."

"Dia ruim, brother?" – perguntou um homem, ao aproximar-se e constatar a péssima feição de Ikki.

"Péssimo! Estou quase apelando para macumba para ele passar mais rápido."

"Isola cara!"

Imediatamente, a garota e o homem bateram com os nós dos dedos na bancada de madeira maciça. Ikki não pôde deixar de dar um sorriso amargo. Estava quase pensando que havia se salvado da repreensão de seu gerente, quando sentiu uma mão em seu ombro.

"Mais azedo do que o de costume, Fênix."

"É..." – assentiu.

"Toma. Esfrie a cabeça." – ofereceu, seu gerente, uma dose de whisky puro – "Isso aqui promete hoje."

"É tudo o que eu preciso:" – virou o copo de uma vez – "mulheres, bebidas e trabalho."

"Cuidado! Essa mistura é perigosa." – alertou-o, afastando-se; dando espaço para Rapina Branca se aproximar.

"Pensei que nas quintas à noite fitasse os homens em cima do palco e não as mulheres da platéia."

"Só há um homem para mim..."

"Quer conversar?"

"Sobre?"

"Você sabe, Fênix. Tá precisando."

"Não estou, acredite. Mas valeu pela intenção. Eu estou bem."


Por Arashi Kaminari, 10 à 15 de outubro de 2004.

Desculpa pela demora, mas o Zion ( meu computador ) estava doente. Agora que tudo está bem, já estou com a metade do próximo capítulo escrito. Quanto as perguntas que me fizeram – se o Shaka vai voltar para o Ikki e o porquê do Hyoga beijar o Shun sem eles serem namorados –, isso vocês só saberão no decorrer da fanfiction. Obrigada pelos comentários.