Capítulo 2
Então, como é de se imaginar, cheguei meia-hora atrasada para minha aula de espanhol, mas o professor foi super gente boa e nem ligou muito, já que eu era uma aluna nova e tal. E na verdade a aula nem tinha começado mesmo. Quando eu o interrompi, ele ainda estava falando de assuntos gerais, como os principais temas que seriam trabalhados no ano, e blá blá blá.
- Parece que temos uma nova aluna para a nossa aula de espanhol esse ano. - Disse ele calorosamente e estendeu o braço na minha direção, em um movimento acolhedor. Eu simplesmente balancei a cabeça pra ele.
- Eu sou o Sr. Schuester e qual é o seu nome?
- Rachel Berry.
- E você vem de onde? - Ele perguntou educadamente;
Suprimindo um suspiro, eu logo respondi.
- Nova York. - Eu não estava com vontade de dizer pra ele como era maravilhoso lá e como era diferente de Lima, porque fazer isso, me faria pular na minha moto e voltar correndo de volta a Nova York. Eu não estava chateada, mas isso não significava que eu não estava autorizada a sentir saudades de casa.
- É impressionante - disse o Sr. Schuester, genuinamente interessado, passando as mãos pelos cabelos encaracolados -, nos diga como você encontrou seu caminho de Nova York para Lima.
Eu encarei ele com uma expressão vazia.
- Eu não estava a caminho de Lima. Estava a caminho de Los Angeles, quando meu avião caiu.
Sr. Schuester não sabia se eu estava brincando ou não, já que o meu rosto não mostrou qualquer sinal de humor, enquanto meus colegas tomaram isso como uma deixa pra começarem a sussurrar.
- Eu, hm, eu não sabi-
- Eu estava brincando. - Tirando dele o olhar de miséria. - Há razões pessoais para estar aqui.
- Fale! - Alguns estudantes do fundo gemeram com a falta de detalhes.
Isso me deixou muito irritada, porque essa é uma coisa que não suporto. Pessoas ficando curiosas e querendo saber coisas que não são da sua conta.
Eu dirigi um sorriso zombeteiro pra eles.
- Sintam-se livre para me visitar quando eu voltar para Nova York de novo. Isso se vocês souberem como sair de Lima, claro.
Isso fez a cara de todo mundo fechar, entendendo a ironia da situação.
Sr. Schuester pigarreou atrás de mim e eu dei-lhe um sorriso inocente que estava à beira de se transformar em uma gargalhada.
- Sra. Berry, você pode se sentar agora.
Eu balancei a cabeça e me virei para a sala. Haviam dois lugares livres. Eu não precisei pensar duas vezes sobre onde sentar, porque um dos assentos era na frente e eu nunca sento nas primeiras mesas. Era muito perto do professor, o que significava que eu não poderia tirar uma soneca ou jogar coisas nos outros.
Mas, sentar na última carteira era como estar no comando da sala de aula: ter a visão sobre todos os meus colegas e ninguém iria poder me incomodar por trás, enquanto eu incidiria sobre todas as provocações.
Eu deixei minha mochila cair no chão, sem me importar em descompactar qualquer caderno ou caneta, já que sabia que essa aula terminaria em alguns minutos. E se a atividade tivesse começado, eu não iria tomar notas de qualquer maneira. Se essa é alguma reputação que eu tenho que manter ou se eu era simplesmente preguiçosa, eu realmente não sei, mas imagino que seja uma combinação das duas coisas.
Eu me inclinei na cadeira e abafei um bocejo, esticando os braços com os olhos fechados durante o processo. Aquilo estava realmente confortável, e eu estava perto de pegar no sono, quando de repente, senti algo leve atingir minha testa.
- Que merda é essa?
Meus olhos se abriram de imediato, bem a tempo de ver uma bola de papel caindo da mesa para o chão.
Movimento errado, seu idiota, movimento errado.
Estreitando meus olhos, eu lentamente olhei para cima para ver quem tinha tido a coragem de me incomodar, quando eu queria dormir e nunca mais acordar. Foi aí que eu vi outra bola de papel, maior, voando em minha direção, mas, como eu não era do time de basquete à toa, peguei facilmente a bola de papel amassado no ar, com a mão esquerda. Eu sou destra, só pra você saber.
