– Tem certeza que não vai te atrapalhar? – Ela perguntou com o celular entre a orelha e o ombro, jogando longe todas as calças brancas e calcinhas beges que via pela frente. Já usava essas peças quase todos os dias, não iria usá-las nas férias por nada.
– Tudo bem, Bella. Eu realmente não me importo. – A voz rouca e familiar de Jake disse do outro lado da linha e ela quase podia ouvir o sorriso dele. – Vai ser bom ver seu rosto depois de todo esse tempo.
Ela sorriu. É claro que ele não iria reclamar. Já tinha reservado a passagem do voo pelo celular e logo depois ligou para o pai ir busca-la no aeroporto de Seattle. Mas ao que parece ele tinha ronda durante a noite toda e disse para ela pedir ao Jacob.
– Se está dizendo que tudo bem, então vou acreditar. – Ela colocou mais dois casacos pesados dentro da mala e tentou fechar sem sucesso. Jogou a mala no chão e pisou em cima, resmungando ao forçar o zíper. Já estava levando duas malas, não haveria uma terceira.
– O que é isso? – Ele deu uma risada que mais parecia um latido. – Parece que está lutando com um urso, Bells.
– Apenas a mala – ela respondeu com a respiração pesada e sentou-se na cama. – O voo tem previsão de chegar as 5:00am, o que faz você ter que acordar umas 3:30am. – Ela esperou para ouvi-lo resmungar. Nada. – Mesmo depois dessa informação vai querer me buscar?
– Até parece que você não quer me ver, Bella. – O tom levemente magoado dele deu um aperto em seu coração.
– Não é isso, Jake. – A voz dela ficou mais suave. – É que eu odeio ser acordada cedo e não gosto de impor isso para ninguém.
– Tudo bem – o tom tranquilo voltou para a voz dele. – Pensei que era porque seu namorado não ia querer você num carro com um cara forte e bonito como eu. – Ela deu uma risada. – Mas eu já ia correr com os caras hoje a noite, já vou estar acordado de qualquer jeito.
– Isso é um alívio. – Ela sorriu. – E eu não estou namorando no momento, terminei faz quase um ano. Até amanhã, Jake. – Ela terminou a ligação antes que ele pudesse dizer alguma coisa.
O voo correu bem rápido, não que a passageira ao lado pudesse concordar. Quando Bella acordou, depois de ter dormido a viagem inteira, a mulher reclamava com a comissária de bordo sobre alguma turbulência que ocorreu. Ao descer do avião, há ligou de volta o celular e checou as mensagens.
Jake: Vou sair agora, sei que não vai poder ler a mensagem, mas espero chegar a tempo. Até daqui a pouco.
Foi enviada as 3:45am. Eram 5:10am agora. Desembarquei agora, tô aqui esperando minha bagagem decidir aparecer, ela respondeu. Tinha algumas mensagens no grupo da escola também. E do pai. Ficou parada em frente a esteira esperando as malas.
Papai Urso: Quando voce chergar eu vou star dorminfo ou nao vou ter chegado ainda. Mas a sue fez e deixou na geladera pra voce. Te amo
Ela sorriu consigo mesma. Depois de todo aquele episódio da depressão, ela e seu pai se tornaram mais próximos. Ele até chorou quando ela foi embora. Mas os erros na grafia dele nunca seriam corrigidos. Acabei de chegar em Seattle, ela digitou. Logo mais estarei aí te irritando. Também te amo. Ela abriu o grupo e viu as mensagens que ainda não tinha lido.
Jessica Stanley: A escola liberou pra gente se encontrar lá no refeitório. Só pra ver de todo mundo veio mesmo.
+01 68932477 Edward Cullen: Quando vai ser isso?
Jessica Stanley: Ainda não sei, ainda falta a Angela e a Bella chegarem em Forks pra vermos o dia.
+01 65874315 Alice Cullen: Podíamos fazer um amigo secreto também, o que acham?
