Disclaimer: No presente momento, nada me pertence. Nem Naruto, nem as músicas do Metallica, nem citações de Constantine ou Alice no País das Maravilhas. E ah, antes que eu me esqueça, eu não escrevi a Bíblia.

Nota da autora: Não me apedrejem, mas minha infância acabou com a minha fé. Um beijo.

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2

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Say your prayers, little one,

Don't forget, my son,

To include everyone

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Era um costume familiar ir à igreja aos domingos. Acordar pela manhã com o rosto amassado, sem saber que horas eram. Vestir a melhor roupa que houvesse no armário, como zumbi. Calçar uns sapatos lustrosos. Meter uma bíblia debaixo do braço. Passar um gel no cabelo.

A igreja era um lugar estranho como universo paralelo. Um lugar onde garotos podiam ser adultos. Em que eram tratados como adultos, com seus sapatos brilhantes. Onde tinham de apertar mãos com ar sério. Entender a atmosfera. E ficar quietos. E ouvir o pastor.

Lembra um pouco a escola, Kiba sempre pensava ao sentar num dos bancos de madeira lá de trás. Quieto. Mudo. Torcendo as mãos.

O pastor era um homenzinho careca, atarracado, e que suava muito. Mas tinha uma fala eloqüente. Tinha voz de pastor. Falava as palavras certas para atingir o coração. Sempre deixava senhoras chorando em seu sermão que massificava, tornando as pessoas iguais.

Até mesmo Kiba, que tinha uns seis anos, podia entender o que ele dizia. Literalmente, é claro, mas entendia. A essência da coisa era a mesma: ter medo do Diabo. Ter medo do Inferno. Ter medo de arder nas chamas de um lugar de terror, dor e sofrimento eternos. E, por isso, obedecer a Deus. Deus salvaria todos os seus filhos? Claro. Aqueles que o obedeciam eram Filhos do Senhor. O resto era um bando de bastardos, que Ele fazia questão de desprezar.

Esse medo insano fazia pessoas caírem nas graças do Senhor. Mas tantas coisas eram pecado... "Pois larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela. Mas estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que a encontram." Não era assim?

Acabava que era impossível agradar a um Deus sempre descontente. O que Ele queria? Que Kiba fosse três vezes por semana à Igreja? Que cantasse hinos todas as manhãs? Que orasse antes de ir para a cama? Nada nunca era o bastante. Deus sempre o apontaria com um dedo carnudo como salsicha e diria: "Culpado". Na sua passagem de ida, apenas um seria o destino da viagem. E a porta que o receberia acabaria sendo bem larga.

O garoto tinha medo. Tanto quanto poderia ter.

De um lado, as chamas do Inferno. Do outro, um Deus temperamental pesando cada ato e escolha em uma balança, vincando a testa e tentando decidir quem merecia viver ou morrer.

( Cortando cabeças. )

Então, lia a Bíblia em casa. Entendia tudo literalmente, mas lia assim mesmo e se assustava mais. Tinha mais medo. Tentava ser mais obediente, mas nunca era o bastante. Regulamentos infindáveis, regras impossíveis, quem sobe e quem desce e por quê.

Chegava o tempo da oração. Uma música de fundo era dedilhada num teclado. O pastor induzia o rito com uma voz tranqüila de fazer lágrimas saltarem aos olhos. Cabeças curvadas, criaturas humilhadas. Coisas pequenas e submissas na imensidão do Criador. Os olhos se fechavam, as bocas iam ganhando voz. Tentavam conversar com um Deus inalcançável, dormindo à noite com protetores de ouvido. Mostrar suas obras a um Deus cego como porta.

E ele também fechava os olhos. Pedia perdão por seus pecados. Ficava encarregado de intervir pelo dos outros. "Deus escuta as crianças", disse a mãe uma vez. "Então ore por todos nós". E ele orava. Listava pessoas. Pedia por sua família, por seus amigos, vizinhos, pedia até pelas pessoas que passavam fome na África. Queria só um pouco mais de atenção. Mas Deus não ouvia. E era sua própria culpa Deus não atendê-lo. "Ele não me ouve", pensava sozinho "porque sou um garoto mau".

O louvor vinha como quem não queria nada, numa música tranqüila. Depois numa agitada. Noutra tranqüila. E todos cantavam numa só voz, erguiam as mãos para o céu além do teto abobadado e tentavam dizer: Por favor, nos escute! Ouça quando falamos com você! Mas Deus não estava lá. O pastor apontava para frente com um relógio de ouro balançando no pulso. Imperava no microfone:

Sintam o Espírito de Deus! Sintam o Espírito Santo de Deus!

E as vozes entoavam: — Oh, eu sinto!

Mas Kiba não sentia nada.

Sentia-se sufocado no calor estafante. Sentia a garganta doída, as palmas das mãos dormentes. Sentia um desejo profundo de sentir o tal do Espírito Santo, mas não o sentia. E quando olhava para o lado, via rostos enlevados de excitação. Olhos brilhando de ternura, dor, alegria. Só podia ser o Espírito de Deus. O Espírito Santo de Deus. Ele estava ali em algum lugar, mas onde? Porque não o via? Não o sentia? Ele era um garoto assim tão mau? Deus não queria falar com ele, era isso?

— Deus tem um plano para você, irmão! — Na garganta do pastor, uma veia latejava — Um plano para você e para mim!

Oh sim, claro que tinha. Kiba podia ver o próprio Supremo com sua barba secular feita de vento, sentado em seu trono do Tempo, pesando seus pecados com rubis cor-de-sangue numa bandeja de prata. A cada três rubis uma safira de boas ações. Três para um. Três para um. E um dedo carnudo como salsicha o apontaria entre os olhos, dizendo:

— Culpado.

( Cortem-lhe a cabeça. )

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Now I lay me down to sleep,

Pray the lord my soul to keep

If I die before I wake,

Pray the lord my soul to take

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Vou responder às reviews agora. Se eu receber mais alguma na 1., faço questão de incluir a resposta aqui mais tarde.

1.

Querida Otowa! Acho lindo o fato de que seja tão atenciosa. Pelo que tenho visto, você comenta todas (ou quase todas) as fics que lê. E é muito gentil da sua parte, realmente. E, por falar nisso, preciso te deixar reviews também. (y' Suas ShikaIno são amor até embaixo d'água.

Obrigada por ter gostado. Pobre Hinata. Se ela ao menos pudesse voltar no tempo quando descobrisse o mundo... Obrigada mesmo, darling. 3

2.

Carol. Embora você tenha comentado, talvez eu preferisse que não o tivesse feito, dado seu comentário tão raso a respeito do que escrevi. O fanfiction net está abarrotado disso: de pessoas que tentam demonstrar superioridade intelectual sobre outras. Que se limitam à leviandade de pensamento. Que não entendem piadas, e não têm senso de humor.

Não me trate como se eu não soubesse o hino nacional. Como se não houvesse passado dez anos da minha vida numa fila, todo santo dia, entoando-o em frente à bandeira.

Portanto, antes de dizer algo tão impensado, por que não procura melhorar sua interpretação? É mais útil do que um comentário desses.

Um beijo.