Pressionando a bola para metade do tamanho em minha mão, eu finalmente vi quem foi tolo o suficiente para me irritar. Surpreendentemente era uma garota, uma latina muito bonita, pra ser mais específica. Mas aquela cara feia que que ela estava usando no rosto custou-lhe alguns pontos na "escala-de-gostosura", que eu sempre usei para classificar algumas meninas por sua aparência.
Muito superficial isso? Talvez. Ok, totalmente.
Eu sorri para a Latina e soprei-lhe um beijinho no ar com minha mão livre, antes que eu lancei a bola de papel de volta com tanta precisão e velocidade, que ela não pôde abaixar ou se desviar a tempo de evitar o choque no meio da cabeça. No meio da fuça, querida!
Eu vi ela abrir a boca em fúria e eu poderia ter ouvido alguns palavrões bem sujos, se a campainha não tivesse escolhido esse exato momento para tocar, o que fez todos os alunos se levantarem e começarem a falar, abafando a voz da Latina.
Decidi ignorá-la, peguei minha mochila e corri para fora da sala, tentando me lembrar da minha próxima aula, quando uma voz, rouca e feminina exclamou atrás de mim.
- Você! Mãos-de-homem!
Eu não me virei, porque não tinha certeza se era para mim. Quer dizer, que porra de nome seria esse? Olhei ao meu lado, vendo alguns alunos pegando velocidade enquanto corriam nervosamente para longe.
- Ei, você é surda ou o quê, sua idiota?
Senti uma mão quase agarrando meu ombro direito e eu estava quase para fazer um movimento que faria seu braço deslocar, mas aí me lembrei que provavelmente era só uma garota tentando provar seu status de vadia pra mim.
- O quê? - Eu suspirei por entre os dentes e me virei. Eu realmente não me surpreendi quando dei de cara com a Latina raivosa da aula de espanhol e parecia que ela tinha companhia. Em cada um dos seus lados tinha uma loira gostosa, que eu teria achado muito interessante, se não fosse a Latina chata irritada comigo agora.
Mas, porra, a loira mais baixa em seu lado direito, com aqueles olhos bonitos cor de avelã era tão linda, que eu nunca antes tinha visto uma carranca ficar tão bem em um rosto tão bonito como o dela. Eu senti como se pudesse olhar para ela por horas sem cansar.
Eu fiquei reparando nela descaradamente e ela cruzou os braços defensivamente e estreitou os olhos pra mim de uma forma que deveria ser ameaçadora, mas só achei mais lindo ainda. Eu achei extremamente difícil voltar a prestar atenção no rosto furioso da Latina, quando a expressão irritada da loira era muito mais sexy.
- Você sabe quem eu sou e de onde eu venho? Eu sou Santana Lopez, Santana Porra Lopez e ninguém mexe com uma Lopez. - Ela sibilou com raiva e eu só assenti apaticamente, enquanto meus olhos ainda estavam treinados sobre a loira à sua direita, que me olhou de volta com uma expressão dura.
Ah, vamos lá garota, isso não é tão divertido com você sendo uma casca dura. Não que eu não iria quebrar essa casca de alguma maneira, mas levaria muito mais tempo. E eu sou uma menina impaciente que não tem tempo. Não, espera, eu tinha tempo, agora que estava presa em Lima, onde o tempo correu muito mais devagar.
- Quer saber de uma coisa? Eu sou de Lima Heights. É isso mesmo, porra. Lima Heights, sua puta, e você não quer mexer com uma Lopez de Lima Heights.
Foi quando voltei minha atenção para a Latina, aparentemente chamada de Santana, de Lima Heights. Eu só dei uma sobrancelha arqueada de desdém.
- E daí? Você vai cantar "Sanny do beco", assim como as outras Lopez, que se afirmam super gangsters mas que não podem viver sem suas bolsas Gucci e vestidos Armani?
Esperando ela atacar a qualquer momento, dei um passo para trás só para ter certeza, mas então a loira mais alta, do seu lado esquerdo, chegou perto dela e colocou uma mão calmamente em seu ombro.
- San, ela está certa. Você mora a três quarteirões da minha casa e eu não me lembro de você ter se mudado para Lima Heights. Ou será que eu me mudei?
