1 – De um terror para outro
Fosse em que situação fosse, durasse a viagem o mínimo ou o máximo de tempo possível, fizesse o que fizesse, Chiaki continuava a não ser capaz de entrar num avião e comportar-se de forma razoável. De nada lhe valia tentar confortar-se com a frase "Isto é um avião seguro" repetida centenas de vezes, nem hipnotismo, nem psicólogos e psiquiatras, nem terapias de golfinhos recomendadas pelo tio ou uma Nodame de súbito estranhamente afectuosa ao seu lado para lhe tirar os efeitos da fobia. É claro que era um avião seguro, isso até um bebé sabia. Milhares de pessoas no mundo viajavam de avião, centenas de aviões no ar a toda a hora e que não caíam. A probabilidade de ocorrer um acidente grave naquele avião era pequena. Então, porque diabos aquele avião onde ele, Sinichi Chiaki, haveria de ter um acidente? Aliás, porque iria ele, jovem pianista e conhecido maestro, para aquele lugar aonde aquela viagem o levava? E porque é que tinha uma Nodame dengosa pendurada no seu braço e uma mancha de baba enorme no ombro da camisa?
- Nodame! Larga-me! A minha manga está molhada.
- Não, sempai… aah…
- Eu sabia que era má ideia vires atrás. Da próxima vez compra um bilhete a três filas de distância, no mínimo. Melhor ainda, não venhas. Não tens aulas lá em Paris com Auclair? Tu nem tens motivo para vir atrás de mim para onde eu vou. E eu não sou teu marido!
- Mukyaa, sempai, eu vim porque eu tinha de vir. - Virava os olhos exactamente como costumava fazer quando queria esconder qualquer coisa. Desconfiava que ela nem sequer tinha deixado um aviso ou uma desculpa desta vez para justificar mais uma temporada de ausências no Conservatório de Paris.
Afastou-lhe a cara com uma mão, numa tentativa falhada de a afastar, porque nem cinco minutos se passaram depois daquilo e já ele se agarrava ao braço dela porque olhara para o lado de fora da janela e vira-se acima das nuvens. Definitivamente, detestava estar num avião.
- Ah, a Nodame pelos vistos sempre é necessária.
A viagem que fazia, porém, era-lhe necessária. Podia ter ido de comboio, ou por outro meio mais próximo da terra, mas não tinha tempo para uma viagem dessas. E o bilhete que se dispuseram a pagar-lhe era um bilhete de avião. Resolvera não reclamar, porque já estava a pedir demasiado de quem o tinha contratado para um concerto numa noite.
Tinha sido indicado por DePreist para ir reger uma pequena orquestra juvenil a Portugal Um desafio que o outro lhe dissera que necessitava. No momento, Chiaki limitara-se a encolher os ombros. Não conhecia Portugal, muito menos Lisboa, e certamente que nunca tinha ouvido falar no Conservatório para onde ia ou na pequena orquestra que ia reger. Uma orquestra de cordas, dizia DePreist, pequena e todos abaixo dos vinte e cinco anos. Aliás, só três deles é que já tinham ultrapassado os dezoito anos. Resumindo, crianças. Agora, o japonês levava as mãos à cabeça, a pensar arduamente no que é que o levara a pensar em meter-se naquilo. Nem a voz do professor responsável e maestro o confortara. Esse iria ficar como mestre de concerto. Enquanto ele se veria a braços com aquele bando.
Se na altura não lhe atribuíra importância nenhuma por ser uma coisa que nunca antes tinha feito, agora que pensava melhor no assunto, arrependia-se. Não havia um único maestro que alguma vez aceitasse um trabalho daqueles. Não ia conseguir nada com aquilo. No máximo dos máximos, o nome numa meia dúzia de panfletos ranhosos e uma linha a mais no currículo. Era um peixe miúdo que lhe tinha sido quase impingido por DePreist. Isto, dissera ele, ou aulas. Ainda se recordava das palavras do mais velho.
"Chiaki, precisas de ter contacto com uma coisa deste género. Com crianças e adolescentes. Com outras pessoas que não aquelas a que estás habituado, numa orquestra de profissionais. Estás demasiado habituado a pessoas que já sabem que nível queres delas, que poderiam quase funcionar como máquinas de montagem altamente eficientes, à espera da tua ordem. Quero dizer, é óbvio que têm sensibilidade e são tudo menos máquinas, afinal um músico é o oposto total de um operário de fábrica, mas, Chiaki, já não estão a aprender como aqueles jovens estão. Faz bem ter a percepção de cabeças mais febris, mais inventivas. Este trabalho é bastante bom para isso, e eu mesmo investiguei o homem e a turma que me procuraram. É isto, Chiaki, ou terei de ser forçado a pôr-te obrigatoriamente a dar aulas de piano. Num sítio qualquer."