A última mensagem era de 2:47am. Os humanos tinham ido dormir e deixaram Alice sem resposta.
Eu: Gostei da ideia do amigo secreto.
Eu: Desde que eu ganhe alguma coisa boa, é claro.
Eu: Meu voo chegou agora em Seattle. De tarde eu já vou estar livre.
Tyler Crowley: Você vai fazer o que de manhã, Bella?
Eu: Vou dormir, seu besta.
Eu: Aliás, o que você tá fazendo acordado a uma hora dessas?
Tyler Crowley: Vou correr, tenho que manter a forma.
Tyler Crowley: Até depois.
Eu: Tchau.
+01 65874315 Alice Cullen: Quer que eu vá te buscar?
Eu: Não precisa, minha carona já chegou.
Não era exatamente uma mentira. Jacob provavelmente já devia estar em algum lugar do aeroporto. Suas malas saíram pela abertura e começaram a rolar até ela. Grunhindo, ela pegou uma e puxou a outra para o chão. Se afastou da esteira, abrindo lugar para os outros pegarem suas malas. Olhou ao redor e notou a figura alta olhando para os lados. Levantou um braço e, na ponta dos pés, acenou.
Jacob não conseguia parar de sorrir conforme andava pelo aeroporto. Ela disse que tinha terminado com o namorado. Essa era a chance que ele tanto esperava, finalmente poderia ficar com ela. Ele notou um movimento com o canto dos olhos e virou-se naquela direção. Viu Bella com um sorriso no rosto. E apenas ela. Não existia mais nada ao redor deles, era como se tudo que existisse no mundo fossem os dois. Ele correu em sua direção e agarrou-a pela cintura, rodopiando pelo amor.
– Parece que alguém está feliz em me ver – ela riu e o som reverberou pelo corpo dele. Tudo que ele queria era que ela continuasse rindo. Ela se afastou e ele deixou ela ir, relutante. Se era isso que ela queria, ele daria. – Olhe só para você, parece maior a cada vez que te vejo. Quando vai parar de crescer? Pensei que já tinha saído da puberdade – ela o provocou, beliscando o braço.
– Já saí – ele disse, a emoção contida na voz. – Perdeu meu aniversário, fiz 21. Já posso legalmente beber.
Ela olhou para cima e sorriu maliciosa.
– Vamos secar aquela garrafa que seu pai acha que esconde embaixo da pia qualquer dia desses.
Ele sorriu. Nem conseguia lembrar do rosto do pai. Tudo o que preenchia seu ser era ela. O rosto em formato de coração. Os longos cabelos castanhos. O sorriso. O cheiro doce. A boca avermelhada por conta do frio.
Frio. É claro, ela era humana e estava com frio. Como ele era burro.
– Quer meu casaco? – Ele perguntou já começando a abrir os botões. Ele nem sentia frio e podia imaginar o quanto ela estava congelando.
As mãos dela voaram para cima das dele, impedindo o movimento. Uma corrente elétrica passou pelo corpo dele ao sentir o contato da pele.
– Sim. E não. Não pode me dar seu casaco na frente de outras pessoas. A temperatura está muito baixa.
Claro, ainda existiam outras pessoas.
Ele sabia exatamente o que era isso, já vira pelos olhos de Sam e Quil. Só não esperava que fosse acontecer. Já vira Bella tantas vezes, já desejara que sofresse imprinting com ela mais vezes do que queria admitir. E aí estava. Aquela sensação de que ela era a única coisa que o prendia ao mundo. Era até engraçado que aquele corpo pequeno e magro tivesse esse poder.
Bem magro.
– Você não tem se alimentado direito? – Ele perguntou com uma pontada de preocupação.
Ela corou e sorriu culpada.
– É cansativo trabalhar e estudar. E no fim do dia nem eu nem as meninas temos energia suficiente para cozinhar. – Ela explicou. – E não sobra dinheiro todos os dias para comprarmos comida de verdade, por isso na maior parte das vezes só beliscamos alguma coisa. E bebemos café, muito café.