Ah, aí sim. A melhor amiga dela era inconsciente de algumas coisas.
Santana ficou com as bochechas avermelhadas, não sei se de raiva ou de vergonha, já que sua amiga havia arruinado toda sua história de gangster. Talvez dos dois.
- S, a nova perdedora não vale a pena. Vamos lá, você não quer se atrasar para a aula do Sr. Simmons.
Meus olhos se voltaram imediatamente para a loira deslumbrante, do lado direito de Santana, que tinha falado pela primeira vez. Sua voz era delicada como o mel. E eu não me importava se ela tinha me chamado de "nova perdedora", quando eu queria, eu podia muito bem esquecer algumas coisas.
Eu às vezes odiava minha mente rasa e superficial. Eu me encanto facilmente por garotas gostosas, mesmo não sabendo nada sobre elas. Mesmo se fosse uma assassina ou algo igualmente cruel, eu ainda daria a ela uma chance de passar por minha cama no momento que quisesse. Mas eu descobri que minhas paixões chegam tão rapidamente quanto somem. Eu me encontro atraída por uma garota durante uma semana e depois que eu tenho um encontro com ela, eu perco o interesse tão rápido quanto o ganho. Eu tentei manter relacionamentos por um tempo, eu realmente tentei, mas sempre terminou após a segunda ou terceira vez que eu mentia.
- Isto, - Santana sibilou em meu ouvido quando passou por mim, - não acabou.
Eu só ri e a chamei por trás.
- Espero que não, eu não terminei ainda.
Assim como eu esperava, a Latina se voltou, saltando para frente, para me estrangular. E ela teria tido sucesso se suas duas amigas não a tivessem retido e feito seguir em frente. Assistindo sua briga, mandei um beijinho no ar novamente e pisquei, antes de sair na direção oposta. Santana ainda estava gritando e xingando. Desta vez a ouvi gritar insultos, alto e sem censura. Eu aprendi alguns novos.
As outras aulas se seguiram muito bem, ninguém zombou e eu fui bem.
Agora eu tinha uma pequena idéia de como esta escola funcionou. Era fácil, estúpido e totalmente clichê. Esportistas e Cheerios estavam no topo, os normais abaixo deles e os ligeiramente diferentes na parte inferior. Vamos lá, como qualquer outra escola seria assim. Na minha escola não havia essa coisa de status, quer dizer, sim, tinha, mas era mais como: "Eu sou a menina gostosa que pode transformar meninas hetero em gays" ou "Eu sou o idiota que nunca liga de volta para as meninas depois de prometer." Nesta escola você só tem três rótulos: "Eu sou gostosa.", "Eu sou um perdedor." e "Eu sou invisível." . Patético.
Era hora do almoço. Já que eu nunca levava comida de casa para comer e sempre comia na cantina, mas não sabia que o prato daqui era uma carne esverdeada, decidi pular o almoço. Eu realmente não queria correr o risco de ter uma intoxicação alimentar e fiz uma nota mental: Trazer um sanduíche de casa todo dia.
Fiquei caminhando pelos corredores vazios. Eu estava meio perdida, mas eu meio que gostava desse sentimento de incerteza. Eu não sei porque, mas não saber onde eu estava, mas ao mesmo tempo tendo certeza que não estaria perdida, me confortava.
À distância, de repente ouvi vozes cantando. O que me deixou curiosa. Por que não estava almoçando? Eles estavam evitando a comida-veneno também?
Meus pés me levaram automaticamente para a fonte daquele canto, o volume aumentando, enquanto eu ia para o auditório de portas abertas. E era relativamente grande para uma escola tão medíocre.
E haviam quatro pessoas no palco, dançando, cantando acapella e brincando. Aquela visão fez algo mexer em mim. Eles estavam tão felizes. E pelo jeito deles, eles não pareciam se encaixar no meio da multidão "cool", mas, mesmo assim, lá estavam eles, puros, se divertindo, sem se preocupar com o mundo.
E eu tinha certeza de que um deles era Kurt, o único abertamente gay nessa escola. Ele estava feliz pulando, cantando com sua voz em falsete quando pegou a mão de uma menina negra que cantava, rindo junto com ele.