Aulas de piano. Num sítio qualquer. Tremia só de pensar. Não tinha paciência nenhuma para jovens aprendizes. O máximo que fizera fora ajudar Nodame nalguns exercícios, mas Nodame era Nodame. Por muitos defeitos que tivesse, tinha um excelente ouvido e uma sensibilidade extraordinária para compensar. Não estava a batalhar contra um cérebro meio cru de algum aluno de meia tigela de piano que só lá estava porque os pais o obrigavam a tal. Não, definitivamente não queria enfrentar esse monstro de desafio. Antes a orquestra deles que a ameaça das aulas.
O que é que DePreist queria? Que ele tivesse dores de cabeça com uma coisa pior que a amiga? Só porque queria que ele palpasse para ver como era a formação de jovens brilhantes, se é que aqueles seriam brilhantes?
Ou talvez tudo o que ele queria era dar uma boa gargalhada à conta de Chiaki. Só isso justificava o que lhe estava a fazer.
E, para completar a parada, Nodame viera atrás porque era pior que a sua própria sombra. Não tinha motivo nenhum para ir a Lisboa com ele, mas arranjaria qualquer coisa que a fizesse lá ficar colada a ele. Nodame era uma espécie de criança em ponto grande, por isso até serviria de treino para lidar com uma orquestra cheia delas. Só de imaginar uma orquestra cheia de réplicas de Nodames de todos os tamanhos e feitios pô-lo doente. Rezava para que, pelo menos, a maioria tomasse banho mais vezes do que aquela que ia ao seu lado fazia. Agora até estava bem cuidada, e o seu cabelo estava na sua cor original, castanho claro, liso e sem cheiros. Ao menos isso.
Talvez a sua prática nos meses que passara como vizinho de Nodame, em que a aturara, cozinhara para ela, dera-lhe banho e servira de porto de ajuda, lhe servissem para alguma coisa. Por outro lado, não queria nem pensar numa coisa dessas, porque não estava para aturar, cozinhar e dar banho a uma orquestra. Era só o que lhe faltava. Que se contentassem com os conselhos que ele desse, e uma ou outra eventual ajuda, que não daria mais que isso.
Uma voz anunciava que já faltava pouco para aterrarem no aeroporto de Lisboa. Chiaki deixou a sua cabeça vaguear por momentos, imaginando como seria Portugal. Portugal não tinha nada de conhecido, não para ele. Não conseguia associar nem um único compositor conhecido àquele país, apesar de lhe terem falado nuns poucos. Aquilo que ele lá ia reger, uma Sinfonia de Avondano e um Concerto de Lopes-Graça, era de compositores portugueses… e era a primeira vez que punha os olhos naquelas partituras. Se por um lado estava a gostar de ter novas experiências, por outro lado bastava-lhe um passo em falso para meter os pés pelas mãos.
Com um solavanco nada amigável que o fez guinchar de medo, o avião pousou rudemente na pista. Dez minutos bastaram para que estivessem a descer para irem buscar as malas, e Nodame estivesse felicíssima por ainda o vir a amparar. E, já com as malas, saíram à procura de alguém que os viria buscar. Tinham-lhe dito que alguém os viria para conduzir até ao prédio e ao Conservatório. Mas não sabiam de quem se tratava, nem como saberiam quem era. Até verem um homenzinho atarracado, com cara meio amuada, a segurar um pedaço gigantesco de cartão onde escrevera, rudemente, "Senhor Maestro, aqui!". Não sabia se havia de rir da cena, ou se queria ir-se esconder no buraco mais próximo. Tinha uma vontade enorme de ignorar o cartaz constrangedor e o homem caricato que o segurava, de tapar a cara e soltar ainda um risinho estupidificado. Nodame é que não lhe dera hipótese. Com a alegria de uma criança numa loja de doces, dirigia-se para ele.
- É ali, sempai! Está ali, está ali.
- Nodame…
Assim que chegaram perto dele, sem uma única palavra, tiveram de o seguir até ao transporte, um carro semelhante a algo saído de uma sucata. Os vidros, que à primeira vista pareciam escuros, estavam cobertos com uma camada espessa de pó que não permitia nem a um falcão olhar para o interior. Com um lenço, Chiaki limpou um bocado do vidro, enojado. A porta do carro foi-lhes aberta e as malas enfiadas na bagageira. Esperaram, constrangidos, até que o homem entrasse e pusesse o motor a funcionar, com um estampido, seguido por um ronco asmático e a cheirar a borracha queimada.