– Isso não é nem um pouco saudável. – Ele deu uma bronca dela. – Vá para a reserva. Emily vai ficar mais do que feliz em cozinhar para você. Vai engordar eu não vou mais precisar ver os seus ossos.
Ele não estava realmente vendo, mas tinha certeza de que estavam aparentes por baixo de todas aquelas camadas de roupas.
– É o meu plano. Fiquei sabendo que a Sue fez uma torta para mim, quero comer até abrir o zíper da calça.
Jacob sorriu e pegou as malas do chão com facilidade, arrancando um resmungo de Bella.
– Você diz que eu pareço estar lutando contra um urso e chega aqui jogando na minha cara que consegue levantá-las sem esforço nenhum.
– Me desculpe. – Ele disse rindo, mas se perguntou internamente se ela realmente estaria chateada. – Vamos? O carro está no piso de baixo.
Eles andaram lado a lado e Jacob carregou as malas com um braço só para conseguir passar o outro pelos ombros dela. Ela murmurou um agradecimento ao calor que vinha do corpo dele. Ao chegarem no estacionamento, Jacob apontou a picape cor creme que já tinha um ocupante no banco do passageiro. Ela lhe lançou um olhar indagador.
– É o Paul. – Tinha se esquecido completamente dele. – Temos que ir em outro lugar depois buscar umas peças. – O plano nunca tinha agradado muito ele, mesmo antes de imprinting. Ele não queria ficar separado dela mesmo quando era apenas uma paixonite, agora era quase doloroso.
Ela não disse nada, é claro que não diria, ele a conhecia muito bem. Para todos os efeitos, a relação entre Paul e Bella era no mínimo explosiva, ambos não conseguiam deixar de implicar um com o outro, embora a raiva inicial tenha sumido completamente. Jake abriu a porta de trás e colocou as malas lá dentro.
– Oi Paul. – Ela disse perto da janela do passageiro. Jacob queria gritar, não tivera tempo para contar para Paul o que tinha acontecido e pedir para ele ser gentil com Bella.
– Oi, Bella. – Ele levantou o rosto e virou-o quando estava falando, olhando diretamente para ela.
Ah não.
Ele perdeu o chão, não sabia dizer se estava sentado ou caindo, apenas conseguia dizer que a garota mais bonita que ele já tinha visto estava a um braço de distância. Por ter estado presente no momento em que Quil mostrava ao vivo e em cores como ele se sentiu na primeira vez que viu Claire, ele ficou desolado e feliz ao mesmo tempo ao perceber do que aquilo se tratava.
Logo ela, logo aquela garota que já tinha andado com vampiros, logo a que ele tentou atacar... O rosto dele ficou vermelho com essa lembrança e seu estômago se revirou. Só de pensar que ele podia ter feito algum mal para ela.
Ela entrou na parte de trás do carro e ele sentiu o cheiro dela preencher o ambiente pequeno. Ele olhou pelo retrovisor e a observou colocando o sinto de segurança. Ela olhou para cima bem nessa hora e notou que estava sendo observada, danço um sorriso sem graça em resposta. Sem pensar duas vezes, Paul tirou o próprio casaco e entregou para ela, subindo o vidro de sua janela logo em seguida.
– Nossa, obrigada Paul. – Ela disse satisfeita, enfiando os braços dentro das mangas longas demais e apertando o tecido em volta do corpo.
Ele não iria lavar aquele casaco enquanto o cheiro dela estivesse impregnado ali. Ou talvez ele desse o casaco para ela se ela quisesse. Com certeza precisaria. Se ela precisasse de qualquer outra coisa ele poderia arranjar também...
O rosnado baixo de Jacob se misturou ao barulho do motor, cortando sua linha de raciocínio e Paul tinha certeza de que só ele conseguiu distinguir o som. Era verdade que ele sempre tinha gostado de Bella, mas agora teria que esquecer isso, já que ela era dele.
– Disponha – ele apenas disse para Bella.