Aquilo me fez sorrir. Não, eu não amoleci, mas eu não posso ficar feliz por eles terem encontrado um lugar a onde pudessem pertencer? Eu sabia que ainda não tinha encontrado o meu, eu desprezava compromisso demais para ser ligada a qualquer coisa.
A súbita falta de música me fez sair do meu transe. A canção deles foi concluída e agora eles estavam juntos, em um abraço de grupo que fez minha parte interna amolecida dizer "awww". Eu levantei minhas duas mãos e comecei a bater palmas, primeiro devagar, depois mais rápido em um ritmo constante.
- Rachel?
Eu sorri para a voz estridente. Andei em direção ao palco e saltei sobre ele em um movimento rápido.
- Vocês são fantásticos.
Kurt, a menina negra, um cara na cadeira de rodas e uma menina gótica asiática olharam timidamente para o chão. Era como se eles raramente fossem elogiados. Eu fiz uma careta para isso.
- Vocês devem estar em uma banda ou algo assim, não é? - Eu perguntei, eu tinha certeza de qualquer outra coisa, menos uma execução em um palco, seria um desperdício para essas vozes.
- Não. - Kurt balançou a cabeça, - estamos no Glee Club. É um grupo de coral.
Grupo de coral? Eu imaginava mais números de musicais julgando pelo nome. E números musicais eram tudo, menos legais para adolescentes.
- Mas estar no Glee Club é difícil. Embora nós amemos o que fazemos, não recebemos nada além de reações negativas das massas dessa escola. Isso está nos colocando na parte inferior da cadeia alimentar.
Mesmo tendo uma idéia de que seria assim, isso ainda me incomodou. Como todo mundo pode ser tão superficial? Se as pessoas podem cantar e são realmente muito, muito boas nisso, porque você tem que odiá-las por isso? Eu sei que a inveja e o ciúme são coisas que a gente nasce com, mas não fazia sentido pra mim, alguém querer derrubá-los por causa de seus talentos. Normalmente, pessoas como eles eram muito admiradas e não intimidadas.
- Vocês são os únicos em Glee? - Eu perguntei, meio sem querer ouvir se a resposta fosse um 'sim'. Mas, felizmente, Kurt respondeu: - Não. Acho estranho que metade dos membros do Glee Club são na verdade do topo da pirâmide social. Temos quatro jogadores de futebol e três Cheerios.
- Então porque Glee é tão 'chato'? - Eu fiquei mais e mais confusa, mas eu ouvi.
- Ele apenas é chato. Por nossa causa. Os outros podem gostar, mas eles vão sempre nos tratar como perdedores. - Kurt respondeu, encolhendo os ombros.
Eu não sabia o que me deixava com mais raiva, o fato deles serem tratados feito merda todos os dia ou a maneira indiferente como Kurt encarava isso, como se não fosse grande coisa. Como se eles merecessem isso.
- Escutem, pessoal, quando eu disser isso, eu quero mesmo dizer isso. Mas eu não vou repetir porque sou foda demais pra fazê-lo. - Comecei, olhando cada uma deles nos olhos. - Essas pessoas não têm vida e é por isso que eles querem estragar as suas. É simples, eles simplesmente não podem superar o fato de que um dia vocês estarão fora de Lima fazendo algo grande, enquanto eles ficarão com suas bundas presas aqui, vendo seus rostos na TV, se é que eles poderão pagar uma. Entendido? Vocês são maravilhosos. Continuem fazendo o que amam.
Eu me assustei quando senti dois braços em minha volta, me abraçando. É claro, que Kurt foi o primeiro a expressar sua gratidão de forma calorosa e acolhedora. Então eu senti as mão sobre meus ombros e olhei para a asiática e a negra, que tinha lágrimas nos olhos, sorrindo. Outro puxão do meu lado e olhei para baixo para receber um sorriso agradecido do cara da cadeira de rodas.
Eu realmente não dava essa pontadinha de emoção nas pessoas na maioria das vezes, mas agora, estava tudo bem em fazer algumas pessoas felizes, em vez de fazê-los chorar - o que acontecia com bastante freqüência.
- Vocês querem saber? Eu vou participar do Glee Club. E vou virar essa escola de cabeça para baixo.