- Gyaboo! Como príncipes numa limusina.
O carro, um Fiat de pintura lascada que um dia no passado fora azul, coberto de pó e terra, estrondosamente ruidoso em movimento e com o aroma inconfundível do metal em brasa, da gasolina e da borracha requeimada, estava muito longe de ter qualquer semelhança com uma limusina. Chiaki até àquele momento achava que não havia nada pior que o quarto de Nodame no primeiro dia em que lá entrara. Pois tinha encontrado aquela viatura que batia o recorde, cujo interior era pavoroso pelo simples facto de ter metido a mão em cima do que parecia uma pilha de panos nauseabundos e esta mexera-se. Dava-lhe arrepios. Para aquela viagem, servia, porque não havia outra hipótese. Mas assim que estivesse instalado, Chiaki pensava alugar um carro só para fazer o favor de dar umas férias àquela lata, que dava medo só de andar nela.
Lisboa era ruidosa, e solarenga. Porém, algumas das fachadas por onde passavam pediam urgentemente uma camada nova de tinta por cima, enquanto outras exibiam grafittis de extremo mau gosto. O que via, não o fazia gostar nem um pouco da cidade. Era tão diferente de Viena, Paris, Roma ou Londres. E, apesar de tudo, ainda estavam na Europa. Até a vizinha Espanha tinha mais aspecto de cidade cultural que aquilo. Pelos vistos, mais parecia que já estavam a oeste do paraíso. Por Deus, o que estava ele a fazer ali? Face a Lisboa, afinal, aulas de piano ou de outra coisa qualquer não pareciam tão ameaçadoras como aquilo. Lisboa era até mais terrível que umas trezentas viagens de avião seguidas umas à outras. Podia ser que ainda encontrasse forma de ver alguma vantagem no que fazia.
Nodame, por outro lado, delirava. Tiveram de parar, de propósito, para comprar pastéis de Belém, que comeu ruidosamente. Os bolos, na verdade, valiam a manifestação de agrado. E durante toda a viagem, Nodame apontava o dedo a tudo, engraçava com tudo. Parecia que gostava daquela cidade suja e colorida, com um bom punhado de personagens cómicas. Chegava a irritá-lo profundamente, de tal forma que já se imaginava a dar um pontapé a Nodame e fazê-la sair do carro podre, ela e o seu vestido cinzento. Ia pedir-lhe que se calasse de uma vez por todas, quando, numa voz gasta e cavernosa, o motorista lhes anunciou que estavam em frente ao hotel onde iriam ficar alojados. Era a oportunidade perfeita para expulsá-la.
Deixou-a junto com as malas, com a cara de um cachorrinho ferido, com a promessa vaga de que voltaria para o jantar. Não podia quebrar a promessa, porque sabia que Nodame não tinha onde cozinhar num quarto de hotel, e mesmo que tivesse, ela era incapaz de fazer mais do que onigiri e chá. E arrancaram novamente para o Conservatório de Lisboa. Passou a mão pelos cabelos negros como a noite, num suspiro reprimido. Não sabia o que esperar daquilo. Um grupo de anjos talentosos ou um bando de babuínos desnorteados.
Pararam à frente de um edifício branco, resplandecente. Um oásis no meio daquilo tudo. Era uma antiga igreja aproveitada para o propósito que servia, uma construção num estilo diferente das que a rodeavam. Uma parte já lhe tinha sido acrescentada, mais moderna e rectilínea, provavelmente onde seriam grande parte das salas de aula, que, contudo, não lhe roubava o esplendor. Aquele lugar trouxe-lhe algum alívio. Havia coisas que nunca mudavam mesmo em mundos diferentes, e a música era uma delas. Os lugares podiam variar, assim como os nomes e as letras, mas um Lá soaria sempre como um Lá onde quer que estivesse. A música seria sempre música, e seria sempre reconfortante, calmante, uma parte de si a chamar num destes lugares. Se pudesse, entraria lá dentro e procuraria um piano. Dois, talvez, para Nodame também.
À frente da porta estavam três vultos. Quando saiu do carro e respirou, com alívio, o ar puro, conseguiu distingui-los melhor. Um homem novo, pouco mais velho que ele, de óculos e um ar ligeiramente lunático, uma mulher apreensiva a falar ao telemóvel, que envergava uma saia de folhos, e uma mulher muito mais velha, baixinha e gordinha, com um ar tão simpático quanto o do motorista.
- Oh meu Deus, não me digas… que…
Algures no mundo, DePreist estava certamente a rir-se.
